Câmara de SP quer expulsar crianças da Parada do Orgulho
Parada do Orgulho

Câmara de SP quer expulsar crianças da Parada do Orgulho

Aprovada em primeiro turno, proposta veta presença de menores mesmo acompanhados pelos pais e proibe eventos em vias públicas; juristas e parlamentares denunciam LGBTfobia e ataque às famílias LGBTQIAPN+

Tatiana Py Dutra 22 maio 2026, 11:04

Foto: Rovena RosaAgência Brasil

A aprovação, em primeiro turno, de um projeto de lei que proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos LGBTQIAPN+ na cidade de São Paulo acendeu o alerta entre movimentos sociais, juristas e parlamentares de oposição. A proposta, apresentada pelo vereador Rubinho Nunes, foi aprovada na Câmara Municipal na quarta-feira (20) e é vista por críticos como mais um capítulo da ofensiva conservadora contra direitos da população LGBT.

O texto impede a participação de menores de 18 anos em “eventos públicos ou privados que façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+, especialmente a Parada do Orgulho LGBTQIA+”, mesmo quando acompanhados pelos pais ou responsáveis legais. A proposta ainda proíbe a interdição de vias públicas para realização desses eventos, o que, na prática, inviabilizaria a tradicional Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo na Avenida Paulista.

A matéria ainda precisa passar por uma segunda votação antes de seguir para sanção ou veto do prefeito Ricardo Nunes. O próprio autor do projeto tenta acelerar a tramitação antes da realização da Parada, marcada para 7 de junho.

Dos 55 vereadores da capital paulista, apenas 10 votaram contra o texto em primeiro turno, entre eles a vereadora Luana Alves (PSOL), uma das vozes mais contundentes contra o projeto.

Um projeto para criminalizar a existência LGBT

O PL determina que eventos LGBTQIAPN+ só possam ocorrer em espaços fechados, com controle de entrada, além de obrigar os organizadores a informar em toda comunicação visual que o evento é destinado exclusivamente a maiores de idade.

Também ficam proibidos o uso de “bandeiras e símbolos não oficiais” em eventos financiados com recursos públicos – uma formulação vaga que abre margem para perseguição política e censura simbólica à própria bandeira do arco-íris, historicamente associada ao movimento LGBT.

As punições previstas são severas. Organizadores podem sofrer suspensão imediata de apoio público, devolução de recursos recebidos, proibição do uso de vias públicas e 

impedimento de organizar eventos autorizados pelo município por até oito anos. As multas variam entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão, dependendo do porte do evento.

Na justificativa do projeto, Rubinho Nunes afirma agir em defesa dos “valores éticos e sociais da pessoa e da família”, retomando um discurso historicamente utilizado por setores conservadores para associar a população LGBT à ameaça moral e risco às crianças.

Inconstitucionalidade e LGBTfobia

Para especialistas em direitos humanos, o projeto dificilmente sobreviveria ao crivo constitucional. Ao portal UOL, o advogado e ex-secretário nacional da Criança e do Adolescente Ariel de Castro Alves classificou a proposta como “oportunista”, “demagógica” e discriminatória.

“Não se pode ter uma lei que vetará apenas a presença de crianças e adolescentes nas paradas LGBT, porque denota até uma LGBTfobia”, afirmou.

Segundo o jurista, o projeto cria uma distinção discriminatória ao mirar exclusivamente eventos LGBTQIAPN+, enquanto outras grandes aglomerações seguem recebendo famílias normalmente.

“As crianças e adolescentes continuarão indo com seus pais no carnaval, no show da Lady Gaga e da Shakira, continuarão participando das festas de Ano Novo. Não podemos ter esse tipo de distinção porque demonstra claramente uma discriminação”, disse.

Alves também destacou que a proposta fere direitos constitucionais básicos, como a liberdade de reunião, manifestação e o próprio poder familiar.

“A parada tem esse caráter de enfrentar os altos índices de assassinatos de pessoas LGBTs do país e a discriminação. Vemos uma proposta que vem para consolidar a discriminação”, afirmou.

O advogado lembrou ainda que decisões semelhantes já foram questionadas no Supremo Tribunal Federal e que a tendência jurídica é de declaração de inconstitucionalidade.

“Tentam criminalizar a existência das nossas famílias”

Entre os discursos mais fortes no plenário da Câmara no dia da votação  esteve o da vereadora Luana Alves, que denunciou o caráter abertamente preconceituoso do projeto e o impacto social desse tipo de iniciativa sobre famílias LGBTQIAPN+.

“Eu sou uma mulher que não escondo a minha sexualidade, não escondo que eu sou casada com outra mulher, e eu quero ver alguém me impedir de levar a criança da minha família na parada LGBT”, declarou.

A parlamentar afirmou que o projeto tenta transformar famílias LGBT em alvo político e alimentar violência social. Também denunciou o uso político da pauta anti-LGBT por parlamentares sem propostas concretas para a cidade.

“Gente que não tem nada para oferecer para a cidade de São Paulo, que não vai visitar um hospital, gente que não fiscaliza a prefeitura para dizer que está fazendo alguma coisa, vai atacar pessoas LGBT e pessoas trans.”

Ela também criticou a instrumentalização do preconceito como estratégia eleitoral.

“É uma fórmula de gente incompetente, que não tem nada para apresentar para a cidade e que, para conseguir falar alguma coisa, diz ‘olha a trans, olha o gay’, para ver se chama atenção.”

Para a vereadora, o avanço do projeto produz consequências concretas na vida da população LGBT.

“Vocês não têm ideia do quanto esse discurso cria dor, cria violência, cria exclusão. Vocês estão estimulando a violência entre famílias de pessoas LGBT.”

Ataque acontece em momento delicado para a Parada

A ofensiva política ocorre num momento em que a organização da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo já enfrenta dificuldades financeiras e redução de patrocínios privados e apoios institucionais.

Reconhecida internacionalmente como uma das maiores manifestações LGBTQIAPN+ do mundo, a Parada cumprie papel político histórico na denúncia da violência e da discriminação contra pessoas LGBT no Brasil – país que segue registrando altos índices de assassinatos dessa população.

Como se não bastasse, o evento movimenta turismo, cultura e economia na capital paulista. Os números mais recentes, divulgados pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), estimam que a edição de 2025 tenha injetado cerca de R$ 548,5 milhões na economia da cidade. Esse impacto econômico envolve principalmente hotelaria, bares e restaurantes, transporte, turismo, comércio formal e informal. serviços e entretenimento.

Levantamentos anteriores da própria Prefeitura de São Paulo apontaram cifras ainda maiores. Em 2022, por exemplo, a administração municipal estimou uma movimentação de aproximadamente R$ 764 milhões, com arrecadação tributária de cerca de R$ 95 milhões.

A Parada também é considerada um dos eventos que mais atraem turistas para a capital. Segundo pesquisas do Observatório de Turismo da cidade, mais de 40% do público vem de fora de São Paulo.

Mesmo setores conservadores da política paulista reconhecem o peso econômico do evento – embora frequentemente tentem atacar sua dimensão política e simbólica. Em 2026, a organização relatou uma queda de cerca de 60% nos patrocínios privados, apesar de a Parada continuar sendo um ativo econômico relevante para a cidade.

Ao tentar retirar o evento das ruas e impedir a presença de famílias, críticos apontam que o projeto não trata de proteção à infância, mas de um esforço para invisibilizar a existência LGBT no espaço público.

A votação em segundo turno ainda não tem data definitiva, mas movimentos sociais e parlamentares de oposição prometem mobilização para barrar a proposta.


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