Trump amplia cerco ao Brasil com apoio de 14 países contra PCC e CV
Declaração liderada pelos EUA classifica facções brasileiras como “narcoterroristas” e prevê sanções coordenadas; na ONU, Lula reage defendendo soberania, eleições e cooperação internacional sem intervenção estrangeira
Foto: Getty Images
A ofensiva do governo de Donald Trump para ampliar sua influência sobre a política de segurança da América Latina ganhou novo capítulo nesta semana. Quatorze países aderiram a uma declaração liderada pelos Estados Unidos que inclui o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) entre 24 organizações classificadas como “narcoterroristas”. Brasil e México ficaram de fora da iniciativa.
O movimento ocorreu na terça-feira (22), em Nova York, paralelamente à abertura da Assembleia Geral da ONU. A coalizão Escudo das Américas, criada por Trump e formada pelos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, anunciou medidas coordenadas contra as organizações listadas.
Entre as medidas previstas estão congelamento de bens, restrições de vistos e responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material ou logístico aos grupos. A aplicação, contudo, deverá respeitar a legislação de cada país.
A iniciativa ocorre em meio à ofensiva de Trump contra organizações criminosas latino-americanas e à defesa, por parte do governo norte-americano, de uma atuação mais agressiva na região. Em seu discurso na ONU, o presidente dos Estados Unidos afirmou que seu país não permitirá que ameaças contra a América ganhem espaço no hemisfério e declarou que Washington poderia recorrer ao poder militar na América Latina.
É justamente esse componente que transforma o episódio em uma questão que vai além do combate ao crime organizado: qual é o limite da atuação dos Estados Unidos sobre as políticas de segurança dos países latino-americanos?
Lula responde na ONU: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Horas antes do anúncio da coalizão, Luiz Inácio Lula da Silva havia usado a tribuna da ONU para defender uma política de enfrentamento ao crime organizado baseada em cooperação internacional, inteligência e soberania nacional, rejeitando a possibilidade de uma atuação militar estrangeira em território brasileiro.
Lula reconheceu a dimensão do problema, mas rejeitou a ideia de terceirizar a responsabilidade brasileira:
“O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades.”
Na sequência, fez uma crítica direta à perspectiva de intervenção externa:
“Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.”
A declaração ganhou ainda mais peso diante do anúncio dos 14 países alinhados aos Estados Unidos.
Lula também aproveitou o discurso para relacionar a defesa da soberania à própria eleição brasileira. Sem citar nominalmente Donald Trump ou Flávio Bolsonaro, o presidente alertou para tentativas de interferência estrangeira no processo eleitoral.
“Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.” E acrescentou: “Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular.”
Em outro momento, Lula foi ainda mais direto:
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
A frase sintetizou a principal mensagem do discurso: o país pretende combater o crime organizado, mas não aceita que essa tarefa seja transformada em justificativa para tutela estrangeira ou intervenção militar.
Crime organizado não é sinônimo de terrorismo
A decisão dos 14 países também abre uma discussão jurídica. Nos Estados Unidos, PCC e CV já haviam sido classificados como organizações terroristas estrangeiras em maio deste ano. A nova declaração busca ampliar regionalmente as consequências dessa classificação.
No Brasil, porém, o enquadramento jurídico é diferente. A legislação brasileira estabelece critérios específicos para a caracterização de terrorismo. Segundo o procurador da República Vladimir Aras, citado pelo UOL, seria necessária uma alteração legislativa para incluir organizações de narcotráfico nessa categoria e para que o Brasil adotasse formalmente listas estrangeiras de organizações terroristas.
A discussão, portanto, não significa que o Brasil esteja minimizando a atuação do PCC ou do Comando Vermelho. As duas organizações têm presença nacional e conexões internacionais, inclusive estruturas associadas ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro. O debate está relacionado ao enquadramento jurídico e às consequências políticas e militares que podem decorrer da utilização do conceito de “narcoterrorismo”.
A sombra de uma intervenção norte-americana
A preocupação brasileira ganha dimensão diante da própria retórica adotada por Trump.
No discurso na ONU, o presidente americano falou em utilizar o poder militar na América Latina e comparou organizações criminosas da região ao Estado Islâmico. A declaração ocorreu no mesmo momento em que seus aliados latino-americanos anunciavam a adesão à estratégia de combate ao chamado narcoterrorismo.
Para o governo brasileiro, esse contexto reforça a necessidade de separar cooperação internacional de intervenção estrangeira.
É possível cooperar no combate ao tráfico de armas, ao financiamento das organizações criminosas, à lavagem de dinheiro e às rotas internacionais do narcotráfico sem que isso signifique abrir espaço para operações militares de uma potência estrangeira dentro do território nacional.
Foi essa distinção que Lula levou à ONU.
Aliados de Trump aderem à estratégia
Entre os países que aderiram à declaração estão governos politicamente próximos de Trump, como o de Javier Milei, na Argentina. A reunião do Escudo das Américas ocorreu justamente em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU, e teve Trump como um dos principais articuladores.
A iniciativa também reforça a divisão política dentro da América Latina. De um lado, governos que aceitaram incorporar a estratégia norte-americana de combate ao “narcoterrorismo”. De outro, Brasil e México, que ficaram fora da coalizão e defendem outras formas de cooperação.
A imprensa também vem relacionando esse movimento ao cenário político brasileiro. O avanço da agenda de Trump ocorre às vésperas das eleições de 2026, enquanto setores da direita brasileira mantêm relações estreitas com o presidente americano e defendem uma postura mais alinhada à política de segurança de Washington.
Soberania vira eixo da disputa
A classificação de PCC e CV como organizações terroristas por 14 países não deve ser analisada isoladamente. Ela ocorre simultaneamente à ofensiva de Trump na América Latina, à aproximação do presidente americano com setores da direita regional e à crescente disputa política sobre os rumos das eleições brasileiras.
A questão colocada por Lula na ONU é, portanto, mais ampla do que o debate sobre a nomenclatura jurídica das facções.
O Brasil reconhece a gravidade do crime organizado e tem a obrigação de enfrentá-lo. O que está em disputa é quem define essa política e quais instrumentos podem ser utilizados dentro do território brasileiro.
Ao rejeitar “porta-aviões” e defender cooperação para combater armas e dinheiro do crime, Lula apresentou uma alternativa à política de força defendida por Trump. E, ao afirmar que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, vinculou o combate à criminalidade a uma questão central para a democracia brasileira: a soberania para decidir seus próprios caminhos, inclusive nas urnas.
A declaração dos 14 países mostra que essa disputa não é apenas retórica. A América Latina está diante de uma nova ofensiva de Washington, agora estruturada em torno do combate ao narcotráfico – e o Brasil de Lula sinaliza que pretende enfrentar o crime organizado sem abrir mão da soberania nacional.