Cinzas do Capital, Chamas da Revolta: o colapso climático e a luta nas ruas
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Cinzas do Capital, Chamas da Revolta: o colapso climático e a luta nas ruas

Um ensaio de reflexão sobre o colapso climático e a luta nas ruas de Pelotas

Helder Porto Oliveira 27 set 2026, 17:25

Nos últimos dias, a região Sul do Rio Grande do Sul foi atingida, mais uma vez, por um desastre climático que assolou a cidade de Pelotas e região. É o terceiro evento natural de grande proporção em menos de 45 dias.

Entre residências danificadas, destelhamentos e a interrupção de serviços de abastecimento de água, energia elétrica e internet, a totalidade da população pelotense sofreu os efeitos da tempestade. Segundo dados do IBGE, Pelotas tem 325.685 habitantes. Apesar da dificuldade em mensurar de forma precisa, estima-se que 3.000 casas sofreram graves danos materiais e mais de 93.000 unidades consumidoras ficaram sem eletricidade. No pico do desastre, a totalidade da população urbana e rural foi afetada pelo desabastecimento de água, devido a interrupção de energia elétrica em todas as cinco estações de tratamento da cidade.

Embora os números expressem uma forte calamidade social, eles não conseguem traduzir as consequências objetivas em todas as esferas da vida social, como exemplo, nas relações de subsistência, trabalho, comunicação, circulação e produção. Bairros com alto número de casas destroçadas, incontáveis números de árvores e postes de luz tombados por toda zona urbana e rural, ruas interditadas pela força natural e diversos tipos de serviços interrompidos.

Diante de um cenário geral de caos e devastação, a necessidade é iminente e a recuperação é lenta e gradual. Essa equação gera o ponto catalisador da sinapse da indignação. A fricção entre a realidade objetiva e a reação subjetiva produz a catarse da revolta que se canaliza pra ação.

Mobilizações espontâneas pipocaram pela cidade em todas as quatro zonas urbanas do município de Pelotas, além da zona rural. Foram registrados, ao menos, 23 pontos de protestos e focos de manifestações. Entre os principais, destacam-se os bloqueios na Avenida Fernando Osório, Avenida Leopoldo Brod, apartamentos do Pestano, Rua Paes (Santa Terezinha), na vila Francesa (próximo ao aeroporto), na rótula da Avenida Theodoro Muller, dois protestos na avenida Guadalajara, na rua 14 do bairro Dunas, dois na Avenida Domingos de Almeida, Avenida João Gomes (bairro Bella Vista), bairro Salsa, dois protestos na rua Gomes Carneiro, na rua Barão de Mauá (cruzamento da rua Santos Dumont com Conde de Porto Alegre), na região da Castilho, Avenida Pinheiro Machado, bairro Navegantes, Balsa, Avenida Cidade de Rio Grande e um na BR 392 (trecho Pelotas-Rio Grande), além de bloqueios na BR 293 no Capão do Leão.

O método das mobilizações merece atenção. Radicalizados, populares montaram barricadas com pneus, destroços de materiais inflamáveis que a tempestade deixou pelas ruas e troncos e galhos de árvores que foram tombadas pela força da natureza. Com a barricada formada, atearam fogo e bloquearam completamente as ruas, produzindo uma fotografia ilustrativa do cenário que a luta de classes apresenta na região: de um lado, o povo que sofre há dias na pele com as consequências do evento climático, de outro o aparelho estatal, com o setor estratégico da energia privatizado, incapaz de dar respostas imediatas e céleres devido ao sucateamento dos serviços públicos promovido pelo próprio Estado burguês.

A cidade de Pelotas, de porte médio, foi, assim, tomada por atos e protestos espontâneos e absolutamente legítimos. Ainda que a tempestade tenha atingido bairros nobres e populares indiscriminadamente, a recuperação lenta sempre é priorizada por recorte de classe, secundarizando os bairros e populações mais pobres. Neste sentido, se evidencia a dificuldade de organização e direcionamento das ondas de protestos com um programa comum que acumule para além do estopim da raiva e politize o processo social para as lutas vindouras que ocorrerão pelo colapso climático.

No chamado “novo normal”, termo que se popularizou após a pandemia, a região Sul do RS sofreu com as enchentes de 2024 e temporais severos em 2025. Em fevereiro de 2026, um tornado passou pela cidade, além de três eventos de grandes proporções em menos de 45 dias no último período. Desde a severa tempestade do último domingo, 20/09, setores da burguesia comercial calculam perdas entre 18 a 38 milhões de reais, em apenas dois dias. O prejuízo social é ainda maior, por óbvio, tanto econômico quanto subjetivo. Pesquisas que utilizaram dados da Coorte1 de Pelotas indicam que mais de 43% dos jovens locais relataram impactos emocionais severos e traumas duradouros após vivenciarem os sucessivos eventos climáticos.

Em meio ao atual processo eleitoral, que enfrenta um alto grau de ceticismo popular e, portanto, produz uma das disputas mais apática dos últimos anos, apesar da polarização política e o nível de politização do último período histórico, a preocupação da sociedade parece estar centrada nos problemas concretos e imediatos do cotidiano da vida objetiva. É nesse cenário que as eleições 2026 se apresentam, atravessadas por um estresse permanente de preocupação com a próxima tragédia climática, sem a exatidão de quando e como, mas com a certeza de que virá e convivendo com o medo constante das consequências trágicas dos eventos climáticos que cada vez mais se apresentam com regularidade.

Neste escopo, o fenômeno do Super El Niño se apresenta como risco ainda mais exponencial. De acordo com dados divulgados em setembro de 2026 pelo “Climate Impact Lab”, pesquisa conjunta entre as universidades de Chicago e Berkeley, estima-se que cerca de 451 mil pessoas possam perder a vida no mundo devido aos impactos. No Brasil, o número fica em torno de 13,3 mil mortes causadas diretamente pela ação do El Niño entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.

No plano internacional, o colapso climático acelera em meio à maior escalada militar e geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. A disputa imperialista por recursos e hegemonia — das guerras no Oriente Médio e África às tensões no Mar do Sul da China — consome bilhões e devasta ecossistemas. Ao mesmo tempo, a administração de Donald Trump nos EUA retoma o negacionismo ativo, a desregulamentação massiva e a priorização dos combustíveis fósseis. Os EUA, como maior produtor mundial de petróleo, molda a diplomacia climática global e se projeta sobre a América Latina e o Brasil, pressionando pelo avanço do modelo extrativista e pela flexibilização das garantias socioambientais.

Essa relação predatória que o capitalismo estabelece com a natureza expõe a incompatibilidade estrutural entre a acumulação infinita de capital e a preservação da vida no planeta. Alertada há anos por ecossocialistas e ambientalistas, a crise ecológica deixa de ser um debate abstrato e se converte em realidade objetiva: a conta do ecocídio promovido pelas grandes potências é cobrada no cotidiano da vida social. É na articulação entre esse cenário geral e as contradições locais que Pelotas responde germinando métodos históricos de luta que se encontravam adormecidos.

Nesse ensejo, a fumaça tóxica que emerge das barricadas das mobilizações em Pelotas não pode ser criminalizada: ela é uma consequência da crise climática, e nem de longe a sua causa. Os ataques sistemáticos do Capital contra o meio ambiente é parte constitutiva das tragédias climáticas e, no caso do RS, se agrava na medida em que o setor estratégico de energia foi privatizado. Ou seja, deixou de ter como centro de ação a entrega do serviço de qualidade para ter como eixo a acumulação de riqueza. Neste sentido, se reduz o quadro de trabalhadores e trabalhadoras, deteriora as condições de trabalho e, assim, foca exclusivamente no lucro em detrimento da entrega do serviço. A evidência do problema, por óbvio, não se encontra nos trabalhadores da CEEE-Equatorial, mas fundamentalmente na incapacidade, ou mesmo desinteresse, da empresa em entregar minimamente serviços de qualidade que sejam de fato capazes de mitigar as consequências graves ocasionadas pelos eventos climáticos.

Retomando a questão do método, se impõe a reflexão de como mobilizações populares espontâneas não encontram abrigo, politização e organização no âmbito político tradicional. Por um lado, a precarização da vida é, em maior ou menor grau, entendida pelo povo como culpa direta dos sucessivos governos em todos os âmbitos, por outro lado, inexiste programa político capaz de dialogar com os problemas objetivos, e graves, causados pelas tragédias climáticas. A solidariedade é importante, mas não é um programa. A discussão profunda sobre o tema do clima e sua relação direta como consequência do capitalismo também encontra resistência em um mundo do trabalho que prega o individualismo e o empreendedorismo e que, inclusive, desestabilizou e desidratou as grandes forças mobilizadoras da classe trabalhadora, os sindicatos.

A chave parece ser encontrar a síntese dialética catalisadora de mobilizações, estabelecendo diálogo e um programa de transição entre o senso comum e o bom senso. Não é fácil, mas é o dever histórico colocado aos socialistas. Em meio ao pleito eleitoral, a preocupação legítima, e fundamental, em ocupar os postos de luta na superestrutura com o projeto popular, se choca com a necessidade imediata do povo. Postos de lutas são fundamentais, mas jamais mais importantes do que as próprias lutas.

Portanto, a tarefa colocada para os socialistas no tempo atual é agitar o ecossocialismo por meio de consignas didáticas, objetivas e concretas capazes de promover a politização e organizar a indignação. As barricadas são métodos de lutas que reivindicamos historicamente e, agora, no recorte de Pelotas, elas expressam nas chamas não só a indignação, como também um pedido de socorro, uma necessidade de um programa capaz de mobilizar e proteger a vida em sociedade.

As eleições entram na reta final. Eleger nossas figuras públicas e derrotar a extrema direita é central; concomitantemente precisa ser espaço de agitação e propaganda de uma agenda que apresente de fato um horizonte diferente e capaz de dar respostas concretas aos eventos climáticos e suas consequências. Eis a nossa tarefa atual.

Nota

  1. Conjunto de estudos científicos longitudinais que acompanham a saúde e o desenvolvimento de pessoas nascidas no município de Pelotas (RS) ao longo de suas vidas. Coordenados pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), os projetos são referência mundial em investigação em saúde pública. ↩︎

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