EUA: Os latinos podem decidir as eleições de meio de mandato, derrotando Trump e os republicanos
A comunidade latina terá um papel essencial para derrotar a extrema direita no país
Foto: Manifestantes em defesa de imigrantes em frente à Corte do Condado de Milwaukee. (Darren Hauck/Getty Images)
Pode-se dizer que Donald Trump venceu as eleições presidenciais de 2024 porque entre 42% e 48% dos latinos do país votaram nele. Foi a maior parcela do voto latino já obtida por um candidato republicano. Nos últimos dois anos, porém, os latinos se voltaram contra Trump, como demonstram tanto sua participação em protestos sociais quanto as pesquisas pré-eleitorais. Os latinos podem fazer Trump e os republicanos perderem as eleições.
Até mesmo políticos republicanos se voltaram contra Trump. A senadora estadual da Flórida Ileana García, uma das cofundadoras do Latinos for Trump, fez uma contundente crítica pública a Trump, afirmando: “Não foi para isso que votamos… isso é inaceitável e desumano”. Ela deu expressão ao sentimento de traição experimentado por muitos latinos.
Antes da década de 1960, os latinos eram um fator insignificante nas eleições dos Estados Unidos, embora já fossem seis milhões, ou 3,5% da população. Em muitas regiões, leis e práticas racistas os impediam de votar. A campanha presidencial “Viva Kennedy!”, de John F. Kennedy, em 1960, trouxe os latinos para a política nacional pela primeira vez. Kennedy e seu sucessor, Lyndon B. Johnson, cortejaram os latinos e os incorporaram à coalizão do Partido Democrata, juntamente com os sindicatos da AFL-CIO, os negros e as mulheres. De modo geral, durante os cinquenta anos seguintes, os latinos foram democratas, com exceção dos cubanos que haviam fugido da revolução de 1959 e guardavam ressentimento contra Kennedy por não ter conseguido derrubar Fidel Castro.
As ondas de imigrantes que chegaram nas décadas seguintes fizeram dos latinos a maior minoria étnica dos Estados Unidos. Hoje há 65 milhões de latinos nos Estados Unidos, representando 20% da população total do país, enquanto os negros representam 13,5%. A população latina é diversificada: os mexicano-americanos correspondem a 57%, seguidos por porto-riquenhos, cubanos, salvadorenhos e dominicanos. Cerca de 36,5 milhões estão aptos a votar. A maioria dos latinos é católica, mas há também muitos cristãos evangélicos. Os maiores grupos estão na Califórnia, com 8,5 milhões; no Texas, com 6,5 milhões; na Flórida, com 3,5 milhões; em Nova York, com 2,2 milhões; e no Arizona, com 1,3 milhão. Nem todos os latinos estão aptos a votar: 20% porque não são cidadãos e outros 20% porque têm menos de 18 anos.
Em 2024, os latinos, assim como muitos outros eleitores de classe média e da classe trabalhadora, especialmente os homens, acreditaram nas promessas de Trump de que aumentaria seu padrão de vida, deportaria apenas imigrantes com antecedentes criminais, “os piores dos piores”, e evitaria guerras no exterior. Mas, sob Trump, ele não apenas iniciou uma guerra contra o Irã, como a guerra levou ao aumento dos preços não apenas dos combustíveis, mas também dos alimentos e de muitos outros produtos. E o Immigration and Customs Enforcement (ICE) lançou uma verdadeira guerra contra os imigrantes. Os latinos começaram a ver colegas de trabalho, amigos e familiares sendo presos, encarcerados e deportados.
E tudo isso tem sido muito violento. Com um orçamento de US$ 75 bilhões, o ICE deportou 400 mil imigrantes durante o segundo mandato de Trump. Agentes do ICE atiraram em 21 pessoas e mataram oito delas. Outras morreram sob custódia do ICE: 33 pessoas no ano passado e 27 somente neste ano. Comunidades organizaram protestos destinados a impedir as operações do ICE em Chicago e Los Angeles, cidades com grandes populações latinas que participaram dessas manifestações.
Em protesto, 250 líderes latinos assinaram uma carta dirigida a Trump e ao Congresso defendendo que imigrantes indocumentados que vivem há muito tempo no país recebessem proteção legal e autorizações de trabalho. A maioria pode ser democrata, mas a lista incluía conservadores como Massey Villarreal, ex-presidente da Republican National Hispanic Assembly, e o reverendo Samuel Rodríguez, presidente da National Hispanic Christian Leadership Conference.
Os latinos, assim como todos os demais, agora conseguem ver tudo: a guerra, o aumento dos preços, a corrupção e, acima de tudo, a violência contra eles. Trump perdeu muitos desses eleitores, e os republicanos podem muito bem perder o controle do Congresso sem eles.