Criticar o real, apontar a utopia possível: os desafios do segundo turno
Reflexões sobre o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais e as tarefas colocadas no momentoi
Foto: Manifestação de estudantes da UFF contra Flávio Bolsonaro, em Niterói. (Filipe Bias/Reprodução)
Este é um texto com breves reflexões sobre o resultado do primeiro turno das eleições. Diante da possibilidade de retorno da extrema direita ao poder, logo se levantam clamores para que o debate crítico seja feito depois, em prol de nos dedicarmos neste momento à eleição de Lula no segundo turno. Ocorre que a acriticidade na adesão à campanha presidencial no primeiro turno também é responsável pelo cenário difícil em que nos encontramos. Assim, toda a crítica aqui exposta tem como intuito se somar à necessária elaboração coletiva sobre os desafios do segundo para que possamos vencer a extrema direita e reposicionar a esquerda para as próximas lutas que virão.
1. O cenário internacional está marcado pela polarização social, alternância de poder e avanço da extrema direita
O Brasil tem acompanhado os principais fenômenos políticos a nível mundial, mesmo que em escala distinta e respeitadas as particularidades de cada país. Assim foi com a eclosão da Primavera Árabe em 2011, a onda de protestos juvenis na Europa e EUA e depois Junho de 2013 no Brasil; a ascensão da extrema direita a nível mundial a partir de 2016, a qual o Brasil foi um dos epicentros; os ascensos antirracistas com protagonismo do Black Lives Matter em 2020, sendo estes os primeiros atos a ocuparem as ruas no Brasil da pandemia; a derrota de Biden e o retorno de Trump, com um segundo mandato muito mais agressivo e ideológico que o primeiro.
Evidente que aqui se tratam se simplificações, porém a situação internacional não pode ser ignorada para a prever o que está posto como probabilidade no cenário nacional por influência da dinâmica mundial. Em 2018 fomos pegos de surpresa com a eleição de Jair Bolsonaro, vista como altamente improvável tanto pelas pesquisas de intenção de voto quanto pelas análises das organizações políticas de esquerda. Agora, em 2026, não poderíamos mais nos dar esse luxo.
Recentemente sofremos importantes derrotas eleitorais na América Latina. Além de Milei na Argentina, Kast no Chile, Nayib Bukele em El Salvador, recentemente tivemos a vitória de Fujimori no Peru e, por fim, Ivan Cepeda que sucedeu o governo de Petro e Francia Marquez na Colômbia em um disputa acirradíssima que levou a extrema direita ao poder com menos de 1% de diferença entre as candidaturas.
O avanço da extrema direita, entretanto, não ocorre sem contradições. Internamente há muita resistência ao governo Trump, que tem uma rejeição recorde pelas consequências desastrosas da guerra no Irã, da política tarifária, somado aos escândalos de corrupção e inflação. Do início do ano até agora, os EUA já tiveram mais de 2500 protestos contra as políticas de Trump, sendo que o “No Kings” chegou a ter 8 milhões de pessoas nas ruas, sendo o maior protesto da história do país. A política externa de Trump têm contribuído para o seu isolamento internacional e consolidação da China. No Oriente Médio, além da derrota no Irã, agora os rebeldes houthis do Iêmen assume o controle da costa do Mar Vermelho e ameaçam fechar outro estreito. Israel tornou-se um pária internacional. Assim, a América Latina é a última trincheira de Trump e o principal território do globo onde o imperialismo norte-americano segue em ofensiva, o que torna a eleição brasileira ainda mais crucial.
Importa, aqui, notar que a situação internacional segue em aberto e há importantes respostas por parte da classe trabalhadora. Seja o movimento global de solidariedade à Palestina – que teve eco também nas eleições brasileiras com a vitória de parlamentares como Mariana Conti em São Paulo -, seja em protestos como os que ocorrem neste momento na França. A atual onda de mobilizações estudantis varrem o país, com estudantes e professores em um número de escolas envolvidas sem precedentes, com bloqueio de estradas, barricadas e crescimento vertiginoso de manifestantes nas ruas, apesar da forte repressão.
2. Primeiro turno: avalanche do PL e vitórias da Bancada Radical, com maior representação negra e feminina
O cenário da eleição presidencial é muito difícil. Precisaremos reverter a vitória do PL no primeiro turno, que saiu com 47% contra 45% para Lula. A inversão da vantagem do primeiro para o segundo turno não ocorre desde 1989. Por outro lado, desde a redemocratização esta é a menor diferença entre presidenciáveis já registrada. Acompanha o cenário presidencial o resultado no Senado e nas eleições dos governadores, onde a extrema direita saiu em vantagem, ocupando o espaço da direita tradicional, tendência que também já era notada nos últimos anos. No Senado, o PL elegeu 28 cadeiras (34% do total), ao passo que o PT elegeu 6. Nos governos, 20 governadores foram eleitos em primeiro turno, do total de 27 governadores dos estados. O PL também foi o partido que mais elegeu, com 5 governadores.
Por outro lado, a comemoração da militância socialista não foi sem razão. Em São Paulo, o estado mais populoso do país, os deputados federais com as maiores votações foram Lucas Pavanato do PL, com mais de 3 milhões de votos, seguido por Erika Hilton do PSOL com 1.596.472 votos e Sâmia Bomfim, do MES (Movimento Esquerda Socialista), que compõe a ala à esquerda do PSOL, com 583.107 votos. Entre os dez parlamentares eleitos com a maior quantidade de votos por São Paulo para a Câmara dos Deputados estão também Guilherme Cortez do PSOL, com 274.450 votos, e nenhum deputado do PT.
Por mais que haja diferenças políticas e programáticas importantes em curso no interior do PSOL sobre os rumos do país e a relação com o governo Lula, este resultado contradiz os analistas que hoje escrevem: “o Brasil se tornou um país de direita”. Como explicar que, no estado mais populoso do país, a segunda deputada mais bem votada seja uma mulher trans, negra, que se tornou referência na luta pelo fim da escala 6×1? Ou que a terceira seja uma militante socialista declarada, reconhecida por sua luta feminista e antifascista. A nível nacional não é diferente, com uma vitória expressiva da extrema direita e um fortalecimento do PSOL. Dentre os deputados federais do país com a maior votação, proporcionalmente, em 4º lugar está Fábio Felix, também do MES de Brasília, que é professor, homem negro e LGBT. Importante destacar também a reeleição de Glauber Braga do PSOL, Vivi Reis e Fernanda Melchionna, ambas do MES/PSOL e com votações expressivas, além de Renato Freitas do PT e Jones Manoel.
O PSOL consolida-se, assim, como o partido que mais tem vocalizado as lutas das ruas, as bandeiras históricas da esquerda e a possibilidade de apresentar uma alternativa de país. O primeiro turno é avassalador, mas também teremos uma Bancada Radical forte e decisiva aos desafios que virão.
3. Polarização social, sem polarização política
Sei que o termo polarização não é o preferido de muita gente, por vários motivos. Polarização ganhou uma conotação jornalística nos últimos anos, muitas vezes restrita às eleições e pode trazer a ideia de equilíbrio de forças entre as classes. Na falta de um termo melhor, sigo utilizando polarização apenas porque considero ele capaz de falar sobre o fenômeno, decorrente da crise multidimensional – econômica, social, política, ecológica – no qual cresce o espaço para os extremos, com a decadência do centro. Assim, o primeiro sintoma da polarização é a crise das instituições do regime. Estas foram eleições frias, marcadas por um grande sentimento de descrença na política institucional. Os 33 milhões de eleitores que se abstiveram do processo são expressão deste fenômeno.
Neste texto não vou desenvolver o tema da crise do lulo-petismo, o esgotamento histórico de seu projeto e o problema do perfil das candidaturas majoritárias, que se afastam da vanguarda das lutas. Porém, a crise do PT é parte da crise do regime, pois trata-se de um partido identificado com a “ordem”. Aqui não se trata de uma percepção de vanguarda, mas de massas.
Por outro lado, a própria extrema direita impõe a polarização por seu caráter ideológico e luta programática. São eles quem colocam no centro de suas campanhas o anti-comunismo, o anti-feminismo e as questões de gênero e sexualidade através do pânico moral. Assim, impõem a formação de um pólo que passa a se declarar, contra a extrema direita, em defesa de pautas que são historicamente defendidas pelos partidos e organizações de esquerda. Na sociedade, tivemos também peso de massas para a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário, o fim da escala 6×1, defendida por mais de 73% dos brasileiros. Esses são fatores que apontam para a existência de uma polarização social, ou seja, entre classes.
A crise reside justamente na ausência de uma polarização política. Não há correspondente na superestrutura para a polarização social que está posta, apenas para o lado da extrema direita. Aqueles que são fascistas, supremacistas brancos e ultra conservadores, têm o PL como sua representação política. Já os que se identificam com bandeiras historicamente defendidas pela esquerda encontraram representação política nas candidaturas proporcionais – vide o fortalecimento da Bancada Radical, com parlamentares do PSOL e setores à esquerda do PT, como Renato Freitas -, o que não se aplicou para os majoritários. Expressão máxima da contradição imposta pela dissolução deste setor, o qual organiza parte da vanguarda à esquerda, na frente ampla foi o chamado ao voto em Tebet para o Senado.
4. O ponto de partida é a crítica ao real: a vida não está boa!
Um dos maiores erros da campanha Lula no primeiro turno foi tomar como ponto de partida dados macroeconômicos, que não correspondem à percepção das pessoas sobre sua condição de vida, para afirmar que o Brasil está economicamente bem. Aqui, há dois pontos: o primeiro é que não bastam pesquisas quantitativas para captar a percepção da população sobre a sua condição material de existência, é preciso contato com as pessoas comuns e notar se há satisfação com o atual modo de vida ou não. Além disso, a condição material é importante mas não define tudo. As pessoas também se movem pelo seus desejos, sonhos e expectativas de futuro. Aqui, reside o segundo erro da campanha.
Um dos principais dados veiculados pelo governo é o aumento de empregos com carteira assinada. Segundo o Caged, em agosto deste ano foram gerados 165,8 mil empregos formais. Os setores onde houve maior geração de emprego foram no comércio e na construção civil. Entre os setores com carteira assinada, cerca de 33,2% do total estão inseridos na escala 6×1. O setor de comércio representa 42,4% do total de trabalhadores nesta escala.
Assim, a criação de mais postos de trabalhos formais não vai gerar, necessariamente, satisfação com relação à condição de vida. A luta pelo fim da escala 6×1 tomou proporções inimagináveis justamente porque uma parcela enorme da população está sujeita ao trabalho precário e superexplorado, ao assédio e ao adoecimento físico e psíquico. Diante deste cenário, é esperado também a manutenção da informalidade estrutural presente no país. Segundo a PNAD de agosto deste ano, apesar do aumento da geração de empregos há também um ligeiro crescimento da taxa de informalidade, com 38,8 milhões de trabalhadores.
Estamos falando, portanto, de uma classe trabalhadora que está em postos precários, com jornadas extenuantes, muitos sem direitos e seguridade social. Soma-se a isto a situação de carestia. Atualmente, o poder de compra do brasileiro está abaixo dos patamares pré-pandemia, com o aumento do custo da cesta básica e um alto endividamento. O descolamento social entre as direções partidárias, a burocracia do estado e grande parte da militância de esquerda é o que impediu de iniciar a campanha pela simples percepção de que a vida não está boa. Em tese, não deveríamos precisar de dados para comprovar isto. Basta falar com qualquer trabalhador, circular em qualquer bairro periférico.
É importante refletir também sobre as expectativas de ascensão social frustradas nos últimos anos. Naturalmente, os trabalhadores não querem apenas sobreviver, mas querem uma vida digna. Não é nada condenável que as pessoas queiram morar bem, comer bem, se vestir bem, ter direito ao lazer. O sonho de ter uma vida melhor não pode ser conquistado por políticas compensatórias, como o Pé de Meia (R$200 por mês) e o Bolsa Família (R$691). Por mais importantes que estas políticas sejam, são insuficientes e não substituem a necessidade de geração de empregos com direitos e renda digna.
5. Não se aponta o futuro com nostalgia de um passado que já não existe mais
Por um lado, fizemos uma campanha que não dialogou com a vida real das pessoas, partindo da crítica à atual condição material de existência da maioria da população. Por outro, também não apresentamos qual a expectativa de futuro que almejamos, qual mundo estamos construindo, qual o sonho coletivo pelo qual vamos lutar.
A campanha Lula buscou se apoiar na imagem do Lula das greves da década de 1980, resgatando a imagem de um dirigente operário que já não existe mais. Assim foi no comício de largada da campaha em São Bernardo do Campo. Para que a imagem do Lula grevista não fosse confundida com nenhum traço de radicalidade, houve ainda o momento de balanço sobre o desmonte da Greve de 1989. As tentativas de apresentar algo novo estiveram timidamente representadas no campo da estética, com o jingle “Era só mais um Silva”, a presença do break e do funk. Ao mesmo tempo, houve também a tentativa de buscar dialogar com a base evangélica, com Janja usando uma saia longa e interpretando o Jingle da campanha, bem gospel, ao lado de um pastor. O Estádio da Vila Euclides, naquele dia, foi a mimese do que já foi. Ao invés de trabalhadores genuinamente emocionados diante da possibilidade de elegerem o primeiro representante de sua classe à presidência, tivemos um ato de aparato, nostálgico e sem propostas para o futuro.
6. O que chamamos de distopia é a utopia possível da extrema direita
Como já foi dito, a condição de vida das pessoas é um aspecto muito importante de ser considerado, mas a verdade é que as pessoas não se movem só pelas suas necessidades materiais. Muitos se questionam como Bolsonaro saiu à frente de Lula, apesar da geração de empregos no atual governo, apesar da isenção do Imposto de Renda e a despeito do envolvimento de Flávio no escândalo do Master. Alguns têm dado argumentos técnicos: boa comunicação, estratégia de campanha “astuta”. Para nós que acreditamos na força das ideias, é preciso levar a sério quais são as ideias que a extrema direita tem apresentado como sua expectativa de país.
O que nós chamamos de distopia é a utopia possível da extrema direita, quem disse isso foi o jornalista Jamil Chade em uma das atividades de lançamento da Revista Retomada. Seguindo seu argumento: a extrema direita têm apresentado um projeto de país alternativo, à direita. Sua “utopia possível” é o país monoteísta cristão, da família cis-heteronormativa como a base da sociedade, do supremacismo branco, da perseguição às feministas, comunistas e por aí vai. Esta distopia têm o pânico moral em pautas como aborto e o direito à existência de pessoas trans como motores para o modelo de sociedade que querem erigir. Aqui, não importam os dados sobre economia, eles se apoiam de um sentimento de insatisfação generalizado, surfam no “anti-establishment” e apresentam outro mundo que, como sabemos, é muito pior do que esse e, sim, é possível.
7. Bolsonaro Nunca Mais nas ruas e nas redes!
Ainda é tempo de fazer o Vira Voto por Bolsonaro Nunca Mais. Desde domingo, ativistas não param de se questionar sobre como podem ativamente reverter o cenário. Grupos espontâneos estão surgindo em todo o país, cartilhas e iniciativas independentes. Assim como foi em 2018, a mobilização nas ruas e nas redes será decisiva para o desfecho dessa batalha.
As eleições proporcionais e o fortalecimento de uma Bancada Radical comprovam que existe espaço para um programa antifascista que vá na raiz dos problemas e apresente qual é a nossa utopia possível: os ecossocialistas, os trabalhadores, os movimentos negros, indígenas, as feministas, as pessoas LGBTQAPN+ e a juventude em luta têm bandeiras historicamente acumuladas e é hora de ir pras ruas sem medo de nos apresentarmos.