Flávio larga na frente e coloca Lula sob pressão no 2º turno
Primeira pesquisa após as urnas aponta vantagem de seis pontos para o candidato do PL; enquanto direita amplia articulação política, campanha de Lula busca reagir e oposição tenta barrar votação do fim da escala 6×1 antes da eleição
Foto: Lula Marques/Agência Brasil
O segundo turno da eleição presidencial começa com vantagem para Flávio Bolsonaro (PL) e uma ofensiva de partidos de centro-direita para formar uma frente em torno do candidato bolsonarista. Quatro dias depois do primeiro turno, pesquisa PoderData/Aya divulgada nesta quarta-feira (8) aponta Flávio com 53% dos votos válidos, contra 47% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É a primeira sondagem realizada após a votação de domingo (4), quando o senador também terminou à frente, com 47,03% contra 45,16% do presidente.
Nos votos totais, Flávio aparece com 49% e Lula com 44%. Outros 5% afirmam que pretendem votar branco ou nulo, enquanto 2% não souberam ou não quiseram responder. O levantamento ouviu 3 mil eleitores entre 5 e 7 de outubro, em 705 municípios, e tem margem de erro de 1,8 ponto percentual.
Embora a pesquisa represente apenas uma fotografia do momento, o resultado acende o sinal de alerta na campanha petista. Flávio não apenas saiu das urnas em primeiro lugar como ampliou a distância registrada no domingo. O desafio de Lula, portanto, é transformar a segunda etapa da eleição em uma disputa de recuperação de votos, especialmente entre os eleitores que ficaram fora do processo ou escolheram candidaturas que não chegaram ao segundo turno.
Abstenção recorde ajuda a explicar resultado
Um dos fatores centrais para entender a vantagem de Flávio é a abstenção. Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a 21,08% do eleitorado – o maior índice registrado em um primeiro turno de eleição presidencial.
Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo apontam que a ausência nas urnas atingiu de maneira especialmente relevante o eleitorado de Lula. Para o cientista político Antonio Lavareda, quando os votos são calculados sobre o universo total de eleitores aptos, Lula recebeu 33,94% desse eleitorado, enquanto Flávio chegou a 35,34%. Segundo ele, a abstenção explica parte importante da distância entre as expectativas das pesquisas e o resultado efetivamente registrado nas urnas.
O chamado voto útil também contribuiu para o resultado. Parte dos eleitores que haviam optado por candidatos de terceira via migrou para Flávio ou Lula na reta final. A combinação entre a ausência de milhões de eleitores e a concentração de votos em duas candidaturas deixou a disputa mais apertada nas urnas do que indicavam alguns levantamentos realizados antes do primeiro turno.
Para a esquerda, o dado é particularmente relevante: a vantagem de Flávio não significa que ele tenha conquistado a maioria do eleitorado brasileiro. Somados os que não compareceram, os votos brancos e nulos e aqueles que escolheram outras candidaturas, dezenas de milhões de eleitores ainda não estão representados no confronto entre os dois finalistas.
Centrão se movimenta para o lado de Flávio
Enquanto Lula tenta reorganizar sua campanha, Flávio começou a construir uma frente política para o segundo turno. O Republicanos anunciou apoio ao candidato do PL após articulação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, um dos principais nomes da legenda.
A movimentação não se limita ao Republicanos. PL, Republicanos, União Brasil e Progressistas formam o núcleo de uma aliança que pode dar ao candidato bolsonarista uma base expressiva no Congresso Nacional.
O novo Parlamento eleito no domingo também reforça o peso da direita. O PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e ampliou sua presença no Senado para 28 parlamentares. Somados os principais aliados, o campo de Flávio chega a 259 deputados e 48 senadores – ainda abaixo dos três quintos necessários para aprovar mudanças constitucionais, mas com força suficiente para tornar o Centrão um ator decisivo em um eventual governo bolsonarista.
A composição revela um dos aspectos mais importantes da disputa: não está em jogo apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas também qual projeto político terá condições de comandar o Congresso a partir de 2027.
Campanha de Lula tenta reagir em meio a crise interna
Do lado petista, o início do segundo turno é marcado pela necessidade de reorganização. Lula demonstrou insatisfação com a condução da campanha, que passou a ser alvo de críticas internas depois do resultado abaixo das expectativas no primeiro turno. A equipe discute reforços na coordenação, mudanças na comunicação digital e maior participação de lideranças regionais.
A estratégia deverá buscar recuperar eleitores que não compareceram às urnas e ampliar a mobilização nas periferias e entre setores populares. A campanha também pretende intensificar a presença nas redes sociais, inclusive com vídeos em formato mais direto e voltados ao eleitorado jovem.
O cenário, entretanto, exige mais do que ajustes de comunicação. Lula precisa enfrentar uma eleição na qual o adversário parte de uma posição numericamente favorável e conta com a perspectiva de adesão de parcelas importantes do centro político.
Nesse contexto, a disputa pelo voto popular volta a ser decisiva. A eleição passa a colocar em confronto não apenas duas candidaturas, mas diferentes projetos para políticas sociais, direitos trabalhistas, papel do Estado e relação entre Executivo, Congresso e instituições democráticas.
Fim da escala 6×1 entra no centro da disputa
Um exemplo dessa disputa está no Senado. A PEC que acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais avançou para o plenário e deve ter o primeiro turno de votação na próxima semana.
A proposta determina duas folgas semanais, sem redução salarial, e prevê uma transição para a jornada de 40 horas. A PEC já foi aprovada pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Para ser aprovada definitivamente, precisará de 49 votos favoráveis em dois turnos.
A votação ganhou dimensão eleitoral justamente porque setores da oposição tentam impedir que a primeira etapa seja concluída antes do segundo turno. Senadores ligados a PL, PP e Republicanos discutiram estratégias para postergar o processo. A preocupação explicitada por parlamentares é que a aprovação da redução da jornada favoreça Lula eleitoralmente.
A tentativa de adiar a votação expõe uma contradição política: parlamentares que afirmam apoiar o fim da escala 6×1 reconhecem que a medida tem amplo apelo entre trabalhadores, mas parte deles teme que sua aprovação antes de 25 de outubro fortaleça a candidatura petista.
O próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre, manteve o calendário e afirmou que pretende cumprir o rito regimental. A primeira votação poderá ocorrer na próxima semana, enquanto o segundo turno deverá ficar para depois da eleição.
Uma eleição ainda aberta, mas com a direita em ofensiva
A fotografia desta quinta-feira mostra, portanto, uma disputa em que a direita começa o segundo turno em movimento: Flávio lidera a primeira pesquisa pós-eleição, amplia alianças com partidos do Centrão e chega a uma Câmara dos Deputados mais favorável ao campo conservador.
Lula, por sua vez, precisa transformar a campanha em uma disputa de mobilização. A abstenção recorde mostra que milhões de eleitores não participaram do primeiro turno, enquanto a votação expressiva de candidaturas que ficaram pelo caminho revela a existência de um eleitorado ainda disponível para ser conquistado.
É nesse espaço que o segundo turno será decidido. E a disputa pela PEC da 6×1 mostra que, para além das pesquisas e das alianças partidárias, o voto também será disputado em torno de questões concretas da vida dos trabalhadores – jornada, salário, emprego, direitos sociais e condições de vida.
Até 25 de outubro, a tarefa de Lula será reverter uma largada desfavorável. Para Flávio, o desafio será transformar a vantagem inicial e o apoio de setores do Centrão em uma maioria eleitoral efetiva. A eleição, portanto, está aberta – mas a direita começa a segunda etapa com uma máquina política que já se movimenta para transformar a vantagem das urnas em projeto de poder.