Tarifaço de Trump não prejudicou Flávio nas urnas
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Tarifaço de Trump não prejudicou Flávio nas urnas

Candidato do PL venceu em 92 dos 100 municípios brasileiros mais afetados pelas sobretaxas dos EUA; resultado contrasta com pesquisas realizadas durante a campanha e mostra que o impacto econômico da medida não se converteu automaticamente em rejeição ao bolsonarismo

Foto: Reprodução

O tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil, que durante meses ocupou o centro da disputa eleitoral e foi utilizado pelo campo progressista para denunciar a aproximação da família Bolsonaro com a Casa Branca, não produziu o efeito eleitoral esperado nas urnas. No primeiro turno da eleição presidencial, realizado no domingo (4), Flávio Bolsonaro (PL) foi o candidato mais votado em 92 dos 100 municípios brasileiros mais afetados pelas sobretaxas norte-americanas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu em apenas oito dessas cidades.

O resultado chama atenção porque essas são justamente localidades com forte exposição ao mercado dos Estados Unidos. A análise da Folha de S.Paulo considerou municípios com exportações relevantes para o mercado norte-americano e, portanto, potencialmente atingidos pelas tarifas impostas pelo governo Trump, que chegaram a 37,5% para determinados produtos. Mesmo nesses territórios, a tentativa de associar Flávio à política comercial de Trump não foi suficiente para impedir a vitória do candidato do PL.

A campanha de Lula havia apostado na exploração política do tarifaço. O episódio chegou a ganhar uma marca própria no discurso petista: “tariflávio”, expressão criada para associar o candidato do PL às medidas adotadas por Trump contra produtos brasileiros. A estratégia partia de um elemento concreto: Flávio esteve na Casa Branca, reuniu-se com Trump e fez gestões junto ao governo norte-americano enquanto as tarifas contra o Brasil estavam no centro da agenda.

O próprio histórico do episódio, porém, é mais complexo do que a disputa eleitoral tentou apresentar.

Flávio tentou se descolar do tarifaço

Desde o anúncio das novas tarifas, Flávio procurou transferir para Lula a responsabilidade pelas medidas. Em julho, afirmou que o tarifaço seria consequência da condução das negociações pelo governo brasileiro e chegou a dizer que havia pedido a Trump que não aplicasse as sobretaxas. A estratégia foi reconhecida pela própria campanha do senador: interlocutores ouvidos pela Folha admitiam inicialmente que o episódio favorecia Lula, mas apostavam que Flávio poderia reduzir o impacto político ao se apresentar como alguém que tentava negociar diretamente com Washington.

Em outro momento, Flávio participou de uma audiência pública em Washington sobre as tarifas. Segundo a Exame, entretanto, um integrante do governo Trump afirmou que o senador não havia procurado o chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, nem a equipe técnica do órgão para tratar especificamente do tarifaço.

A contradição ajudou a alimentar a disputa política. De um lado, Lula acusava a família Bolsonaro de contribuir para as medidas de pressão contra o Brasil. De outro, Flávio tentava se apresentar como interlocutor capaz de resolver o problema justamente por manter proximidade com Trump.

A relação com o presidente norte-americano também produziu efeitos políticos contraditórios. Em junho, aliados de Flávio e integrantes do Centrão chegaram a avaliar que o novo tarifaço poderia representar um revés para sua candidatura, especialmente porque Trump havia divulgado uma fotografia com o senador pouco antes de novas medidas contra o Brasil.

Pesquisas indicavam outro caminho

O resultado das urnas também contrasta com pesquisas realizadas durante a campanha. Em julho, levantamento Genial/Quaest mostrou que 42% dos entrevistados afirmavam que o tarifaço aumentava a disposição de votar em Lula, enquanto 27% diziam que o episódio aumentava sua vontade de votar em Flávio. Na mesma pesquisa, 63% afirmavam acreditar que as tarifas prejudicariam a si próprios ou suas famílias.

Outro levantamento, do Datafolha, mostrou que 52% dos brasileiros acreditavam que Trump queria ajudar Flávio Bolsonaro com o tarifaço. Ao mesmo tempo, 74% defendiam que o Brasil negociasse com os Estados Unidos em vez de retaliar.

Os números sugeriam, naquele momento, que o episódio poderia representar um problema para Flávio. A eleição, entretanto, mostrou que a percepção sobre o tarifaço não se transformou necessariamente em voto contra o candidato do PL.

Há uma diferença importante entre reconhecer os efeitos econômicos de uma política externa e atribuir a responsabilidade política por ela. O eleitor pode considerar as tarifas prejudiciais e, ainda assim, não responsabilizar Flávio por seus efeitos — ou pode priorizar outros temas na hora de votar.

Economia local não se traduziu em rejeição ao bolsonarismo

O mapa eleitoral ajuda a compreender essa aparente contradição. Flávio terminou o primeiro turno como o candidato mais votado em 52% dos municípios brasileiros, contra 48% de Lula. Entre os municípios mais expostos ao tarifaço, sua vantagem foi ainda maior: 92 a oito.

Isso indica que a discussão sobre as tarifas não ocorreu isoladamente. O eleitorado dessas cidades também foi atravessado por outras questões econômicas, sociais e políticas, além da polarização nacional que marca a disputa entre petismo e bolsonarismo.

A própria Folha observa que, em alguns municípios, Lula havia vencido em 2022 e perdeu em 2026, mesmo diante da exposição econômica ao tarifaço. É o caso de Ouro Branco (MG) e Ribeirão Pires (SP), citados na análise.

O resultado coloca em questão uma estratégia eleitoral que apostava em uma associação direta: Trump → tarifaço → Flávio → prejuízo econômico → rejeição eleitoral. A cadeia não funcionou dessa maneira nas urnas.

A soberania nacional continua em disputa

Isso não significa que o tarifaço tenha deixado de ser politicamente relevante. Ao contrário. A política comercial de Trump colocou no centro da campanha brasileira uma discussão sobre soberania nacional, relações internacionais e o grau de influência que um governo estrangeiro pode exercer sobre decisões políticas e econômicas brasileiras.

Durante a crise, Lula transformou a defesa da soberania em um dos principais eixos de seu discurso. O governo passou a apresentar a reação brasileira às medidas norte-americanas como uma defesa dos interesses nacionais diante de pressões externas.

A Reuters registrou que as tarifas colocaram os Estados Unidos no centro da eleição brasileira e reacenderam preocupações sobre interferência norte-americana na disputa presidencial. A agência também destacou que Trump relacionou parte das sanções à situação judicial de Jair Bolsonaro, enquanto integrantes da própria família Bolsonaro haviam reivindicado publicamente participação na pressão exercida sobre Washington.

Esse histórico não desaparece porque Flávio venceu nas cidades mais afetadas. O que o resultado eleitoral demonstra é outra coisa: a defesa da soberania, por si só, não foi suficiente para converter o tarifaço em um fator decisivo de rejeição ao candidato bolsonarista.

O segundo turno recoloca a disputa em outros termos

Com Flávio no segundo turno, o episódio volta a ganhar importância, mas em um cenário diferente. A tentativa de simplesmente responsabilizar o candidato do PL pelas tarifas já encontrou seu limite no primeiro turno. Para a esquerda, o desafio passa a ser conectar a discussão internacional aos efeitos concretos sobre emprego, renda, indústria e desenvolvimento nacional – e não apenas à relação pessoal entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump.

O dado mais eloquente da eleição é também o mais desconfortável para essa estratégia: mesmo nos municípios mais diretamente expostos ao tarifaço, o eleitorado não puniu Flávio nas urnas. Ao contrário, ele venceu em 92% deles.

A lição eleitoral, portanto, não é que o tarifaço tenha sido irrelevante. É que o prejuízo econômico provocado por uma política externa não se transforma automaticamente em consequência eleitoral para quem é associado a ela.

A disputa do segundo turno exigirá compreender por que isso aconteceu – e, sobretudo, como falar de soberania nacional e defesa da economia brasileira para além da polarização entre Lula, Bolsonaro e Trump.


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