França: a guerra contra a juventude e a “Grande Divisão Escolar”
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França: a guerra contra a juventude e a “Grande Divisão Escolar”

A enorme repressão policial contra o movimento de estudantes franceses amplia sua violência para agredi-los, insultá-los e humilhá-los

Christian Laval 9 out 2026, 06:55

Foto: Manifestação estudantil perante a polícia francesa em Paris. (Irish Independent/Reprodução)

Via Viento Sur

Nunca antes um movimento de jovens estudantes havia sofrido uma repressão semelhante: 5.000 alunos do ensino médio e do ensino fundamental detidos, feridos graves e um ministro do Interior que afirma que não houve “ordens de contenção”. Mais do que um abuso policial, trata-se de uma resposta de classe diante de uma revolta alimentada pelo agravamento das desigualdades educacionais. E um sintoma: o “centro extremo” talvez não tenha sido mais do que um pré-fascismo irresponsável.

Em toda a minha trajetória como professor e observador do mundo escolar na França, nunca havia visto um grau tão elevado de repressão policial contra um movimento de protesto juvenil, nem tanta determinação em aterrorizar os jovens do ensino médio, agredi-los, insultá-los e humilhá-los.

As imagens e os relatos de alunos detidos e espancados são assustadores. Professores e pais também confirmam esses fatos. Cinco mil detenções: um recorde sinistro! Nunca antes tantos milhares de estudantes do ensino médio haviam sido detidos, algemados, trancados em delegacias e levados à presença de juízes da infância e da juventude.

O mais estranho é que, nos últimos meses, falou-se muito na França sobre a violência praticada contra crianças e jovens em famílias incestuosas, em instituições religiosas e educacionais e em escolas de ensino fundamental onde atuaram pedófilos. Inclusive, está em discussão uma lei denominada “integral”, destinada a proteger mulheres, crianças e adolescentes. E o que vemos acontecer ao mesmo tempo, em outro cenário? Policiais, às vezes à paisana ou usando equipamentos quase militares, insultando, espancando e prendendo jovens. O governo e sua polícia sabem o que estão fazendo? Sim, sabem. Estão travando uma verdadeira guerra contra crianças e adolescentes para lhes ensinar que, onde está a força, está o único poder que realmente importa.

A opção política pela violência

Não se trata de “excessos” isolados cometidos por policiais radicalizados, mas de uma política deliberada. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, explicou isso perfeitamente na sexta-feira, 2 de outubro, na emissora TF1: “Não há nenhuma orientação para a moderação nem qualquer ordem para não utilizar todo o armamento à disposição das forças de segurança interna”. Em outras palavras, todos os meios “menos letais” podem ser empregados, não apenas cassetetes e gás lacrimogêneo, mas também disparos de balas de borracha (LBD), cujos danos já são dramáticos e consideráveis: um jovem de 14 anos perdeu um olho, houve dentes quebrados, fraturas faciais e uma mão decepada.

Essa recomendação de recorrer à violência máxima contrasta com a moderação demonstrada em relação aos agricultores, inclusive quando suas ações foram dirigidas contra edifícios públicos, sedes do partido ecologista ou envolveram o bloqueio de estradas e rodovias. Nunca se viu agricultores serem espancados até cair, arrastados pelo chão ou estrangulados, como acontece com estudantes do ensino médio. A semelhança com as práticas do ICE nos Estados Unidos, ou mesmo com as práticas de terror do Exército israelense na Cisjordânia, é realmente impressionante.

É verdade que se dirá que essa violência policial pode ser observada em muitos lugares. Na Itália, assim como na Turquia ou na Alemanha. Na França, porém, ela está se tornando uma política permanente. A escalada imediata tornou-se a regra: trata-se de esmagar os movimentos sociais o mais rapidamente possível. Foi isso que o governo quis fazer. O ministro da Educação levou dez dias para reagir, e o fez de maneira tímida. Primeiro, age-se com dureza; a discussão fica para depois, se for o caso. Serão encontrados meios para silenciar as reivindicações da juventude: plataformas digitais, comissões, colóquios, assembleias gerais. Conhecemos toda a gama de “anestésicos”.

Dar uma lição aos estudantes

Qual é o sentido dessa violência sistemática contra os jovens? Os atos deliberados de vandalismo cometidos por alguns jovens — em certos casos, por aqueles que abandonaram os estudos — e as poucas agressões contra professores ou diretores de escolas não passam de pretextos para uma intervenção brutal contra a massa pacífica e auto-organizada dos estudantes que protestam. Está claro que não havia 5.000 “arruaceiros” entre eles. Como testemunham muitos professores que se esforçaram para intervir e se colocar entre os policiais e os estudantes, não se trata, pelo menos na maioria dos casos, de uma resposta a agressões ou atos de vandalismo cometidos pelos alunos ou por jovens de fora das escolas. Trata-se, antes, de uma vontade de atacar sistematicamente qualquer concentração de estudantes diante dos estabelecimentos de ensino, impedir as greves nas escolas e sufocar brutalmente as ações reivindicatórias dos jovens.

A novidade não está nesse nível de violência policial, que já havíamos visto durante o movimento dos Coletes Amarelos. De maneira mais geral, quase nos acostumamos aos métodos brutais de intervenção em praticamente todas as manifestações de trabalhadores e funcionários públicos. A novidade é que a menoridade deixou de ser um argumento em favor da moderação — talvez até tenha se tornado justamente o contrário. É como se os jovens grevistas precisassem compreender desde muito cedo que já não vivemos em um regime democrático e que os direitos de expressão, reivindicação e manifestação não têm mais lugar.

No fundo, por meio dessa forma de reprimir a juventude, transmite-se a ela uma espécie de mensagem: aprendam onde está o poder e, sobretudo, entendam que esse poder está acima da democracia. Sem dúvida, este governo não percebe que essa mensagem pode se voltar contra ele de maneira duradoura. Porque essa juventude não esquecerá a forma como foi tratada.

O significado das reivindicações dos estudantes

Essa política repressiva, embora não seja justa nem inteligente, é eficaz? Ela contribuiu, com a ajuda das redes sociais, para que o movimento se ampliasse dia após dia. Hoje, professores e alguns pais de alunos estão aderindo ao movimento, indignados com a brutalidade policial e desejosos de ajudar a canalizar as manifestações.

Evidentemente, esses métodos brutais são aplaudidos por políticos e jornalistas de direita e extrema direita. Os canais de notícias ao vivo deleitam-se com imagens de lixeiras em chamas e abrigos de ônibus destruídos, como se todos os atos de vandalismo e todos os danos fossem argumentos a favor do “retorno à ordem”. Mas essa política não resolve nada. Para resolver a situação, seria necessário, antes de tudo, ouvir as reivindicações dos estudantes e também perguntar quais são as causas do movimento.

As reivindicações dos estudantes do ensino médio dizem respeito à dignidade e à igualdade. Os alunos percebem perfeitamente a deterioração da educação pública, assim como, aliás, a de todos os serviços públicos. Também ouvem os discursos contra os funcionários públicos e veem as medidas orçamentárias que vão deteriorar ainda mais esses serviços.

Mas suas palavras não são abstratas: elas expressam suas experiências cotidianas, descrevem o ambiente em que vivem e denunciam a deterioração das instalações, o excesso de alunos por turma — um dos mais elevados da Europa —, a falta de recursos; enfim, tudo aquilo que demonstra falta de respeito por eles. Um símbolo desse desprezo é a falta de papel higiênico nos banheiros.

Os horários intermináveis são particularmente mal recebidos. Mais uma vez, isso é resultado de reformas mal concebidas, distantes da realidade cotidiana das escolas, com a multiplicação das “disciplinas de especialização”, numerosas demais para as salas de aula disponíveis. Soma-se a isso a ausência prolongada de professores substitutos, muitas vezes em disciplinas importantes para a aprovação nos exames.

Por fim, há toda a carga de angústia provocada pelo sistema algorítmico de seleção denominado “Parcoursup”, que registra as candidaturas dos estudantes do ensino médio para seus estudos superiores e funciona como um gigantesco superego mecânico durante os dois últimos anos da escolarização secundária.

Os estudantes do ensino médio já não se relacionam tanto com seus professores quanto com um sistema abstrato, uma espécie de grande buraco negro que engole todas as suas notas dia após dia para emitir um veredito que, na obscuridade de seus cálculos, determinará se eles demonstraram ou não competências suficientes para ingressar no ensino superior no curso desejado.

A desumanização, assim, enraizou-se ainda mais no coração do sistema educacional. A “escola digital”, grande sonho dos reformadores tecnófilos há pelo menos três décadas, transformou-se em um pesadelo.

Essas reivindicações são perfeitamente justificadas. Sua satisfação exige recursos financeiros e humanos, exatamente o contrário do que o governo está disposto a conceder. Afinal, ele não tem a menor intenção de mexer nos privilégios fiscais das grandes fortunas e planeja reduzir o número de professores. Mas, mesmo que essas demandas fossem atendidas parcialmente, elas ainda não enfrentariam as causas estruturais que provocam a revolta dos estudantes.

A Grande Divisão Escolar

O movimento dos estudantes do ensino médio não se mobiliza, como costuma acontecer, contra uma lei ou uma reforma. Ele constitui uma reação a uma transformação profunda do sistema educacional. Essa transformação é a “Grande Divisão”.

É verdade que a divisão social do sistema escolar não é nenhuma novidade: ela é própria de uma educação inserida em uma sociedade de classes. Mas chamo de “Grande Divisão” o aprofundamento contínuo da distância entre as escolas destinadas a receber jovens de meios socialmente favorecidos e as escolas populares, frequentadas majoritariamente por estudantes de origem popular, entre os quais, nos subúrbios, encontram-se muitos jovens de famílias de origem estrangeira.

A ampliação do acesso à escolarização foi, em parte, uma fraude hipócrita, pois veio acompanhada de uma distribuição profundamente desigual dos alunos de acordo com sua origem social. E, embora as condições de estudo sejam geralmente ruins, em média, em todos os lugares, elas se deterioraram muito mais rapidamente nas escolas populares, devido à falta de recursos, mas também ao simples fato de reunir, nas mesmas turmas superlotadas, jovens provenientes de meios desfavorecidos.

Chegamos a um grau tão elevado de separação entre as classes sociais no âmbito escolar que todo o sistema está entrando em colapso. Não é por acaso que o movimento tenha surgido nas escolas de ensino médio populares da periferia e depois se espalhado para outros estabelecimentos.

A sociologia da educação documenta há muito tempo essas desigualdades em termos de recursos e de seleção dos alunos. Os governos não permitiram que a desigualdade social entre escolas e territórios aumentasse por desconhecimento, nem apenas por impotência política. Isso é resultado de uma escolha desastrosa em favor da desigualdade.

A ideologia neoliberal do mercado educacional, a desvalorização dos conteúdos culturais em favor da adaptação às necessidades da economia e a vontade de imitar a gestão das empresas privadas agravaram, ano após ano e reforma após reforma, a fragmentação do sistema e a deterioração da educação pública — algo que, aliás, os resultados das pesquisas PISA refletem de maneira imperfeita.

Assim, fica mais fácil compreender o tratamento policial dispensado à revolta dos estudantes do ensino médio, considerada um motim urbano protagonizado por “delinquentes” que precisam ser neutralizados pela força.

O governo francês não é composto por cegos e surdos, nem por idiotas e ingênuos. Ele sabe que se trata de uma forma de luta de classes, consequência da Grande Divisão Social da educação, e responde a ela, antes de tudo, quase por reflexo, com os meios próprios de uma guerra civil.

Será preciso lembrar disso. Aquilo que o historiador Pierre Serna denominou, com certa ironia, “o centro extremo” talvez não tenha sido mais do que um pré-fascismo irresponsável.


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