A utopia colonial do bolsonarismo
A escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro envolve não apenas programas de governo, mas diferentes concepções sobre o trabalho, os direitos sociais, as instituições democráticas e a soberania nacional
Foto: Protesto simbólico contra o genocídio dos povos indígenas. (Sustentabilidade Brasil/Reprodução)
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou o Brasil diante da possibilidade concreta de retorno do bolsonarismo ao governo federal. Flávio Bolsonaro chegou à segunda etapa da disputa com 47% dos votos válidos, à frente de Lula, e encontrou uma direita fortalecida no Congresso Nacional. A candidatura que inicialmente poderia parecer uma tentativa de preservar o patrimônio político de Jair Bolsonaro tornou-se uma possibilidade efetiva de reorganização do poder. Não se trata apenas da continuidade de um sobrenome. O que está em disputa é a retomada de um projeto de sociedade que combina autoritarismo, violência, conservadorismo moral e aprofundamento das desigualdades.
Os acontecimentos dos primeiros dias do segundo turno ajudam a compreender a natureza dessa ameaça. Ao receber o apoio de Ronaldo Caiado e de outras lideranças da direita, Flávio anunciou sua intenção de utilizar a nova correlação de forças no Congresso para promover alterações constitucionais, reformar o Judiciário e aprofundar o endurecimento penal. A redução da maioridade penal, a ampliação das punições e a promessa de reorganizar instituições aparecem sob o argumento de que seria necessário “redemocratizar” o país. O vocabulário da democracia é mobilizado, assim, para justificar um programa que merece atenção justamente por suas consequências sobre os mecanismos de controle do poder e de garantia de direitos.
É necessário compreender o significado histórico desse projeto. Em artigo publicado na Esquerda em Movimento, em maio deste ano, intitulado O que é Neofascismo?, procurei demonstrar que o fascismo não deve ser entendido como uma anomalia externa ao capitalismo, mas como uma possibilidade política produzida por suas próprias contradições. Sua força não reside apenas na capacidade de impor medidas autoritárias, mas na mobilização de setores sociais em torno de uma interpretação da crise que identifica inimigos, alimenta ressentimentos e promete restaurar uma ordem perdida. A experiência brasileira exige aprofundar essa análise, identificando as tradições históricas que conferem conteúdo particular ao neofascismo.
A referência mais evidente do bolsonarismo é a ditadura militar. Jair Bolsonaro construiu sua trajetória política defendendo o regime instaurado em 1964, exaltando seus agentes repressivos e apresentando a autoridade militar como solução para os conflitos nacionais. Entretanto, limitar o fenômeno à nostalgia da ditadura significa deixar de reconhecer que suas referências alcançam uma formação social muito anterior.
Lynch e Cassimiro (2022), oferecem mais elementos para essa importante análise. Os autores identificam no reacionarismo brasileiro uma utopia regressiva, organizada pela idealização de uma sociedade que teria sido corrompida pelas transformações modernas. Mais profundamente do que a ditadura militar, essa imaginação política encontra referências na ordem colonial, dominada por grandes proprietários, chefes de família patriarcais e conquistadores apresentados como responsáveis pela construção da nação.
Essa formulação permite compreender uma característica decisiva do bolsonarismo: sua defesa da tradição não significa resistência a todas as mudanças. O movimento utiliza tecnologias contemporâneas, mobiliza redes digitais, propõe transformações institucionais e se articula a interesses econômicos modernos. O que procura preservar ou reconstruir são determinadas relações de autoridade. Sua utopia não consiste em retornar literalmente ao Brasil colonial, mas em atualizar, nas condições do século XXI, hierarquias que marcaram a formação brasileira.
A violência constitui uma das expressões mais evidentes dessa continuidade. A sociedade colonial foi organizada pela escravidão, pela expropriação de terras e pelo exercício privado do poder. O senhor de engenho não era apenas proprietário de terras e instrumentos de produção. Exercia autoridade sobre trabalhadores escravizados, dependentes e familiares. A violência integrava o funcionamento cotidiano dessa ordem, assegurando a concentração da riqueza e a subordinação de amplos setores da população.
A figura do bandeirante, posteriormente transformada em símbolo do empreendedorismo e da coragem nacional, expressa outra dimensão desse imaginário. A conquista territorial foi frequentemente celebrada como manifestação de iniciativa individual, enquanto a escravização indígena, a destruição de comunidades e a exploração dos recursos naturais foram relegadas a um lugar secundário. A violência dos conquistadores pôde ser convertida em virtude porque estava associada à expansão da propriedade e do poder.
Essa tradição ajuda a compreender a centralidade das armas, da autoridade policial e da punição na política bolsonarista. A violência não aparece simplesmente como instrumento excepcional de segurança pública. Adquire uma dimensão moral, associada à coragem, à masculinidade e à capacidade de impor a ordem. A defesa do cidadão armado convive com a reivindicação de um Estado dotado de instrumentos cada vez mais poderosos para reprimir aqueles apresentados como ameaças.
O programa de Flávio Bolsonaro oferece exemplos contemporâneos dessa orientação. Entre suas propostas estão a redução da maioridade penal, a expansão do sistema prisional e o endurecimento das penas. Essas medidas não constituem, isoladamente, prova de uma ideologia colonial, mas revelam a prioridade atribuída à ampliação da capacidade punitiva do Estado. Quando associadas à tradição política do bolsonarismo, permitem identificar uma concepção de segurança na qual a repressão ocupa posição central.
No Brasil, essa discussão possui uma dimensão racial incontornável. A violência estatal não se distribui igualmente entre os diferentes grupos sociais. A população negra e periférica está historicamente mais exposta ao encarceramento e à letalidade policial. A promessa de ampliar a repressão precisa ser examinada à luz dessa realidade, pois seus efeitos não podem ser compreendidos apenas pelas intenções declaradas de seus formuladores.
É nesse ponto que a branquitude se articula à utopia colonial. A sociedade escravista estabeleceu uma hierarquia na qual o exercício da autoridade esteve profundamente associado à condição de proprietário branco. A abolição não eliminou essas desigualdades. A República preservou a concentração fundiária e produziu novas formas de exclusão, enquanto parte de suas elites passou a associar o progresso nacional ao branqueamento da população.
A branquitude não precisa aparecer como defesa explícita da supremacia racial para participar da organização dessas relações. Pode operar por meio da naturalização de determinados sujeitos como representantes legítimos da ordem: o proprietário, o chefe de família, o empreendedor e o cidadão respeitável. Em contrapartida, outros grupos são frequentemente representados como problemas a serem administrados, disciplinados ou reprimidos.
O bolsonarismo atualiza essa divisão quando apresenta o conflito social como oposição entre cidadãos de bem e inimigos da sociedade. A construção de uma comunidade nacional supostamente homogênea permite transformar adversários políticos, movimentos sociais e populações marginalizadas em ameaças à ordem. O problema deixa de ser a desigualdade que organiza a sociedade e passa a ser a ação daqueles que a contestam.
A reação às políticas de reconhecimento racial e às reivindicações indígenas deve ser compreendida nesse contexto. Nas últimas décadas, movimentos negros e indígenas ampliaram sua presença na vida pública, questionaram interpretações tradicionais da história nacional e conquistaram instrumentos de reconhecimento de direitos. Essas transformações confrontaram uma concepção de Brasil na qual a diversidade poderia ser celebrada simbolicamente, desde que não alterasse a distribuição efetiva do poder.
O patriarcado constitui outra dimensão fundamental dessa estrutura. A família colonial não era apenas uma unidade doméstica, mas uma instituição que organizava a propriedade, a transmissão da riqueza e as relações de dependência. O poder masculino encontrava legitimidade na autoridade do chefe familiar, cuja posição era apresentada como fundamento da estabilidade social.
A reação bolsonarista às transformações das relações de gênero recupera elementos dessa concepção. A defesa de uma família tradicional, a valorização da autoridade paterna e a hostilidade aos movimentos feministas expressam a resistência à ampliação da autonomia das mulheres e à contestação de papéis sociais historicamente estabelecidos. Não se trata simplesmente de uma divergência sobre costumes, mas de uma disputa sobre a distribuição do poder no interior da sociedade.
A violência contra as mulheres demonstra a permanência dessas relações. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, aproximadamente quatro por dia. A maioria das vítimas era negra, e grande parte dos assassinatos ocorreu dentro de casa. Esses números revelam como desigualdades de gênero e raça se articulam na experiência concreta da violência. (SÃO PAULO, 2026)
A trajetória de Flávio Bolsonaro permite observar como essa concepção de autoridade se manifesta também no tratamento da violência contra as mulheres. Em 2019, o senador apresentou o Projeto de Lei nº 3.462, propondo o agravamento das penas para denunciação caluniosa envolvendo crimes hediondos, entre eles o estupro. Embora a proposta se refira a acusações comprovadamente falsas, especialistas e entidades de defesa dos direitos das mulheres alertam que seu efeito pode ser o de intimidar vítimas e desencorajar denúncias, em um país onde a violência sexual permanece amplamente subnotificada. O episódio é significativo para a análise do patriarcado porque evidencia uma disputa sobre a prioridade conferida à proteção das vítimas e ao risco de punição de quem denuncia. A campanha de Flávio afirma que pretende simultaneamente combater acusações falsas e ampliar a proteção às mulheres, mas a controvérsia sobre o projeto revela os limites dessa conciliação.
A defesa da família e da propriedade encontra ainda uma expressão econômica. O bolsonarismo combina valores tradicionais com propostas de liberalização econômica, flexibilização de direitos e fortalecimento da iniciativa privada. Essa combinação não representa uma contradição. A redução da intervenção estatal sobre determinadas relações econômicas pode conviver com a ampliação da autoridade sobre trabalhadores e grupos socialmente subordinados.
A discussão contemporânea sobre a jornada de trabalho oferece um exemplo. Enquanto a proposta apoiada por Lula prevê a redução da jornada semanal para quarenta horas sem diminuição salarial, a alternativa defendida por Flávio, apresentada por Rogério Marinho, privilegia contratos individuais e remuneração proporcional às horas trabalhadas. A diferença envolve mais do que a organização do tempo de trabalho. Diz respeito à relação entre negociação coletiva, proteção social e poder individual dos empregadores.
Essas dimensões encontram uma articulação mais ampla na defesa da chamada civilização judaico-cristã ocidental, referência importante da extrema direita contemporânea para apresentar as conquistas feministas, antirracistas, indígenas e dos movimentos por direitos sexuais como ameaças aos fundamentos da sociedade. No Brasil, essa representação recupera uma tradição que remonta à colonização portuguesa, quando a identificação entre cristianismo e civilização europeia contribuiu para legitimar a conquista territorial e a submissão de populações indígenas e africanas, embora a própria religião também tenha alimentado experiências de resistência. A recuperação dessa identidade civilizacional permite idealizar a ordem colonial como expressão de valores a serem preservados, obscurecendo as relações de exploração e violência que sustentaram sua formação.
Essa referência também ajuda a compreender uma das particularidades do nacionalismo bolsonarista. A defesa da pátria não se organiza necessariamente em torno da afirmação da soberania brasileira diante das grandes potências, mas pode identificar o pertencimento nacional com a integração subordinada a um bloco civilizacional liderado pelos Estados Unidos. A proximidade política com Donald Trump e a presença de bandeiras norte-americanas em manifestações bolsonaristas expressam essa orientação. Mais do que uma identificação com determinado dirigente, esses símbolos remetem a uma concepção de Ocidente à qual o Brasil deveria se vincular política, econômica e culturalmente.
Essa contradição ganha importância diante da disputa entre Estados Unidos e China e das transformações da ordem internacional. Como procurei desenvolver em O que é neofascismo?, a crise da hegemonia norte-americana constitui um elemento importante para compreender a ascensão contemporânea da extrema direita. O nacionalismo mobilizado por esses movimentos não possui, entretanto, o mesmo conteúdo. Enquanto algumas forças procuram ampliar a autonomia de suas respectivas potências, outras encontram no alinhamento aos Estados Unidos uma referência para reorganizar suas sociedades. No caso brasileiro, essa orientação recupera uma tradição histórica marcada pela articulação entre dominação interna e dependência externa. A classe senhorial construiu sua autoridade sobre a escravidão e a concentração da propriedade enquanto se integrava de maneira subordinada aos circuitos internacionais de acumulação. A independência política não eliminou essa relação, reproduzida sob diferentes formas nos projetos posteriores de modernização.
Essa combinação entre autoridade interna e dependência externa também permite compreender por que o bolsonarismo não representa uma rejeição integral da modernidade. O movimento utiliza intensamente tecnologias digitais, instrumentos contemporâneos de comunicação e mecanismos de mercado. Sua defesa de hierarquias tradicionais convive com propostas de liberalização econômica e flexibilização de direitos. A redução da intervenção estatal sobre determinadas atividades privadas pode ocorrer simultaneamente ao fortalecimento dos instrumentos repressivos do Estado. A utopia colonial não se manifesta, portanto, apenas na linguagem dos costumes ou na nostalgia histórica, mas na possibilidade de atualizar antigas relações de dominação por meio das instituições e dos recursos econômicos e tecnológicos contemporâneos.
É justamente essa capacidade de adaptação que torna insuficiente compreender o bolsonarismo como uma experiência pessoal de Jair Bolsonaro. A candidatura de Flávio representa a possibilidade de continuidade do movimento sob uma forma mais negociadora e institucionalizada, agora em um contexto internacional marcado pelo segundo governo de Donald Trump. Desde seu retorno à Casa Branca, Trump procura reafirmar a hegemonia norte-americana sobre a América Latina, recuperando explicitamente a Doutrina Monroe, ampliando as pressões econômicas e políticas sobre os governos da região e buscando conter a presença chinesa. Nesse cenário, o alinhamento do bolsonarismo aos Estados Unidos adquire um significado que ultrapassa a afinidade ideológica: insere-se na disputa pela reorganização das relações de poder no continente. A construção de alianças conservadoras e liberais e a busca de maiorias parlamentares podem, assim, conferir novas condições de realização a um projeto que combina endurecimento penal, conservadorismo moral, defesa da autoridade e subordinação externa. A radicalidade política não depende exclusivamente do tom dos discursos, podendo manifestar-se também na capacidade de alterar normas constitucionais, reorganizar instituições e redefinir a posição do Brasil na ordem internacional.
Essa reorganização revela os limites de um enfrentamento concentrado na denúncia dos excessos de Jair Bolsonaro. Como procurei argumentar em O que é Neofascismo?, a extrema direita encontra sustentação em conflitos reais, na insegurança social e nas dificuldades das forças progressistas em oferecer respostas capazes de mobilizar amplos setores da população. Sua capacidade de transformar frustrações concretas em ressentimento contra grupos apresentados como responsáveis pela decadência nacional não pode ser enfrentada apenas pela defesa abstrata das instituições democráticas. É necessário compreender as bases sociais que sustentam o movimento e as relações de desigualdade sobre as quais ele procura reconstruir sua legitimidade.
A história brasileira oferece também referências distintas daquelas recuperadas pela imaginação reacionária. A resistência indígena, as revoltas de pessoas escravizadas, o abolicionismo, as organizações negras, as lutas dos trabalhadores e as mobilizações feministas participaram da construção do país e ampliaram, em diferentes momentos, os limites da cidadania. Recuperar esse protagonismo permite confrontar uma interpretação da nação identificada exclusivamente com proprietários, conquistadores e governantes. A construção de uma perspectiva democrática e nacional-popular depende do reconhecimento desses sujeitos como participantes efetivos das decisões sobre os destinos do Brasil.
Os quinze dias que antecedem o segundo turno concentram essa disputa histórica em uma decisão política imediata. A escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro envolve não apenas programas de governo, mas diferentes concepções sobre o trabalho, os direitos sociais, as instituições democráticas e a soberania nacional. A eleição de 25 de outubro não resolverá as contradições que permitiram a ascensão do bolsonarismo, mas definirá as condições institucionais em que esses conflitos continuarão a se desenvolver. É nesse contexto que a defesa do voto em Lula se apresenta, para as forças políticas comprometidas com essa posição, como parte de uma disputa mais ampla sobre os rumos do país, que continuará para além das urnas.
Referências
LYNCH, Christian; CASSIMIRO, Paulo Henrique. O populismo reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo. São Paulo: Contracorrente, 2022.
HENRIQUES, Frederico. O que é neofascismo? Movimento Revista, maio 2026. Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2026/05/o-que-e-neofascismo/. Acesso em: 8 out. 2026.
SÃO PAULO. Com 4 feminicídios por dia no país, mulheres querem mais segurança. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1 out. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/com-4-feminicidios-por-dia-no-pais-mulheres-sonham-com-mais-seguranca.shtml. Acesso em: 8 out. 2026.