Trump: os traços de um neofascismo do século XXI
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Trump: os traços de um neofascismo do século XXI

A combinação de continuidades com o fascismo histórico com novas formas próprias do século XXI caracteriza a orientação política de Trump como neofascista

Eric Toussaint 17 out 2026, 12:18

Foto: Manifestação pró-Trump nos Estados Unidos. (ABCN/Reprodução)

Via CADTM

O termo “neofascismo”, utilizado para caracterizar a orientação política de Donald Trump, significa que o “trumpismo” não é uma simples cópia do fascismo italiano ou o nazismo alemão das décadas de 1920 e 1930. Refere-se a uma orientação que apresenta fortes convergências com estes movimentos: nacionalismo exacerbado, racismo, visão supremacista e hierárquica dos povos, ultraconservadorismo religioso, militarismo, machismo, defesa da ordem patriarcal, hostilidade à diversidade, homofobia e transfobia, um anticomunismo e um antimarxismo renovados numa hostilidade radical contra toda a esquerda, bem como um imperialismo sem complexos. Designa inimigos internos e externos, exalta a força, valoriza a autoridade e a submissão e apresenta as relações sociais e internacionais, acima de tudo, como relações de dominação e de poder.

O neofascismo do século XXI possui características próprias

Trump não procura, pelo menos nesta fase, convocar grandes comícios de massas fanatizadas nem organizar as tropas paramilitares de choque que desempenharam um papel central nos fascismos históricos, em Itália e na Alemanha. O assalto ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, demonstrou, no entanto, que ele era capaz de mobilizar uma multidão fanatizada e recorrer à violência política. Em janeiro de 2025, concedeu um indulto a cerca de 1500 pessoas acusadas ou condenadas pela sua participação no assalto e comutou as penas de catorze dos principais responsáveis, incluindo os líderes dos Proud Boys e dos Oath Keepers, alguns dos quais tinham sido condenados a dezoito ou vinte e dois anos de prisão pela sua participação na preparação e execução do assalto paramilitar ao Capitólio.

Até agora, o Trump tem priorizado apoiar-se diretamente no aparato do Estado, nomeadamente às forças responsáveis pela imigração e pelo controle das fronteiras, às forças de segurança e, em certas circunstâncias, à Guarda Nacional. Assim, mobilizou-a em Los Angeles contra a opinião do governador e da prefeita, e tentou impô-la em Chicago e Portland, apesar da oposição das autoridades locais e estaduais. Em Washington D.C., chegou mesmo a assumir o controle da polícia metropolitana e a mobilizar a Guarda Nacional, reforçando diretamente a tutela do poder federal sobre a capital.

Esta evolução é significativa: em vez de reproduzir as formas clássicas do fascismo histórico, Trump tende a utilizar o próprio aparelho de Estado como instrumento de coação, de fidelização dos seus apoiadores e de contestação dos contrapoderes locais. Procura igualmente controlar as instituições que produzem e difundem o conhecimento e a informação, enfraquecer os contrapoderes e impor a sua conceção ideológica da sociedade.

A política imperialista de Trump não constitui, portanto, uma ruptura com as práticas dos Estados Unidos ao longo do século XX. Pelo contrário, prolonga os seus diversos métodos — intervenções militares, golpes de Estado, sanções, pressões econômicas, apoio a regimes aliados, controle de espaços estratégicos e de recursos —, mas com uma diferença notável no discurso que os acompanha. Enquanto os seus antecessores justificavam geralmente as suas intervenções em nome da defesa da ordem internacional, da democracia, da luta contra o comunismo ou o terrorismo, Trump reivindica mais abertamente a defesa dos interesses materiais e geopolíticos dos Estados Unidos, nomeadamente o controle dos recursos naturais, dos territórios estratégicos e das vias de comunicação. Esta concessão remete, em certos aspetos, para a lógica do “espaço vital” (Lebensraum) invocada por Hitler para justificar a expansão territorial da Alemanha nazi. Esta evolução não significa, contudo, um regresso à conquista colonial clássica. Não se trata nem de reproduzir as campanhas de conquista territorial da Itália fascista em África, nem a política de anexação e expansão territorial da Alemanha nazi na Europa. Trump não ressuscita o colonialismo territorial clássico; radicaliza e explicita uma lógica imperialista pré-existente, reivindicando abertamente certos objetivos de controle espacial, económico e estratégico.

O neofascismo trumpista: continuidades e especificidades

Utilizo aqui o termo “neofascismo”, não como uma mera fórmula polêmica, mas para designar uma orientação política que apresenta fortes semelhanças com certas características fundamentais dos fascismos europeus das décadas de 1920 e 1930, ao mesmo tempo que possui características próprias da época atual e da sociedade norte-americana.

A comparação com os fascismos históricos deve, no entanto, ser feita com precisão. O trumpismo não reproduz puro e simplismente o fascismo italiano ou o nazismo alemão. Como referido anteriormente, Trump não procura, até ao momento, organizar gigantescos movimentos de massas disciplinados e fanatizados, seguindo o modelo dos comícios fascistas das décadas de 1920 e 1930. Também não se dota, nesta fase, de tropas paramilitares de choque comparáveis às milícias fascistas italianas ou às SA alemãs. Uma das especificidades do neofascismo trumpista consiste, pelo contrário, em apoiar-se diretamente no aparelho de Estado existente e em procurar transformá-lo num instrumento da sua política.

Assim, enquanto Mussolini ou Hitler se apoiaram em organizações paramilitares para aterrorizar os seus adversários e impor o seu domínio nas ruas antes de chegarem ao poder através das urnas, a administração Trump, por seu lado, utiliza ou procura utilizar as instituições e as forças do Estado federal, nomeadamente os serviços de imigração e de controle das fronteiras, como o ICE, e, em certas circunstâncias, a Guarda Nacional. O aparelho do Estado vê reforçado o seu papel de instrumento central da política de repressão, intimidação e controle. Esta diferença é fundamental: o neofascismo do século XXI não precisa necessariamente de reproduzir as formas organizacionais do fascismo histórico para retomar algumas das suas funções políticas.

Também se observam traços característicos dos governos fascistas na vontade de controlar a produção ideológica e cultural, nomeadamente através do questionamento de certos ensinamentos, da proibição ou restrição de determinados conteúdos nas instituições de ensino e nas universidades, do ataque às políticas de diversidade e da vontade de submeter as instituições culturais e os meios de comunicação social que contestam a política presidencial, bem como de afastar os jornalistas que a criticam. Tal como os fascismos históricos, esta política não considera a educação, a cultura e a informação como domínios autónomos: procura submetê-los a uma conceção ideológica do mundo e aos interesses do poder.

Neofascismo e imperialismo trumpistas

O caráter imperialista constitui outra dimensão essencial desta orientação. Tal como os regimes fascistas da década de 1930, o trumpismo não concebe as fronteiras e as possessões territoriais como definitivamente estabelecidas quando estão em jogo os interesses da potência nacional.

O exemplo da Venezuela é particularmente revelador. Após a intervenção norte-americana de janeiro de 2026, Trump reivindicou abertamente o controle das receitas petrolíferas venezuelanas e apresentou os recursos do país como devendo ser colocados ao serviço dos interesses dos Estados Unidos. No final de agosto de 2026, afirmou que, com o acordo do governo venezuelano, tinha obtido concessões de cem anos sobre 17 campos que representavam cerca de 65 mil milhões de barris de reservas comprovadas, ou seja, mais de um quinto das reservas petrolíferas comprovadas da Venezuela1.

Da mesma forma, a vontade manifestada de retomar o controle de Cuba e de derrubar as autoridades do país, as ameaças e operações dirigidas contra o Irã e a vontade de garantir o acesso aos recursos energéticos revelam uma visão profundamente imperialista das relações internacionais. Não nos esqueçamos também das pretensões de Trump relativamente à Groenlândia, ao Canadá e ao Canal do Panamá, nem da sua reivindicação do Estreito de Ormuz, que chegou ao ponto de qualificar de “território americano”, ao mesmo tempo que afirmava que os Estados Unidos detinham o controle total sobre o mesmo2. Nesta perspectiva, a soberania dos outros povos está subordinada ao direito que Washington se arroga de determinar o que serve os interesses dos Estados Unidos.

Outra característica desta orientação é a vontade de Trump de promover uma política neocolonial, com o objetivo de colocar certos territórios e certos povos sob a tutela política, económica e militar direta ou indireta dos Estados Unidos e dos seus aliados. O projeto do “Conselho da Paz” para Gaza constitui, a este respeito, um primeiro laboratório desta nova forma de domínio, que poderá ser alargada a outras regiões do mundo.

Por outro lado, convém distinguir um governo neofascista de um Estado neofascista. Trump e a sua administração constituem um governo neofascista que procura transformar progressivamente o Estado existente num instrumento plenamente adaptado ao seu projeto político e, a longo prazo, impor um regime neofascista a toda a sociedade. Mas este processo ainda não está concluído. Em 2026, não se consolidou um Estado neofascista nos Estados Unidos, embora esteja em curso um processo nesse sentido. Os Estados Unidos não são, portanto, comparáveis à Itália de Mussolini na segunda metade da década de 1920 e durante a década de 1930, nem à Alemanha nazi a partir de meados da década de 1930. O governo de Trump obteve sucessos na transformação do aparelho de Estado, mas continua a deparar-se com resistências institucionais, judiciais, sociais e políticas. O processo pode ser revertido, nomeadamente através de mobilizações populares e de resultados eleitorais.

Seria, portanto, enganador procurar no trumpismo uma cópia exata do fascismo dos anos 1930. O neofascismo é precisamente uma forma política adaptada a uma época diferente, a um Estado diferente e a relações sociais e tecnológicas diferentes. Os seus métodos podem ser novos, embora cumpram funções comparáveis: designar bodes expiatórios, exaltar o nacionalismo e o poder, combater radicalmente a esquerda, enfraquecer os contrapoderes, controlar a produção ideológica, recorrer à repressão e legitimar a expansão imperialista.

É esta combinação de continuidades com o fascismo histórico e de novas formas próprias do século XXI que justifica o uso do termo “neofascismo” para caracterizar a orientação política de Trump.

O neofascismo trumpista não pode, contudo, ser caracterizado apenas pela sua ideologia e pelos seus métodos políticos. É igualmente necessário ter em conta os interesses de classe que defende. Tal como os regimes fascistas históricos, procura reforçar as condições que permitem às grandes empresas e aos detentores de capital aumentar o seu poder e os seus lucros, mobilizando simultaneamente o aparelho do Estado para defender os seus interesses.

Existe, a este respeito, uma analogia importante com a Alemanha nazi. Hitler tinha obtido o apoio de uma parte decisiva das grandes empresas e dos meios industriais alemães, que viam no regime nazi um meio de esmagar o movimento operário organizado, de aniquilar as organizações de esquerda, de rearmar maciçamente o país e de garantir uma ordem social favorável ao capital.

O trumpismo insere-se numa relação análoga com o grande capital, mas num capitalismo profundamente transformado. As grandes empresas da Big Tech ocupam hoje um lugar que, evidentemente, não podiam ocupar na década de 1930. A Big Tech, os gigantes da inteligência artificial, dos dados, das plataformas digitais, dos semicondutores e da nuvem constituem agora setores estratégicos do poder económico e militar dos Estados Unidos. Uma parte significativa destas empresas e dos seus dirigentes procurou ou aceitou uma aproximação a Trump, enquanto a sua administração lhes abre novas possibilidades de acumulação, desregulamentação e colaboração com o Estado.

Trumpismo e complexo militar-industrial

A indústria do armamento constitui um importante ponto de convergência entre o trumpismo e os interesses do grande capital. Tal como na Alemanha nazi, o rearmamento e a preparação para a guerra permitem estimular maciçamente certos setores industriais, reforçando simultaneamente o peso político e económico do complexo militar-industrial. Mas, mais uma vez, as formas contemporâneas são diferentes. O complexo militar-industrial norte-americano está agora intimamente interligado com a Big Tech. A inteligência artificial, os satélites, os drones autônomos, o tratamento massivo de dados, o ciberespaço, os sistemas de vigilância e as novas tecnologias de localização ocupam um lugar cada vez mais importante na condução da guerra. A fronteira entre a Big Tech e a indústria militar torna-se, assim, cada vez mais difusa.

As grandes empresas americanas do setor da Big Tech constituem agora um polo essencial do complexo militar-industrial e tecnológico dos Estados Unidos. A Microsoft, a Amazon, a Google, a Nvidia, a OpenAI, a Palantir, a Anduril e a SpaceX fornecem ao Pentágono e às agências de inteligência capacidades essenciais nas áreas da nuvem, da inteligência artificial, dos dados, dos chips, dos satélites, dos drones e dos sistemas autónomos.

Esta aliança entre o poder político, o grande capital da Big Tech e a indústria do armamento constitui uma característica fundamental do neofascismo trumpista. O complexo militar-industrial norte-americano, dominado pela Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, General Dynamics e Boeing, encontra-se agora cada vez mais interligado com o complexo tecnológico e digital dominado pela Microsoft, Amazon, Google, Nvidia, Palantir e os grandes grupos da inteligência artificial.

O nacionalismo, o militarismo e o autoritarismo podem ser mobilizados para proteger e reforçar os interesses das frações mais poderosas do capital. O neofascismo contemporâneo deve, portanto, ser analisado não só como uma ideologia política e uma forma de governo, mas também como uma resposta específica das classes dominantes a um período de crise, de rivalidade internacional e de profunda transformação do capitalismo.

A Big Tech, nova componente do sistema de poder

Outra especificidade do neofascismo trumpista está, portanto, ligada à transformação do próprio capitalismo. Os fascismos das décadas de 1920 e 1930 desenvolveram-se no âmbito de um capitalismo industrial dominado pela grande indústria, pela siderurgia, pela química, pela indústria automóvel e pela indústria de armamento. O neofascismo do século XXI desenvolve-se num capitalismo em que as empresas da Big Tech ocupam um lugar estratégico sem precedentes. Os gigantes digitais controlam não só mercados gigantescos, mas também infraestruturas essenciais: plataformas de comunicação, redes sociais, motores de busca, centros de dados, serviços na nuvem, sistemas de satélite, inteligência artificial e tratamento de dados.

A aproximação entre Trump e uma parte dos dirigentes da Big Tech é, a este respeito, particularmente significativa. Estes bilionários não são meros financiadores externos ao poder: alguns controlam infraestruturas que desempenham agora um papel direto na formação da opinião pública, na circulação da informação e na organização da sociedade. O poder económico e o poder comunicacional podem, assim, transformar-se em poder político. A extrema concentração de riqueza e a concentração do controle sobre as infraestruturas digitais reforçam-se mutuamente.

Esta evolução altera igualmente a relação entre capitalismo, militarismo e guerra. Como referido anteriormente, a indústria do armamento e as Big Tech estão cada vez mais intimamente interligadas. As empresas das Big Tech fornecem às forças armadas capacidades que se tornaram essenciais: inteligência artificial, análise de dados, satélites, nuvem militar, drones, sistemas autónomos, cibersegurança, reconhecimento e vigilância. A própria guerra torna-se um imenso campo de aplicação das tecnologias desenvolvidas pelo capital privado.

Existe, portanto, uma continuidade, mas também uma diferença fundamental, em relação aos fascismos históricos. Tal como o nazismo, o trumpismo assenta no rearmamento e nos interesses da indústria militar; mas o complexo militar-industrial contemporâneo evoluiu significativamente. O poder militar dos Estados Unidos depende agora tanto do domínio das tecnologias avançadas, dos dados e das infraestruturas digitais como da produção tradicional de armas.

Esta evolução é particularmente importante para compreender a lógica do poder trumpista. O nacionalismo, o militarismo, a concentração do poder executivo e a defesa dos interesses do grande capital podem hoje articular-se com o poder dos gigantes da Big Tech. O neofascismo do século XXI não reproduz, portanto, as estruturas económicas do fascismo da década de 1930: adapta-se a um capitalismo financeirizado, globalizado e digitalizado, no qual algumas grandes empresas dispõem de um poder económico e tecnológico comparável, ou mesmo superior em certos domínios, ao de Estados inteiros.

Conclusão

O neofascismo contemporâneo pode assumir formas diferentes das do fascismo histórico. Não precisa necessariamente de construir as mesmas organizações de massas nem de dispor das mesmas milícias paramilitares: pode apoiar-se num aparelho de Estado já poderoso, nas forças de segurança e de controle das fronteiras, no aparelho militar e, paralelamente, beneficiar do apoio ou da cooperação de grupos capitalistas que controlam parte das infraestruturas tecnológicas, mediáticas e informativas da sociedade.

Mas esta evolução não é irreversível. Os avanços do neofascismo trumpista não significam que o desfecho esteja predeterminado. Nos Estados Unidos, tal como no resto do mundo, as populações resistem e recusam-se a resignar-se. Estas resistências podem alterar o equilíbrio de forças e abrir caminho para uma reviravolta favorável aos povos. A fuga para a frente de Trump pode ser travada: nada está decidido.

Tradução: Alain Geffrouais

Notas

  1. A Casa Branca, «O Presidente Donald J. Trump anuncia um acordo histórico sobre o petróleo para garantir o domínio energético dos Estados Unidos e impulsionar a recuperação económica da Venezuela», 31 de agosto de 2026, https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2026/08/fact-sheet-president-donald-j-trump-announces-historic-oil-agreement-to-secure-american-energy-dominance-and-drive-venezuelas-economic-recovery, consultado a 6 de setembro de 2026. ↩︎
  2. A Casa Branca, “O presidente Trump tinha razão: os Estados Unidos controlam o Estreito de Ormuz”, 28 de agosto de 2026, https://www.whitehouse.gov/releases/2026/08/president-trump-was-right-america-controls-the-strait-of-hormuz , consultado a 7 de setembro de 2026. Ver também: Times of Israel, “Trump afirma que “não haverá negociações” com o Irã e publica mapa que mostra o Ormuz como ‘novo território dos EUA'”, 18 de agosto de 2026, https://www.timesofisrael.com/trump-says-no-talks-with-iran-claims-hormuz-new-us-territory/amp/, consultado a 7 de setembro de 2026. ↩︎

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