Ato bolsonarista termina em agressões na UFRN e interrompe atividades acadêmicas
Manifestação pró-Flávio Bolsonaro teve confronto físico, estudante ferido e danos ao patrimônio público; deputada acionou o Conselho de Ética contra General Girão
Foto: Reprodução
Uma manifestação bolsonarista realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, terminou em agressões físicas, deixou estudantes feridos e provocou a interrupção de atividades acadêmicas na segunda-feira (19). O ato, organizado pelo grupo Direita UFRN em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, contou com a participação do deputado federal General Girão (PL-RN) e da vereadora de Natal Camila Araújo (PL).
Segundo informações da Agência Saiba Mais, a mobilização ocorreu no campus central durante o período de aulas, com carros de som e fogos de artifício. Os manifestantes também levaram um boneco inflável do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vestido de presidiário. A presença do grupo provocou a reação de estudantes que contestavam o ato, e a tensão evoluiu para um confronto físico.
Relatos ouvidos pela Saiba Mais apontam que houve empurrões e arremesso de pedras e cocos. Uma imagem mostra um motociclista apoiador de Flávio Bolsonaro atingindo um estudante com um capacete. Ao menos um aluno ficou ferido, com cortes na boca. A confusão também provocou a quebra de uma grade de acesso ao setor IV, onde ficam cursos de engenharia, e levou à suspensão de provas e de outras atividades acadêmicas.
O estudante de Ciências Sociais Luís Felipe Costa Dantas afirmou que General Girão foi um dos participantes que mais provocaram os alunos. Segundo o relato, o parlamentar declarou que, a partir de 2027, estudantes de direita não seriam mais perseguidos na universidade.
Universidade condena violência e promete responsabilização
A UFRN repudiou os episódios e informou que adotará medidas administrativas e judiciais para apurar as ocorrências e responsabilizar os envolvidos. Em nota oficial, a instituição afirmou que a manifestação ocorreu sem autorização institucional, com uso de equipamentos de som e fogos de artifício.
A universidade também denunciou ameaças à integridade física e moral de integrantes da comunidade acadêmica, danos ao patrimônio público e interrupções nas atividades de ensino e administrativas.
“A divergência de ideias, inerente à vida universitária e ao exercício democrático, não pode, sob qualquer circunstância, servir de justificativa para atos de intimidação, ameaças, violência ou desrespeito”, afirmou a instituição.
A administração universitária reafirmou o compromisso com a proteção de estudantes, professores e servidores, além da defesa da liberdade de expressão, da democracia e do respeito às diferenças.
Entidades denunciam intimidação política
O episódio provocou manifestações de repúdio de organizações políticas, sindicais e estudantis. O Sindicato Estadual dos Trabalhadores em Educação do Ensino Superior do Rio Grande do Norte (Sintest-RN) alertou para as ameaças à universidade pública, à produção científica e à liberdade acadêmica.
“A Universidade deve ser um espaço de liberdade de pensamento, de diversidade de ideias e de debate democrático. Divergências políticas e ideológicas fazem parte da vida universitária e devem ser enfrentadas com argumentos, respeito e diálogo – jamais por meio de intimidação, ameaças ou violência”, declarou a entidade.
A Associação de Pós-Graduandos da UFRN (APG-UFRN) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) José Silton Pinheiro igualmente divulgaram notas de repúdio e manifestaram solidariedade ao estudante agredido.
“Não podemos naturalizar manifestações que promovam a intolerância, a violência e a intimidação, tampouco admitir que a integridade física e moral de estudantes seja colocada em risco dentro de um espaço que deve ser seguro para toda a comunidade acadêmica”, afirmaram as entidades.
Duda Salabert aciona Conselho de Ética contra General Girão
Diante dos episódios, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) acionou o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados contra General Girão, pedindo a apuração de sua conduta durante a manifestação.
Em publicação nas redes sociais, a parlamentar criticou a participação do deputado no ato e questionou sua responsabilidade diante do confronto ocorrido no campus.
“É inadmissível que um parlamentar participe de um ato político dentro da UFRN, fomentando agressões físicas entre estudantes”, escreveu.
“A universidade é espaço de conhecimento, liberdade e democracia, não de intimidação e violência política!”, acrescentou Duda, que defendeu a investigação de uma possível quebra de decoro parlamentar.
“Mandato parlamentar não é licença para abuso de autoridade”, concluiu.
A representação busca levar o caso à esfera disciplinar da Câmara, mas caberá ao Conselho de Ética avaliar o pedido e decidir sobre os encaminhamentos. A iniciativa ocorre em meio à repercussão da violência registrada na universidade e às cobranças por responsabilização dos envolvidos.
Confronto ocorre na reta final da eleição
A manifestação foi realizada a poucos dias do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), quando Lula e Flávio Bolsonaro disputam a Presidência da República. A mobilização também foi alvo de uma denúncia registrada no aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral, que enviou uma equipe ao local.
General Girão, por sua vez, responsabilizou setores da esquerda pelo confronto e alegou que apoiadores da manifestação também sofreram agressões e tiveram veículos danificados.