O “Exército do Lula” cumpriu um papel, mas não será possível repetir o mesmo modelo
O avanço das big techs contra táticas como a de Janones nas últimas eleições só será enfrentado com verdadeira soberania digital
Foto: Lula e o deputado federal André Janones. (Reprodução)
O “Exército do Lula” cumpriu um papel importante na reeleição do presidente Lula, mas não deve ser tratado como modelo permanente de organização política. Não se trata de uma crítica negativa. É uma reflexão sobre as condições excepcionais em que essa forma de mobilização surgiu e sobre os limites de sua reprodução.
O desafio agora é outro: construir soberania digital para impedir que, na próxima eleição, as big techs repitam o que fizeram. A sociedade civil organizada, os movimentos sociais, sindicais e partidários e o próprio governo precisam agir para criar infraestrutura própria de soberania digital a partir da filosofia do software livre. Regular as plataformas é necessário, mas insuficiente. Sem tecnologia nacional, sem infraestrutura comunitária e sem controle sobre dados e algoritmos, continuaremos dependentes de empresas cujos interesses não são os nossos.
Já há no Brasil iniciativas e condições para construir nano data centers soberanos operados com software livre. É possível criar plataformas livres, redes comunitárias, sistemas de armazenamento e comunicação controlados por instituições públicas e organizações da sociedade civil. Isso exige investimento, formação técnica, governança democrática e decisão política. Se não fizermos isso, para além da regulamentação das plataformas, será mais uma prova de que não compreendemos o verdadeiro problema: a falta de tecnologia nacional e a ausência de uma infraestrutura digital soberana.
As organizações da esquerda precisam recuperar a capilaridade da articulação e da organização nos territórios. Hoje, muitas atuam apenas como estruturas burocráticas: não fomentam núcleos de base, não articulam bairros, cidades e regiões e se distanciam da vida concreta das pessoas. É preciso voltar a se organizar no território, no encontro, na escuta e na construção solidária e, ao mesmo tempo, incorporar as tecnologias livres, o software livre e a soberania digital como instrumentos para ampliar e facilitar o envolvimento político, cultural, econômico e social nas regiões, cidades e bairros.
Essa combinação é decisiva: o território é a raiz; o software livre e a soberania digital são condições para organizar com capilaridade. Sem território, a organização vira burocracia. Sem soberania digital, o território fica vulnerável às plataformas das big techs, que capturam dados, modulam subjetividades e o debate público e definem quem é visto e quem é silenciado.
O “Exército do Lula” ajudou a mobilizar a campanha, mas longe de ser o único fator. A juventude nas ruas, os estudantes, os idosos indo votar, as mobilizações das mulheres, as ações dos agentes territoriais, os diversos canais denominados “Time Lula”, as torcidas organizadas, as organizações das periferias, os fandoms (comunidades de fãs de artistas famosas), os times de candidatos a governador, os movimentos sociais, os sindicatos e as estruturas partidárias atuaram de forma independente e também foram decisivos. No Nordeste, o presidente Lula teve 13,6 milhões de votos a mais que o candidato da extrema direita, e isso tem uma história mais longa do que as ações de uma campanha eleitoral.
Também é preciso corrigir uma narrativa equivocada: o “Exército do Lula” não hackeou o algoritmo da Meta. Não houve hackeamento. O que houve foi a centralização de comando promovida por Janones para o uso intensivo das redes existentes diante de um medo real e legítimo de perder as eleições para um projeto fascista. Essa centralização só funcionou porque havia uma situação de emergência democrática. Sem esse contexto de medo e de risco extremo, dificilmente teria funcionado da mesma forma.
Além disso, a partir dessa experiência, a Meta irá criar maneiras de impedir esse tipo de ação.
Por exemplo: Em 2010, há 16 anos, a nossa eterna presidenta Dilma foi a 2ª pessoa mais comentada no mundo no Twitter, ficando atrás apenas do cantor Justin Bieber e superando a cantora Lady Gaga. Nessa primeira campanha da Dilma, eu fazia parte de uma equipe que trabalhava 24 horas por dia. Em determinado momento, imaginei um aplicativo capaz de enviar diferentes mensagens, de diferentes remetentes, para diferentes destinatários. O hacker Tiago, que também fazia parte dessa equipe, conseguiu fazer o app funcionar. A partir daí, eu era responsável por enviar mensagens de comando para 20 mil pessoas pela manhã e 20 mil pessoas à tarde. Assim, conseguíamos subir duas hashtags por dia, uma positiva pra Dilma e outra negativa para o José Serra por nossa escolha, trabalhando com esse método e junto com todas as demais articulações da campanha. A partir dessa experiência, o Twitter mudou e passou a impedir essa mesma prática.
Passado o momento de medo, é natural que esse tipo de estrutura centralizada se desarticule. Além disso, a estética do exército, do general mesmo que de brincadeira, de alguém sempre mandando fazer isso ou aquilo, não combina com a nossa cultura. A estética do grito também não. A esquerda se fortalece com participação, autonomia e construção coletiva, não com hierarquia militarizada. O “Exército do Lula”, mesmo sendo uma brincadeira, foi útil como resposta emergencial, mas não serve como modelo de ação política cotidiana.
Agora é hora de agir para além das análises.