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O futuro do socialismo pode ser o seu passado

Em artigo publicado pelo The New York Times em especial sobre a Revolução Russa, Sunkara faz uma análise da revolução de Outubro à luz dos movimentos anticapitalistas do presente.

Trabalhadores de um moinho de tecelagem na Rússia de 1917 - Credit RIA Novosti/Sputnik via Associated Press
Trabalhadores de um moinho de tecelagem na Rússia de 1917 - Credit RIA Novosti/Sputnik via Associated Press

Cem anos depois do trem blindado de Lênin chegar à Estação Finlândia e desencadear os eventos que levaram aos gulags de Stálin, a ideia que nós deveríamos retornar a essa história nos inspirarmos pode soar absurda. Mas havia uma boa razão para que os Bolcheviques uma vez se chamarem “social- democratas”. Eles eram parte de um amplo movimento de partidos em crescimento que buscavam lutar por maior democracia política e, usando a riqueza e a nova classe trabalhadora criada pelo capitalismo, estender os direitos democráticos para as esferas econômica e social, o que nenhum capitalista permitiria.

O movimento comunista inicial nunca rejeitou essa premissa ampla. Ele nasceu de uma sensação de traição por parte dos partidos de esquerda mais moderados da Segunda Internacional, a aliança de partidos socialistas e trabalhistas de 20 países fundada em Paris em 1889. Em toda a Europa, partido atrás de partido fez o impensável, abandonando suas promessas de solidariedade às classes trabalhadoras entre todas as nações e apoiando seus respectivos governos na I Guerra Mundial. Aqueles que permaneceram leais às velhas ideias se autodenominaram “comunistas” para se distanciar dos socialistas que haviam cometido um abate que custou 16 milhões de vidas. (Em meio à carnificina, a Segunda Internacional se desmoronou em 1916).

Certamente, a movimentação nobre dos comunistas a fim de parar a guerra e criar uma via humana para a modernidade na Rússia atrasada acabou aparentemente afirmando a noção burkeana de que qualquer tentativa de revogar uma ordem injusta acabaria somente por criar outra.

A maioria dos socialistas tem sido castigada pelas lições do comunismo do século XX. Hoje, muitos dos que teriam se animado com a Revolução de Outubro têm menos confiança nas perspectivas de transformar radicalmente o mundo em uma única geração. Eles colocam uma ênfase no pluralismo político, no dissenso e na diversidade.

Ainda assim, o espectro do socialismo evoca o medo de um novo totalitarismo. Um relatório recente da Fundação Memorial das Vítimas do Comunismo revela que os jovens tendem a ver o socialismo favoravelmente e que um “impulso Bernie Sanders” pode estar contribuindo para um giro millenial contra o capitalismo. Ano passado, o próprio presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Thomas J. Donohue, achou necessário lembrar os leitores que o “Socialismo é um Perigoso Caminho para a América”.

A direita denuncia ainda o socialismo como um sistema econômico que levará à miséria e privação, mas com menos ênfase no autoritarismo político que frequentemente andava de mãos dadas com o socialismo no poder. Isso talvez ocorra em virtude das elites hoje não terem os direitos democráticos na linha de frente de seus pensamentos – talvez porque eles sabem que as sociedades que eles dirigem são difíceis de justificar nesses termos.

O capitalismo é um sistema econômico: um modo de organizar a produção para o mercado através da propriedade privada e da motivação do lucro. Na medida em que permitiu a democracia, ele fez isso com extrema relutância. É por isso que os primeiros movimentos operários como os cartistas britânicos no começo do século XIX organizaram-se em primeiro lugar pelos direitos democráticos. Dirigentes capitalistas e socialistas acreditavam igualmente que a luta pelo sufrágio universal encorajaria trabalhadores a usar seus votos na esfera política para demandar uma ordem econômica que os colocasse no controle.

Não funcionou desse jeito. Por todo o Ocidente, os trabalhadores vieram a aceitar uma espécie de compromisso de classe. O empreendimento privado seria domesticado, não superado, e uma maior parcela de uma torta em crescimento forneceria benefícios universais através de generosos estados de bem-estar. Os direitos políticos também seriam consagrados, à medida que o capitalismo evoluía e adaptava-se de tal forma que uma sociedade civil democrática e um sistema econômico autoritário fizeram um improvável, porém aparentemente bem-sucedido, emparelhamento.

Em 2017, tal arranjo está bastante morto. Com os movimentos da classe trabalhadora adormecidos, o capital tem surtado, traçando um curso destrutivo, sem mesmo a promessa de crescimento sustentado. A raiva que levou à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e ao voto pelo Brexit na Grã-Bretanha é palpável. As pessoas sentem-se como se elas estivessem em um trem fugitivo com um destino desconhecido e, por uma boa razão, desejam voltar às misérias familiares.

Em meio a essa turbulência, alguns temem um retorno para a Estação da Finlândia através de líderes abertamente socialistas como o Sr. Sanders e Jean-Luc Mélenchon na França. Mas a ameaça para a democracia hoje está vindo da direita, não da esquerda. A política parece apresentar dois caminhos a seguir, ambas as formas decididamente não-stalinistas de coletivismo autoritário.

A “Estação Cingapura” é o destino inconfesso do trem do centro neoliberal. É um lugar onde pessoas de todos os credos e cores são respeitadas – desde que conheçam o seu lugar. Afinal, as pessoas são grosseiras e irracionais, incapazes de governar. Deixem a administração da Estação Cingapura para os especialistas.

Esta é uma visão viável para as elites que analisam o surgimento de um populismo errático de direita com medo justificado. Muitos deles argumentam a necessidade das medidas de austeridade para manter uma frágil economia global e preocupam-se com o fato de que os eleitores não querem sofrer no curto prazo para se poupar das disfunções de longo prazo. O mesmo se aplica à ameaça iminente de mudança climática: a ciência é incontestável entre os cientistas, mas ainda assim está em debate na esfera pública.

O modelo Cingapura não é o pior de todos os possíveis pontos finais. É aquele em que especialistas são autorizados a ser especialistas, capitalistas são autorizados a acumular e trabalhadores comuns são autorizados a ter um semblante de estabilidade. Mas não deixa espaço para os passageiros do trem gritarem “Pare!” e a pegarem um destino de sua própria escolha.

A “Estação Budapeste”, assim nomeado por causa dos poderosos partidos de direita que dominam a Hungria hoje, é a parada final da direita populista. Budapeste nos permite ao menos nos sentir de volta ao comando. Chegamos lá, desaclopando alguns dos vagões, acelerando para a frente e lentamente retrocedendo. Nós estamos todos nisso juntos, a menos que você seja um estrangeiro que não tem um ticket e, então, má sorte.

O “trem Trump” é dirigido dessa maneira. O presidente Trump não pode oferecer ganhos tangíveis para as pessoas comuns desafiando as elites, mas ele pode oferecer uma valorização superficial do “trabalhador” e estimular a raiva pelas supostas causas do declínio nacional – imigrantes, acordos comerciais ruins, globalistas cosmopolitas. A imprensa, a academia e quaisquer outras partes não- conformes da sociedade civil estão sob ataque. Enquanto isso, além de ter que ajustar mais protecionismo e políticas de imigração restritivas, tudo permanece o mesmo para a maioria das corporações.

Mas há uma terceira alternativa: voltar à “Estação Finlândia”, com todas as lições do passado. Desta vez, as pessoas conseguem votar. Bem, debater, deliberar e depois votar – e ter fé que as pessoas podem organizar-se juntas para traçar novos destinos para a humanidade.

Despojado para a sua essência, e voltado às suas raízes, o socialismo é uma ideologia da democracia radical. Numa época em que as liberdades estão sob ataque, o socialismo procura empoderar a sociedade civil para permitir a participação nas decisões que afetam nossas vidas. Uma burocracia estatal enorme, é claro, pode ser tão alienante e antidemocrática quanto as salas de reuniões corporativas, por isso precisamos pensar fortemente sobre as novas formas que a propriedade social poderia tomar.

Alguns grandes conceitos já devem estar claros: cooperativas de trabalhadores, competindo em um mercado regulamentado; serviços governamentais coordenados com a ajuda do planejamento do cidadão; e a provisão dos conceitos básicos necessários para viver uma boa vida (educação, habitação e cuidados de saúde) garantidos como direitos sociais. Em outras palavras, um mundo onde as pessoas têm a liberdade de atingir suas potencialidades, independentemente das circunstâncias do nascimento.

Nós só podemos chegar a esta estação da Finlândia com o apoio de uma maioria; essa é uma das razões pelas quais os socialistas são defensores tão enérgicos da democracia e do pluralismo. Mas não podemos ignorar a perda de inocência do socialismo ao longo do século passado. Podemos rejeitar a versão de Lênin e os bolcheviques como demônios loucos e optar por vê-los como pessoas bem intencionadas tentando construir um mundo melhor em uma crise, mas nós devemos descobrir como evitar suas falhas.

Esse projeto implica um retorno à social-democracia. Não a social-democracia de François Hollande, mas a dos primeiros dias da Segunda Internacional. Esta social-democracia envolveria um compromisso com uma sociedade civil livre, especialmente para as vozes de oposição; a necessidade de verificações e balanços institucionais sobre o poder; e uma visão de uma transição para o socialismo que não requer uma ruptura do “ano zero” com o presente.

Nossa Estação Finlândia não do século XXI não será um paraíso. Você pode sentir desgosto e miséria lá. Mas será um lugar que permite a muitos agora esmagados pela desigualdade participarem da criação de um novo mundo.

(Artigo originalmente publicado em 26 de junho pelo The New York Times. Tradução de Charles Rosa)

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Apresentação

Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento. Como forma de contribuir para os debates que ocorrerão na VI Conferência Nacional de nossa corrente, o Movimento Esquerda Socialista, este volume reúne dois números da revista (7 e 8). Dessa forma, pretendemos oferecer à militância e a nossos aliados e leitores documentos que constam do temário oficial do evento, bem como materiais que possam subsidiar as discussões que se realizarão. Na expectativa de uma VI Conferência de debates proveitosos para nossa corrente, desejamos a todas e todos uma boa leitura deste volume!

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