Crônicas de uma Bolívia convulsionada #3
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Crônicas de uma Bolívia convulsionada #3

Uma marcha inesperada e a subida a El Alto, o centro do levante

Estevan Campos 6 jun 2026, 08:27

Foto: Protesto contra o governo boliviano na cidade de El Alto. (AM900/Reprodução)

Segunda-feira, acordei com o plano de terminar os primeiros textos e preparar a entrevista e seminário da noite. Vou tomar café e ler as notícias. Vejo que terá uma marcha de El Alto para La Paz. Não consigo mais pegar o início, a concentração era às 6h, saída às 9h, já são quase 8h.

Eu estou muito perto do Palácio do governo, se eu não sei como encontrar a marcha, penso que a marcha me encontrará. O tempo é curto, preciso terminar a primeira crônica. Vai dar tempo?

Subo para o quarto e me ponho a escrever. Não estou acostumado em escrever sobre política com esse estilo, mas o texto flui, afinal o sábado com a Marisol foi assim, fluiu. Antes de escrever paro para fazer “mil cálculos” no google maps, tentando prever quanto tempo eu tenho antes da marcha chegar. Estou quase no fim, vai dar tempo.

Envio o arquivo e surge o som. A marcha chegou. Jogo todas as coisas na mochila, pego água, microfone, roupas (quanto tempo será que dura?) e corro. “É melhor viver o processo do que escrever sobre ele”, a lembrança d’O final do Estado e a Revolução é inevitável.

Exagero? Certamente, mas não é uma comparação. Embora a situação por aqui seja o que chamamos de pré-revolucionária. A crise é profunda, o movimento tem muita força, capaz de causar um prejuízo à burguesia na casa de bilhões, mas ainda falta a direção política e organismos de duplo poder. Pode-se avançar pra isso? Difícil dizer, não é o que parece, infelizmente.

Chego na esquina da Av. Mariscal Santa Cruz, a marcha é grande, mas não gigante. Me parece reunir cerca de 3 mil pessoas, talvez um pouco mais. Vou para a dianteira da marcha que já sobe a Calle Ayacucho e se aproxima do primeiro bloqueio policial. É inevitável um certo receio quanto à possibilidade de conflito, “e se o ‘pau quebrar’, que eu faço?”, no Brasil, bem ou mal, já sabemos como e até onde a polícia vai em um ato, aqui é diferente. Eu não faço ideia.

Chego à frente no momento que a marcha chega ao primeiro bloqueio. Duas colunas do batalhão de choque estão posicionadas. O bloqueio é em frente ao Palácio da vice-presidência, na esquina da rua Mercado. As palavras de ordem, a “agitação”, é sempre um aspecto que me atrai sobre as manifestações de outros países. Aqui, é sem bateria, “só no gogó”.

Alguém chama “qué queremos?” e os outros respondem “que renuncie!”, “qué queremos?”, “que renuncie!”, e na terceira vez, “qué queremos carajo?”, “que renuncie, carajo!”. Sempre terminando com um, “El Alto de pié!” e todos complementam, “nunca de rodillas!”. Tem um pertencimento se expressando nesse grito que é difícil descrever.

Começam declarações e tem alguma mídia por aqui, mas menos que na véspera em frente a reunião da COB. Não era só eu que não estava com essa marcha no radar. As outras forças da esquerda também não estão aqui. Faço uns registros e vou tentar pescar algum contato.

Difícil saber onde focar. Ainda que não seja tão numerosa, tem uma característica de movimento massivo, aqui e ali se formam rodas em torno de alguém discursando. Homens, mulheres, todos falam e colocam os seus motivos para estar ali. Caminho pela marcha para “sentir” esse clima. Todos os discursos com muito teor político, anti-imperialista, defesa das riquezas naturais e claro, porrada no presidente. “Que renuncie, carajo!”. Como a marcha está em frente ao Palácio da vice-presidência, sobra pra Lara, o vice. Eles não usaram essas palavras, mas o tom era de “qué se vayan todos”.

A mídia se concentra lá na frente. Alguém importante vai falar, corro pra pegar a declaração. São os dirigentes do 5º Distrito. A marcha era só do 5º Distrito de El Alto, por isso o tamanho.Provocadores se aproximam, estão em um número maior do que em frente à reunião da COB. Mas aqui não tiveram muito tempo para chamar a atenção. Um grupo grande de “marchistas” vai ali resolver. Expulsam sem precisar de medidas mais fortes.

Começa a dispersar um pouco. Pego um dos dirigentes na saída, André, converso com ele rapidamente, ele e outros estão com pressa. Me explica que a marcha é só do 5º distrito, que é o mais populoso de El Alto, vivem ali 450 mil pessoas. Tento esticar a conversa, mas não tenho sucesso, ele é puxado pelo braço para sair e saem pela rua Mercado. A marcha já esvaziou, foi rápida, hora de voltar. As pessoas estão sentadas pelas ruas, as “cholas”, muitas, muita gente ficou pra trás, a dispersão não foi centralizada.

Depois do almoço, volto para o hotel, aproveitar para retomar todos os contatos. É uma atividade peculiar essa. Buscar contatos, sair para registrar os eventos, reunir com uns, entrevistar outros, acompanhar as notícias, colocar o possível no papel. Escrever uma análise “de fôlego” é impossível agora.

O final da tarde vai chegando e nenhum sinal de Marisol. Ela é o contato com o companheiro do Trópico que vou entrevistar. “E se ela não aparecer?”, acabei de negar o agendamento de outra entrevista… já são 18h e a entrevista está marcada para 18h30. Será que errei em não marcar a outra? 18h15 Marisol aparece, relaxo.

A entrevista é com Álvaro Morales, direto de Chapare, cidade onde vive Evo. Ele é um quadro jovem, engenheiro formado há poucos anos. Fala com propriedade sobre a situação. Antes, diz, precisamos entender como chegamos até aqui. Faz um resgate, a partir da visão do seu grupo, do que passou para que o MAS implodisse, os erros do governo Arce estão no centro. Não entra em tantos detalhes quanto Marisol na nossa caminhada, mas existe uma leitura comum. A entrevista se estende por quase uma hora e meia, José Luis, companheiro do México, já está me ligando. Acelero o fim da entrevista e despeço rapidamente de Marisol. “Amanhã falamos”.

A atividade seguinte é um seminário organizado pelos companheiros do CADTM do México, somos eu e José Crespo a fazer as aberturas. Ele é ex-embaixador da Bolívia no México, “só” o embaixador que recebeu Evo quando ele saiu da Bolívia após o golpe de Jeanine Añez. Me pedem pra falar primeiro, bahh, dureza. Vinte minutos falando em espanhol, antes de um palestrante que certamente sabe mais do que eu sobre o assunto.

Crespo é muito gentil, elogia minha fala, e apresenta sua leitura. Tem pontos em comum com a dos companheiros do Evo Pueblo, mas também muitas diferenças. A fala dele é muito completa e lúcida, “não houve só fragmentação da esquerda, ela perdeu força, todas as partes (ex-MAS) juntas não alcançaram 50%, em 2025, do que o MAS alcançou em seu auge”. Dura realidade.

A atividade termina tarde, a terça me espera, felizmente já está “cheia”. Haverá um grande “cabildo” em El Alto, reunindo COB, FEJUVE e Tupac Katari. Não faço ideia de como chegar lá, Marisol disse que me levaria, mas chegará a tempo?… Acordo na terça ansioso pela subida a El Alto. A cidade tem muita história. Lembro de um camarada que falava sobre cidades como essa, quando se “anda pisando na história”.

Combinei com Marisol a ida a El Alto e com America, companheira do Feminismo Comunitário Abya Yala uma visita às companheiras do movimento que estão em greve de fome. Preciso antes fechar a crônica e participar de uma reunião.

America me passou o endereço onde é a greve de fome, é perto do hotel. Saio um pouco atrasado. Chegando, vejo que é ao lado da Praça Sucre, onde fica o “Penal de San Pedro”, prisão antiga, no centro da cidade. Passamos por aqui eu e Marisol na caminhada, me disse que aí está o ex-presidente Luis Arce, preso por corrupção ao fim de seu mandato, em 2025. Seu filho também foi preso. Mesmo as pessoas de esquerda que ouvi, disseram que a corrupção aconteceu mesmo. É parte da crise da esquerda.

Chego um pouco atrasado, perdemos o início do horário de visita. Me desculpo pelo atraso, America diz que está tudo bem, “aqui todos somos um pouco assim”.

A greve de fome é no prédio da “Defensoria del Pueblo”, batemos à porta e quem abre é um policial. Não fico seguro, a coisa não está fácil para estrangeiros. Temos que esperar saírem os outros visitantes. Quando abre a porta, saem os companheiros do PSTU que havia encontrado em frente à COB.

– Vai subir a El Alto para o Cabildo? Me perguntam.- Vou, mas depois, estou esperando uma companheira que vai me levar, não é bom subir sozinho.“Nos vemos”, se despedem de maneira simpática.

Entramos e o policial manda abrir as mochilas. Tenho algumas roupas, o carregador portátil e o microfone. “É imprensa?”, pergunta o policial, eu hesito, vou responder “imprensa” e America me interrompe, “somos visita”. “Sempre visita” cochicha ao pé do meu ouvido. O policial retém nossos documentos, o que não me agrada, mas America me diz que está seguro. Já não gosto de polícia, imagina em um país em situação pré-revolucionária e que está expulsando estrangeiros que se envolveram nas manifestações?

As companheiras em greve de fome estão firmes, são já 12 dias. Vieram com uma das marchas fortes das semanas anteriores, entraram no prédio e não saíram mais. A troca e o afeto entre America e as companheiras são profundos, genuínos… Só temos 10 minutos.

Abro o gravador e dou a palavra às companheiras. Maria Oporto começa falando, sua fala é contundente, mesmo há 12 dias sem se alimentar ela tem uma força surpreendente. Ruth Veronica está com a voz um pouco mais fraca, greve de fome, 12 dias… mas sua fala é forte, consciente dos problemas e desafios, “precisamos de uma frente única”, diz ela. Não demora e a funcionária da Defensoria bate à porta, nosso tempo acabou. A saída foi tranquila, mais do que eu esperava.

Me despeço de America, agradecendo e desejando força. Ela reforça a orientação, “não vá sozinho a El Alto, se precisar, te indico uma companheira para te receber”. Agradeço, talvez precise mesmo.

Marisol me liga, tem bloqueios no caminho e não conseguiu pegar o transporte, vem a pé, vai atrasar. Chega perto de 13h, está com Andrea. Vamos a El Alto.

O cabildo (assembleia) já acabou, foi onde está o bloqueio do acesso de El Alto para La Paz, no pedágio da Av. das Nações Unidas. Subimos da estação Obelisco para a estação Morada, de lá, para a estação 16 de Julho. No caminho, a visão dos picos das montanhas, Chacaltaya ao norte, Illimani ao sudeste de La Paz. Do teleférico já é visível a diferença de El Alto para La Paz, na arquitetura, mas também no clima. Para esse lado, não circulam carros, muita gente na rua e lixo e pedras espalhadas. São os bloqueios.

Passamos por cima do local onde aconteceu o cabildo, ainda tem muita gente aí. Na saída da estação, Marisol para pra comprarmos folha de coca, 5 bolivianos um saquinho cheio. Colocamos umas folhas na boca e vamos, “coqueando”. Marisol e Andrea me dizem que precisam passar no banco. No caminho entre estação, banco e cabildo, passamos por uma fila enorme. “Para que é?” pergunta Marisol, “ovo” responde um senhor na fila. “Quanto está?”, “sessenta”. Seguimos. Andrea e Marisol me falam do quanto é perigoso aqui em El Alto. “Não agora que está de dia”, mas bem perigoso.

Chegando ao cabildo, a tensão é alta. Acabaram de aprovar a manutenção dos bloqueios e a mídia voltou com força a falar do Estado de exceção. Além dessa tensão, há outra. Os movimentos camponeses, todos indígenas, tem muita resistência (beira à aversão) a presença das pessoas da cidade nos seus espaços. Os olhares sobre mim só aumentam minha tensão, ela piora ao perceber que Marisol também não está confortável. Ela procura alguém conhecido. Pergunta pelos de Tarija, sua cidade natal, e pelos do Trópico, onde Evo mantém sua liderança menos impactada por toda a crise.

Encontra Cristian Velasco, porta-voz do Evo Pueblo em La Paz. Cristian é jovem, muito tranquilo, não quer gravar ali porque ali “é um espaço das organizações sociais, ele é um representante de um instrumento político”. Conversamos um tanto, a percepção dele é que a coisa caminha para um beco sem saída. Que o espaço de mediação está diminuindo.

Um pouco da tensão se vai, mas não acaba. Marisol quer arranjar alguma declaração ou entrevista ali. Eu sigo ela, mas está na cara que muitos não estão felizes com a minha presença. Marisol explica que comprou a folha de coca também para isso, aceitação. Ela anda com o saquinho com as folhas na mão, “se nos veem coqueando, veem que somos um deles”, me diz. Uns dirigentes vão fazer um pronunciamento para os canais independentes, me permitem que grave. É um alerta para um possível banho de sangue que está por vir, caso Rodrigo Paz avance com o Estado de exceção Pegamos mais uma declaração e vamos.

Na volta, uma estátua de Che Guevara na praça central. Um pouco adiante, uma coluna enorme com a palavra de ordem: “El Alto de pié, nunca de rodillas!”. As ruas de El Alto são tomadas de comércio informal, um senhor, de abrigo esportivo um pouco surrado e uma camisa do Barcelona de Guayaquil, dança com um chapéu para receber uns trocados, é o que ele tem para oferecer no meio de tanta gente oferecendo uma coisa. Andrea tinha me dito do peso do comércio de segunda e de terceira mão. Poucos compram as coisas nas lojas, é muito caro. Todo mundo “se vira”.

Fazemos o caminho de volta, Andrea encontra um casal de amigos e segue com eles. Marisol vai me acompanhar até o hotel, a “mobilidade” dela passa em frente. Quando nos aproximamos da esquina, ela vê o micro-ônibus verde claro, “é o meu, tchau, amanhã falamos!”, e sai correndo. O micro-ônibus ignora o aceno dela e vira a esquina da Rua Oruro, é uma descida, Marisol corre atrás do transporte. Paro na esquina da Murillo com a Oruro, lá longe, na esquina da Mariscal Santa Cruz o sinal está fechado. Marisol alcança o transporte e embarca.

Saio pensando na cena. Na “correria” da Marisol, da vida, do tanto de gente “se virando”. À noite, já me preparando pra dormir, o anúncio da renúncia de dois Ministros, da Educação e da Defesa (!!). Não demora muito e vem a notícia que me alerta, quem assume a defesa é Ernesto Justiniano, até então Ministro da Defesa Social e Substâncias Controladas. É o cara da relação com o DEA e com o governo estadunidense.

Preparam um giro repressivo. A conclusão é inescapável. Se terão força pra isso, só os próximos dias poderão dizer.


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