Protestos em Porto Rico: um processo em disputa

Entrevista com Ian Suárez, militante porto-riquenho do “Centro para el Desarrollo Político Cultural” e dos “Comedores Sociales de Puerto Rico”.

Carolina Ucha 25 jul 2019, 17:08

No último dia 23 de julho cerca de 500 mil pessoas foram às ruas de San Juan, Porto Rico, para exigir a saída do governador da ilha, Ricardo Rosselló. Mesmo com uma chuva torrencial, porto-riquenhos de todas as idades, celebridades como Ricky Martin e René (ex-membro do grupo Calle 13), marcharam pedindo a renúncia do governador após o vazamento de mensagens em que ele, seus assessores e alguns funcionários de sua administração conversavam sobre delitos de todos os tipos, como obstrução da justiça e uso de fundos públicos para fins privados, além de diversos comentários misóginos, homofóbicos, racistas, burlando-se dos cidadãos que tiveram suas famílias destruídas pelo furacão Maria, que ocorreu em 2017 e matou centenas de pessoas.
A Revista Movimento entrevistou o estudante universitário Ian Suarez, porto-riquenho militante do “Centro para el Desarollo Político Cultural” e dos “Comedores Sociales de Puerto Rico”, para entender um pouco mais da luta dos bravos boricuas.

RM– Você pode comentar o que está acontecendo em Porto Rico?
Sim, houve uma explosão de gente nas ruas, desde os últimos 6 ou 7 dias, exigindo a renúncia do governador Ricardo Rosselló. Se pode dizer que são um acúmulo de políticas neoliberais que se vem dando com este governo que já dura 2 anos: pedem austeridade para educação, para saúde, pensões… E agora se soma a um caso de corrupção através de contratos fraudulentos com a secretária de educação, Julia Keleher. Isso aconteceu enquanto eu estou no Brasil, me mantive informado do que está ocorrendo, mas tem sido um pouco difícil me manter completamente atualizado dos debates das organizações. Ao mesmo tempo, foram divulgadas mensagens do Telegram que mostram conversas entre o governador de Porto Rico e alguns assessores, onde planejavam suas estratégias, que tipos de contratos faziam e aceitavam. Faziam críticas severas e depreciativas à oposição, além de demonstrar conspiração e má administração dos fundos públicos.
Outro aspecto subjetivo é o tipo de burlas que eles faziam à periferia, à comunidade lgbt, fazem piadas com a prefeita que é lésbica, com expressões violentas, onde chegam a dizer que atirariam nela, além de piadas de pessoas negras e obesas, também.

Como estão as mobilizações e quais os setores que estão nas ruas?

Os setores que estão se mobilizando são os que historicamente já o fazem, a Federação de Professores, que sempre teve a prática de fazer greves e sair às ruas. O que tenho entendido é que foi possível aglutinar as mobilizações com os sindicatos, movimentos culturais e feministas.

O que você acha que os brasileiros podem aprender com esse processo de luta?

Eu acredito que aquilo se pode aprender desse processo é que ele está em disputa. Apesar de os movimentos sociais e sindicatos estarem em debilidade em relação à correlação de forças, há muito trabalho que não foi deixado de ser feito, eles sempre denunciaram os casos de corrupção. A pergunta é o que vai acontecer depois. Por exemplo, a dívida externa do nosso país segue sendo renegociada, por mais que Ricardo Rosselló possa deixar o seu cargo, qual será o futuro dessa dívida? Há alguns anos atrás foi sancionado no Congresso dos Estados Unidos a “Lei Promessa”, que entre suas medidas de controle, cria uma junta de controle fiscal a Porto Rico, e isso tem um peso central em quando é o nosso orçamento e na negociação da dívida.

E o que quer a Esquerda na atual conjuntura? Quais são as reivindicações históricas da esquerda em Porto Rico?

Agora o maior desafio é o tema da colonização, fomos colônia da Espanha e passamos a ser colônia dos EUA então somos um povo que nunca teve o poder de autodeterminar-se. Então temos que pensar como construímos consciência, porque as raízes da dependência são muito fortes e aí temos que gerar processos que permitam à população repensar e se emancipar de toda uma lógica colonial que está muito enraizada.

Qual o papel da juventude em Porto Rico no mundo na atual conjuntura?

Em geral é a juventude que tem a responsabilidade histórica de pensar uma mudança. A juventude em Porto Rico se resume à universidade, é muito difícil encontrar juventudes organizadas pra fora delas, não há juventude campesina, não existe organização de secundaristas, este setor está muito disperso. Eu acredito que é necessário muito trabalho e afinco, porque é preciso dar uma visão mais classista que ainda não estão como questão principal em nenhum processo. Já a nível mundial, cabe à juventude a construção de uma nova realidade, sermos criativos no processo e nos organizarmos.


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