Bolívia: outro elo fraco do “Escudo” de Trump
Sem uma base social que defenda sua gestão e preso no fogo cruzado entre as ruas, o governo boliviano sobrevive em um limbo e fragmentado
Foto: Aliados de Trump durante o lançamento do “Escudo das Américas”. (Daniel Torok/OWH)
Via El Destape
Há menos de sete meses de assumir a presidência da Bolívia, Rodrigo Paz enfrenta uma onda massiva de protestos e o fantasma da renúncia, agitado tanto pela esquerda quanto pela ultradireita. Sua gestão escancarou que aplicar receitas de ajuste ao mesmo tempo em que se exclui a representação popular não sai barato em um país com estruturas sindicais e sociais fortes. Sem base própria, o mandatário resiste sustentado quase exclusivamente pela blindagem de Washington e de seus aliados regionais. Agora, Paz enfrenta o dilema de reforçar uma coalizão de direita ou ceder parte do poder aos setores que o levaram à presidência.
Ruas vazias, outras tomadas por multidões, com carros incendiados e bancos fechados. Sindicatos, mineiros, trabalhadores do transporte e grupos rurais e indígenas protestam desde o começo do mês contra as medidas de austeridade do primeiro mandatário que não pertence à esquerda em quase 20 anos. Na quarta-feira, finalmente, Paz respondeu a semanas de reivindicações. O presidente anunciou mudanças em seu gabinete, mas não deu detalhes sobre essa reorganização. “Do governo quero anunciar que não apenas vamos realizar uma reforma ministerial, porque precisamos reformar um gabinete que tenha capacidade de escutar”, disse. Uma troca de peças sem calendário nem detalhes não é suficiente para alguns manifestantes, já que muitos continuaram pedindo diretamente sua renúncia.
É possível governar a Bolívia de um gabinete, dando as costas às ruas? O caso de Rodrigo Paz pode ser uma demonstração de que essa decisão tem, ao menos, custos elevados. Fica cada vez mais claro que o presidente traiu sua própria base de sustentação, e a resposta nas ruas e praças não demorou a chegar.
“É preciso entender o caráter da mobilização: ela tem a ver com o fato de que são os eleitores de Rodrigo Paz que estão se manifestando. Paz não chegou ao poder com a direita, mas sim com a esquerda. E essa esquerda, ou esse bloco social mais amplo, não se sentiu incluído no governo”, disse ao El Destape Susana Bejarano, cientista política boliviana, acrescentando: “Paz tem a direita integrada ao seu governo, gente do agronegócio, das empresas etc. Mas não tem o movimento popular”.
O bloco social que o levou ao poder era popular e indígena, mas, ao assumir, em primeiro lugar ele montou um gabinete de tecnocratas de classe média e empresários, deixando de fora os setores populares; e, em segundo lugar, suas políticas não foram direcionadas a esses últimos.
Quanto ao primeiro ponto, Paz anunciou mudanças, mas até o momento elas se mostraram insuficientes e até paradoxais. “Renunciou o ministro do Trabalho, que era o único do gabinete de origem aimará e que era importante porque foi quem conseguiu a articulação entre as organizações sociais e a chapa formada por Paz e seu vice-presidente Edmand Lara. Ele sai dizendo: ‘não posso continuar vendo meu povo mobilizado sem nenhum tipo de saída’. E quem o substitui é um constitucionalista também de origem aimará e paceño, mas um renegado das organizações sociais, da Central Operária Boliviana (COB), e alguém que apresentou a lei contra os bloqueios, com penas de 20 a 30 anos de prisão. Naturalmente, a COB saiu às ruas pedindo sua renúncia”, explicou Bejarano.
No segundo ponto, a agenda de gestos e políticas de Paz, a guinada liberalizante foi explícita. Além da busca de financiamento junto aos organismos internacionais de crédito e da reabertura das portas da Bolívia para a DEA, no plano interno ele desferiu vários golpes no bolso dos bolivianos: retirou o subsídio aos combustíveis para conter a perda de divisas, ao mesmo tempo em que indexou o preço do diesel ao valor internacional e importou o que chamaram de “gasolina lixo”, ou de baixa qualidade; retirou um subsídio à farinha e provocou um aumento quase triplo no preço do pão — passando de 30 para 80 centavos —; eliminou o imposto sobre grandes fortunas, pago por uma pequena parcela da população. “O simbolismo permanece. Você aumenta o preço do pão e, paralelamente, retira impostos dos ricos”, disse Bejarano.
Com o tema da “gasolina suja” importada, há denúncias de pelo menos 60 mil veículos registrados que sofreram danos e, embora o governo tenha prometido pagar os reparos, os entraves burocráticos impediram que os setores populares e os transportistas recuperassem o dinheiro gasto. Soma-se a isso o lucro cessante por terem ficado parados, pelo qual ninguém assume responsabilidade. Enquanto isso, a escassez de diesel continua, gerando longas filas para consegui-lo e também sobrepreços.
Paz também avançou com o Decreto Supremo 5503, uma medida que pretendia modificar várias normas do país acima da Constituição e que provocou forte rejeição social, não tanto pelo conteúdo, mas pelas formas consideradas inconstitucionais. Por fim, a medida foi revertida graças às mobilizações.
Outra medida grave, tanto por seus efeitos quanto por seu simbolismo, foi o fato de o governo rejeitar a demanda dos trabalhadores por um aumento salarial de 20% — argumentando que era economicamente impossível diante de uma inflação projetada de 20% e de um encolhimento econômico de 3% — ao mesmo tempo em que apresentou ao Legislativo um orçamento que incluía um aumento de 40% na verba destinada a salários dentro dos próprios ministérios.
E embora a Bolívia já enfrentasse problemas de combustíveis, divisas, entre outros, antes mesmo de o candidato do Partido Democrata Cristão (PDC) assumir em novembro passado, ficou claro que Paz não soube responder e apenas aprofundou problemas como o desabastecimento crônico, além de colocar a polícia e os militares nas ruas para reprimir os protestos.
Mas já não se trata apenas de uma crise de gestão; é o sintoma do colapso de um programa econômico que tentou importar o manual liberal clássico para uma sociedade com uma tradição de mobilização popular indestrutível.
O fator Trump
Paz não escondeu sua busca por se encaixar na arquitetura regional de Donald Trump. Sua ousadia em avançar contra os subsídios ao mesmo tempo em que buscava financiamento junto ao Banco Mundial e ao FMI — o que rendeu elogios ao seu programa de ajustes — e a entrega do lítio aos EUA, com um memorando assinado em abril, indicaram o rumo de sua política externa.
Além disso, Paz recebeu apoio de todos os líderes da extrema direita regional por sua participação no “Escudo das Américas”, a coalizão político-militar nascida em Miami sob impulso de Donald Trump e com o apoio de mandatários como Javier Milei, Nayib Bukele, de El Salvador, José Antonio Kast, do Chile, entre outros líderes ultraconservadores.
O grupo, que parece carregar o nome de um filme da Marvel, acompanha atentamente o que acontece na Bolívia e falou em protestos “violentos” que buscam “subverter a ordem constitucional”. E acrescentaram: “Apoiamos o Governo da Bolívia e instamos os manifestantes a expressarem suas preocupações de maneira pacífica e a respeitarem as instituições democráticas. Quando os manifestantes recorrem à violência, o Governo tem um interesse legítimo em proteger a ordem pública dentro do marco da lei”.
Além disso, um avião da Força Aérea do Chile pousou na quinta-feira na cidade boliviana de El Alto com ajuda emergencial diante da escassez generalizada vivida pelos bolivianos. Vários países europeus também pediram diálogo entre os manifestantes e a Casa Grande do Povo, sede do Executivo.
Trump e seus aliados na região, Milei entre eles, atuam neste momento como uma espécie de respirador artificial para Paz, instalando a narrativa de que os protestos seriam apenas “uma conspiração do narcotráfico e de Evo Morales” para justificar a sustentação de um presidente sem governabilidade interna.
Mas Evo Morales “não é o centro da mobilização. Ele não convocou a mobilização, mas sua marcha se soma a ela. O Governo o utiliza equivocadamente como bode expiatório, mas Evo perdeu essa capacidade de ser o eixo articulador de muitas coisas. Também perdeu a capacidade de ser o homem odiado. E as pessoas que vivem em La Paz e nas zonas periurbanas sentem o mal-estar e a traição por parte de Rodrigo Paz, e nisso Evo não tem nada a ver”, explicou a cientista política boliviana.
As demonstrações de apoio a La Paz por parte da Casa Branca e de toda a administração Trump se repetiram, e o argumento do narcotráfico não é um detalhe menor. Em uma publicação no X, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou: “Que não reste dúvida: os Estados Unidos apoiam sem reservas o governo constitucional legítimo da Bolívia. Não permitiremos que delinquentes e narcotraficantes derrubem líderes eleitos democraticamente em nosso hemisfério”.
Sem nenhum tipo de prova de que os protestos sejam impulsionados pelo narcotráfico, Washington volta a agitar esse fantasma como fez na Venezuela com Nicolás Maduro, para justificar um ataque sem precedentes contra um país sul-americano, e também repetiu isso contra outros mandatários, como no caso do presidente colombiano Gustavo Petro, acusado de ser “líder do narcotráfico”. Também ameaça designar grupos criminosos como terroristas — algo feito na Venezuela e no México e que poderia ser repetido no Brasil — para justificar ações contra esses países.
Mas a declaração de Rubio não foi isolada; foi a terceira na última semana. No domingo, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental condenou as manifestações e expressou apoio ao Governo boliviano para restabelecer “a ordem em favor da paz, da segurança e da estabilidade do povo”.
Na terça-feira, o subsecretário de Estado Christopher Landau — que esteve na posse de Paz — afirmou que “aqueles que perderam de forma esmagadora nas urnas no ano passado estão tentando derrubar o presidente”. E o número dois de Marco Rubio voltou ao tema do narcotráfico ao dizer que os manifestantes têm “apoio do crime organizado e de narcotraficantes”, além de comentar que falou com seu “amigo” Rodrigo Paz para reiterar o apoio de seu país.
Enquanto isso, há setores que tentam se apresentar como alternativas de mudança. Para Bejarano, quem “está capitalizando e esfregando as mãos diante do conflito é a ultradireita, Jorge ‘Tuto’ Quiroga, que foi adversário de Rodrigo Paz e que todos os dias aparece exigindo a necessidade de mão dura. Mas quando na Bolívia se imprime violência estatal, sobra muito pouco tempo de governo e se perde a viabilidade política”.
Basta ler os editoriais dos principais jornais bolivianos para perceber como Paz também é pressionado pela direita. Chamam-no de “inútil”, embora alguns se conformem com a ideia de que ele seja o mal menor. Outros, no entanto, são mais radicais. E Quiroga, que não para de fazer declarações alarmistas — só nesta semana afirmou que “La Paz está sob ameaça de extermínio” e classificou os bloqueios e cortes de estrada como “crimes contra a humanidade” — quer se posicionar como alternativa. Um ultradireitista que poderia estar ainda mais alinhado com Washington (e Miami).
Não são apenas as mobilizações populares ou líderes como Evo Morales — que nesta semana pediu a convocação de novas eleições em um prazo de 90 dias devido a uma espécie de ingovernabilidade de Paz —, mas também a ultradireita que tenta medir forças com o presidente.
A armadilha do “mal menor”
Apesar do cenário caótico, as condições para uma queda iminente de Paz ainda não se consolidaram. Embora o descontentamento seja sufocante no eixo de La Paz, as mobilizações não conseguiram paralisar completamente as principais rodovias do restante do país. Além disso, Paz tem uma vantagem involuntária: a profunda fragmentação da oposição popular e a falta de lideranças unificadas de esquerda ou progressistas capazes de canalizar o descontentamento em um projeto alternativo imediato.
Do outro lado, as elites e a direita tradicional boliviana observam a gestão presidencial com bastante severidade e não escondem ao chamar Paz de “inútil”; no entanto, continuam sustentando-o. Para o “círculo vermelho” empresarial e agroindustrial, Rodrigo Paz representa o “mal menor”, uma precária barreira de contenção diante do temido retorno do Movimento ao Socialismo (MAS) ao poder.
Na revista Nueva Sociedad, os pesquisadores María Teresa Zegada Claure e Armando Ortuño sintetizam o labirinto político no qual Paz está preso. Em resumo, os autores argumentam que o presidente enfrenta um dilema central: optar por formalizar uma aliança explícita com a direita dura — o que acenderia definitivamente o pavio do conflito nas ruas — ou tentar uma guinada em direção à inclusão popular. Mas essa última opção parece quase impossível de concretizar diante da ausência de interlocutores válidos em um tecido social profundamente fragmentado. A renovação das lideranças tampouco parece clara.
Sem uma base social própria que defenda sua gestão e preso no fogo cruzado entre as ruas, que exigem o cumprimento de suas promessas, e a ultradireita, que cobra repressão e mão dura, o governo boliviano sobrevive em um limbo e fragmentado desde a ruptura de Paz com seu vice, Lara. Por enquanto, a guinada liberal da Bolívia resiste em um equilíbrio delicado, sustentado não por sua musculatura política interna, mas pelo oxigênio geopolítico que Washington e seus aliados injetam a partir do exterior.