Notas sobre a situação política na América do Sul
É necessário o máximo espírito unitário na ação e organização popular contra o inimigo fascista, mas com autonomia para enfrentar desigualdades sociais, deeconômicas e ambientais impostas pelo capitalismo
1 – Sob Trump, o império estadunidense em sua fase de declínio, cada vez mais agressivo e em certo sentido imprevisível, vê o conjunto dos países do continente como sua área de controle direto, mais que de influência. O “hemisfério ocidental”, definido inúmeras vezes na Estratégia Nacional de Segurança (NSS) da administração neofascista, inclui provocativamente o Canadá, tradicional parceiro imperialista e, mais que nada, toda a América Latina. Esta é considerada de conjunto o quintal a partir do qual o imperialismo ainda hegemônico se afirma política e militarmente, para melhor disputar o protagonismo tecnológico-econômico e geopolítico com a China. O deslocamento ao Caribe de forças militares marítimas, navais e humanas sem precedentes, o cerco a Cuba, as pressões e chantagens sobre o México e Colômbia (não por acaso governados por “progressismos”), com o pretexto do narcotráfico, e a tomada do poder de fato na Venezuela, por meio do sequestro do casal presidencial e de um acordo estratégico sobre petróleo com o governo antes “madurista”, evidenciam a natureza colonialista e bélica, descaradamente intervencionista, do imperialismo sob a batuta do governo Trump.
Nestas notas, tratamos da América do Sul, onde a complexidade das sociedades, desigualdade socioeconômica escandalosa, presença de do uma economia chamada “média” com influência própria no entorno (o Brasil), tradição de luta e organização à esquerda, governos menos subservientes que a direita liberal (como os de Colômbia, Brasil e Uruguai), o intervencionismo imperialista enfrenta mais obstáculos e, portanto, se vê na obrigação de mediar seus ataques. Diante de processos eleitorais importantes e testes na luta de classes dos governos de extrema direita e de direita, como os do Chile e da Argentina, Bolívia e Equador, vale pensar no que há de linhas gerais comuns em diversas situações nacionais na região nos próximos meses.
2 – A atual situação global dos EUA cria dificuldades para sua estratégia. No flanco do Oriente Médio (que não é tido como prioridade pela NSS mas foi alvo de sua mais forte investida militar fora da América), não alcançou até agora, com facilidade, como imaginava, o objetivo de derrubar o regime iraniano. Este empate (por ora), com forte sabor de derrota para Trump, se soma à crescente onda de contestação aos planos antidemocráticos nos próprios Estados Unidos, configurando um combo perigoso para a perpetuação de Trump. Não estão descartadas novas intervenções ianques em processos eleitorais (como foi na Argentina e em Honduras), apoio a golpes, invasões e novas rebeliões, com viragens bruscas. Hoje, é Cuba o alvo mais imediato: tudo indica que o ideal para os EUA é um acordo com o governo de Díaz-Canel (que significaria rifar Raúl Castro), para apresentá-lo ao eleitorado doméstico como uma vitória no plano internacional. O governo cubano o faria, diante da escassez e fome impostas pelos EUA? A resposta está em aberto. Também as eleições na Colômbia e no Brasil, este ano, depois do segundo turno no Peru, vão apontar sinais de para onde vai a relação de forças
3 – O cenário político sul-americano é de crescente (e ao que tudo indica duradouro) embate entre governos e movimentos de extrema direita aliados dos EUA – no poder em Argentina, Chile, Paraguai e Equador, e com força no Peru, Venezuela, Colômbia e Brasil – com seus movimentos de massas e forças políticas liberal-democráticas e de esquerda. Além de suas ambições autoritárias e de submissão aos ditames do Tio Sam, os neofascistas ao Sul são os mais coerentes portadores do programa ultraliberal e depredador de contrarreformas trabalhista, agrária, sanitária, ambiental e previdenciária pró-financeiras. Assim, é inevitável que se choquem com os interesses gerais dos que vivem do trabalho, das mulheres, negritude, camponeses, povos originários e comunidade LGBTQIAP+. Mesmo com vantagens nas guerras culturais, graças ao auxílio das Big Tech e suas redes, o mais provável é que a extrema direita não consiga estabilizar a região. O subcontinente deve continuar em instabilidade crônica, sem que o neofascismo estabeleça um novo ciclo, com hegemonia duradoura, e sem que o “progressismo” consiga reviver seus anos “dourados”. Não vão se repetir, na atual etapa da crise econômica global, aqueles grandes ganhos das burguesias e dos estados com exportações de matérias primas – que foram a base do sucesso da “onda rosa” dos anos 00 e 10 do século, com Lula e o PT em seus primeiros mandatos buscando coordenar um bloco heterogêneo de países sul-americanos. Ao contrário, avizinham-se tremendas batalhas, com um desfecho em aberto, muita polarização e tendência a mudanças velozes nas conjunturas.
4 – Na região andina, de longa história de combatividade, mantém-se a tendência ao agravamento das contradições político-sociais, embora por enquanto o balanço de forças seja muito favorável à direita e ao imperialismo. Com a Venezuela convertida em colônia dos EUA, o Peru em processo eleitoral em que lidera o fujimorismo, o Equador sob a batuta do direitista Noboa e o Chile sob o governo pinochetista de Kast, as rebeliões dos trabalhadores e camponeses da Bolívia, contra o governo de Rodrigo Paz, representaram um significativo vetor contrário à onda neofascista, apesar da recente derrota eleitoral do MAS. No Chile, apesar da força política do governo Kast, os estudantes já realizaram protestos importantes. A oposição se reagrupa para contestar o plano de ajustes e de fechamento do regime do governo neofascista, que começa a perder espaço, segundo as pesquisas de opinião recentes.
5 – Apenas alguns meses depois de sua posse, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, esteve em maio na defensiva, com a coalizão dividida e parte do movimento operário e camponês exigindo a queda de seu governo. (Na contramão de parte da esquerda, que encarou a derrota eleitoral do MAS como uma derrota histórica do movimento de massas, confirma-se que os movimentos sociais não foram historicamente derrotados naquele momento – embora tenha sido um grande revés para os de baixo a fragmentação do partido-movimento MAS, que conduziu, durante 16 anos, o chamado proceso de cambio.
As massas não deram “lua de mel” a Paz: numa primeira onda, houve um levante contra decretos que aumentavam o preço da gasolina, retirando subsídios, eliminando os impostos sobre as grandes fortunas, recortando a saúde e educação, ampliando o saque dos recursos naturais. Mas as medidas promulgadas pelo odiado “superministro” Branko Marinkovic não passaram. Na atual e segunda onda de levante popular, teve papel decisivo um decreto de fins de abril que tentava reverter a reforma agrária herdada da revolução de 1952 (!) – o que indignou os camponeses. A ela se somou a insatisfação dos assalariados com a negativa do governo em negociar aumento salarial. A repressão brutal aos protestos de 16 de maio, com quatro mortos, só acirrou a raiva operária e popular. Houve mais de 70 bloqueios de estradas e a tomada de La Paz por uma marcha da COB e da central camponesa.
A combinação da luta camponesa com a luta urbana, mobilizando agricultores, professores, choferes, mineiros (assalariados e cooperativistas), estudantes e trabalhadores da limpeza urbana, repetiu as características dos grandes levantamentos do último século – desde a revolução de 52 até o levante do gás no início dos 2000, passando pelas assembleias populares de 1970-71, pelas lutas contra as ditaduras nos 80, pelo duplo poder governo-COB dos anos de Siles Suazo (1982 a 1985), pela insurreição mineira de 1985 e pelas lutas para defender a Constituinte que estabeleceu o Estado Plurinacional, nos primeiros anos de Evo. O imperialismo e a burguesia local conhecem essa história e por isso se preocuparam com a amplitude e radicalidade do movimento. A reação não se fez esperar: Marco Rubio falou em golpe contra Paz, a direita de Santa Cruz chamou a Marcha Cívica e moveu a OEA para tirar uma nota em defesa do estado democrático de direito (leia-se governo de Paz), e o governo rompeu relações com a Colômbia de Petro, que se propôs a mediar o conflito. O desfecho do processo está em curso, com uma repressão violenta aos líderes na busca por uma saída reacionária à custa de sangue. De qualquer forma, a História do país desaconselha decretar derrotas “históricas” precipitadas.
5 – No Peru, o sistema político burguês vive mais um capítulo da “crise nacional” (no sentido leninista) que arrasta pelo menos há 30 anos, apesar da relativa estabilidade econômica recente. O segundo turno da eleição presidencial deste ano, marcado para 7 de junho, será polarizado: as primeiras pesquisas indicam um empate técnico entre Keiko Fujimori, filha do ex-ditador e expressão mais forte da direita peruana, e Roberto Sánchez, ligado ao ex-presidente Castillo e de tradição de centro-esquerda. Ambos teriam cerca de 38% das intenções de voto. O resultado do primeiro turno só foi homologado um mês depois da contagem das cédulas. O candidato de extrema direita clássica, Rafael Aliaga, contestou a contagem, que se arrastou por semanas, alegando fraudes, diante do resultado bastante apertado. Somadas abstenções, votos brancos e nulos, foram 39% do eleitorado, superando de longe qualquer representação partidária. Keiko chegou ao segundo turno com 17% dos votos válidos. E Sánchez com cerca de 12%. A fragmentação dos partidos – foram 37 candidaturas à Presidência! – expressa a dificuldade na conformação de uma hegemonia política, após a queda e prisão de Castillo.
O crescimento econômico, relativamente superior à média recente da região, não dá conta de estabilizar o país, com uma gestão capitalista profundamente corrupta, sete ex-presidentes que tiveram prisão decretada (quatro ainda encarcerados), entre os quais Alberto Fujimori, falecido, e Alan Garcia, que se suicidou. A rebelião de 2023 foi “resolvida” pela via da repressão do governo Boluarte (chefe do operativo golpista contra Pedro Castillo), sem que, entretanto, se garantisse o fim das turbulências. Nesse contexto, o segundo turno eleitoral terá um caráter bastante plebiscitário, que dividirá o país inclusive regionalmente. Estará em questão a memória do fujimorismo, num cenário em que a força de Castillo, representante do Peru “profundo” e das lutas da educação, não se dissipou, apesar das perseguições sofridas. Será necessário observar se as reservas democráticas, em especial entre a juventude, mobilizarão o suficiente para barrar uma vitória de Keiko. O desfecho deste capítulo se inscreve numa batalha maior entre a combatividade popular do país e da região e um regime que não superou de todo o fujimorismo, inscrito na desacreditada constituição de 1993.
6 – As eleições presidenciais na Colômbia, entre o 31 de maio e 21 de junho, são decisivas para o país e a região. As pesquisas indicam a liderança do candidato Ivan Cepeda, representante do Pacto Histórico – a expressão local do progressismo –, que pretende dar continuidade ao processo iniciado com a eleição de Petro. Cepeda tem cerca de 40% e assim disputaria um apertado segundo turno contra um dos dois candidatos da oposição de direita. O melhor colocado é Abelardo de Espriella, com 24%, advogado, admirador de Trump e Netanyahu, que pretende ser a versão colombiana de Milei. Inclinada à direita tradicional e ao centro, concorre a senadora Paloma Valencia, com 19%, se proclamando herdeira do ex-presidente Álvaro Uribe. Dirigente do Centro Democrático, Valencia busca renovar a estrutura do conservadorismo colombiano, o uribismo, portanto é mais perigosa num eventual segundo turno com Cepeda.
A aposta do Pacto Histórico é de disputar e governar “a quente”, ou seja, mobilizando. Isso leva o PH a ter uma postura diferente de Lula, da Frente Ampla uruguaia e do kirchnerismo, que administraram conflitos mais pela via da conciliação, desmobilizando e fazendo acordos com as oligarquias políticas. Petro convoca atos periodicamente, como fez em 1º de maio. Aumentou em 23% o salário-mínimo e propôs uma nova legislação do trabalho que garantiu direitos e reduziu a jornada de trabalho sem redução salarial. Além disso, sua visão sobre meio ambiente, que questiona o extrativismo da direita e da centro-esquerda, diferencia Petro globalmente. Sua defesa da Flotilha a Gaza, sua extradição dos Estados Unidos e sua posição independente de solidariedade à Cuba o projetaram para além da retórica, como uma esquerda que disputa o projeto de poder.
Foi uma greve geral política, com traços insurrecionais, que mudou por completo o regime e a política colombiana em maio de 2021. Foi, aliás, acenando com uma greve geral que Petro respondeu à oligarquia quando o Senado recusou recentemente uma consulta popular para aprovar a nova legislação trabalhista. “O segredo de Petro”, diz Luís Leiria em artigo para o esquerda.net, “foi combinar negociações com a mobilização nas ruas e a pressão popular. E insistir nas principais bandeiras, anunciadas no início do mandato, sem descanso, mesmo quando a maioria de direita no Senado lhe barrava as iniciativas”.
7 – Fundamental para o Cone Sul da América e para o continente é o desafio colocado aos argentinos, de derrotar nas urnas e nas lutas a Javier Milei, o governante regional mais fiel ao programa e a estratégia de Trump e de sua “internacional”, a CPAC. Milei é a vanguarda do apoio ao sionismo na região, da relação “carnal” com Trump e do projeto ultraliberal de destruição do ambiente e dos direitos sociais, simbolizado pela motosserra. Com ajuda de uma chantagem do boss Trump, Milei teve uma importante vitória nas eleições legislativas do ano passado. Depois delas, no entanto, desgastou-se muito devido aos seguidos escândalos de corrupção – entre os quais o dos 3% de propina que sua irmã e braço direito recebia em contratos governamentais e as recentes revelações sobre enriquecimento ilícito de seu chefe de gabinete, Manoel Adorni. Tudo paralelamente à negativa dos trabalhadores e do povo em engolir passivamente as medidas de ajuste, apesar da repressão. Coincidindo com seu desgaste, também devido à deterioração das condições de vida, a partir do grande ato de massas de 24 de março – em memória dos 50 anos do golpe militar assassino de 1976 –, houve uma inflexão importante na situação do país. O peso da esquerda cresceu, com a principal liderança Myrian Bregman pontuando entre 9 e 14% nas pesquisas de opinião, fato que expressa uma enorme simpatia. Está colocada a oportunidade histórica da esquerda revolucionária disputar influência de massas. A depender da combinação do processo, a situação pode evoluir para um inédito e intenso processo que combine lutas radicalizadas com a construção de um polo e um programa à esquerda, com hegemonia dos anticapitalistas. Para tanto, será fundamental que os atores agrupados na FIT-U tenham responsabilidade, se colocando à altura da tarefa histórica, deixando de lado sectarismo e lutas fratricidas.
8 – Longe ficaram os tempos dos sonhos bolivarianos e progressistas de integração regional, de Alba e Unasul, e da ideia nunca implementada de empresa petrolífera trans sul-americana. Ainda nos governos Lula e Dilma (entre 2003 e 2015), a estratégia do PT foi a de desencorajar os “parceiros” bolivarianos de empreitadas que considerava e considera “radicais demais”, embora também fossem medidas limitadas – iniciativas populares e independentes frente ao imperialismo, como assembleias constituintes, auditoria de dívidas e estatizações, como a seu tempo, conheceram a Venezuela de Chávez, mas também Equador e Bolívia. Bolsonaro, por sua vez, demonstrou não ter estatura nem habilidade política necessárias para representar um neofascismo de referência regional, que garantisse a abertura de um ciclo latino-americano de extrema direita. Marcado pelo desastre da pandemia e crises internas constantes, o governo de Bolsonaro não foi capaz de organizar um bloco de direita sul-americano. Ao contrário, durante aqueles anos (2019-2022), houve rebeliões importantes em Chile, Colômbia, Equador e Bolívia.
9 – A política externa de Trump, com sua guerra tarifária, ameaças e retórica intervencionistas, choca-se diretamente com os interesses do estado e de setores amplos da internacionalizada burguesia do Brasil sub-imperialista. Buscando nova reeleição, Lula 3 tenta se equilibrar sobre um muro cada vez mais estreito. De um lado, diferenciando-se autonomamente dos EUA quando se trata de tarifas, comércio em geral – até porque o agro e o extrativismo brasileiros não têm nenhuma intenção de se desentender com a China – e questões policiais-militares (se recusando a aceitar a denominação de terroristas para as facções do narcotráfico brasileiro). De outro lado, tenta mostrar no plano doméstico, em particular para as grandes corporações no país e à classe média antipetista, que sabe conciliar com o genocida de turno na Casa Branca.
Para não desagradar a Trump, o governo brasileiro permanece em vergonhoso silêncio frente à intervenção de fato na Venezuela, frente ao cerco de Cuba e até mesmo frente aos escandalosos acordos militares de Trump com o governo paraguaio, que fortalecem a presença de tropas e modernas armas ianques na Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai, Argentina). Nessa linha de “desescalar” a onda de atritos com os EUA e mostrar-se confiável, Lula viajou aos Estados Unidos, fez juras de amizade a Trump, e acordou a entrega das terras raras brasileiras, assim como do território para datacenters de Big Tech estadunidenses, ademais de frear taticamente as iniciativas parlamentares de regulação geral das plataformas.
A oposição de extrema direita mostra força capaz de voltar ao poder (pelo menos mostrava até o mais recente capítulo da investigação sobre a mega fraude financeira do Banco Master, que demonstrou ligações do filho 01 com Daniel Vorcaro). Favorecem a oposição direitista (1) o regime de distribuição de verbas públicas via emendas, que enchem com milhões as burras dos donos dos feudos eleitorais do bolsonarismo e do Centrão; (2) a força popular de pastores neopentecostais reacionários, com os quais Lula tentou conciliação em passado recente; (3) a maioria de bolsonarismo e Centrão no parlamento – por meio do qual engessa iniciativas do governo e impõe retrocessos, às vezes percebidos pela população como “coisa do governo”; (4) o desgaste inédito do conjunto do Judiciário, cujos milionários privilégios são alvo da justa bronca popular, e cuja imagem, associada ao governo na luta contra a tentativa de golpe de 2023, foi manchada no caso Master.
Mas tampouco colaboram com o governo suas próprias marcas, em que se destacam (4) a negativa de Lula e do PT em mobilizar o povo e os trabalhadores, fazendo das organizações sindicais e populares ligadas à coalizão governamental instrumentos de desmobilização permanente; (5) o fato de que o desgastado sistema político é identificado pelos menores de 40 anos com o grande ciclo de conciliatórios governos petistas, em particular com a figura de Lula; e (6) a ausência em geral, e nos últimos três anos e meio em particular, de iniciativas de impacto social e econômico, para redistribuição da renda, capazes de mobilizar setores de massas contra a oposição parlamentar.
Mesmo nesse quadro, é em tese possível fazer da campanha presidencial um momento de reafirmação do caminho pela esquerda. A disputa de fundo, para além da camada importantíssima de democracia versus golpismo militar, envolve soberania nacional em tempos de Trump, e a necessária batalha contra o setor capitalista mundial que controla os dados e o gerenciamento das redes sociais, o chamado “tecnofascismo” albergado em sua maior parte no Vale do Silício. Essa é a fração burguesa imperialista responsável em última instância pelo descontrole da propaganda eleitoral pró-fascista (via fake news), pelo vício e adoecimento crescentes de crianças e adolescentes, pelo endividamento das famílias trabalhadoras via apostas online, pelo incremento da misoginia e dos feminicídios, além de outras barbaridades.
O processo eleitoral no Brasil, este ano, tem tudo para se tornar o principal campo de disputa latino-americano contra a colonização orientada pelas Big Tech. Resta saber, atuando, se a maioria da grande frente de apoio a Lula contra o neofascismo será capaz de enfrentar o desafio, no programa e na ação.
10 – Com o fim do boom das commodities e da onda “progressista” generalizada, sustentada pelas lutas populares contra o neoliberalismo no início do século, a América do Sul se viu “invadida” nos últimos quinze anos pela tendência global ao crescimento e vitórias eleitorais de forças neofascistas. A ascensão de Trump foi um forte revés e seu governo – assim como os de seus aliados locais – constitui a principal ameaça à soberania e bem-viver dos povos e trabalhadores sul-americanos. A maldisfarçada “invasão militar” do mar do Caribe, a tomada da Venezuela pelos EUA no início do ano e o avanço contra Cuba em curso agravam a situação em favor do imperialismo e da reação, tornando a correlação regional de forças desfavorável aos povos. No entanto, os neofascistas enfrentam oposição e resistências renhidas de povos, setores organizados dos movimentos de massas e forças políticas de esquerda reformista e revolucionária – inclusive de governos “progressistas tardios”, como é o caso do colombiano na região (e do México, ao Norte).
O jogo está sendo jogado; a luta antifascista está em curso, pode vencer e avançar, principalmente porque conta com a aliança de fato com a mobilização e politização crescentes do povo e trabalhadores estadunidenses contra Trump. As grandes batalhas regionais de hoje nessa disputa estão acontecendo nas ruas argentinas contra Milei, nos campos e periferias peruanas contra a volta do fujimorismo, no confronto eleitoral na Colômbia, assim como se dará em breve no Brasil; nas incipientes resistências a Kast no Chile e ao governo colonial da Venezuela pelos assalariados que exigem reajuste nos seus contracheques de fome. O lugar dos revolucionários é nessas batalhas, com o máximo espírito unitário na ação e organização popular contra o inimigo fascista, mas com autonomia para propor medidas que façam avançar os movimentos em direção a enfrentar as desigualdades sociais, econômicas e ambientais impostas pelo capitalismo.