Esquerda iraniana apela à mobilização contra a austeridade do regime
Protestos no Irã

Esquerda iraniana apela à mobilização contra a austeridade do regime

Organizações comunistas e de esquerda do Irã uniram-se no apoio às recentes manifestações populares, caracterizando-as como uma revolta legítima contra as políticas neoliberais e a repressão do regime teocrático

Esquerda.net 14 jan 2026, 12:26

Via Esquerda.net

Foto: RS/Fotos Públicas

Em comunicados, forças como o Conselho de Cooperação das Forças de Esquerda e Comunistas e o Partido Tudeh do Irão rejeitam tanto a continuidade da República Islâmica como o regresso da monarquia, apelando antes a uma greve geral e à auto-organização dos trabalhadores.

Contra a “cirurgia económica” e a inflação, a atual vaga de protestos, iniciada nos últimos dias de dezembro de 2025, é unanimemente identificada pela esquerda iraniana como uma resposta direta à deterioração das condições de vida. O Conselho de Cooperação das Forças de Esquerda e Comunistas, num comunicado emitido a 2 de janeiro, aponta o “aumento sem precedentes do valor do dólar” e a inflação galopante como os motores da revolta, criticando um regime que “gastou milhares de milhões de dólares do dinheiro suado dos trabalhadores em guerras e na expansão das suas forças proxy”, enquanto impunha pobreza à população.

Na mesma linha, o Partido Tudeh do Irão denuncia as “políticas neoliberais” e a chamada “cirurgia económica” do governo, um termo frequentemente usado para descrever medidas de choque e austeridade, que empurraram “dezenas de milhões de iranianos para baixo do limiar da pobreza”. Para os comunistas iranianos, a crise não é obra de “agentes estrangeiros”, como alega o regime, mas o resultado inevitável de um sistema capitalista corrupto e predatório.

“Nem xá, nem líderes supremos”

A rejeição do passado e do presente é uma das notas dominantes nos posicionamentos destas organizações, numa demarcação clara face a alternativas reacionárias. O Conselho de Cooperação alerta contra a “infiltração” de elementos monárquicos nos protestos, denunciando a tentativa de canais televisivos de direita de promoverem a figura de Reza Pahlavi.

As forças de esquerda sublinham a importância de slogans que ecoam nas ruas e universidades, como “nem xá, nem líder (supremo), democracia e igualdade”, rejeitando a substituição da teocracia por uma nova ditadura apoiada pelas potências ocidentais. 

O Partido Tudeh é perentório: substituir a atual “ditadura teocrática-capitalista” por um “sistema monárquico-capitalista” significaria apenas restabelecer um regime repressivo e transformar novamente o Irão numa “base militar para o imperialismo na região”. 

O partido adverte que aqueles que depositam esperanças na administração Trump ou no governo de Israel para “libertar o Irão” ignoram as lições dolorosas das intervenções no Iraque e na Líbia.

Greve Geral como caminho para a vitória 

Face à brutalidade da repressão, que segundo um apelo conjunto de 7 de janeiro já resultou em dezenas de mortos e milhares de presos, com relatos de ataques das forças de segurança a hospitais comparados às ações de Israel em Gaza, a estratégia apontada pela esquerda passa pelo alargamento da luta popular.

Tanto o Tudeh como o Conselho de Cooperação defendem que a chave para paralisar a máquina repressiva do Estado reside na “greve geral nacional”. O apelo é dirigido aos trabalhadores das fábricas, serviços e setor petrolífero para que unifiquem as suas lutas dispersas. O objetivo traçado é claro: a formação de um “governo nacional-popular de transição” (Tudeh) ou o estabelecimento de uma “soberania de conselhos” nas regiões onde tal é possível, como defendido pelas forças revolucionárias no Curdistão, assegurando que o futuro do Irão seja decidido pela autodeterminação do seu povo e não por elites corruptas ou potências estrangeiras.


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