Quando dois votos não bastam: Fabian e a disputa pelo Senado no Espírito Santo
A candidatura de Fabian de Carvalho apresenta um programa, dialoga com setores desorganizados do ponto de vista eleitoral e amplia o alcance da esquerda no estado
O PSOL do Espírito Santo oficializou a pré-candidatura do professor Carlos Fabian de Carvalho ao Senado Federal. A decisão vai além de uma movimentação eleitoral e dialoga diretamente com o cenário político que se consolida no estado. Em um contexto de reorganização da direita e de limites evidentes no campo progressista, lançar Fabian é uma aposta política consciente: ampliar a esquerda para disputar de fato a eleição.
Fabian não é um nome construído de cima para baixo. Sua trajetória nasce nos territórios populares, na educação pública, na cultura e nas lutas sociais. Professor, educador de jovens e adultos, militante dos direitos humanos, construiu uma atuação que conecta espaços muitas vezes separados pela política institucional. Transita entre o carnaval, a cultura popular, a educação e os movimentos sociais, dialogando com setores que nem sempre se sentem representados pelas candidaturas tradicionais.
Esse elemento tem peso na conjuntura. A disputa ao Senado em 2026 não ocorre em um terreno neutro. São duas vagas, mas com uma configuração bastante definida. O ex-governador Renato Casagrande (PSB) aparece como franco favorito e, hoje, é virtualmente eleito para uma das cadeiras. A outra vaga concentra a disputa real.
Nesse espaço, o senador Fabiano Contarato (PT) é o principal nome do campo progressista. Seu mandato se destacou no enfrentamento à extrema direita e na defesa das liberdades democráticas. Ao mesmo tempo, carrega contradições, especialmente em temas ligados à política criminal, que geram tensão com setores mais à esquerda. Ainda assim, sua reeleição é estratégica para manter uma representação progressista pelo Espírito Santo em um Senado cada vez mais pressionado por forças conservadoras.
Do outro lado, candidaturas como a de Maguinha Malta (PL) crescem apoiadas em uma base bolsonarista ativa. O campo conservador não está fragmentado como muitos gostariam. Está organizado, com identidade política clara e capacidade de mobilização.
É nesse cenário que surge o debate sobre a chamada “lógica dos dois votos”. Parte do campo progressista, especialmente setores do PT e aliados do PSB, defende a concentração dos votos em Contarato (PT) e Casagrande (PSB). O próprio presidente estadual do PT, João Coser, já afirmou que eleger Casagrande é uma prioridade do partido.
Essa formulação parte de um pressuposto frágil: o de que o eleitorado progressista é homogêneo e que seus votos podem ser distribuídos de forma coordenada. A realidade mostra outra coisa.
O eleitor de Casagrande não é, necessariamente, eleitor de Contarato. Casagrande construiu sua trajetória com base em alianças amplas, diálogo com setores empresariais e uma lógica de gestão que não se confunde com a esquerda. Já Contarato, mesmo com sua trajetória recente no PT, ainda carrega elementos de sua origem política e institucional que limitam sua conexão com setores mais radicalizados.
Ao mesmo tempo, há um contingente significativo de trabalhadores, jovens, militantes da cultura, da educação e dos movimentos sociais que não se veem plenamente representados por nenhuma dessas duas candidaturas. É justamente nesse espaço que a candidatura de Fabian se coloca.
Dizer que uma terceira candidatura progressista divide votos ignora como a política realmente funciona. Votos não são blocos fixos que se redistribuem automaticamente. Eles são construídos a partir de identificação, mobilização e sentido político.
A candidatura de Fabian cumpre um papel que vai além da disputa numérica. Ela apresenta um programa, dialoga com setores desorganizados do ponto de vista eleitoral e amplia o alcance da esquerda. Ao fazer isso, contribui para trazer para o debate pessoas que, de outra forma, poderiam se manter afastadas ou até migrar para candidaturas de protesto à direita.
Se há impacto eleitoral, ele tende a incidir muito mais sobre uma candidatura já consolidada como a de Casagrande do que sobre Contarato. Isso porque Fabian dialoga com um campo social que não é o mesmo da base do ex-governador. Ao contrário do que se argumenta, sua presença pode ajudar a criar um ambiente mais favorável para a própria reeleição de Contarato, ao ampliar o campo progressista e fortalecer o debate à esquerda.
A experiência recente mostra que campanhas enraizadas, que mobilizam e apresentam ideias, não apenas crescem, mas também deslocam o debate público. A política não se resume à soma de votos individuais. Ela envolve narrativa, mobilização e capacidade de construir sentido coletivo. Em diferentes contextos, inclusive internacionais, vimos candidaturas de esquerda que, mesmo partindo de posições minoritárias, conseguiram ampliar sua influência ao dialogar diretamente com a base social. São realidades distintas, mas indicam uma mesma direção: quando a esquerda se apresenta com clareza programática e enraizamento, ela amplia seu espaço.
No Espírito Santo, esse movimento é ainda mais necessário. A política de conciliação que busca acomodar projetos distintos sob uma mesma lógica tem limites evidentes. O apoio do PT a Casagrande (PSB) expressa essa estratégia, mas não resolve o problema de representação de amplos setores da sociedade.
A candidatura de Fabian aponta para outro caminho. Um caminho que combina programa, identidade e inserção social. Um nome que não nasce de acordos de cúpula, mas da experiência concreta de luta, da educação pública, da cultura popular e da organização de base.
Ao lançar Fabian, o PSOL não apenas apresenta uma candidatura. Afirma que a esquerda precisa disputar mais, e não menos. Falar com mais gente, em mais lugares, com mais força. Em um cenário aberto, com alto índice de indecisos e com uma direita organizada, reduzir a disputa a uma conta matemática pode ser o verdadeiro erro estratégico.
A eleição ainda está em aberto. E é justamente por isso que ampliar a esquerda é a única forma de fortalecê-la.