Nota política do Secretariado Nacional do MES-PSOL sobre a situação nacional
Subir o tom, encarar a polarização nas ruas e nas urnas para derrotar o bolsonarismo
Foto: Marcha de abertura da 1ª Conferência Internacional Antifascista, em Porto Alegre. (antifas2026/Reprodução)
O Secretariado Nacional do MES analisa a grave crise institucional, discutindo seus efeitos e alcances sobre o processo eleitoral e apontando algumas tarefas e orientações para a militância, diante da batalha decisiva das três próximas semanas. Estamos atuando, de norte a sul do país, buscando votos, dialogando com os lutadores sociais e políticos, para garantir a reeleição de Lula, a superação da cláusula de barreira do PSOL e a eleição de nossos parlamentares.
O escândalo Vorcaro domina a situação política e eleitoral. Por um lado, expõe o apodrecimento ao qual chegou o regime político brasileiro; por outro, serve de base para a manobra orquestrada por André Mendonça, a soldo dos Estados Unidos, para contaminar e confundir a opinião pública, revertendo a iniciativa política para o campo bolsonarista, reposicionando, inclusive, a hipótese de que Flávio possa ganhar a eleição. O que ainda prima na eleição é a incerteza.
Os novos episódios, após a reunião do secretariado, reforçam a incerteza: Fachin busca arbitrar a crise, Dino levantou o sigilo de Dark Horse, as denúncias contra Mendonça inundam o noticiário.
Precisamos nos armar diante da atual crise política para buscar retomar a iniciativa às vésperas da eleições, orientar melhor os eixos da política e entender o significado profundo dos atuais acontecimentos.
Soberania, Trump e Brasil
A eleição brasileira é uma das mais importantes no terreno da disputa geopolítica internacional, apenas atrás da própria eleição estadunidense de meio período, que ocorrerá em novembro.
O que ocorre aqui, é uma das refrações particulares da situação internacional, marcada pela disputa geopolítica de um imperialismo hegemônico em crise, pelo rearmamento dos países centrais, mostrando a guerra como uma saída possível, pela ofensiva neocolonialista desse mesmo imperialismo, pelo caos climático – fruto da destruição ambiental -, pelo uso da IA para maximizar o lucro dos bilionários e controlar ainda mais os que vivem do trabalho.
Todos esses fatores são efeitos diretos da brutal e múltipla crise do capitalismo. Trump precisa impor seu controle sobre a América Latina. É uma necessidade fundamental, ainda mais com sua agonia nos três fronts principais: o pântano que vive no Oriente Médio, diante da derrota no Irã; a iminência de uma derrota eleitoral que isole seu governo nos Estados Unidos; e a necessidade de realizar as premissas e promessas da Doutrina Monroe na América Latina. Esses três fatores (crise/derrota no Irã e no Oriente Médio, derrota doméstica, disputa na América Latina), estão intrinsecamente relacionados.
Para tanto, Trump vai às raias do desespero e do intervencionismo. Chegou ao absurdo de prometer 5 mil dólares para cada cidadão americano, ou seja, quase 30 mil reais, em caso de sua vitória. Ou, para evitar o naufrágio do projeto Milei na Argentina, que amarga queda em sua popularidade, prometer retomar as Ilhas Malvinas, desejo antigo da consciência popular média dos argentinos. Esse Trump, sem medida e limites, quer derrotar Lula em outubro, para seguir o roteiro das eleições recentes de Peru e Colômbia.
Assim, reforçamos o caráter plebiscitário da eleição brasileira, em quase todos os aspectos, mas especialmente no que diz respeito à soberania.
As ameaças ao Pix, o controle sobre os recursos naturais e terras raras, o tarifaço são a antessala da estratégia de converter o Brasil num protetorado, para o qual a ponte seria um novo governo do clã Bolsonaro, com viés diretamente subordinado ao neocolonialismo de Trump e dos bilionários que o sustentam. A vitória da extrema direita em eleição regional na Alemanha coroa esse perigo, pois demonstra o nível de articulação internacional que o neofascismo compreende, com Musk sendo um dos seus maiores agitadores, num elenco que ainda conta com Peter Thiel e outros personagens.
Vorcaro e a dinâmica eleitoral
A tíbia campanha de Lula à reeleição teve um salto há alguns meses, quando se concentrou uma convergência de crises sobre seu principal concorrente, Flávio Bolsonaro. A revelação, partindo das investigações da PF, das relações profundas entre Vorcaro e o clã, debilitou o candidato da extrema direita, no escândalo “BolsoMaster” ligado ao financiamento do filme Dark Horse.
Isolado em seus palanques, com tensões inclusive com Michelle e outros seguidores, Flávio começou a campanha na defensiva, com Lula, sem grande entusiasmo, apontando como favorito por analistas de diversos índices eleitorais. A forma da superestrutura desse avanço foi o acordo com Alcolumbre, “pacificando” as relações no Congresso.
A conjuntura mudou, oscilando negativamente para Lula, nas últimas semanas, com a ação decidida de André Mendonça para atacar o principal personagem que dá estabilidade ao plano de reeleição e da manutenção da Nova República, Alexandre de Moraes.
Alvo da agitação da extrema direita, anti-STF, por conta de suas corretas posições contra os golpistas e diante das chantagens de Trump, Moraes se viu atacado por suas relações promíscuas com Vorcaro, com o retorno da chamada a sua renúncia, agora endossada por setores da própria burguesia liberal, como a Folha e Estadão.
A conjuntura oscilou negativamente para Lula, a partir das pesquisas de opinião, do recuo de de sua aprovação, dos seus índices eleitorais e de seus aliados em alguns estados; a partir da retomada de certa iniciativa por parte de Flávio, que convocou com Tarcísio, Michelle e Nikolas ao ato de 7 de Setembro no horário eleitoral.
O ato contou com cerca de 30 mil presentes na Paulista, muito longe do que o bolsonarismo conseguia reunir no seu auge, mas reposicionou a iniciativa política para o bolsonarismo, orientando seus milhares de ativistas no Brasil a uma postura mais altiva. A parcela não bolsonarista da burguesia, em seus diversos tons de conservadorismo, não conseguiu arrancar uma alternativa: Caiado e Zema rumam a um ostracismo sem votos, Renan ainda não emplacou um projeto com capacidade de disputar a hegemonia da extrema direita e a novidade Cury, inflado por bots de internet, parece estagnar, recuando nas últimas pesquisas de opinião.
A mais recente pesquisa Datafolha indica a aproximação de Lula e Flávio (39% contra 35%, no primeiro turno, empate técnico dentro da margem de erro, no segundo); o crescimento de governadores mais alinhados ao bolsonarismo e a rejeição maior de Lula. Outro índice de pesquisa Datafolha, mais atual, indica que 37% querem o afastamento de Mendonça e 34% o de Alexandre de Moraes.
Nesse terreno das incertezas, a disputa da agenda política da direita liberal aposta em tutelar o próximo governo, extraindo ainda mais compromissos no caso de vitória de Lula, do próximo governo de coalizão, do poder legislativo e do STF. Seu programa exige um ajuste fiscal severo, equidistância nas relações comerciais com Estados Unidos, China e UE, congelamento do salário mínimo e dos benefícios sociais e abertura para o capital privado dos serviços públicos, empresas estatais e recursos naturais.
O que está em aberto nas próximas semanas
A conjuntura que deixou a disputa mais renhida não é definitiva. A inegável ofensiva bolsonarista das últimas semanas não é absoluta. Ao menos três elementos importantes indicam o desenlace em aberto – ao contrário de 2018, quando a ofensiva aberta com a facada de 7 de Setembro impulsionou Bolsonaro e a extrema direita para uma mobilização.
O mais importante até aqui, foi a contraofensiva dentro da disputa do próprio STF, sem esperar a sessão plenária de 15 de setembro prevista para discutir o papel de Moraes. A quebra do sigilo do Master, especialmente do uso de Dark Horse, principal querela eleitoral, trouxe uma série de denúncias, material “forte” para artilharia de campanha, deixando nítida a seletividade de André Mendonça, que passou a ser um alvo tão ou mais contestado que Moraes.
A segunda foi, ainda que letargicamente, um crescimento no engajamento do ativismo anti-Bolsonaro, como se viu no comício de Lula que juntou 10 mil em Porto Alegre, 12 mil em Curitiba, 2 mil na caminhada do final de semana no DF, mas sobretudo na análise de redes e interações que deslocam à esquerda e seus referentes a maioria das citações ao caso Master/STF.
O terceiro elemento é a indeterminação nas pesquisas, com candidatos do Centrão nos estados ou mesmo o que indica o voto Cury, indecisos e os que não estão dispostos a votar, o que explica a alta rejeição a Flávio (que empata com Lula nesse quesito na última Datafolha, com 46%). Como se dará a composição entre os cenários estaduais e a disputa nacional? Essa resposta é importante, pela incerteza nas disputas proporcionais e para o Senado – nesse último caso, com eleições disputadas, imprevisíveis por serem dois votos e pelo fato de que os líderes atuais das pesquisas terem ainda poucos votos – a maioria na casa entre 15 e 25%.
Para Bolsonaro, é fundamental vencer no maior número de estados já no primeiro turno. Lula precisa garantir sua votação no Nordeste e nas capitais mais importantes do país, pelo menos. Por exemplo, garantir boas votações no Norte e Nordeste de seus candidatos e empurrar a eleição para um segundo turno em colégios estratégicos como SP, MG e DF – parte do que decidirá a dinâmica. O mais complicado é SP, onde Tarcísio tem chances reais de levar já na primeira volta e onde Haddad e o PT mais tem dificuldades em responder.
O que é certo é que nas próximas semanas irão crescer a polarização, certa agressividade nas ruas e eventos, a politização e a disputa pelo voto. A extrema direita com Nikolas moveu milhares no Amapá, para atacar e constrager Alcolumbre.
A vitória de Lula é central e será a batalha política dos próximos cinquenta dias, junto ao voto que levamos para proporcionais- onde apresentamos nossas lideranças e nosso programa. Lula precisa levar uma campanha à quente, superar Flávio em pelo menos oito a dez pontos no primeiro turno, para chegar com condições de empreender a batalha do segundo turno, que certamente será a mais disputada e polarizada da história política recente, portanto ganhando contornos importantes.
A campanha precisa mobilizar desde já o ativismo para além dos militantes orgânicos e o pessoal remunerado das campanhas, elevando o discurso plebiscitário, disputando os indecisos e quem não está disposto a votar, em todas as regiões do país. Isso passa por ocupar cada um dos espaços de rua, dando mais “volume” para as atividades, desde as mais simples como banquinhas, até encontros unitários nas cidades, atividades com os candidatos das chapas majoritárias, além de preparar um esforço nas redes para disputar cada palmo de atenção, em todas as ferramentas do feed.
Uma vez mais, o caráter plebiscitário da eleição O central é elevar o tom e definir a eleição como um plebiscito. Não há empate ou meio “termo”: ou vence Lula ou teremos o pior governo da história, levando a perigosas condições políticas.
Nesse caso, há um embate entre duas linhas de campanha. A da maioria do PT, com Lula e sua coordenação central de campanha versus a linha de polarizar mais, com eixo na mobilização: subir o tom e atacar sem tréguas Flávio e seu projeto. A visão apologética do governo, tomando tempo com seus feitos e realizações, mostra um Brasil que não é real dada a crise social e econômica. A resolução da Executiva do PT, criticada pela própria ala esquerda do partido, como Valter Pomar, é insuficiente porque aposta apenas no STF e na linha anterior, ainda que assuma que é preciso intensificar a mobilização.
A linha que defendemos, e que vemos importante o PSOL tomar de conjunto – o partido está cumprindo um importante papel, sobretudo a partir de suas candidaturas -, é mobilizar, subir o tom, atacar Bolsonaro, levar a discussão para um plebiscito e mostrar projeto de futuro.
É preciso abraçar a “luta política” e avançar na campanha à quente. A maioria da classe trabalhadora está com condições de vida insalubres, trabalhos precários e sem direitos, um alto nível de endividamento diante de um custo de vida cada vez maior. Temos que explicar as insuficiências enquanto demandas e demonstrar que Flávio não é antissistema. Mendonça utilizou a crise do STF para colocar em segundo plano o debate da 6×1, paralisado no Senado e minimizado no noticiário.
Temos que colocar nos termos de um plebiscito sobre quatro temas, condensado na urna. O Brasil será uma colônia dos Estados Unidos? Os trabalhadores vão trabalhar um dia a menos na semana? O país vai relativizar a violência contra as mulheres? O negacionismo climático vai nos deixar mais vulneráveis ao El Niño?
E junto a isso, como já começamos a fazer, insistir em quem é Flávio e sua gangue: a fila do osso, o quase um milhão de mortos na pandemia, o custo da alimentação nos supermercados, a corrupção em toda linha, a militarização do governo, as queimadas na Amazônia e no Pantanal, os celerados golpistas do 8 de janeiro, o fim do Pix e a humilhação diante de Trump. Insistir na relação com Vorcaro, banqueiro dos bacanais, no filme mais caro da história do cinema, do fundo com Eduardo Bolsonaro, da seletividade de André Mendonça como seu agente. E colocar que Flávio merecia mais fazer companhia ao seu pai na Papuda do que entrar pela porta da frente do Planalto. Isso pode se materializar de diversas formas como o pedido que Sâmia fez à PF para recolher o passaporte do filho do genocida.
E ir subindo o tom. Convocar ações coordenadas de panfletagens, mutirões nos maiores bairros e terminais das cidades, engajar mais gente, sair da inércia burocrática que marca parte das campanhas levadas adiante pelo PT. E nosso papel enquanto PSOL é atuar para ser a primeira fileira desse combate e eleger uma bancada forte e ativa do PSOL e da federação.
O Lugar do PSOL
O PSOL está com campanhas volumosas nos estados onde têm parlamentares, com a federação com a Rede disputando os primeiros lugares do senado no RS, SP, Ceará, além de bem posicionado no Rio de Janeiro, com Monica Benício, onde Benedita lidera as pesquisas. O PSOL está se fortalecendo, objetivamente. O PSOL deve defender um giro na campanha de Lula, afirmando, além da defesa correta que Lula trouxe de “investigação de todos, até o final, doa a quem doer”, que é preciso subir o tom, organizar a mobilização, propostas plebiscitárias e uma ofensiva anti-Flávio em toda linha.
Nas redes e nas ruas, o PSOL é citado como um dos principais atores na mobilização do eleitorado de esquerda. Deve assumir compromissos com a juventude e a classe trabalhadora na defesa do programa. Para vencer, é preciso também garantir o voto no PSOL, o voto no 50, o voto nos candidatos que podem eleger-se para Câmara Federal e para as Assembleias Legislativas. Além disso, reforçar a campanha em Sergipe, Santa Catarina, Espírito Santo e Paraíba, que são os estados que podem superar a votação de 1,5 %, coroando a superação da cláusula de barreira.
Nossa orientação e política
O papel do MES, sua direção, candidatos, militância e simpatizantes é seguir integrado e ampliando a presença nessa batalha política das próximas semanas.
Nosso combate deve combinar a luta unitária (medidas plebiscitárias como 6×1, soberania, contra a violência das mulheres, emergência climática) com nossa própria localização programática, na qual defendemos medidas transicionais – nas quais entram o Passe Livre; a taxação das grandes fortunas; a regulamentação das redes sociais e do meio digital; a defesa do meio-ambiente, com o programa ecossocialista; o cerco às Bets e o capital financeiro; a anistia às famílias endividada; a defesa do salário mínimo, rumo ao salário do Dieese; o controle do preço dos alugueis (como estamos agitando no DF; defesa das estatais e reestatização dos serviços essenciais como a água e o transporte ferroviário; defesa do controle nacional das terras raras e minerais críticos; investimento e defesa do SUS.
Nossa política para esquentar as ruas é pegar firme contra Flávio, mostrar o governo trágico de Bolsonaro, usar a tensão do STF para converter a energia para as ruas (no primeiro e no segundo turno), apoio às greves de correios e da CEF, além das atividades próprias da campanha eleitoral. Dentro disso, devemos discutir que a crise do STF traz uma demanda de profundas mudanças, onde não se pode confundir. Moraes é parte da casta que tem supersalários e superpoderes, que cumpriu um papel progressivo no enfrentamento ao clã de Bozo e a Trump, mas expressa a democracia dos ricos, seletiva e elitista.
Devemos defender mudanças profundas, uma reforma política radical. Defendemos outra instiucionalidade e outro judiciário. Na verdade, uma revolução política como propaganda, na qual temos que ter novos critérios para a eleição e controle dos juízes, transparência nas decisões e mandatos, fim das emendas parlamentares e outras medidas reais.
Junto a essa batalha, atuaremos para ganhar e captar ativistas, filiando ao PSOL e atraindo para o MES, usando nossas figuras, nossos núcleos nos locais de trabalho e estudo. Em breve, sairá a nova edição da Revista Retomada – a serviço do reagrupamento de um polo crítico, radical e anticapitalista. E sabemos que é parte de uma batalha política internacional, atuando para que o Brasil pare a ofensiva de Trump, sendo vanguarda na luta contra o neofascismo como tivemos na I Conferência Internacional Antifascista no primeiro semestre.
Fazemos isso como parte da IV Internacional e das relações com o novo fenômeno da esquerda nos Estados Unidos, com nossos camaradas da nossa corrente irmã, o Pão e Rosas dentro do DSA. Vamos às ruas, às redes e depois às urnas, para derrotar a extrema direita. Essa é a batalha política mais importante daqui até 6 de outubro.