A volta dos piratas!
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A volta dos piratas!

A geração Z hackeando o sistema

Dante Peixoto e Frederico Henriques 23 out 2026, 08:00

Foto: Manifestante segura a bandeira pirata do mangá One Piece durante protesto em Jacarta, Indonésia. (Aditya Aji/GI)

A bandeira pirata de One Piece, que atravessou as fronteiras da cultura pop japonesa para aparecer em manifestações juvenis em diferentes partes do mundo, talvez seja uma das imagens mais expressivas das contradições políticas do nosso tempo. Ao transformar um símbolo da indústria cultural globalizada em emblema de contestação, jovens que cresceram imersos nas plataformas digitais demonstram que os significados e os usos das tecnologias não estão inteiramente subordinados aos interesses daqueles que as controlam. Dos protestos na Ásia às mobilizações que atravessam diferentes países, uma geração frequentemente descrita como individualista, despolitizada ou prisioneira dos algoritmos vem encontrando novas linguagens para expressar seu inconformismo diante da precarização da vida, das desigualdades sociais e das formas tradicionais de exercício do poder.

Essas experiências colocam em questão uma interpretação recorrente em setores da esquerda, marcada por certo determinismo tecnológico que, não raramente, encobre uma perspectiva resignada diante das transformações contemporâneas. Segundo essa leitura, a concentração dos meios de comunicação, o desenvolvimento dos algoritmos e o poder crescente das grandes plataformas digitais conduziriam quase inevitavelmente à manipulação das massas, à desorganização dos trabalhadores e ao fortalecimento das forças conservadoras. A juventude, particularmente aquela que cresceu conectada às redes sociais, apareceria como uma geração praticamente perdida para o sistema, capturada pelo individualismo, pelo consumo e pelas estratégias de manipulação algorítmica. As classes dominantes seriam, assim, dotadas de uma capacidade quase ilimitada de produzir consensos e orientar comportamentos, enquanto trabalhadores e jovens permaneceriam reduzidos à condição de espectadores passivos da própria história. O problema dessa interpretação não está em reconhecer a dimensão real do poder econômico e político das plataformas, mas em transformar relações historicamente contraditórias em um processo unilateral, no qual desaparecem a capacidade de iniciativa, a criatividade e o protagonismo dos sujeitos sociais.

A história das tecnologias de comunicação, entretanto, está longe de corresponder a uma sucessão linear de instrumentos de dominação. Cada transformação nas condições materiais de produção e circulação da informação reorganiza as relações de poder, mas também produz novas contradições e possibilidades de resistência. A internet, inicialmente associada às promessas de descentralização, colaboração e livre circulação do conhecimento, tornou-se progressivamente um espaço dominado por grandes corporações capazes de transformar a participação social em fonte de acumulação, extrair dados e condicionar a visibilidade dos conteúdos. Contudo, a consolidação desse capitalismo de plataforma não eliminou os conflitos que atravessam a sociedade. Ao contrário, as próprias infraestruturas utilizadas para organizar comportamentos e capturar a atenção também se converteram em terrenos de disputa política.

É nesse contexto que as experiências recentes da geração Z adquirem particular importância. Formada em um mundo no qual as plataformas digitais já constituíam parte da vida cotidiana, essa juventude desenvolveu repertórios próprios de comunicação, circulação de informações e mobilização coletiva. Sua atuação não pode ser compreendida separadamente das condições sociais que atravessam suas experiências: a precarização do trabalho, as dificuldades de acesso a direitos, a crise das perspectivas de futuro e a insatisfação com as instituições políticas. Tampouco se trata de atribuir a uma geração uma orientação política homogênea ou necessariamente anticapitalista. O que interessa compreender é como, em determinadas circunstâncias, jovens trabalhadores e estudantes conseguem se apropriar das linguagens e dos mecanismos das plataformas para confrontar relações de poder, subverter seus usos previstos e construir novas formas de ação coletiva.

Este artigo parte da hipótese de que essas práticas expressam uma nova dimensão das contradições do capitalismo digital, que pode ser compreendida pela ideia de hackear o sistema: apropriar-se das ferramentas e estruturas existentes para produzir usos políticos que escapem, ainda que parcialmente, às finalidades de controle e acumulação que orientam seu funcionamento. Para desenvolver esse argumento, recuperamos inicialmente três momentos das transformações sociotécnicas da internet: a emergência da ética hacker e das experiências colaborativas, a expansão da Web 2.0 e sua captura pelas grandes plataformas e, finalmente, as novas práticas de resistência que emergem nesse ambiente. Em seguida, examinamos as mobilizações digitais durante o segundo turno das eleições brasileiras de 2026, particularmente a atuação da juventude e dos trabalhadores diante das plataformas da Meta. Mais do que celebrar uma suposta emancipação tecnológica, buscamos compreender como as disputas sociais continuam a atravessar o universo digital, recolocando no centro da história a capacidade dos sujeitos coletivos de transformar as condições em que atuam.

Da ética hacker ao capitalismo de plataforma: uma história de disputas

A expansão da internet, a partir das últimas décadas do século XX, foi acompanhada por expectativas de transformação das relações entre conhecimento, propriedade e poder. A arquitetura descentralizada das primeiras redes digitais, associada ao barateamento dos computadores pessoais e à ampliação das possibilidades de comunicação, favoreceu experiências de colaboração que pareciam desafiar os mecanismos tradicionais de organização da produção e circulação de informações. O desenvolvimento do software livre, das comunidades de programação e das redes de compartilhamento entre pares (peer-to-peer, ou P2P) tornou visível uma contradição fundamental: tecnologias desenvolvidas no interior de uma sociedade capitalista permitiam formas de cooperação que não dependiam necessariamente da propriedade privada exclusiva, da hierarquia empresarial ou da remuneração mercantil.

A chamada ética hacker expressava uma concepção de produção do conhecimento fundada na colaboração, na liberdade de experimentação e no compartilhamento de soluções tecnológicas. O movimento do software livre, os projetos de desenvolvimento coletivo e, posteriormente, a Wikipédia demonstraram a possibilidade de organizar atividades complexas mediante a cooperação de indivíduos dispersos geograficamente. Como discutiu Sérgio Amadeu da Silveira (2004), a expansão dessas experiências colocou em questão os mecanismos de controle privado sobre o conhecimento e as possibilidades de democratização das tecnologias da informação. Mais do que uma inovação técnica, tratava-se de uma disputa sobre quem poderia produzir, acessar e compartilhar os recursos informacionais de uma sociedade cada vez mais conectada.

Essas experiências, contudo, não se desenvolveram à margem dos conflitos econômicos. A disseminação do Napster, a partir de 1999, e posteriormente de outras redes P2P colocou em confronto milhões de usuários e os grandes conglomerados da indústria fonográfica e audiovisual. O compartilhamento digital questionava a capacidade das empresas de controlar a reprodução e a distribuição de mercadorias culturais. A resposta das grandes corporações envolveu processos judiciais, endurecimento dos mecanismos de propriedade intelectual e desenvolvimento de tecnologias destinadas a restringir a circulação de arquivos. O conflito ultrapassava a questão da chamada pirataria digital: envolvia concepções distintas sobre liberdade, propriedade e controle das infraestruturas informacionais.

A expansão posterior dos serviços de streaming não representou simplesmente o desaparecimento do compartilhamento digital, mas sua reorganização sob novas relações econômicas. Parte das práticas que haviam desafiado a indústria cultural foi incorporada a modelos empresariais baseados em assinaturas, licenciamento e controle centralizado do acesso. A promessa de circulação praticamente ilimitada de conteúdos passou a conviver com novas formas de cercamento dos bens culturais. Desde suas origens, portanto, a internet esteve atravessada por uma disputa entre as possibilidades cooperativas abertas pelo desenvolvimento tecnológico e as tentativas de subordiná-las à acumulação capitalista.

Uma segunda transformação ganhou força em meados dos anos 2000, com a expansão da chamada Web 2.0. A difusão dos blogs, das plataformas de vídeo e das redes sociais ampliou extraordinariamente as possibilidades de produção e circulação de conteúdos pelos próprios usuários. Se a primeira onda havia destacado a colaboração em torno do conhecimento e do compartilhamento de arquivos, a segunda colocou no centro a comunicação social e a participação pública. As novas ferramentas permitiam que indivíduos e grupos produzissem mensagens, organizassem comunidades e alcançassem públicos amplos sem depender integralmente dos meios tradicionais de comunicação. Manuel Castells (2013) identificou nesse processo o desenvolvimento da autocomunicação de massa, que alterava as condições de produção e circulação das informações e ampliava as possibilidades de articulação dos movimentos sociais.

As potencialidades políticas dessas transformações tornaram-se particularmente visíveis nos levantes do início da década de 2010. A Primavera Árabe, o movimento dos Indignados na Espanha e o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, revelaram a importância das redes digitais na circulação de informações, na convocação de manifestações e na construção de identidades coletivas. A comunicação horizontal contribuiu para conectar experiências de indignação que ultrapassavam fronteiras nacionais, enquanto praças e ruas se transformavam em espaços de encontro entre a mobilização virtual e a ação presencial. Essas experiências, entretanto, não foram produzidas espontaneamente pelas tecnologias. Expressavam contradições sociais profundas, relacionadas ao desemprego, à desigualdade, à crise econômica de 2008 e à perda de legitimidade das instituições políticas.

O entusiasmo com essas possibilidades também revelou limites importantes. A capacidade de convocar rapidamente grandes manifestações não correspondia necessariamente à construção de organizações duradouras ou à conquista de transformações institucionais. As redes ampliavam a velocidade e a escala da mobilização, mas não substituíam os processos de formação política, elaboração estratégica e organização coletiva. Ao mesmo tempo, governos e empresas desenvolviam instrumentos cada vez mais sofisticados de vigilância, monitoramento e controle da circulação de informações. A horizontalidade, frequentemente apresentada como superação das estruturas tradicionais, convivia com dificuldades diante de conflitos prolongados e adversários politicamente organizados.

Enquanto essas experiências ampliavam as expectativas de democratização da comunicação, desenvolvia-se uma transformação decisiva na economia política da internet. A participação dos usuários, inicialmente celebrada como expressão de liberdade e autonomia, tornou-se progressivamente uma fonte de valorização econômica. As interações sociais passaram a alimentar sistemas de coleta de dados, publicidade direcionada e seleção automatizada de conteúdos. A concentração empresarial, as aquisições de concorrentes e o desenvolvimento de mecanismos algorítmicos reorganizavam as condições de circulação da informação, deslocando parte crescente do poder de mediação para grandes corporações privadas.

Nick Srnicek (2018) situou esse processo no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo, caracterizado pela crescente centralidade das plataformas como infraestruturas de intermediação, coleta de dados e organização de mercados. Empresas como Google, Meta, Amazon e Uber passaram a ocupar posições estratégicas em diferentes dimensões da vida econômica e social. A produção de conteúdos, as relações de consumo e as próprias atividades de trabalho tornaram-se progressivamente dependentes de ambientes digitais cujas regras são definidas por corporações privadas. A promessa de participação horizontal não desapareceu, mas passou a operar em condições marcadas pela concentração econômica e pelo controle dos mecanismos de visibilidade, circulação e remuneração.

Essa transformação também atingiu diretamente o mundo do trabalho. A expansão dos aplicativos de transporte e entrega, assim como a reorganização das atividades logísticas e dos serviços, colocou os algoritmos no centro de novas modalidades de gestão e subordinação laboral. Entretanto, essas mesmas condições produziram experiências de organização coletiva. No Brasil, as mobilizações dos entregadores de aplicativos, particularmente o Breque dos Apps de 2020, demonstraram que trabalhadores submetidos à gestão algorítmica podiam construir formas próprias de articulação e contestação. Nos Estados Unidos, as iniciativas de sindicalização de trabalhadores da Amazon também evidenciaram conflitos em setores fortemente dependentes de infraestruturas digitais e sistemas de monitoramento. Embora distintas das experiências de colaboração da internet aberta, essas mobilizações recolocavam o problema da organização coletiva diante das transformações tecnológicas do capitalismo.

Mais recentemente, a emergência de protestos juvenis em diferentes países acrescentou novas dimensões a esse quadro. A circulação internacional de símbolos como a bandeira pirata de One Piece, apropriada por manifestantes em países asiáticos e em outras regiões, revela a capacidade de transformar repertórios culturais globalizados em linguagens compartilhadas de contestação. Na Europa, as mobilizações estudantis e juvenis na Sérvia, na França e em outros países, articuladas a reivindicações contra a corrupção, a precarização das condições de vida e a deterioração dos serviços públicos, também demonstram que a socialização digital não implica necessariamente desmobilização política. Essas experiências possuem origens, objetivos e orientações distintas, mas recolocam a relação entre comunicação digital, organização coletiva e intervenção no espaço público.

Não se trata de identificar nesses movimentos uma nova etapa homogênea de resistência, tampouco de atribuir à geração Z uma vocação política necessariamente emancipatória. As plataformas continuam sendo espaços de disputa entre projetos políticos diferentes, inclusive aqueles associados à extrema direita. O aspecto relevante é que a consolidação do controle empresarial e algorítmico não suprimiu a capacidade dos sujeitos sociais de construir formas de organização e contestação. As mesmas tecnologias que permitem monitorar trabalhadores, hierarquizar conteúdos e orientar comportamentos também podem ser apropriadas para compartilhar informações, construir solidariedades e articular mobilizações.

A trajetória da internet revela, assim, que as transformações tecnológicas não eliminaram as contradições entre cooperação social e apropriação privada, mas modificaram continuamente suas formas de manifestação. Se a cultura hacker e as redes P2P questionaram os mecanismos de propriedade e controle sobre a circulação do conhecimento, a expansão da Web 2.0 ampliou as possibilidades de comunicação e organização coletiva, ao mesmo tempo que criou as condições para sua crescente subordinação às grandes corporações digitais. A consolidação do capitalismo de plataforma deslocou essa disputa para um novo terreno: não se trata apenas de produzir e compartilhar conteúdos, mas de enfrentar sistemas algorítmicos que condicionam sua circulação, estabelecem hierarquias de visibilidade e transformam a participação dos usuários em fonte de acumulação. Entretanto, como demonstram as experiências recentes de mobilização social, essas estruturas não determinam antecipadamente os resultados das disputas políticas.

É nessa perspectiva que as mobilizações digitais durante o segundo turno das eleições brasileiras de 2026 adquirem particular importância. A atuação de jovens, trabalhadores e organizações políticas permite investigar como práticas historicamente associadas à colaboração, ao compartilhamento e à comunicação horizontal são reorganizadas em ambientes controlados pelas grandes plataformas. A capacidade de compreender seus mecanismos de funcionamento, articular redes de participação e disputar a circulação de conteúdos recoloca, sob novas condições, a tensão entre controle e resistência que acompanha a história da internet. Mais do que identificar uma nova etapa já consolidada, interessa examinar como essas experiências se desenvolvem, quais limites encontram e em que medida expressam formas emergentes de ação coletiva.

Hackeando as plataformas: o segundo turno brasileiro de 2026

As transformações históricas examinadas anteriormente ajudam a compreender as particularidades da mobilização política no atual ambiente digital. Diferentemente das experiências de compartilhamento que marcaram a expansão inicial da internet, a ação coletiva contemporânea desenvolve-se predominantemente em plataformas privadas que organizam algoritmicamente a circulação das informações. A capacidade de mobilização depende, portanto, não apenas da produção de conteúdos e da articulação entre participantes, mas também da compreensão e da apropriação prática dos mecanismos que condicionam sua distribuição. É nessa contradição, entre o controle privado das plataformas e as possibilidades de intervenção coletiva sobre seu funcionamento, que se inscrevem as experiências observadas durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 2026.

Entre o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, e a reta final da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a militância digital do campo lulista passou a desenvolver estratégias que ultrapassavam a produção e a divulgação de conteúdos. Compartilhar em vez de apenas curtir, comentar com palavras próprias, assistir aos vídeos até o fim, intensificar publicações durante eventos de grande audiência e fortalecer perfis menores tornaram-se orientações explícitas de campanha. Essas práticas revelam uma compreensão, ainda que intuitiva e parcial, dos sinais utilizados pelos sistemas de recomendação para organizar a visibilidade das publicações. Mais do que disputar narrativas, tratava-se de intervir nas próprias condições de circulação da informação, explorando as possibilidades de ação coletiva no interior de estruturas controladas por grandes empresas de tecnologia. A análise dessas experiências e de seus resultados permite, assim, problematizar a imagem consagrada das redes sociais como espaços organizados exclusivamente em bolhas e investigar as possibilidades e os limites da mobilização política no capitalismo de plataforma.

Nota de método

Os dados apresentados a seguir foram produzidos pelo autor por meio do Radar EVAG, sistema de monitoramento que acompanha diariamente as redes sociais, as buscas no Google e o noticiário para calcular um Índice de Força Digital (IFD) de cada candidatura, numa escala de 0 a 100. Os dados do Instagram foram obtidos pela API oficial da Meta (Graph API) e abrangem as páginas dos dois candidatos e 30 perfis de apoiadores, 16 alinhados a Lula e 14 a Flávio Bolsonaro, selecionados entre os de maior presença na campanha. Os dados do X foram coletados por amostragem de menções e pelos perfis dos candidatos. As pesquisas eleitorais citadas são de institutos registrados e foram consultadas na imprensa. Três limites precisam ser explicitados desde o início. Primeiro, a API pública informa curtidas, comentários e visualizações de vídeos, mas não informa compartilhamentos, salvamentos ou tempo de exibição de perfis de terceiros; por isso, os mecanismos algorítmicos discutidos adiante são inferidos do comportamento dos dados e das declarações das próprias plataformas, não medidos diretamente. Segundo, engajamento mede atenção e mobilização, não intenção de voto. Terceiro, o autor atua profissionalmente em comunicação política junto a candidaturas do campo progressista, o que se declara aqui em nome da transparência; a metodologia foi aplicada igualmente aos dois lados, e os resultados favoráveis ao campo adversário são apresentados com o mesmo destaque.

A onda de engajamento

O primeiro dado que chama atenção é a escala. A publicação típica de Lula no Instagram, medida pela mediana mensal de curtidas e comentários por post, passou de 66 mil interações em setembro para 580 mil em outubro, um crescimento de quase nove vezes. Até então, o maior patamar mensal registrado pelo monitoramento, iniciado em julho, havia sido de 109 mil. Flávio Bolsonaro também cresceu, de 205 mil para 931 mil por publicação, mas num ritmo menor, de 4,5 vezes (Figura 1). A polarização do segundo turno elevou o engajamento dos dois lados, mas a mobilização do campo lulista foi proporcionalmente mais intensa.

Figura 1 – Interações do post típico dos candidatos no Instagram, mediana mensal (em milhares), julho a outubro de 2026

Fonte: elaborado pelo autor com dados do Radar EVAG (Instagram, Graph API). Outubro: dados até 15/10/2026.

O fenômeno não se restringiu à página do candidato. Na semana de 9 a 15 de outubro, os 16 perfis de apoiadores de Lula, que somam 65 milhões de seguidores, geraram 108 milhões de interações. Os 14 perfis de apoiadores de Flávio, com 117 milhões de seguidores, geraram 58 milhões. Com pouco mais da metade da audiência potencial, o campo lulista produziu quase o dobro de interações. Em outras palavras, a diferença não está no tamanho da plateia, mas na disposição dela para agir (Figura 2).

Figura 2 – Seguidores, interações e visualizações de vídeos dos perfis de apoiadores, 9 a 15 de outubro de 2026

Fonte: elaborado pelo autor com dados do Radar EVAG (Instagram, Graph API). 16 perfis de apoiadores de Lula e 14 de Flávio Bolsonaro.


O terceiro painel da Figura 2 introduz uma ressalva que será retomada adiante: em visualizações de vídeo, o campo de Flávio Bolsonaro levou vantagem. A disputa digital do segundo turno não foi uma vitória unilateral, e é justamente a diferença entre os dois tipos de resultado, a participação ativa de um lado e o alcance passivo do outro, que ilumina o que a militância lulista fez de distinto.

Esse movimento coincidiu com uma mudança relevante na opinião pública. Na pesquisa Quaest com campo de 17 a 20 de outubro, contratada pela TV Globo, a rejeição a Lula, medida pela parcela dos eleitores que afirmam não votar nele de jeito nenhum, caiu de 53% para 47% em uma semana, variação superior à margem de erro de dois pontos. A rejeição a Flávio Bolsonaro passou de 54% para 52%. Na intenção de voto, o quadro seguia empatado, com 45% para Flávio e 44% para Lula, mas o espaço potencial de crescimento, ou seja, a parcela do eleitorado que não rejeita o candidato, passou a ser maior para Lula (53% contra 48%). No Índice de Força Digital calculado sem os ajustes por noticiário e por buscas negativas, retirados dos dois candidatos diante de indícios de buscas organizadas em massa, Lula manteve-se acima de 76 pontos entre 17 e 20 de outubro, enquanto Flávio oscilou entre 62 e 66 (Figura 3). Não é possível afirmar, com esses dados, que a mobilização digital causou a queda da rejeição. É possível afirmar que as duas coisas aconteceram na mesma direção e no mesmo período.

Figura 3 – Rejeição aos candidatos na pesquisa Quaest e Índice de Força Digital sem penalidades

Fonte: elaborado pelo autor com dados da Quaest (rejeição: “não votaria de jeito nenhum”; campo mais recente de 17 a 20/10/2026, margem de erro de 2 pontos) e do Radar EVAG (IFD, escala de 0 a 100, sem os ajustes por noticiário e por buscas negativas).

Os gatilhos do algoritmo

Taina Bucher (2017) propôs a noção de imaginário algorítmico para compreender como os usuários interpretam, imaginam e experimentam o funcionamento dos algoritmos e de que maneira essas percepções orientam suas práticas. A militância digital do segundo turno de 2026 pode ser interpretada como uma expressão coletiva desse fenômeno, na qual conhecimentos dispersos sobre os mecanismos de recomendação são convertidos em orientações compartilhadas de mobilização. Embora os sistemas da Meta permaneçam opacos em seus critérios específicos, a própria empresa divulga princípios gerais de funcionamento. Segundo as explicações públicas do Instagram (MOSSERI, 2023), a distribuição dos vídeos considera, entre outros sinais, o tempo de exibição, as curtidas, os comentários e os compartilhamentos por mensagem, especialmente relevantes para alcançar usuários que ainda não seguem determinado perfil. Orientações como “compartilha, comenta do seu jeito, assiste até o fim” traduzem esse conhecimento sobre as plataformas em práticas de intervenção política.

Essa experiência apresenta uma continuidade, embora em condições profundamente distintas, com a cultura hacker examinada anteriormente. Em ambos os casos, o conhecimento sobre o funcionamento dos sistemas tecnológicos deixa de permanecer restrito aos seus desenvolvedores e passa a ser apropriado por sujeitos que procuram ampliar suas possibilidades de ação. A diferença fundamental reside nas condições dessa apropriação. Enquanto parte das experiências anteriores buscava construir alternativas descentralizadas às estruturas proprietárias, a mobilização contemporânea desenvolve-se predominantemente no interior de plataformas cujas regras, infraestruturas e mecanismos de distribuição permanecem sob controle empresarial. O conhecimento compartilhado sobre seu funcionamento amplia as possibilidades de intervenção coletiva, mas não elimina a assimetria de poder entre os participantes e as corporações que administram esses ambientes.

Os dados do monitoramento permitem observar como essa disputa pela visibilidade se expressou no desempenho dos conteúdos. Para evitar que a dimensão das contas distorcesse os resultados, cada publicação foi comparada à mediana de desempenho do próprio perfil. Entre os apoiadores de Lula, as legendas curtas alcançaram desempenho 1,4 vez superior ao habitual, enquanto os vídeos e as publicações que mencionavam diretamente o adversário registraram resultados 1,3 vez maiores. Em contrapartida, chamadas genéricas ao voto e formatos estáticos, como fotografias e carrosséis, apresentaram desempenho inferior à mediana. A escolha dos temas também se mostrou relevante. Publicações que relacionavam as contradições do adversário a questões concretas da vida cotidiana alcançaram resultados particularmente expressivos. Uma publicação da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), associando as ausências de Flávio Bolsonaro no Senado ao debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1, registrou desempenho 36 vezes superior ao habitual de seu perfil. Na página de Lula, um vídeo sobre o mesmo tema alcançou resultado 4,6 vezes acima da mediana.

Esses resultados indicam que a eficácia digital não dependeu apenas da quantidade de publicações, mas da produção de conteúdos capazes de provocar os sinais que as plataformas privilegiam. Vídeos curtos, legendas diretas e temas que mobilizam a experiência material do trabalho, como a jornada 6×1, produzem comentários e compartilhamentos. É nesse ponto que a ideia de hackear o sistema ganha concretude: não se trata de violar as regras das plataformas, mas de compreendê-las o suficiente para colocá-las a serviço de finalidades que não são as delas.

A ação coordenada: o debate como laboratório

O debate realizado pela Band em 18 de outubro funcionou como um laboratório dessas práticas. A campanha de Lula usou as próprias redes como segunda tela: foram 13 publicações no Instagram entre 19h27 e meia-noite e 26 publicações no X. Nas 24 horas seguintes, a página de Lula no Instagram gerou 24,7 milhões de interações, o maior volume registrado pelo monitoramento, contra 4,7 milhões da página de Flávio Bolsonaro. No X, os perfis dos candidatos somaram, respectivamente, 872 mil e 97 mil curtidas, e Lula concentrou cerca de 78% das menções aos dois candidatos durante as três horas do debate (Figura 4).

Figura 4 – Desempenho dos candidatos no Instagram e no X no debate da Band, 18 de outubro de 2026

Fonte: elaborado pelo autor com dados do Radar EVAG. Instagram: curtidas e comentários em 24 horas, até as 19h de 19/10. X: curtidas nos tweets próprios desde as 18h de 18/10; menções estimadas por amostragem entre 20h e 23h.

Mais significativo do que o volume foi a capacidade de definir a pauta. O desafio lançado por Lula para que Flávio Bolsonaro abrisse o sigilo bancário apareceu em 12% a 14% das publicações sobre os dois candidatos nas amostras do X, à frente de qualquer outro tema. A conversa foi sustentada por hashtags combinadas previamente, como #AbreOSigiloFlavio, #LulaDandoShowNaBand e #ExplicaOCasoAnaClaraFlavio, que ocuparam inclusive o espaço das menções ao adversário. Na amostra de publicações que citavam o perfil de Flávio Bolsonaro, os sinais de apoio a Lula superaram os de apoio ao próprio Flávio (54 contra 28), e a publicação de maior engajamento era da deputada Erika Hilton cobrando a abertura do sigilo. No Instagram, a Mídia Ninja publicou 108 posts em três horas. No Google, circularam orientações para buscar termos associados a acusações contra Flávio, com o objetivo de fazê-los subir nos indicadores de tendência exibidos pela emissora.

O que se observa é uma forma de ação coletiva que combina a coordenação de lideranças e organizações políticas com a participação distribuída de milhares de usuários. Zeynep Tufekci (2017), ao analisar as mobilizações em rede que ganharam projeção internacional no início dos anos 2010, demonstrou como as tecnologias digitais ampliaram a capacidade de reunir rapidamente grandes contingentes de participantes, sem que essa força de mobilização se traduzisse necessariamente em estruturas organizativas duradouras. A experiência brasileira do segundo turno de 2026 apresenta uma configuração particular dessa relação. Perfis, organizações e apoiadores, mesmo sem uma estrutura formal unificada, compartilham orientações táticas, articulam iniciativas e sincronizam suas intervenções em momentos decisivos da disputa política. A participação distribuída não elimina, portanto, o papel das organizações e lideranças, assim como a existência de coordenação estratégica não impede a iniciativa dos participantes. Horizontalidade e organização aparecem menos como princípios opostos do que como dimensões articuladas de uma mesma experiência de mobilização.

Essa combinação adquire características próprias em um ambiente marcado pela concentração empresarial e pela mediação algorítmica da comunicação. Diferentemente das experiências anteriores de mobilização em rede, a capacidade de ampliar a circulação de conteúdos depende também da apropriação prática dos mecanismos de recomendação das plataformas. É necessário, contudo, distinguir essa coordenação política da utilização de perfis falsos, redes automatizadas ou mecanismos artificiais de manipulação de métricas. A atuação de pessoas reais, por meio de suas próprias contas, para ampliar a visibilidade de determinadas mensagens constitui uma forma de participação política, enquanto práticas de engajamento inautêntico colocam problemas distintos de transparência e manipulação. O monitoramento realizado não permite confirmar nem descartar a presença de contas automatizadas, e os dados relativos às buscas coordenadas no Google indicam que parte dos indicadores de interesse foi influenciada deliberadamente pela ação dos participantes. Esses resultados devem, portanto, ser interpretados como expressões de uma mobilização organizada, e não como indicadores diretos de adesão espontânea do eleitorado. Revelam, sobretudo, como a ação coletiva pode explorar as possibilidades de circulação oferecidas pelas plataformas, sem superar as relações assimétricas de poder que estruturam seu funcionamento.

Para além das bolhas: sistemas solares

A imagem das bolhas, popularizada por Eli Pariser (2011), tornou-se uma das principais metáforas para descrever os efeitos políticos das redes sociais. Segundo essa interpretação, os mecanismos de personalização tenderiam a restringir a experiência dos usuários a ambientes informacionais homogêneos, reforçando suas crenças e reduzindo o contato com perspectivas divergentes. Embora identifique tendências reais de segmentação, essa representação tem sido questionada por pesquisas empíricas. Axel Bruns (2019) argumenta que as evidências de bolhas inteiramente fechadas são limitadas e que a circulação de informações permanece mais diversificada do que a metáfora sugere. Estudos realizados com dados da própria Meta durante a eleição estadunidense de 2020 identificaram uma segregação ideológica significativa na exposição a notícias políticas, acompanhada de diferenças importantes entre os campos políticos e de espaços de circulação compartilhada (GONZÁLEZ-BAILÓN et al., 2023). A questão, portanto, não é negar a existência de mecanismos de segmentação, mas reconhecer que eles produzem fronteiras permeáveis e graus variados de exposição, em vez de universos informacionais completamente isolados.

Essa distinção possui consequências importantes para a compreensão da mobilização política contemporânea. A crescente mediação algorítmica não suprimiu as possibilidades de circulação entre diferentes redes, mas reorganizou as condições em que essa circulação ocorre. Os públicos digitais não constituem agrupamentos estáticos: suas fronteiras são atravessadas por conteúdos, acontecimentos e iniciativas que podem alcançar usuários situados fora dos círculos habituais de interação. Nesse ambiente, a disputa política envolve não apenas a capacidade de mobilizar aqueles que já compartilham determinadas posições, mas também a possibilidade de ampliar a circulação de mensagens para públicos menos próximos ou politicamente indefinidos. A permeabilidade das redes, entretanto, não significa igualdade de condições para alcançar esses públicos, uma vez que a visibilidade continua submetida aos critérios de distribuição estabelecidos pelas plataformas. É nessa tensão entre segmentação e circulação que se desenvolvem as estratégias de mobilização digital examinadas neste artigo.

Propomos aqui uma metáfora alternativa: a de sistemas solares. Na política digital, cada campo se organiza em torno de um núcleo, formado pelas lideranças, pelos candidatos e pelos perfis de maior capacidade de produção e mobilização. Em torno desse núcleo, distribuem-se órbitas de intensidade variável. Nas órbitas mais próximas estão os militantes e apoiadores convictos, que interagem com frequência e respondem às orientações. Nas órbitas intermediárias, estão os simpatizantes, que consomem conteúdo mas participam pouco. Nas órbitas mais distantes, encontram-se os usuários fracamente ligados ao campo, aqueles que seguem por afinidade parcial, que recebem conteúdo ocasionalmente ou que se identificam com apenas uma parte da agenda. Diferentemente da bolha, esse sistema não tem fronteira fechada. As órbitas externas de dois sistemas podem se sobrepor, e um corpo que gira fracamente em torno de um núcleo pode ser capturado pela gravidade de outro, se esta for mais forte (Figura 5).

Figura 5 – Representação esquemática da política digital como sistemas solares

Fonte: elaborado pelo autor.

A metáfora tem a vantagem de colocar no centro da análise uma variável que a imagem das bolhas ignora: a força relativa dos núcleos. Essa força não é dada pelo número de seguidores, mas pela capacidade de produzir movimento, isto é, pela intensidade com que o núcleo mobiliza suas órbitas próximas para gerar os sinais que os algoritmos interpretam como relevância. Cada compartilhamento, comentário ou visualização completa funciona como um impulso que leva o conteúdo para fora do sistema de origem e o coloca no campo de visão de usuários que orbitam outros núcleos. É nesse sentido que as táticas de engajamento ativo não apenas reforçam a convicção dos já convencidos: elas são o mecanismo pelo qual um núcleo estende seu campo gravitacional sobre as órbitas externas do adversário. A ideia dialoga com a clássica formulação de Mark Granovetter (1973) sobre a força dos laços fracos. São as conexões tênues, e não os vínculos densos dos grupos coesos, que fazem circular informações novas entre diferentes círculos sociais.

Os dados do segundo turno oferecem ilustrações desse mecanismo. A primeira é a ocupação das menções a Flávio Bolsonaro pelas hashtags do campo lulista durante o debate, descrita acima: o conteúdo produzido por um núcleo passou a circular dentro do espaço de conversa do outro. A segunda, e mais significativa, é o comportamento do campo político associado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao partido Missão, cujo candidato, Renan Santos, disputou o primeiro turno. Trata-se de um público de direita não bolsonarista, um típico corpo de órbita intermediária, ligado historicamente ao antipetismo, mas distante do núcleo bolsonarista. Suas principais lideranças orientaram o voto nulo no segundo turno. Nas pesquisas da AtlasIntel, a parcela desse eleitorado que declarava voto em Flávio Bolsonaro caiu de 40,3% para 33,5% em cerca de dez dias, enquanto a de Lula subiu de 28,1% para 31,9%, e o voto nulo também cresceu (Figura 6). Nas 1.272 respostas a publicações dessas lideranças no X analisadas entre 6 e 19 de outubro, os ataques a Lula representavam 12% das respostas antes do debate e caíram para 3,8% depois dele, enquanto as críticas a Flávio subiram de 4,1% para 4,8%, e as manifestações de voto em Flávio praticamente desapareceram. A amostra posterior ao debate é pequena e os dados não permitem estabelecer causalidade, mas o movimento é compatível com a hipótese de que um núcleo com maior capacidade de mobilização, ao impor um tema de debate (sigilo bancário e corrupção) que falava diretamente à agenda desse público, conseguiu deslocar parcialmente corpos que orbitavam na zona de influência do adversário.

Figura 6 – Eleitorado e audiência do campo MBL/Missão no segundo turno

Fonte: elaborado pelo autor com dados da AtlasIntel (eleitores que votaram em Renan Santos no 1º turno) e do Radar EVAG (1.272 respostas a 33 publicações de lideranças do campo no X, de 6 a 19/10/2026, classificadas por marcadores de tom; 980 antes e 292 durante e depois do debate).

Microinfluência e o bloqueio das grandes páginas

A metáfora dos sistemas solares ajuda também a compreender um segundo aspecto da estratégia: o papel dos perfis menores. As grandes páginas institucionais, dos candidatos, partidos e veículos alinhados, enfrentam um obstáculo que não é apenas político, mas algorítmico. Para uma parte expressiva do público, elas já foram classificadas como desinteressantes, seja porque o usuário as evita, seja porque nunca interagiu com elas. Como os sistemas de recomendação aprendem com o histórico de cada usuário, uma página rejeitada tende a ter seu alcance reduzido justamente entre aqueles que mais importaria alcançar. A mensagem que vem do núcleo encontra, nas órbitas externas, uma barreira.

Os dados do monitoramento não incluem microinfluenciadores em sentido estrito: o menor perfil acompanhado tem cerca de 490 mil seguidores. Ainda assim, permitem observar um padrão compatível com essa hipótese. Os perfis que publicaram em volume industrial, como a Mídia Ninja (290 publicações em uma semana), a Jovem Pan (293) e a Revista Oeste (167), tiveram, no vídeo típico, visualizações equivalentes a apenas 3% a 5% de seus seguidores. Já os perfis de vozes individuais, que falam em primeira pessoa e mantêm relação direta com seu público, alcançaram proporções muito maiores. O vídeo típico de André Janones foi visto por um número de pessoas equivalente a 114% de seus seguidores; o de Guilherme Cortez, a 71%. No campo adversário, o mesmo padrão se verifica com Nikolas Ferreira (121%) e Eduarda Campopiano (237%). Quando as visualizações de um vídeo superam o número de seguidores do perfil, o conteúdo necessariamente atingiu pessoas de fora da sua órbita imediata (Figura 7).

Figura 7 – Visualizações do vídeo típico de cada perfil em proporção aos seus seguidores, e número de publicações na semana

Fonte: elaborado pelo autor com dados do Radar EVAG (Instagram, Graph API), 9 a 15/10/2026. Mediana das visualizações de reels de cada perfil dividida pelo número de seguidores. Em negrito, perfis com mais de 150 publicações na semana.

Esse mecanismo ajuda a explicar a orientação, difundida entre os apoiadores de Lula, de fortalecer os perfis pequenos: o professor, a liderança comunitária, o perfil do bairro ou da cidade. A tradição dos estudos de comunicação conhece o fenômeno pelo menos desde a formulação do fluxo em duas etapas por Elihu Katz e Paul Lazarsfeld (1955), segundo a qual a influência dos meios de comunicação passa pela mediação de líderes de opinião inseridos nas relações cotidianas. A literatura sobre microcelebridades (SENFT, 2008; ABIDIN, 2018) mostrou como a intimidade, a autenticidade percebida e a proximidade com o público conferem a perfis pequenos uma credibilidade que as grandes marcas não têm. No ambiente algorítmico, essa vantagem relacional se converte em vantagem de distribuição. O conteúdo que chega por um perfil próximo não carrega o rótulo que levou o usuário a ignorar a página institucional, e o engajamento que ele provoca na rede pessoal desse perfil sinaliza à plataforma que se trata de conteúdo relevante para aquele círculo. Os microinfluenciadores funcionam, assim, como satélites capazes de levar a mensagem do núcleo para órbitas que ele já não alcança diretamente.

O outro sistema também se move

Seria analiticamente frágil, e politicamente imprudente, apresentar esses dados como prova de uma vitória digital unilateral. O campo de Flávio Bolsonaro mostrou capacidade própria de mobilização, com outra configuração. Seus apoiadores tiveram mais visualizações de vídeo na semana de 9 a 15 de outubro (721 milhões contra 618 milhões) e venceram a disputa entre influenciadores na noite do debate, com 14,7 milhões de interações e 227 milhões de visualizações, contra 10,4 milhões e 74 milhões do campo lulista. No dia 18 de outubro, data do debate e de um ato na avenida Paulista, os apoiadores de Flávio somaram 32,8 milhões de interações, cerca de quatro vezes a sua média diária da semana anterior.

A diferença está na estrutura dos dois sistemas. O campo bolsonarista se organiza em torno de poucos núcleos de enorme massa: com apenas seis vídeos publicados na semana, Nikolas Ferreira somou 170 milhões de visualizações, e o vídeo típico dele alcançou 28 milhões, cerca de três vezes o segundo colocado. Quarenta milhões de seguidores, somados os perfis de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e o segundo perfil de Pablo Marçal, sequer publicaram durante a semana analisada. O campo lulista, por sua vez, apresenta núcleos menos massivos, mas um número muito maior de corpos em movimento, numa rede em que a participação ativa compensa a menor audiência potencial. Se o primeiro modelo se apoia no alcance de poucas estrelas, o segundo depende da mobilização permanente de suas órbitas. Essa diferença explica por que a disputa nas redes permaneceu equilibrada em várias camadas, e por que a intenção de voto seguiu empatada a poucos dias da eleição.

O que os dados do segundo turno mostram, portanto, não é que as táticas de engajamento garantem vitórias eleitorais. Mostram que uma militância consciente dos mecanismos de distribuição das plataformas foi capaz de converter uma audiência menor em maior volume de participação, de definir a pauta de um momento decisivo da campanha e de estender sua influência sobre públicos situados na fronteira entre os dois campos, num período em que a rejeição ao seu candidato caiu de forma significativa. É nesse sentido que se pode falar em hackear as plataformas: não como superação do capitalismo de plataforma, mas como apropriação coletiva de suas regras de funcionamento, por sujeitos que se recusam a ocupar o lugar de espectadores passivos que o determinismo tecnológico lhes reserva.

Futuros em disputa

A experiência do segundo turno das eleições brasileiras de 2026 recoloca uma contradição que atravessa toda a história da internet: a concentração do poder sobre as tecnologias de comunicação não elimina a capacidade dos sujeitos sociais de se apropriar delas e reinventar suas formas de organização. Desde as experiências associadas à cultura hacker e às redes de compartilhamento até as mobilizações que marcaram a expansão das redes sociais, diferentes gerações procuraram explorar as possibilidades abertas pelas tecnologias digitais para construir práticas de cooperação, circulação de conhecimentos e intervenção política. Essas experiências não seguiram uma trajetória linear de emancipação. Desenvolveram-se em meio à crescente apropriação privada das infraestruturas digitais, que transformou a comunicação em um terreno central de acumulação econômica e disputa ideológica. O que se modifica historicamente são as condições em que essa contradição se manifesta e os instrumentos construídos para enfrentá-la.

O caso brasileiro é particularmente expressivo porque permite observar, em uma disputa política de grande alcance, a transformação do conhecimento sobre o funcionamento das plataformas em instrumento de mobilização coletiva. As orientações para compartilhar publicações, produzir comentários, acompanhar vídeos e fortalecer a circulação de conteúdos passaram a integrar repertórios de ação política difundidos entre milhares de participantes. Embora essas práticas não sejam inéditas, sua utilização coordenada evidencia um processo de apropriação de conhecimentos anteriormente mais concentrados entre especialistas em comunicação digital. Os dados examinados neste artigo mostram a importância das interações, das redes de influência e da participação organizada na disputa pela visibilidade, ainda que não permitam estabelecer uma relação direta entre engajamento digital e comportamento eleitoral. Mais do que os resultados quantitativos alcançados, destaca-se a formação de capacidades coletivas de intervenção em ambientes cuja circulação de informações permanece condicionada pelas grandes corporações tecnológicas.

Uma hipótese levantada por Sérgio Amadeu durante o debate Soberania digital no Brasil: big techs e a democracia, realizado no lançamento da revista Retomada, em outubro de 2026, ajuda a compreender essa experiência. Os sistemas de recomendação, desenvolvidos para ampliar o engajamento e a monetização dos conteúdos, também podem favorecer a circulação de mobilizações contrárias aos interesses políticos de seus proprietários. A participação de milhares de usuários, produzindo depoimentos pessoais e compartilhando conteúdos a partir de suas experiências, pode desencadear dinâmicas coletivas que escapam parcialmente ao controle empresarial. Revela-se, assim, uma contradição entre a lógica econômica que orienta o funcionamento das plataformas e as possibilidades de apropriação política dessas mesmas estruturas. Isso não significa que os algoritmos tenham perdido sua capacidade de direcionar a circulação das informações, mas que o poder das corporações, embora profundamente desigual, não determina integralmente os usos e os resultados da comunicação digital.

Esse processo assume especial importância para setores progressistas e organizações de esquerda que, apesar de uma trajetória significativa de atuação na internet, encontraram dificuldades para acompanhar as transformações das plataformas e disputar seus mecanismos de distribuição. Enquanto setores da extrema direita desenvolveram estratégias próprias de comunicação e exploração das dinâmicas de engajamento, parte das organizações progressistas permaneceu vinculada a repertórios menos adaptados à lógica das redes sociais. A experiência brasileira sugere uma mudança nesse quadro, com a ampliação de um letramento digital que não se limita ao domínio individual das ferramentas, mas envolve a circulação coletiva de conhecimentos, a coordenação de iniciativas e a compreensão de que a disputa política também se desenvolve nas condições técnicas de distribuição das mensagens. A atuação digital deixa de ser concebida apenas como divulgação de posições previamente elaboradas e passa a integrar a própria organização da ação coletiva.

Entretanto, essa capacidade de intervenção não significa que as plataformas constituam espaços neutros. Sua arquitetura, seus modelos de negócio e seus sistemas de recomendação expressam relações econômicas e escolhas institucionais que condicionam a circulação da informação. A transformação das interações sociais em dados, a disputa permanente pela atenção e a centralidade da publicidade direcionada orientam mecanismos que podem favorecer determinadas formas de comunicação e comportamento. A construção dos modelos de inteligência artificial e das redes neurais utilizadas nos sistemas de recomendação também envolve decisões sobre dados, objetivos de otimização e critérios de avaliação definidos pelas empresas. A essas condições soma-se a crescente intervenção política de grandes empresários do setor tecnológico, os chamados technobros, cujas posições e alianças evidenciam a dimensão ideológica da concentração de poder digital. Não se trata de supor que cada resultado algorítmico expresse diretamente a orientação partidária de seus proprietários, mas de reconhecer que essas tecnologias são inseparáveis das relações de poder que orientam sua construção e administração.

O poder dessas corporações resulta também da combinação entre o conhecimento acumulado sobre o comportamento dos usuários e a capacidade de intervir na circulação das informações. As plataformas não apenas transportam mensagens, mas organizam sua distribuição, estabelecem hierarquias de visibilidade e condicionam parte importante da formação da opinião pública. Essa concentração de poder coloca um problema que ultrapassa a comunicação eleitoral e alcança o exercício da própria soberania democrática. Empresas privadas, majoritariamente estrangeiras, passaram a controlar infraestruturas decisivas para a vida pública brasileira, adquirindo uma capacidade de influência sobre o debate público que escapa, em grande medida, aos mecanismos de fiscalização e controle das instituições democráticas. A questão envolve, portanto, não apenas a desigualdade entre os sujeitos que disputam esses espaços e as corporações que os administram, mas a própria capacidade da sociedade brasileira de decidir democraticamente sobre as condições em que sua comunicação pública é organizada. Essa assimetria estrutural não pode ser superada apenas pela ampliação do conhecimento sobre os algoritmos ou pelo aperfeiçoamento das estratégias de mobilização digital.

Por isso, a desconfiança em relação às corporações tecnológicas não deve conduzir ao abandono desses espaços, assim como a capacidade de atuar em seu interior não pode alimentar ilusões sobre sua neutralidade. A disputa exige combinar o conhecimento crítico dos mecanismos existentes com o enfrentamento das relações de propriedade e controle da comunicação digital. A regulação democrática das big techs constitui uma dimensão fundamental desse processo. A transparência dos sistemas de recomendação, as auditorias independentes, a proteção dos dados pessoais, a responsabilização por práticas ilícitas e o enfrentamento da concentração econômica são instrumentos necessários para limitar poderes que escapam amplamente ao controle social.

A democratização da comunicação digital, contudo, não pode se restringir à imposição de regras sobre infraestruturas que permaneceriam sob controle das mesmas corporações. É necessário enfrentar a dependência tecnológica que limita a autonomia dos países periféricos. A soberania digital, nesse sentido, não se reduz à possibilidade de escolher fornecedores privados ou contratar serviços de empresas estrangeiras, mas envolve construir capacidades próprias de desenvolvimento tecnológico, controle de dados e organização de infraestruturas orientadas por necessidades coletivas. A experiência dos movimentos camponeses na formulação da soberania alimentar oferece uma referência importante: mais do que assegurar o acesso a produtos e serviços, a soberania pressupõe a capacidade de decidir o que produzir, como produzir e a quais interesses sociais atender.

Nessa perspectiva, as experiências históricas do software livre, dos bens comuns digitais e da produção colaborativa recuperam sua atualidade. Iniciativas como a Wikipédia demonstram que formas abrangentes de cooperação podem se desenvolver sem subordinar suas finalidades à acumulação privada. Propostas de infraestruturas federadas, tecnologias abertas e sistemas de armazenamento e processamento de dados sob controle público e social apontam caminhos para reduzir a dependência das grandes plataformas. Embora enfrentem obstáculos econômicos, técnicos e políticos consideráveis, sua viabilidade não depende apenas do conhecimento especializado, mas também de investimentos públicos, organização coletiva e definição de prioridades de desenvolvimento. A questão tecnológica deixa, assim, de ser tratada exclusivamente como um problema de eficiência dos instrumentos disponíveis e passa a integrar a disputa sobre os rumos da sociedade.

Essa perspectiva permite compreender as duas dimensões complementares da luta contemporânea. De um lado, a apropriação dos mecanismos algorítmicos amplia as possibilidades de intervenção política em espaços que já concentram parcela significativa da comunicação pública. De outro, a regulação, a democratização das infraestruturas e a construção de alternativas procuram modificar as condições estruturais em que essa intervenção ocorre. Há uma contradição inevitável nessa relação: ao mobilizar usuários e produzir interações, movimentos sociais também alimentam os mecanismos de valorização econômica das plataformas que contestam. Entretanto, a existência dessa contradição não torna dispensável a disputa imediata, assim como os resultados alcançados dentro das plataformas não substituem a necessidade de transformar suas estruturas. A experiência brasileira evidencia justamente a importância de articular essas frentes, sem reduzir a ação política à eficiência comunicacional nem transformar a crítica ao poder corporativo em justificativa para a passividade.

Independentemente do resultado eleitoral, o segundo turno de 2026 poderá deixar aprendizados que ultrapassem a campanha. A circulação de conhecimentos, a formação de redes de colaboração e o desenvolvimento de práticas de ação coordenada constituem experiências que podem ser mobilizadas em disputas posteriores. Sua continuidade, entretanto, dependerá da capacidade de transformar a participação episódica em vínculos coletivos mais duradouros, articulando a intervenção digital às organizações políticas, aos movimentos sociais e aos conflitos que se desenvolvem nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades e nos territórios.

É nesse movimento que a geração Z adquire particular relevância, não como portadora de uma disposição naturalmente emancipatória, mas como parte de uma geração socializada em condições tecnológicas distintas daquelas vividas por seus antecessores. Sua familiaridade com as linguagens e práticas das plataformas pode contribuir para a reinvenção dos repertórios de mobilização, especialmente quando articulada às experiências acumuladas por outras gerações. A história examinada neste artigo mostra que essa renovação não começou agora. Os hackers e defensores do compartilhamento de conhecimentos, os participantes das grandes mobilizações em rede dos anos 2010 e os sujeitos que hoje procuram compreender e disputar os sistemas algorítmicos enfrentaram condições históricas diferentes, mas expressaram, cada um a seu modo, a capacidade de reinventar instrumentos de ação coletiva diante das transformações tecnológicas. A experiência brasileira sugere que essa história permanece aberta e que os aprendizados produzidos durante a disputa eleitoral poderão integrar as formas de enfrentamento da extrema direita e de suas expressões neofascistas no período seguinte.

A volta dos piratas, evocada no título deste artigo, não anuncia uma nova era de liberdade digital nem o desaparecimento das estruturas de dominação que organizam a internet contemporânea. Ela expressa a persistência de sujeitos que, em diferentes momentos históricos, recusam a condição de usuários passivos e procuram transformar as tecnologias disponíveis em instrumentos de organização e intervenção coletiva. Os mares digitais tornaram-se mais concentrados, suas rotas são condicionadas por sistemas algorítmicos e suas regras permanecem amplamente submetidas ao poder privado. Mas a história dessas tecnologias também demonstra que nenhuma forma de controle elimina definitivamente a possibilidade de contestação. O segundo turno brasileiro oferece uma expressão contemporânea dessa capacidade de reinvenção. Seu significado mais duradouro poderá estar não apenas no aprendizado de como disputar a circulação das mensagens, mas na possibilidade de transformar esse conhecimento em força coletiva para democratizar as próprias condições da comunicação. A disputa pelo futuro da internet envolve, simultaneamente, a capacidade de intervir nas tecnologias existentes e o direito de construir outras, subordinadas não à acumulação privada, mas às necessidades e à criatividade da humanidade.

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