Cinco anos em busca de justiça
Flávio Bolsonaro atuou para tentar retirar PM acusado da morte da menina Ana Clara, 5 anos, do Tribunal do Júri. Mais de cinco anos depois, a mãe ainda espera por justiça e denuncia sucessivos adiamentos
Foto: Reprodução
O nome de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos morta por um disparo de fuzil durante uma ação da Polícia Militar em Niterói (RJ), voltou ao centro do debate político nacional. O caso ganhou repercussão nas redes sociais após o debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado no domingo (18), quando o presidente questionou o adversário sobre sua atuação como advogado do policial militar acusado pela morte da criança.
Na segunda-feira (19), a expressão “Flávio Bolsonaro caso Ana Clara” chegou ao topo dos assuntos mais pesquisados no Google Trends, com mais de um milhão de buscas associadas ao tema em 24 horas, segundo o Congresso em Foco. A mobilização digital trouxe novamente à tona uma pergunta que acompanha a família desde 2021: por que, passados mais de cinco anos, o julgamento ainda não aconteceu?
O caso envolve o ex-cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por homicídio doloso. A acusação sustenta que ele assumiu o risco de matar ao disparar em direção a uma área residencial. Em 2024, Flávio Bolsonaro passou a integrar a equipe de defesa do policial e assinou um recurso para tentar reverter a decisão judicial que determinou sua submissão ao Tribunal do Júri. O pedido não prosperou, mas o julgamento permanece pendente.
Uma criança morta na porta de casa
Em 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara brincava na porta de casa com o irmão de dois anos, na comunidade Monan Pequeno, quando foi atingida por um disparo durante uma ação policial. A menina foi levada ao hospital, mas não resistiu.
Segundo a denúncia do Ministério Público, o tiro fatal partiu do fuzil de Delaroli. A investigação contestou a versão de confronto apresentada pelo policial: de acordo com as informações reunidas pela imprensa, a perícia encontrou estojos de munição compatíveis com o armamento utilizado pelo agente, sem identificar cápsulas de pistola que sustentassem a hipótese de troca de tiros.
O policial foi preso em flagrante, mas passou a responder ao processo em liberdade em novembro de 2021, sob medidas cautelares. Naquele mesmo ano, a Justiça determinou que fosse julgado pelo Tribunal do Júri, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. A decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
A atuação de Flávio Bolsonaro
A participação de Flávio Bolsonaro no caso começou em 2024, quando o senador passou a integrar a equipe jurídica de Delaroli. Seu nome aparece entre os advogados em um acórdão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que analisou um recurso da defesa contra a decisão de levar o policial a júri popular.
A tentativa de reverter essa decisão foi rejeitada. Posteriormente, outros recursos também não conseguiram afastar o julgamento pelo Tribunal do Júri. Em 2025, o processo transitou em julgado quanto à decisão de submeter o policial ao júri, segundo a Folha de S.Paulo. Isso significa que não cabiam mais recursos contra essa determinação, embora o julgamento ainda precisasse ser realizado.
Durante o debate da Band, Lula cobrou explicações do senador sobre sua atuação profissional. Flávio respondeu: “Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento, você já condenou o cara”.
O direito à ampla defesa é uma garantia constitucional e não está em discussão. O ponto central, porém, é a atuação de um senador e candidato à Presidência na defesa de um policial acusado de matar uma criança e a tentativa de reverter a decisão que o encaminhava ao júri popular. A atuação jurídica não constitui, por si só, prova de irregularidade, mas é legítimo questionar publicamente suas consequências para o andamento do processo.
“Não é só mais uma criança”
Em entrevista à Agência Pública, publicada em 19 de outubro, Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, relatou o sofrimento de esperar por uma decisão judicial enquanto tenta lidar com a perda da filha. Ela também criticou a falta de resposta de Flávio Bolsonaro durante o debate presidencial.
“Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara”, afirmou Cristiane. A mãe também declarou:
“A questão é ele ser um senador, usar esse poder, essa força que ele tem na política para anular um júri. Ele não está defendendo, está atuando para não acontecer um júri de um cara que matou uma criança de 5 anos”.
Ao Brasil de Fato, Cristiane resumiu a espera de mais de cinco anos:
“Estou pedindo para que ele [policial] seja julgado. Não é só mais uma criança, eu não sou só mais uma mãe que chora. São 5 anos que levo isso comigo e eu não tenho resposta”.
A mãe também questionou a contradição entre o discurso de valorização da família frequentemente adotado por Flávio e sua atuação na defesa do policial acusado pela morte de sua filha.
“Nunca tive suporte nenhum, de nada. Eu acho meio contraditório porque ele diz tanto que preza pela família. Eu sou uma mulher, minha filha era uma menina. E assim ele se contradiz no que fala”, disse.
Julgamento adiado para maio de 2027
O julgamento de Delaroli estava inicialmente previsto para 14 de abril de 2026, data em que Ana Clara completaria 11 anos. A sessão foi remarcada para 21 de outubro, mas acabou adiada novamente. Segundo Cristiane relatou à Agência Pública, a nova data foi justificada pela existência de outro compromisso da juíza responsável pelo caso. O julgamento foi reagendado para 5 de maio de 2027. A mãe questionou a demora:
“Disseram que foi adiado novamente porque a juíza terá outro compromisso no dia. Só tem ela de juíza? E precisava jogar para o meio do ano que vem?”, declarou à Agência Pública.
A espera de uma mãe
A repercussão do caso nas redes sociais não apaga os anos de sofrimento enfrentados pela família. Cristiane relatou à Agência Pública dificuldades financeiras, ameaças e o impacto emocional de reviver a morte da filha enquanto cobra que o processo avance.
“Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara, vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela. Ela queria um quarto rosa de presente. Tive que pintar o túmulo”, afirmou.
A história de Ana Clara também recoloca no debate público as consequências da violência policial sobre moradores de comunidades e a demora do sistema de Justiça em julgar acusações graves. O caso não se resume à disputa entre dois candidatos: trata-se de uma criança morta, de uma família que aguarda há anos e de um processo cujo julgamento foi novamente adiado.
Com a sessão marcada para maio de 2027, Cristiane terá de esperar mais meses para que o Tribunal do Júri examine a acusação. Até lá, a pergunta que levou o caso aos assuntos mais comentados da internet permanece: quando a família de Ana Clara finalmente terá a oportunidade de acompanhar o julgamento?