Derrotar o neofascismo no 2º turno! Mobilizar e votar Lula 13!
Estaremos na primeira linha contra a extrema direita auxiliar de Trump. Esta é a batalha dos próximos dias, apostando no debate estratégico e na luta de ideias para reorganizar as forças militantes para o que virá. O futuro se decide agora
Foto: Presidente Lula encerra atos de campanha no centro de São Paulo. (Ricardo Stuckert/Reprodução)
Lula pode vencer e ser eleito no 2º turno: temos menos de 20 dias para ganhar votos os que faltam. Também é fato que os resultados do 1º turno indicaram uma importante vitória da extrema direita em todo país. Portanto, a batalha do 2º turno será duríssima, com Flávio largando em vantagem. Enquanto analisamos, de forma preliminar, os resultados eleitorais, não perdemos tempo e já arregaçamos as mangas para organizar e mobilizar o conjunto do ativismo para essa batalha. Reuniões, plenárias, caminhadas e outras atividades de mobilização já estão sendo preparadas para essa semana.
O PSOL teve uma votação histórica, ampliando e qualificando suas bancadas, ficando entre os mais votados de diversos estados, inclusive, entre os cinco parlamentares mais votados do país. Apesar disso os mecanismos antidemocráticos deste atual regime politico restritivo, que ajudou a dar asas ao bolsonarismo, ameaça ser usado contra o PSOL. A tal cláusula de barreira foi criada sobretudo para evitar que a esquerda anticapitalista cresça e, se não houvesse uma fraude na utilização das cotas de mulheres feita pelo PSD no Espírito Santo, ou medidas antidemocráticas contra o PSOL em Sergipe, o partido teria conquistado o nono estado que faltou para superar as restrições.
Essa foi a única contradição importante no resultado do PSOL. Uma dificuldade que beira o absurdo, já que é evidente que o PSOL é um partido necessário para o povo. A restrição por medidas como a cláusula de barreira é um ataque que só pode ser defendido pelos inimigos da democracia e agora esse tema é objeto de luta política e jurídica.
Nas próximas semanas, nossos organismos se reunirão para produzir uma síntese mais aprofundada do processo político que vivemos, as lições iniciais que o processo eleitoral deixa e a dinâmica de conjunto. Queremos aqui, seguir orientando a militância do MES e do PSOL à luta sem tréguas para virar a eleição, reeleger Lula e evitar a chegada do neofascismo ao governo. É hora da luta, é hora da guerra política.
Vitória da extrema direita em 4 de outubro
Flávio Bolsonaro e a extrema direita foram os grandes vencedores do 1º turno. O conglomerado da extrema direita que congrega o clã Bolsonaro e o setor ligado a Tarcísio Freitas teve uma eleição arrasadora. Flávio, contrariando todas as pesquisas, ficou com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula, numa diferença de pouco mais de dois milhões de votos. As eleições para governos estaduais e Senado expressaram essa enorme vitória. Quase todos os estados importantes foram definidos em 1º turno, com o PL elegendo 7 governadores e apoiadores de Flávio sendo eleitos no RS (Zucco), SC (Jorginho), PR (Moro), MS (Riedel), MT (Pivetta), SP (Tarcísio), MG (Cleitinho), PA (Dr. Daniel), RR (Arthur), RO(Marcos). Destaque para as vitórias de Tarcísio e Cleitinho, além da chegada surpreendente de Ruas no Rio, que pode ser proclamado vencedor caso sejam anulados os votos de Garotinho. O PL elegeu 19 das 54 cadeiras que estavam em disputa para o Senado, tornando-se a maior bancada dessa casa. E teve a marca histórica para o Congresso, com a maior bancada já eleita para a Câmara Federal, com 121 deputados. Números impactantes de um verdadeiro “arrasa quarteirão”.
O primeiro balanço eleitoral já indica uma variação desfavorável da relação de forças.
Flávio e a extrema direita venceram “a la colombiana”. Ou seja, superaram em vários pontos as pesquisas difusas, com capacidade de chegada e impuseram uma nova relação de forças. Impuseram uma derrota múltipla ao campo político que está montado ao redor de Lula, contrastando com as análises nada realistas dos dirigentes do PT que chegaram a alentar uma vitória em 1º turno.
A campanha evoluiu com um cenário “a frio” até a explosão da crise do STF, que debilitou o governo, potencializando ainda mais as denúncias contra o regime, antes concentradas no escândalo do INSS/Lulinha. A exposição de Moraes e do STF anulou a defensiva que Flávio tinha se posto com a revelação inicial do caso Dark Horse, deixando o ativo “Vorcaro” como elemento neutro, se inclinando diretamente contra a “Nova República”. Na reta final, houve um pacote de medidas políticas: aumento do Bolsa Família, proibição das bets, novo desenrola, aliança com CNBB e interdição do debate no STF. A isso se somou uma maior mobilização da militância e atos de rua fortes da campanha e do próprio Lula, gerando um efeito de maior presença de eleitores e simpatizantes nas ruas. Ao contrário de outras vezes, o bolsonarismo foi mais discreto e apostou numa maioria silenciosa, conquistando uma sólida maioria eleitoral, a partir da captura de setores do Centrão e de partidos fisiológicos. A existência de candidaturas de direita não logrou parar a dinâmica de Flávio, após a crise do STF, Cury murchou e mesmo a resiliência de Renan teve um teto de cerca de 2%.
O PT manteve sua hegemonia no Nordeste, em que pese menor do que em outras eleições, vencendo aí seus três estados onde governa: Piauí, Ceará e Bahia. No RN, onde também governo, o candidato do PT, Cadu, conseguiu uma boa performance na reta final, chegando com chances ao segundo turno. No Amapá e no Pará, os candidatos do governo foram derrotados.
Lula não conseguiu reverter com suas medidas tímidas a desaprovação a seu governo. A mídia, ainda mais depois da crise do debate da Globo, mesmo a maioria não-bolsonarista, como Globo, Folha e Estadão, adotou a linha de pressionar o governo, reverberando críticas para defender um ajuste mais severo e colocar um futuro governo sob tutela.
Para entender o resultado, precisamos entender como o desgaste de Lula alimentou uma extrema direita resiliente ainda que por vezes na defensiva- não podemos esquecer que Jair está preso, que Flávio não conseguiu unificar a burguesia e seus partidos. A derrota de Lula e de seu campo deriva de aspectos gerais e particulares. Nos temas gerais, podemos falar de um triplo esgotamento: (I) do regime da Nova República, como bem escreveu há semanas, na Folha, a intelectual liberal Maria Hermínia Tavares, tendo como ato grotesco a crise do STF; (II) a do própria Lula (e por tabela seu partido) como expressão política, espécie de “fadiga de material”; (III) a estratégia adotada pelo PT desde a Nova República, da solução “institucional” dos conflitos de classe.
A Nova República teve seus últimos pilares abalados: o STF, que tinha cumprido um papel progressivo diante do golpismo do 8 de janeiro e das ingerências de Trump e de um Centrão que se empoderou com as emendas, mas que diante do desgaste recebeu um voto castigo, sendo capturado pela extrema direita, fenômeno parecido que o PSDB viveu em SP anos atrás , via Tarcísio.
Lula, maior estadista da história do Brasil, homem que sintetiza a própria histórica política recente na pele, combalido pela falta de perspectivas, não consegue recuperar a iniciativa para desenvolver um fenômeno forte o suficiente para parar a mão da extrema direita.
E por fim, a estratégia de conciliação de classes criou uma dependência do STF corrupto, do Centrão, além do próprio ajuste do governo, encabeçado por Galípolo, incapaz de suprir as demandas populares. Ou seja, a maior parte do voto popular de Flávio e dos seus, o maior ativo do antipetismo, é rejeição ao governo, pela incapacidade de responder à piora de condições de vida do povo; além da rejeição ao conjunto do regime, visto como corrupto, que Flávio alenta com a sua prédica hipócrita contra o “sistema”. Lula governa dentro do limites das alianças e criando rejeição popular que, por sua vez, alimenta a oposição de extrema direita e a tutela do Centrão e de parte da burguesia sobre o governo, num círculo vicioso que se repete como tragédia.
Flávio impôs seu nome como indicação direta do Clã, derrotando Tarcísio e congregando a aliança social que levou seu pai ao poder em 2018: desde uma parte da burguesia e do mundo das finanças, os pesados batalhões do agro, as grandes corporações do extrativismo e da mineração, além das empresas de tecnologia, de um parte das forças de repressão militares e civis, estamentos conservadores do Estado como Moro e cia, e uma ampla presença de setores evangélicos.
A presença das empresas de tecnologia é um elemento constituinte da política atual. Meta, Starlink e outras chamadas big techs atuam e atuaram para derrotar Lula e eleger Flávio. Peter Thiel acompanha o Brasil desde Buenos Aires e esteve em São Paulo há alguns meses. É uma ação organizada que lastreia um “partido de novo tipo”, a ideia de um “partido digital bolsonarista”, como pesquisadores do Cebrap definiram.
Trump se mobilizou e a disputa do Brasil é parte da disputa do mundo. O fechamento das embaixadas foi uma das medidas, mas a verdade é que há um ano Trump atua decididamente para tirar Lula do poder nas eleições; usa Milei, mas tem outras vias, como o financiamento da empresa BlackBridge, um tipo de think thank bilionário, de “combate”. A pressão sobre Moraes e o Pix, Trump e o sionismo correm contra o tempo. A “conquista de Brasília” é essencial para o projeto, diante do cenário incerto das próximas eleições estadunidenses e diante do desgaste dos governos da extrema direita na região. Teria um efeito dominó: Chile, Venezuela, Peru, Colômbia e agora Brasil.
É preciso entender que o processo é mais profundo, pois Flávio e a extrema direita tem uma estratégia mais total, não apenas chegar ao governo, uma estratégia de “revolução” que é na verdade uma contrarrevolução.
Eleger os senadores e cercar o STF, com uma concentração de poder nas mãos do clã, anistiar Jair e avançar em medidas autoritárias, assim construir um país com sua estratégia e programa, entregando-o para Trump como uma colônia: esse é o plano de ação desse novo governo.
Nunes Marques já colocou em pauta a anistia de Bolsonaro, além da sinalização do mercado, com a euforia nas bolsas e no mundo das finanças diante dos resultados do último domingo.
Os aspectos particulares que explicam o processo envolvem erros graves de orientação política por parte do PT, além da visão errada sobre a possibilidade de vitória no 1º turno, a linha “frente amplista” em candidatos fracos e que levou a desastres como, no RS e SP, além do atraso na definição do candidato em MG, entre outras.
Contudo, para nosso entendimento, há uma polarização, inclusive com a esquerda estando entre os mais votados no país e nos estados: uma batalha que tem recortes geracionais – Nikolas, Pavanato versus Érika Hilton e Sâmia Bomfim, o caso da jovem mineira Ana Elise como recordistas de votos pelo PT, Fábio Félix como o mais votado no DF, exemplos ideológicos que se opõe ao voto conservador dos redpills.
Há uma energia viva, ainda que cortada pela angústia e pela desorientação das direções majoritárias do movimento de massas, e que está presente, por exemplo, nas capitais onde Lula ganhou: São Paulo e Porto Alegre. Nos atos de reta final de campanha e na compreensão do sentido neofascista do que seria um novo governo do Clã, bem como uma certa tomada de consciência do papel limitado da estratégia lulista.
PSOL e a luta contra a cláusula de barreira
O PSOL precisa lutar contra a cláusula de barreira. Foi a contradição do resultado eleitoral , pois acaba de sair com parlamentares vitoriosos nas urnas, expressando a aspiração de setores das massas por renovação e radicalidade na política, mas está diante de um cenário cujo medidas restritivas ao funcionamento do partido podem ser aplicada com a perda de uma série de direitos por conta da não superação da cláusula de barreira. No editorial da última semana, alertamos que esse era um desafio tão importante quanto a luta para eleger Lula e nossos candidatos,
A segunda, e não menos importante tarefa, é convencer a votar nos candidatos do PSOL a deputados e senadores. O PSOL precisa superar a cláusula de barreira, um dos tantos mecanismos antidemocráticos do regime.
Com a derrubada da chapa da federação PSOL/Rede no estado de Sergipe por um casuísmo jurídico, a dificuldade foi que a hipótese de um nono estado ficou concentrada em três ou quatro apostas, onde Santa Catarina era considerada pela direção do PSOL como a mais provável. O resultado desfavorável levou a dependermos do Espírito Santo, onde a primeira contagem nos deixou de fora por apenas 185 votos. O que ainda está em jogo é que foram descobertas diversas fraudes na cota de gênero de partidos fisiológicos no estado, o que levaria a uma recontagem que recolocaria o PSOL com 1,50% dos votos para a Câmara no estado capixaba. Uma ação similar já foi julgada positivamente, anos atrás, dando ao PSOL mais um mandato na Câmara de Belém, com a recontagem após a anulação da chapa que fraudava a cota obrigatória de mulheres.
Estamos lutando com todas as forças para evitar que esta medida draconiana seja levada contra o PSOL, que é o projeto de futuro antagônico ao neofascismo, contando com a solidariedade e simpatia de milhões de brasileiros.
Nosso Partido cresceu do ponto de vista parlamentar, com a Federação com a Rede elegendo 15 deputados federais, pela primeira vez em quatro das cinco regiões do país e superamos a federação do PT no estado de São Paulo, berço do lulismo e principal polo econômico do país. Cresceu com um perfil feminista e antirascista, como alternativa coerente e combativa, enfrentando os reacionários e apostando na luta coletiva. Avançou também nas Assembleias Legislativas, ampliando suas bancadas em diversos estados.
Diante de tamanha contradição, apelamos para uma grande campanha diante da sociedade brasileira, vide as evidências da fraude no Espírito Santo, para que o PSOL tenha seu direito pleno de funcionamento, com manutenção do tempo de TV, de rádio, bem como para atuar com plenos direitos no congresso nacional. Vamos fortalecer e afirmar o PSOL como um Partido Necessário, das grandes causas da luta do povo brasileiro.
A luta do agora define o futuro – nosso papel enquanto MES/PSOL
Desde já, convocamos toda a militância e simpatizantes a se engajarem ainda mais na campanha no 2º turno. Precisamos ampliar e desenvolver a energia social para criar um mutirão permanente que dispute os votos que separam Lula de Flávio, a partir da consciência do povo trabalhador. A entrada em cena das universidades e a convocação de amplas plenárias são exemplos a serem seguidos.
Nossa narrativa é simples e deve ser voltada para os setores das periferias e quem não votou nem em Lula nem Flávio, ou mesmo que apenas não votou: é tudo ou nada, é sim ou não, para o fim da escala 6×1, pela vida das mulheres, para o Brasil não se tornar um protetorado de Trump, para a economia brasileira não colapsar e voltarmos para a fila do osso, para quem pode diminuir ou acabar com o Bolsa Família, para quem quer fechar os sindicatos e cercar as universidades. Como tocar no coração e mente dos milhões de brasileiros endividados, reféns dos altos juros e do capital financeiro, além de debater na juventude o problema da educação, das liberdades democráticas e da emergência climática.
E fazemos esse chamado de cabeça erguida e orgulhosos pelo desempenho do MES. Nossa organização cresceu porque apostou na radicalidade com amplitude. Elegemos 3 deputados federais, com Sâmia, Fábio e Fernanda. Sâmia foi um verdadeiro fenômeno, estando entre as cinco deputadas mais votadas do Brasil, com quase 600 mil votos. Fernanda Melchionna cresceu sua votação e figura entre as mais votadas do RS, com 276 mil votos, mesmo com a onda eleitoral de extrema direita que assolou o estado. Fábio Felix foi o mais votado entre todos do DF, proporcionalmente um dos mais votados do país.
Reelegemos 3 deputadas estaduais, com Luciana Genro e Camila Valadão, dentre as mais votadas do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo. Monica e as Pretas superaram todas as suas votações anteriores, chegando perto dos 200 mil votos.
Tivemos alguns retrocessos, como o caso de Josemar, combativo deputado do Rio, que não foi reeleito, apesar de crescer e superar a barreira dos 40 mil votos. Faltaram alguns votos para o PSOL fazer a segunda cadeira no Rio Grande do Sul, onde Roberto Robaina foi o segundo mais votado do Partido.
Elegemos duas novas deputadas, Mariana Conti, com mais de 124 mil votos, reconhecida internacionalmente por seu papel na Flotilha, ampliando a bancada coletiva do MES em SP; e Keka Bagno, primeira mulher negra de esquerda a ocupar uma cadeira na Câmara Distrital, liderança do MES e do PSOL.
Mesmo não eleitas, Vivi e Professora Ângela, fizeram votações importantes no estado do Pará e no Paraná, se postulando como referentes centrais para o Partido. E nos orgulhamos dos dezenas de camaradas que concorreram ao deputado e para o Senado, sob a bandeira do MES e do PSOL, além dos companheiros que apoiamos e fomos parte ativa das campanhas.
A polarização vai seguir e escalar, como ocorre no mundo. Trump pode perder as próximas eleições legislativas nos EUA, novas mobilizações da juventude sacodem a Espanha e França; crescem os extremos, os neofascistas voltam a ter peso de massas na Alemanha, com a AfD, enquanto Berlim responde com a vitória do Die Linke. Nos Estados Unidos, o DSA antagoniza Trump, crescendo como força política de massas. No Peru de Keiko Fujimori, a líder de esquerda, Veronika Mendonza acaba de ser eleita governadora de Cusco. E, aqui no Brasil, a esperança no PSOL expressa essa vontade de uma esquerda anticapitalista renovada.
Vamos lutar na primeira linha da luta contra o neofascista Flávio, linha auxiliar de Trump. Essa é a batalha para os próximos dias, apostando no debate estratégico, na luta de ideias e reorganizando as forças militantes para o que virá. O futuro se decide agora.