Uma situação internacional em ebulição
Os protestos da geração Z estão se colocando num novo patamar diante de da crise social e politica ainda mais acirrada pro todo o planeta
Foto: Manifestação por moradia digna no Estado Espanhol. (El Contrapunt/Reprodução)
Na segunda semana de outubro tivemos uma importante reunião internacional, onde nossa corrente, a IV Internacional, retomou discussões sobre a atual situação política.
Invariavelmente, o debate foi tocado pelas mobilizações que tomam conta de todo continente europeu. Essa discussão parte dos marcos dos fenômenos mais estruturais que recorrem ao Planeta: a resiliência da extrema direita, a catástrofe ambiental, a sanha neocolonialista e a resposta do movimento de massas.
Há, contudo, um enorme interesse pela situação brasileira, manifesto por todo lado, por conta de que é uma eleição “espelho” das condições de luta gerais e internacionais.
Essas duas dimensões estão articuladas: o debate internacional e a situação do Brasil, sejam pelos elementos da voracidade com que o trumpismo busca se impor, seja pela resposta massiva das ruas, com a juventude como motor.
Capitalismo suicidário do fim do mundo
O capitalismo está diante de sua pior crise. Nunca esteve tão decadente e evidenciando que sua promessa de prosperidade chega apenas a alguns, legando bilhões de seres humanos à miséria e pobreza.
Uma situação econômica temerária, com o FMI revendo as metas de crescimento, sob o fantasma da recessão ou mesmo de alguma crise que envolva a bolha da IA. Uma situação ambiental catastrófica, com os anos mais quentes da história, a repetição fatal de desastres climáticos de toda ordem.
Isso num mundo onde o genocídio de Gaza se combina com o crescimento das tensões militares, com a política de rearmamento de inúmeros países, antevendo novos choques e perspectivas de guerras.
A extrema direita é a expressão política dessa crise; ampliando e agudizando as condições ao dar a batalha política para rever conquistas civilizatórias.
E é preciso ter compreensão de por onde cresce a extrema direita, pra melhor combatê-la, sem cair num politicismo que descarta as forças sociais e às classes em combate.
Os dois polos da situação internacional
Um dos polos é o trumpismo e sua internacional – com suas frentes políticas e militares. Atolado no Oriente Médio, com necessidade existencial de seguir sustentando o genocídio da Palestina e o governo de Netanyahu, o trumpismo se vira para dominar a América Latina, evitar um retrocesso em sua casa e alentar alternativas neofascistas no mundo.
Não é exagero afirmar que em breve a extrema direita europeia da AfD, de Le Pen e do Vox estarão às portas de disputar os rumos do governo, com diferentes variações e processos. Um processo dramático e perigoso.
O outro polo, que está se colocando, rapidamente, em movimento, está conectado a ação massiva da juventude em luta, por todo o mundo. Podemos dizer que o despertar da juventude a partir de diferentes protestos, com epicentro nos países centrais da Europa, é um salto de qualidade na difusa rejeição crescente a Trump e ao projeto da extrema direita.
Até aqui, os centros da resistência estavam em ações difusas e populares, como as manifestações anti-Trump nos Estados Unidos e a solidariedade com a Palestina, ou em resistências militares, como a impressionante vitória do Irã, mas sem estar conectados diretamente com uma ação independente do movimento de massas.
De alguma forma, a nova fase das mobilizações, que unem à juventude ao setores mais avançados da classe trabalhadora, são um passo adiante das anteriores revoltas da Geração Z, que derrubaram inúmeros governos, sobretudo na Ásia.
A revolta, em geral contra as condições de vida, moradia e estudo, encabeçadas pela juventude, deram um salto de qualidade nas últimas três semanas.
Em primeiro lugar, foi a mobilização da Espanha, onde o despejo forçado por dívidas da aposentada Maricarmem, que depois veio a falecer, se tornou um símbolo da crise do capitalismo, do endividamento individual e familiar e da falta de perspectivas. Depois, manifestações na Bélgica, uma verdadeira rebelião popular na Albânia, a entrada em cena do movimento estudantil na Itália e Grécia, novos acampamentos nas praças das grandes cidades de Portugal, e a abertura de um esplendido processo político na França, radicalizado e profundo.
A nova onda de manifestações choca contra o crescimento político e institucional da extrema direita e não responde apenas à Europa. A retomada da ação dos “Baratas” na Índia, país mais populoso do mundo, e a irrupção dos protestos no segundo turno brasileiro são exemplos de por onde a faísca pode se expandir. Mesmo na “ressaca” que vive a Colômbia após a vitória de Abelardo de Espriella, se possibilitou uma grande greve geral na semana passada, com menos destaque na imprensa oficial do que sua força real.
Disputa na juventude
O novo momento enseja mudanças importantes, a maior delas, é a retomada da mobilização da juventude, em chave antifascista, contrariando a propaganda que atacava a geração Z como despolitizada ou de direita.
Fato é que em alguns processos, como o caso da vitória eleitoral de Milei na Argentina, o pêndulo da sociedade girou à direita tendo como base parte da juventude desencantada. Essa disputa segue, porém, agora sob novos marcos: a juventude está protagonizando barricadas e acampamentos na Europa, enfrentando a repressão policial, tecendo alianças com setores da classe trabalhadora e apostando em métodos e saídas coletivas como greves, ocupações e passeatas.
Vale o registro de Antoine Larrache, da direção do NPA, sobre o processo francês:
O dia 17 de outubro foi histórico e, no seu discurso de 18 de outubro, o presidente Macron só conseguiu mostrar sua impotência diante do movimento e se recusar a atender às reivindicações. O dia 17 de outubro sinaliza a possibilidade de uma convergência sem precedentes, de um movimento capaz de mudar as relações de força políticas e sociais. Desde que se fortaleçam seus meios de ação, sua auto-organização e seus objetivos políticos.
A CGT anunciou 800 mil participantes no dia 17 de outubro de 2026. É um número muito significativo, alcançado apesar da repressão e no primeiro fim de semana das férias escolares.
No Brasil, a modesta votação do partido Missão, que segue sendo um ator entre a juventude, demonstra que o espaço para ideias à esquerda é muito superior ao dos que optam pelo discurso neofascista. A juventude brasileira tomou as ruas para ressignificar por completo o processo eleitoral e pode estar ajudando a uma virada política de caráter histórico.
No Chile de Kast, o movimento estudantil já retornou às ruas, aproveitando o desprestígio do presidente eleito e retomando o seu protagonismo, marcante nas últimas duas décadas.
A geração Z está se colocando num novo patamar, diante de uma crise ainda mais acirrada que a das “ondas anteriores”, quando surgiram os “indignados” e as rebeliões como a do Chile de 2019.
Um novo mundo versus o fim do mundo
A crescente consciência – antifascista e ao mesmo tempo civilizatória- pode se expressar em diferentes formas e símbolos. Greta Thunberg, que de ativista ambiental se deslocou para vanguarda na solidariedade com a Palestina, presente na Global Summud Flotilha, agora esteve também nos protestos europeus. Ela é apenas uma das expressões desse novo tempo, de uma geração jovem, com seus meios e conexões, que está despertando para a luta política.
A radicalidade dos protestos, pensando no caso francês, inclui o peso dos bairros da periferia, da juventude imigrante e racializada, oprimida e perseguida pela polícia e pela ideologia da extrema direita.
Os próximos passos dependem do que deve acontecer nas próximas semanas, com algumas variáveis: (a) os próximos protestos na França e na Europa, em relação às forças de segurança; (b) se o desenlace da ação de massas no Brasil, no formato eleitoral, conseguirá derrotar Flávio Bolsonaro, assim contagiando todo continente latino-americano; (c) a hipótese de um novo tipo de greve geral, para além das paralisações eventuais que são marcadas, a partir da convergência das datas que se avizinham – 5 de novembro na França, 11 de novembro no Estado Espanhol, 20 de novembro na Itália; (d) a repercussão das eleições legislativas estadunidenses das próximas semanas; (e) o impacto geral que esse processo terá na juventude do mundo inteiro.
Da consciência à ação: a “novidade” é que existe um setor social, que se aproxima da classe trabalhadora, e pode dar salto ao experimentar ações comuns como a construção de uma greve geral, que começa a dar corpo à ideia de que é preciso uma freio de emergência ao capitalismo do fim do mundo. Eis a juventude.