O letramento digital forçado da esquerda brasileira
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O letramento digital forçado da esquerda brasileira

Temos que colocar o combate às big techs no centro de nossa política. O salto de consciência obtido no segundo turno é uma grande alavanca para modificar a correlação de forças e impedir que o próximo processo eleitoral seja novamente manipulado pelas empresas tecnofascistas

José Correa Leite 4 nov 2026, 07:58

Foto: Manifestante grava vídeo durante protesto no Rio de Janeiro. (SISEJUFE/Reprodução)

Vimos, no segundo turno da eleição presidencial brasileira, a maior mobilização popular da história do país, mais intensa do que em 1963/4 ou 1989. A sociedade se auto-organizou para se defender da ameaça fascista e milhões de pessoas saíram às ruas para fazer campanha e manifestar, seja seu rechaço à candidatura de Flávio Bolsonaro, seja seu apoio à de Lula. A esquerda, claramente identificada como tal, voltou a ocupar as ruas, que na última década estiveram principalmente nas mãos da direita  São as massas nas ruas que viraram o jogo nas urnas e somente elas podem garantir um futuro democrático para o Brasil. É com ela que o Lula IV terá que governar para não naufragar como um novo governo Dilma II.

Mas foi importante, também, o gigantesco mutirão de manifestações que vimos nas redes sociais, até há pouco um terreno controlado pela direita em conluio com as big techs. Sérgio Amadeu batizou essa onda de tsunami digital contra o tecnofascismo articulado contra Flávio Bolsonaro, a Meta (dona do Instagram, WhatsApp e Facebook) e o trumpismo. O crescimento de perfis de esquerda, incontáveis posts de influencers e pessoas comuns e as discussões sobre como lidar com os algorítmos de recomendação, também representaram um salto de consciência de milhões sobre o que são as redes digitais que difundem o impulso fascista. Esse é um ganho que temos que consolidar e que será nosso foco aqui. 

O poder difuso: subjetivação digital e economia da atenção

As redes digitais não são estruturas técnicas neutras; são hoje o aparelho ideológico do tecnofascismo. Elas foram, na origem, disputadas por forças democráticas, através de diferentes movimentos de software livre, culturas hackers e partidos piratas, mas com o advento das redes sociais, do smartphone e da dataficação, elas passaram a ser controladas pelas corporações do Vale do Silício que se tornaram o coração do capitalismo contemporâneo. Shoshana Zuboff vai caracterizar o nosso tempo como “a era do capitalismo de vigilância” e diferentes autores vão dizer que vivemos em um “capitalismo de plataforma” (Nick Srnicek, José van Dijck…). A expansão das infraestruturas digitais, redes sociais e dataficação estabeleceram o controle, pelo imperialismo estadunidense, dos processos sócio-materiais fundamentais do século XXI em boa parte do mundo. As redes digitais foram indispensáveis para a reorganização neoliberal do capitalismo.

Porém, ainda mais decisivo, o digital, diferente das constelações tecnológicas anteriores do capitalismo (vapor, eletricidade, petróleo), não é apenas infra-estrutura, ele constitui, também, uma nova e poderosa superestrutura político-jurídica-ideológica. Ele se organiza em marcos internacionais e busca escapar das regulações pelos estados nacionais; ele se apoia em uma nova regulação jurídica, embutida como coluna vertebral da formação da OMC, em 1994, o Tratado Relativo à Propriedade Intelectual e Similares(TRIPS); e ele se tornou a instituição fundamental de difusão de ideias em nossa época.

Seu peso é, todavia, ainda maior do que sugere esta descrição. Ele se tornou uma instituição de subjetivação decisiva. Os indivíduos têm que ser produzidos e reproduzidos enquanto tais, em um processo simultaneamente objetivo e subjetivo. A teoria da reprodução social dá conta da reprodução material dos seres humanos, mas sua estruturação psíquica e simbólica se dá através de uma teia de instituições que produzem ideologias. Essa produção e circulação de ideias, antes atributo das famílias, escolas, igrejas e mídias tradicionais, é agora subsumida, modulada e reproduzida pelas redes digitais e seus ecossistemas, que se tornam muito mais poderosas do que os mecanismos ideológicos tradicional. Aplicativos de big techs como os da Meta, Google, X, TikTok, Kwai ou Discord ocupam grande parte do espaço mental de bilhões de pessoas e influenciarem suas posições e comportamentos – um processo que, na medida em que a dataficação crescia com o uso dos smartphone passou a ser gerido algoritmicamente. Em troca da comodidade do celular na mão, abriu-se mão de controlar até mesmo os avatares digitais de nós mesmos, armazenados nos seus datacenters.

O fundamento dos negócios das big techs é, no capitalismo, a economia da atenção, o que significa que elas buscam um grande envolvimento existencial de seus usuários. Bilhões de pessoas são adestradas a ficaram conectadas a maior parte do tempo possível. As redes se tornaram poderosas instituições sociais de subjetivação, isto é, de formação social da psique. Sequestrando a atenção dos indivíduos, elas impulsionam todo tipo de viés de confirmação, favorecendo, através da compulsão à repetição, a reprodução de valores conservadores e estimulando que as populações se fechem em bolhas de auto-afirmação ideológica. A estetização da comunicação possibilita experiências cada vez mais sedutoras e impulsiona tanto as políticas de identidades e estilos de vida como as tendências narcísicas, que marcam a subjetividade social atual. Moderar conteúdo é exercer poder e distribuir visibilidade.

A sedução do digital é coextensiva ao reforço do individualismo como prática, forma de inserção social e estrutura psíquica das pessoas pelo neoliberalismo, um projeto antropológico e político dos mercados que impõe uma percepção fragmentária do mundo, estabelecendo o terreno para a volta do darwinismo social, a regressão mental e o recrudescimento dos fundamentalismos religiosos, com a extensão das teologias da prosperidade e da salvação. As redes sociais são o veículo fundamental da afirmação do tecnofascismo do Vale do Silício. 

O smartphone torna a adicção onipresente

O recurso a super estímulos é generalizado no capitalismo, sendo observado na indústria alimentícia, no uso de drogas, na relação com o sexo… Mas o smartphone permitiu que as corporações de plataformas introduzisse tecnologias aditivas cada vez mais sofisticadas vinculadas ao consumo das telas. Mecanismos cuidadosamente planejados no design das interfaces digitais induzem um uso compulsivo das plataformas e os comportamentos obsessivos que reduzem a disponibilidade para outras interações sociais. 

Rodrigo Ratier, escrevendo em 2026, oferece uma lista destes mecanismos: rolagem infinita; reprodução automática (autoplay); deslizar para atualizar (pull-to-refresh); jogo com hora marcada; sequências (streaks, isto é, a retenção do usuário com gamificação por recorrência de uso); investimento social (métricas como seguidores, curtidas, visualizações para criar dependência e validação social); anúncios disfarçados; chantagem emocional (confirm shaming); caixas de recompensa (loot boxes); névoa do tempo (time fog); dificuldade de saída; notificações de recaptura; repetição “repetitiva” (grinding), com a exigência de repetição mecânica da mesma tarefa inúmeras vezes para desbloquear uma funcionalidade; silenciamento algorítmico (shadow banning); isca e troca; continuidade forçada; urgência fabricada; prova social falsa; invasão de agenda, a isca de raiva (ragebait). A lista cresce a cada dia. A hegemonia ideológica da burguesia financeira estadunidense se dá ancorada nos smartphones em nossos bolsos e bolsas.

O déficit social cada vez mais perceptível nas novas gerações é, assim, produzido pelos condicionamentos das redes. Os estudos da neurobiologia do vício analisam a busca por estímulos que ativam os mecanismos de recompensa existentes no cérebro. O ser humano necessita de um delicado equilíbrio de neurotransmissores, nos quais se somam dopamina, serotonina, oxitocina, acetilcolina, endorfina, glutamato, o ácido gama-aminobutírico (GABA)… Esse não é um processo apenas biológico, mas psico-social, onde inúmeros elementos ambientais e de presença física se manifestam, o que abre espaço para as tecnologias viciantes. A multiplicação ao infinito dos estímulos e sensações cria uma cultura do déficit de atenção, estresse permanente, depressão, burnout, de embotamento generalizado. 

No ambiente das redes, a perda de limites é muito mais fácil e ameaça mais crianças e adolescentes. A multiplicação dos mecanismos viciantes propiciados pelo uso manipulativo dos smartphones levou David Courtwright a falar que vivemos em um “capitalismo límbico”, que aprendeu a manipular algoritmicamente os sistemas de prazer do cérebro do cérebro humano. Como o capitalismo inglês utilizou o ópio para consolidar sua dominação colonial na China do século XIX, as big techs estadunidenses novamente utilizam o vício em telas para tentar domesticar as populações globais.

A direita captura as redes e a esquerda recusa sua qualificação digital

Os mecanismos de fixação ou intensificação do uso das redes reforçam sua centralidade na intermediação das relações sociais contemporâneas. Podemos supor que se as redes digitais deixassem de ser condicionadas pela economia da atenção, isto é, fosse liberadas do imperativo do lucro e se tornassem serviços sociais disponíveis gratuitamente para todos, controladas para deixar de ser adictivas, elas perderiam sua natureza compulsiva e seriam utilizadas para atividades que promovessem o desenvolvimento de potencialidades humanas. Mas isso exige uma reeducação ampla da sociedade, que hoje não vê problemas em dar smartphones para crianças! 

Atualmente, as redes se tornaram incontornáveis e a visibilidade nelas está hoje no centro de disputa política por qualquer projeto de sociedade. A esquerda até agora deu muito pouca atenção a isso. Ela via as redes digitais como uma “nova mídia”, analisando-as pela chave da comunicação de massas. Normalmente ignorava que as estruturas digitais se tornaram dispositivos de subjetivação fundamentais. Mas lidamos com sistemas que mediam grande parte das relações sociais e redefinem o poder e a forma de fazer política no mundo atual. 

Enquanto as big techs avançavam globalmente no controle das redes, no Brasil, o terreno do streaming e da produção de conteúdo político digital também foi sendo ocupado por iniciativas da direita, ecoando o MBL e a família Bolsonaro.O Brasil Paralelo foi fundado em 2016 e teve um importante papel na construção do ecossistema digital neofascista. Eduardo Bolsonaro criou uma rede própria articulada através do Whatsapp, uma gigantesca rede de influencers de direita, pastores evangélicos, lideres ruralistas e policiais. Ele dotou o ecossistema das redes da extrema-direita de uma direção política, já funcional na greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que ajudou a eleger Jair Bolsonaro. Marcos Nobre sustenta que o vasto movimento bolsonarista é vertebrado por um “partido digital”, capaz de operar com as tarefas clássicas de um partido político, porém sem os limites da atuação institucional. Esse partido digital também pode articular mais facilmente o vasto movimento de ideias que trava as guerras culturais. 

A esquerda majoritária brasileira continuou, neste período, trabalhando as redes na chave anterior dos marqueteiros e da democratização da mídia. Ela teve que amargar a experiência do bolsonarismo para ver nascer iniciativas mais sistemáticas. O pioneirismo coube a Sérgio Amadeu, que lançou seu Podcast Tecnopolítico ainda no final de 2018 – uma iniciativa de sensibilização da esquerda para as relações entre poder, economia e sociedade mediadas pela tecnologia digital. Em 2020 chegou ao Brasil a sessão local do Sleeping Giants, uma organização de ativismo nas mídias sociais nascida nos EUA. E foi criado, durante a pandemia, o Instituto Conhecimento Libera (ICL), uma plataforma digital ampla para o campo progressista. O crescimento foi, em todos os casos, lento – o ICL atingiu cem mil assinantes em 2024.

Embora a digitalização da sociedade continuasse crescendo e mediando cada vez mais relações e instituições, a campanha de 2022 propiciou apenas um aprendizado muito limitado para a esquerda. De um lado, o TSE, sob Alexandre de Moraes, impôs fortes limites às fake news nas redes com a investigação das milícias digitais bolsonaristas; de outro, Biden, à frente da Casa Branca, abriu espaço para as pressões antimonopolistas contra as big techs. O X, de Elon Musk, chegou a ficar fora do ar por um mês sem maiores tensões. O resultado eleitoral pôde expressar os movimentos da sociedade. 

O letramento digital forçado da esquerda e a ruptura geracional

A eleição de Trump alterou a percepção da esquerda sobre a “neutralidade” das redes sociais. Magnatas do Vale do Silício foram à posse do governo Trump II, em 20 de janeiro de 2025, posar ao lado do presidente eleito, integrando-se ao movimento MAGA (vejam meu artigo Capitalismo de plataformas, tecnologias digitais e neofascismo). Não foi um acidente que a Google e a Meta tenham participado do 1º e do 2º Seminários Nacionais de Comunicação do Partido Liberal (em fevereiro e maio de 2025), realizando oficinas de treinamento e capacitação técnica voltadas para militantes e dirigentes do partido com a presença de Jair Bolsonaro. 

As campanhas de 2026 seguiram o padrão conhecido. O partido digital bolsonarista fez uma campanha eficiente para Flávio Bolsonaro nas redes, invisível para os setores progressistas da sociedade, enquanto a campanha muito fria de Lula ignorava as redes ou tratava-as de forma tosca. O resultado foi Flávio superando Lula por dois milhões de votos. Algo análogo ocorreu nas eleições proporcionais. As duas maiores votações para a Câmara ficaram com o PL: Nikolas Ferreira (MG) e Lucas Pavanato (SP) tiveram mais de 3 milhões de votos cada; em termos percentuais à população de cada estado, o PL teve 7 das 10 maiores votações para deputado federal; e três dos deputados estaduais mais votados do Brasil: Eduarda Campopiano (SP), Bruno Engler (MG) e Ana Campagnolo (SC).Candidatos da Missão (Kim Katagiri) e Novo (Jeffrey Chiquini) também tiveram altas votações pelo uso das redes.

A curva de aprendizagem da esquerda no parlamento começou a se alterar com a pressão da direita. Como deputadas, Erika Hilton e Sâmia Bomfim foram capazes de construir intervenções capazes de lidar com as novas formas de disputa permanente da atenção nas redes. Uma iniciativa pontual de Sâmia, como a entrega de um frasco de óleo de peroba a Nikolas, pode parecer pequena, mas faz todo sentido na lógica das redes sociais. Isso se expressou na alta votação de alguns candidatos da esquerda atentos às redes, particularmente no PSOL. Erika Hilton teve quase 1,6 milhões de votos, Sâmia Bomfim quase 600 mil votos e a jovem influencer negra do PT de Minas Gerais, Ana Elisa, 524 mil votos. Fábio Félix teve 224 mil votos, que representaram 13,5% dos votos para deputado federal em Brasília. Em São Paulo, depois de Eduarda Campopiano, candidatos da esquerda ocuparam até a quinta posição para deputados estaduais: Eduardo Suplicy, Sofia Favero, Carlos Giannazi e Paula da Bancada Feminista. A existência de estruturas militantes continuou a ter muita importância, mas ela escalava seu impacto se integrada a uma estrutura de comunicação digital.

Essa eleição marcou uma forte ruptura geracional tanto na direita, com candidatos jovens do PL e do Novo avançando sobre o Centrão, quanto na esquerda. Lideranças políticas dos ciclos de lutas políticas do final do século XX, do PT e do PSOL, como Rui Falcão, Paulo Teixeira, Zé Dirceu, Chico Alencar e Tarcísio Motta – sempre homens brancos mais velhos -, não se elegeram. Seu espaço foi ocupado pela eleição de parlamentares como Erika, Sâmia, Ana Elisa, Rick Azevedo e Fábio Félix. Mulheres, negros, gays e trans jovens e/ou afeitos ao uso das redes sociais tiveram uma nítida vantagem nesse processo eleitoral, expressando um novo perfil da esquerda brasileira. Apesar da onda conservadora, a bancada LGBTQIAPN+ na Câmara dos Deputados passou de quatro parlamentares em 2022 para treze em 2026. 

O segundo turno como educação política digital de massas

A situação se tornou crítica com os resultados do primeiro turno para presidente. Como virar a votação para Lula, já que os eleitores dos demais candidatos conservadores tendiam a migrar para Flávio Bolsonaro? A resposta imediata veio da auto-organização popular nas ruas, um movimento espontâneo naquilo que a esquerda sabia fazer e tinha abandonado como centro de sua prática política em todos esses anos de governo. A campanha teve atos gigantescos, da ordem de mais de um milhão de pessoas, em São Paulo e no Rio, e milhares de atos de todos os tipos, dos grandes em Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e Belém, aos pequenos, de Mongaguá, no litoral sul de São Paulo, a Ji-Paraná, em Rondônia. Tudo isso já faz desta eleição a experiência política maior de uma nova geração. Todavia, dadas as práticas das gerações jovens, outra compreensão se somou a isso, a necessidade de virar voto e convencer os eleitores votarem em Lula também através da intervenção nas redes sociais.

O Brasil é um dos países mais digitalizados do mundo. Mas as pessoas se movem no ambiente virtual das redes privadas, principalmente as da Meta, engajada nas campanhas da extrema-direita e baluarte da campanha de Flávio Bolsonaro. Como contornar os algorítmos dessas plataformas e furar as bolhas? A Meta evidenciava os conteúdos de Flávio Bolsonaro ou favoráveis a suas ideias e ocultava o conteúdo crítico a ele e a propaganda de Lula. Creio que quatro vetores explicam o sucesso do nosso esforço, reforçando-se mutuamente.

A mobilização molecular. Primeiro, milhões de pessoas passaram a se preocupar com o “algoritmo” e a utilizar os recursos digitais para produzir conteúdo político no Instagram, Facebook, TikTok, Kwai e criar novos grupos no WhatsApp. Utilizavam de gatinhos e cachorros caramelos politizados de IA à grupos de fãs de cantoras pop para romper a bolha e atingir pessoas indecisas, apáticas ou idosas, chamando-as a votar. Em um universo de milhões tomando iniciativa, se apenas uma parte delas é bem sucedida, move-se muita gente.

A politização dos influencers. Depois, muitos influenciadores declararam seu voto e, em muitos casos, fizeram campanha digital. O YouTube tem, no Brasil, 2,9 milhões de canais com mais de dez mil inscritos. O Instagram tem 500 mil perfis na mesma marca e mais de dez milhões de perfis com mais de mil seguidores no país. O TikTok não divulga seus números, mas o Brasil é o terceiro maior mercado da plataforma, que tem  aqui 134 milhões de usuário e centenas de milhares de criadores elegíveis para programas de monetização (que exigem mais de 10 mil seguidores). Esse grupo, manipula com eficiencia os algorítmos, foi o mais estratégico para criar a sensação de onda irresistível nas redes. Uma verdadeira guerra ocorreu no canal de muita gente que, tomando partido pelo Lula, perdeu milhares de seguidores bolsonaristas.

A produção de conteúdo videojornalístico de esquerda de qualidade para as redes. Tivemos a iniciativa do canal “Revelando o Brasil”, coordenado por Alessandra Orofino, focado na denúncia do bolsonarismo. Foram nove reportagens especiais produzidas pela equipe do podcast Calma Urgente, com apoio do ICL, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil. Elas repicavam em todas as plataformas, e chegaram a ser bloqueadas pela Meta. Episódios como “Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fabio Porchat, “O julgamento que nunca aconteceu”, sobre o assassinato da menica Ana Clara Machado (com Camila Pitanga), “Quem quer roubar sua praia?” (com Luana Piovani), “A Guerra à Santa”, sobre a relação dos neopentecostais com Nossa Senhora Aparecida (com Juliete), e “Pátria submissa” (com Wagner Moura) tiveram grande impacto. Eles forneceram o material para um trabalho molecular de educação política de massas sobre o que representava o fascismo miliciano de Bolsonaro. Tivemos um trabalho concentrado em dois meses, do ponto de vista de esquerda, análogo àquele realizado para a direita, por anos a fio, pelo Brasil Paralelo.

O Exército do Lula. E, coroando este tsunami digital, tivemos o canal “Exército do Lula”, do Janones, que, depois de 4 de outubro, ajudou a modular a disputa de tendências nas redes. Na ausência de uma direção de campanha de Lula para as redes, Janones, um deputado federal da Rede Sustentabilidade ocupou o espaço de maneira eficiente, distribuindo orientações sobre como lidar com os algorítmos das plataformas. O canal do WhatsApp funcionou como ferramenta da campanha proporcional de Janones e, na disputa do segundo turno, viu seu número de inscritos aumentar de 50 mil para 1 milhão em apenas dois dias e ultrapassando os 10 milhões de inscritos nas vésperas das eleições. O Exército de Lula se tornou a feição mais visível da disputa da esquerda nas redes. Ele criou um sentido de pertencimento com microtarefas de curto prazo factíveis para todo mundo (das curtidas ao uso da camiseta verde-amarelo); criou  também um sentido de proximidade e sensação de intimidade na forma coloquial como falava com milhões de pessoas, alavancando a normalização de uma comunicação muito mais agressiva frente à direita; e transmitiu o senso de urgência do que estava em jogo. Começou a circular, depois, um “Mini-manual de insurreição informacional (ou Janonismo)”, elaborado em francês, mas já traduzido para o português, buscando transmitir as lições desse tipo de intervenção para as redes da esquerda europeia.

Tudo isso foi mais forte do que a sabotagem da Meta, que era, de fato, o “exército do Flávio”. A empresa manipulou a publicidade digital (preços mais caros para Lula do que para Flávio, intervenção externa de financiadores de Flávio, fakenews…), o conteúdo gerado pela própria IA da Meta (gerando material de campanha de Flávio, mas não das outras…), a remoções e suspensão de contas, a recomendação algorítmica – o caso Nikolas é ridículo: 41 milhões de visualizações em 10 reels com 23 milhões de seguidores, sendo que Selena Gomez, com 402 milhões de seguidores tem muito menos visualizações! O ato massivo contra a empresa na frente de sua sede, na Faria Lima, em 19 de outubro, mostrou que a consciência da natureza criminosa da empresa já estava mais difundida.

Mas, como afirma afirma Rogério Bordini, “a despeito do resultado final da disputa pela presidência, ficou evidente que a divulgação sem controle de desinformação e fake news de conteúdo político em redes como Facebook, Instagram e Whatsapp ajudou a eleger um Congresso Nacional, diversas Assembleias Legislativas e governos estaduais Brasil afora de perfil ultraconservador, e com forte presença de extremistas. Foi o ápice até agora de uma agressão sistemática e silenciosa à soberania do país que vem ocorrendo através do poder dos algoritmos”.

E agora, o que fazer?

Avançar na luta contra as plataformas como ferramentas do fascismo significa avançar na soberania nacional, mais amplamente, e na soberania digital, em especial. O próximo governo Lula aprenderá alguma coisa dessa experiência? Adotará a soberania nacional como um norte estratégico para sua atuação? Voltará a distinguir empresas nacionais de empresas que operam no país? A exceção do segundo turno, a experiência do governo Lula III foi desastrosa, entreguista em tudo que diz respeito ao digital, resultado de duas décadas de relações promíscuas das lideranças do PT com as big techs. 

Muitas áreas estratégicas para o digital estão loteadas para o Centrão e pelo menos uma está controlada pelo bolsonarismo. Isso sem falar que a direção do PT, não só é pró-mercado, mas perdeu qualquer noção de soberania e se tornou globalista; figuras como Camilo Santana e Rui Costa poderiam estar nos ministérios de FHC. O governo tem hoje seis secretarias e três empresas focadas no digital: Secretaria de Governo Digital (SGD), Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Transformação Digital (SETAD), Secretaria de Telecomunicações (SETEL), Secretaria de Políticas Digitais (SPDIGI), Secretaria de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços (SDIC), Secretaria de Segurança da Informação e Cibernética (SSIC), o SERPRO (que é a principal empresa estatal de tecnologia), a DATAPREV e a BBTS (a antiga Cobra, do Banco do Brasil para a infra-estrutura bancária). Discutir soberania digital significa coordenar estas secretarias e empresas com o norte da autonomia tecnológica, de infra-estrutura e de dados. Mas hoje todas estão neutralizadas (caso da SPDIGI) ou, no caso das demais, nas mãos de burocratas ou do Centrão, quase sempre “funcionários” das big techs. E o caso da BBTS, ela continua entregue ao bolsonarismo! Essa é a compreensão real do governo Lula III da soberania digital! Toda esta estrutura deveria estar funcionando sobre a base dos imperativos de segurança e soberania nacional.

O pano de fundo é aquele que a PEC da Soberania Digital Nacional apresentada pela deputada Sâmia Bomfim busca enfrentar de maneira mais circunscrita frente às plataformas. Mas há obstáculos jurídicos para a soberania digital que vão além de regular as plataformas. O artigo 171 da Constituição de 1988, que protegia e dava benefícios especiais ao capital nacional, foi eliminado pela Emenda Constitucional nº 6, de 15 de agosto de 1995, no governo FHC. Desde então, toda empresa constituída sob as leis brasileiras e com sede e administração no país passou a ter o mesmo tratamento legal, tornando a origem do capital social irrelevante para a sua definição como empresa brasileira. O ideal seria suprimir a Emenda nº 6, mas esse é, junto com a Lei de Responsabilidade Fiscal, é o coração do neoliberalismo montado no país. Devemos denunciar os dois, mas suprimi-los exigirá a formação de um gigantesco movimento nacionalista no Brasil.

Há, contudo, brechas de soberania na Constituição em áreas como segurança, saúde, terras, transportes, setor aeroespacial e cultura. Uma possibilidade seria assimilar as plataformas ao setor de comunicação social adotando as leis sobre radiodifusão e jornalismo (Artigo 222), o que não seria artificial depois desse processo eleitoral. Mas este é só um exemplo do tipo de definição estratégica que um movimento pela soberania digital – parte de uma iniciativa mais ampla em defesa da soberania nacional – terá que adotar para construir como campanha de massa se quiser modificar a situação existente. 

Temos que colocar o combate às big techs no centro de nossa política. O salto de consciência obtido no segundo turno da campanha eleitoral é uma grande alavanca para modificar a correlação de forças e impedir que o próximo processo eleitoral seja outra vez manipulado pelas empresas tecnofascistas.


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