O Espírito Santo pode viver sua Copa de 82
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O Espírito Santo pode viver sua Copa de 82

No Espírito Santo, a conjuntura política exige uma posição firme da esquerda radical

Ricardo Nespoli 9 mar 2026, 12:25

A política no Brasil e também a capixaba entrou em campo antes mesmo do apito oficial. A disputa pelo governo do Espírito Santo em 2026 já reorganiza alianças, redefine adversários e expõe duas escolas distintas de fazer política — com consequências que podem marcar os rumos do estado por anos.

De um lado, o grupo do governador Renato Casagrande (PSB), que ao que tudo indica disputará o Senado, consolidou a candidatura de seu vice, Ricardo Ferraço (MDB), ao governo. A engrenagem institucional se moveu rapidamente: reorganização partidária, ampliação de base, articulação de prefeitos e consolidação de alianças.

De outro, um movimento que ganhou forma no Carnaval. Arnaldinho Borgo (PSDB), prefeito de Vila Velha, que sempre contou com apoio político do governador e recebeu investimentos robustos do Estado em seu município, vinha sinalizando que sua candidatura ao governo era “pra valer”. A tensão interna no chamado “condomínio do Palácio” já era pública.

O ponto de virada veio no Carnaval. O desfile das escolas de samba de Vitória virou palco de movimentação política explícita. Arnaldinho e Lorenzo Pazolini (Republicanos) apareceram juntos, circularam juntos, posaram juntos e ainda fecharam a noite com post colaborativo nas redes. Nada casual.

No meio do evento, Pazolini fez fala contra a “velha política”. Não precisou citar nomes. O alvo estava claro: Casagrande e Ferraço. Ao lado, Arnaldinho ouvia e concordava, balançando a cabeça. A imagem correu rápido.

Para quem acompanha a política do estado, o recado foi direto. Arnaldinho, que sempre esteve no campo do governador atravessava a linha publicamente. Não foi um encontro protocolar. Foi gesto calculado. E gesto, em política, raramente é inocente.

A partir dali, a aliança entre Pazolini e Arnaldinho deixou de ser especulação e passou a ser movimento concreto, ainda que o desenho final da chapa não esteja formalizado. Governo e Senado podem ser rearranjados entre eles, mas o eixo político está formado.

A resposta do Palácio veio na lógica da política tradicional. Houve debandada no Republicanos, migração de lideranças, reorganização de prefeitos e, sobretudo, a consolidação do apoio da federação União Progressista à candidatura de Ricardo Ferraço. Trata-se da maior federação partidária do país, com peso significativo em fundo eleitoral e tempo de televisão.

Não foi apoio automático. A União Progressista chegou a oscilar. A saída de Felipe Rigoni do União Brasil rumo ao PSB tensionou o cenário. Mas a engenharia política do governo, fortalecendo bases e acomodando lideranças estratégicas, como o presidente da Assembleia Legislativa, foi decisiva para garantir a adesão.

O que se desenha é o confronto entre duas escolas.

Uma aposta no espetáculo, no marketing digital, na narrativa de ruptura e na crítica à “velha política” mesmo quando seus protagonistas são produtos dela.

Outra aposta na costura institucional, na montagem de alianças amplas, no peso das federações e na máquina partidária.

Essa disputa não é nova na política. Já apareceu em outros campos inclusive no futebol.

Em 1982, na Copa da Espanha, o Brasil encantava. Era o time do toque rápido, da criatividade, da confiança quase juvenil de que bastava jogar bonito para vencer. Do outro lado, a Itália jogava com disciplina, marcação cerrada e frieza estratégica. Não foi na final que o Brasil caiu no 3 a 2 de Paolo Rossi. Ali, mais do que uma derrota, houve uma virada de chave. O futebol mundial passou a valorizar cada vez mais a eficiência, a organização tática e o cálculo sobre o improviso.

No Espírito Santo, algo semelhante pode estar em curso. De um lado, o espetáculo e a narrativa. De outro, a engrenagem institucional e a engenharia das alianças. A pergunta é qual modelo vai prevalecer e que tipo de política isso consolida para os próximos anos.

No Espírito Santo, o risco é semelhante: que a disputa entre espetáculo e condomínio redefina a política estadual sem alterar seus fundamentos. Que o marketing derrote a engenharia institucional, ou que a engenharia neutralize o marketing mas que ambos mantenham o jogo dentro dos mesmos limites sociais e econômicos.

É por isso que a conjuntura exige uma terceira posição.

Uma alternativa progressista e de esquerda, com projeto claro de enfrentamento às desigualdades, defesa dos serviços públicos, política ambiental séria e compromisso com soberania popular. A candidatura de Helder Salomão (PT), com apoio do PSOL, pode representar essa possibilidade concreta de romper a falsa dicotomia entre espetáculo e condomínio.

Não se trata de negar a importância da disputa institucional nem de ignorar a força da comunicação política. Trata-se de recolocar no centro a pergunta fundamental: para quem se governa?

A política capixaba não pode se limitar a uma escolha entre duas versões do mesmo campo social. O Espírito Santo precisa discutir desenvolvimento com justiça social, combate às desigualdades regionais, fortalecimento da educação pública, da saúde e da geração de emprego com direitos.

Se 1982 mostrou que uma vitória tática pode redefinir o jogo por décadas, 2026 pode redefinir a política capixaba. A questão é se aceitaremos que essa redefinição aconteça apenas entre marketing e condomínio ou se teremos coragem de disputar o campeonato inteiro com um projeto de esquerda.

O jogo começou. Mas o resultado ainda está em aberto.


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