Conferência Internacional Antifascista lança programação em Porto Alegre
Evento reunirá milhares de participantes de dezenas de países para debater estratégias contra o avanço da extrema direita e do imperialismo
Foto: Tatiana Py Dutra/Reista Movimento
A programação da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que ocorrerá entre 26 e 29 de março em Porto Alegre, foi apresentada publicamente na quarta-feira (confira ao fim do texto). O evento, realizado na Sala Ipê do Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), contou com a presença de representantes do comitê organizador, dirigentes políticos, lideranças de movimentos sociais e do historiador e cientista político belga Eric Toussaint, integrante do comitê internacional da conferência. Além dos dias e horários das mesas centrais, foram apresentados a relação de palestrantes, mediadores e comentaristas de cada uma delas,
Durante a abertura, o presidente do PT de Porto Alegre e integrante do comitê organizador local, Rodrigo Dilélio, destacou o alcance internacional que a iniciativa já conquistou.
“O evento já conta com 3,5 mil pré-inscritos de mais de 30 países. A maioria de brasileiros, mas com uma delegação expressiva vinda da Argentina”, afirmou.
Dilélio também explicou que o primeiro dia da conferência, 26 de março, será dedicado ao Fórum de Autoridades Antifascistas, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, reunindo parlamentares e representantes de governos de diferentes países. A programação do dia deve se encerrar com uma grande marcha pelas ruas da capital gaúcha. Nos três dias seguintes estão previstas 11 mesas centrais e cerca de 150 atividades autogestionadas, organizadas por entidades e movimentos participantes.
“Temos ainda o desafio de, entre amanhã e terça-feira, definir os locais para 150 atividades autogestionadas. Que é um desafio importante. Já temos algumas dezenas de lugares já mapeados, vários deles aqui nas dependências da universidade”, disse.
Universidade e resistência democrática
Em sua saudação aos presentes, a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, afirmou que a universidade decidiu participar ativamente da organização da conferência diante do contexto político internacional.
“Quando a administração central foi convocada, a ideia era a gente não só ceder o espaço, mas a gente ser co-autores e co-autoras de todo esse movimento”, declarou.
Segundo ela, o avanço de forças autoritárias exige resposta articulada da sociedade.
“Nós vivemos um momento em que existe uma construção internacional de um movimento para eliminar os poucos avanços que tivemos em diversas áreas. Essa construção precisa ser combatida”, afirmou.
Ofensiva da extrema direita
O economista e militante internacional Eric Toussaint destacou que o cenário global atual é muito diferente daquele que marcou o surgimento do Fórum Social Mundial no início dos anos 2000.
“Há 25 anos, os altermundialistas, as oposições com propostas de mudanças, eram a iniciativa. Os governos de esquerda estavam se reproduzindo, não somente na América Latina, mas também na Europa e na Ásia. No momento atual, assistimos a uma ofensiva generalizada das forças neofascistas da extrema direita e também ações imperialistas”, afirmou, citando como exemplo as ações de Trump contra nações latinas e no Oriente Médio.
Segundo ele, nessas circunstâncias, é fundamental constituir um novo espaço internacional juntando partidos políticos, movimentos sociais e redes internacionais de solidariedade para resistir à ofensiva neofascista e às ações imperialistas.
“Se precisa de um espaço a nível internacional e por continente, por países capazes de convocar a ações, porque, claro, há resistência. Há resistência na Argentina com a Milei; nos Estados Unidos, há o movimento No Kings, de defesa dos direitos e dos migrantes em frente às deportações massivas organizadas por Trump através da ICE; em vários países europeus, resistências importantes, graves, importantes, solidariedade com a Palestina. Então será muito significativo quando vamos reunirmos, dentro de 15 dias, aqui em Porto Alegre”, valorizou Toussaint.
Mobilização política
Em sua fala, o vereador Roberto Robaina também alertou para a gravidade do cenário internacional:
“Nós estamos numa situação impressionante, inédita. Porque estamos em março e já tivemos no mundo um presidente sequestrado e um presidente assassinado pela ação do governo Trump. Então não é qualquer coisa, é um salto de qualidade. Porque a partir deste segundo mandato do Trump, os Estados Unidos acionaram uma lógica de desrespeito absoluto ao direito internacional”.
Ao concordar com Toussaint no aspecto da articulação de uma resistência antifascista mundial, Robaina ressaltou a importância da grande marcha prevista para o primeiro dia de Conferência, como um momento decisivo de mobilização.
“A marcha é um momento de demonstração de forças. Então, o que eu vejo é que é necessário haver um compromisso de todos nós, de todos os partidos, de todas as organizações, de convocá-la. Porque, se nós pegarmos os últimos seis, sete anos do Brasil, dos anos de 2019 para cá, nós tivemos alguns momentos em que as mobilizações foram muito fortes. Mas em algumas mobilizações se demonstrou fraqueza. E eu creio que nós estamos num momento em que não há uma razão pela qual as pessoas necessariamente vão tomar as ruas no dia 26. Se nós não nos chamarmos, se nós não convocarmos, se nós não criarmos o clima na cidade, na região metropolitana, de que é uma obrigação estar na rua nesse dia, nós não teremos uma grande marcha. Mas se nós conseguirmos fazer isso, se as pessoas forem convocadas, eu tenho certeza que responderão”, concluiu.
Contexto internacional
Para o dirigente comunista Raul Carrion, a conferência ocorre em um momento de transformações profundas na geopolítica mundial. Segundo ele, o encontro busca articular duas frentes de luta centrais:
“A luta, por um lado, contra o fascismo, que renasce nesse contexto, e a luta contra o imperialismo, que hoje, de forma muito agressiva, ataca os povos”, disse, destacando ainda que a iniciativa tem despertado interesse internacional justamente por buscar unir diferentes organizações e redes de luta.
Programação internacional
A presidenta do PSOL no Rio Grande do Sul, Gabi Tolotti, apresentou parte das mesas temáticas da conferência, que reunirão lideranças políticas, acadêmicas e ativistas de vários países. Uma delas será dedicada à resistência palestina.
“Vou mediar uma mesa que vai tratar da pauta da Palestina, a resistência palestina ao genocídio e à opressão do Estado de Israel (…) Vamos ter nomes muito significativos dessa pauta nessa mesa, como o Ualid Rabah, que é da Federação Palestina, Breno Altman, do Opera MUndi, o Marjane Gibril, que é embaixador da Palestina no Brasil, o Ibrahim Alzeben, embaixador da Liga Árabe, e o Thiago Ávila, meu camarada que estava junto comigo lá na Global Smud Flotilla.
Trabalho, terra e direitos
O dirigente sindical Jairo Boelter apresentou mesas que tratarão da relação entre neoliberalismo, precarização do trabalho e avanço da extrema direita.
“Aqui no Brasil a direita rasgou a carteira de trabalho dos trabalhadores brasileiros”, afirmou, acrescentando que o debate também abordará a crise no campo e a concentração fundiária.
“O capital está comprando as terras. Nós continuamos concentrando a terra na mão de poucos produtores de forma gigantesca”, disse, antes de apresentar a mesa que discutirá racismo, feminicídio e direitos civis.
“Estamos batendo recorde de feminicídio no Rio Grande do Sul e no Brasil”, afirmou.
Uma nova etapa de resistência
Na apresentação da programação, a educadora e dirigente sindical Juçara Dutra destacou três mesas temáticas da conferência, que abordarão desde o avanço da extrema direita no cenário internacional até os desafios da solidariedade entre os povos e o papel da educação na resistência democrática. Ao comentar a mesa dedicada à ofensiva da extrema direita no mundo, Dutra ressaltou que o debate partirá de um contexto global marcado não apenas pela ascensão de forças neofascistas, mas também pela permanência do neoliberalismo, que, segundo ela, aprofunda desigualdades e cria terreno fértil para o avanço autoritário.
Ao final da apresentação, Rodrigo Dilélio destacou que a conferência deve culminar com uma assembleia final e a divulgação de um documento político.
“Ao término dela a gente fará a Assembleia Final… com a leitura da Carta de Porto Alegre, que eventualmente vai orientar a luta antifascista nos próximos anos”, afirmou.
A expectativa dos organizadores é que o encontro reúna milhares de participantes de diferentes países, consolidando Porto Alegre como um novo ponto de articulação internacional contra o avanço da extrema direita, do imperialismo e das políticas neoliberais.
Programação da 1ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS POVOS*
De 26 a 29 de março de 2026, Porto Alegre – Brasil
Inscrições: https://antifas2026.org/
QUINTA-FEIRA, 26 DE MARÇO
FÓRUM DE AUTORIDADES DEMOCRÁTICAS ANTIFASCISTAS
14h – Abertura do Fórum de Autoridades Antifascistas
Deputados Pepe Vargas, Luciana Genro e Bruna Rodrigues
14h30 – 1ª Mesa – “O PAPEL E OS LIMITES DA AÇÃO INSTITUCIONAL NA LUTA DEMOCRÁTICA”
Mediação: deputadas federais Maria do Rosário e Daiana Santos
Palestrantes: senador Humberto Costa (ex-presidente do Parlasul, Brasil), senador Oscar Andrade (secretário-geral do PCU), eurodeputada Ana Miranda (Espanha), eurodeputado João Oliveira (Portugal), deputado Thomas Portes (França), Abdul Razak (Conselheiro municipal de Connecticut, EUA), deputado Glauber Braga (Brasil), deputado Erkan Bas (presidente do Partido dos Trabalhadores da Turquia), Vilma Ripoll (ex-deputada, Argentina)
16h – 2ª Mesa – “EXPERIÊNCIAS DE APROFUNDAMENTO DA DEMOCRACIA EM GOVERNOS POPULARES”
Mediação: deputada Stela Farias e deputado Matheus Gomes
Palestrantes: Maurizio Fabbri (presidente da Assembleia da Região de Emilia-Romagna, Itália), Fernando Rojas (diretor da Casa das Américas, Cuba), Daniel Jadue (ex-alcalde de Recoleta, Chile), Luiz Fernando Mainardi (prefeito de Bagé, Brasil), Dani Brizolara (vice-prefeita de Pelotas, Brasil), Franco Metaza deputado Mercosul, RI La Campora, Argentina), representante da delegação da Venezuela
17h30 – Encerramento
18h – MARCHA DE ABERTURA DA 1ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ANTIFASCISTA PELA SOBERANIA DOS POVOS*
Local: Largo Glênio Peres (em frente ao Mercado Público)
SEXTA-FEIRA, 27 DE MARÇO
8h – Café da Manhã (UFCSPA)
Boas-vindas da Fundação Rosa Luxemburgo
9h – 1ª Conferência – “A OFENSIVA DA EXTREMA DIREITA NO MUNDO: CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS E DESAFIOS”
Mediador: Brenno Almeida (presidente da Fundação Perseu Abramo)
Palestrantes: deputada Sâmia Bomfim (Brasil), Eric Toussaint (CADTM Bélgica), Jorgelina Matusevicius (Ventos del Pueblo, Argentina), Ricardo Abreu de Melo “Alemão” (PMG, Brasil), Thomas Portes (deputado LFI, França), Valter Pomar (PT, Brasil)
Comentaristas: Gabriel Portillo (dirigente sindical e AUTE, coordenador da frente Sindical león Duarte, Uruguai), vereador Giovani Culau (cientista social, ex-dirigente da UNE e da UJS)
11h – 2ª Conferência – “A LUTA CONTRA O FASCISMO ULTRANEOLIBERAL DE MILEI”
Mediadora: deputada Luciana Genro
Palestrantes: Claudio Lozano (Unidad Popular), Isaac Rudnik (Libres del Sur), Julio Gambina (ATTAC CADTM), Sergio Garcia (MST, Argentina)
Comentaristas: Juçara Dutra (Internacional da Educação, ex-presidenta da CNTE) e Thomas Battagliano (Federação Universitária, Argentina)
12h às 14h – Atividades autogestionadas
14h – 3ª Conferência – O ENFRENTAMENTO DOS TRABALHADORES AO NEOLIBERALISMO E AO FASCISMO
Mediador: Indicação das Centrais Sindicais (Brasil)
Palestrantes: Quintino Severo (CUT) Adilson Araújo (presidente da CTB), Hugo Godo (CTA, Argentina), Carlos Martinez (FSM Cone Sul, secretário internacional da UNTIMRA e do Departamento Internacional da PIT-CNT, Uruguai), Airto Mugia (ELA), Humberto Montes de Oca (Sindicato dos Eletricitários, México), eurodeputada Leila Chalbi (LFI, França)
Comentaristas: Jair dos Santos (Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas) e Danilo Serafim (Sindicato dos Professores, CEPE/RJ)
16h – 4ª Conferência – “O BRASIL SOB A AMEAÇA DA ULTRADIREITA E DO IMPERIALISMO”
Mediador: Raul Carrion (ex-deputado, SRI PC do B)
Palestrantes: professora Jana Silverman (EUA), eurodeputado João Oliveira (Portugal), Nádia Campeão (presidenta do PC do B), Tarso Genro (ex-governador, Instituto Novos Paradigmas), Paula Coradi (presidenta do PSOL), Beto Albuquerque (presidente do PSB-RS)
Comentaristas: deputado Leonel Radde e Tica Moreno (Marcha Mundial das Mulheres)
19h – 5ª Conferência – “A SOLIDARIEDADE ENTRE OS POVOS E A LUTA ANTI-IMPERIALISTA”
Mediadora: deputada Maria do Rosário
Palestrantes: Socorro Gomes (Cebrapaz, ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz), Vijay Prashad (Tricontinental, Índia), Jorge Arreaza (deputado Ass. Nacional, ex-vice-presidente da Venezuela), Fernando Rojas (Casa das Américas, Cuba), Sushovan Dhar (CADTM), Rafael Barnabe (Porto Rico), Patricia Pol (ATTAC, França)
Comentaristas: Olívio Dutra (ex-governador e ex-ministro, Brasil), Pedro Cesar Batista (Internacional Antifascista, Brasil)
SÁBADO, 28 DE MARÇO
8h30 às 10h30 – Atividades autogestionadas
11h às 13h – Atividades autogestionadas
14h – 6ª Conferência – “A RESISTÊNCIA PALESTINA AO GENOCÍDIO E À OPRESSÃO DO ESTADO DE ISRAEL”
Mediadora: Gabi Tolotti (presidenta do PSOL-RS e integrante da Global Sumud Flotilla)
Palestrantes: Ualid Rabah (Fepal), Breno Altman (Ópera Mundi), Maran Jebril (embaixador da Palestina), Ibrahim Alzeben (embaixador Liga Árabe), Thiago Ávila (Global Sumud Flotilla), Muna Mohamed (UNE), eurodeputada Ilaria Salis (Itália), Mauren (BDS)
Comentaristas: Sayid Marcos Tenório (Braspal)
16h30 – 7ª Conferência – “O COMBATE AO FASCISMO NAS AMÉRICAS”
Mediadora: Misiara Oliveira (SRI do PT)
Palestrantes: Mônica Valente (FSP), Benigno Perez Fernandez (cônsul-geral de Cuba), Atilio Borón (Argentina), Cyn Huang (DAS), Pietro Alarcón (Internacional UP e Comissão Internacional Pacto Histórico), Rander Peña (Internacional Antifascista, vice-chanceler da América Latina, secretário-geral ALBA), senador Oscar Andrade (secretário-geral do PCU), Javier Miranda (representante do PC chileno, ex-ministro dos Direitos Humanos e ex-presidente da Frente Ampla, Uruguai)
Comentaristas: Amanda Harumi (ex-secretária executiva CCLAE, SRI PC do B)
19h – 8ª Conferência – “A LUTA CONTRA O NEGACIONISMO CLIMÁTICO E PELA REFORMA AGRÁRIA NO CONTEXTO DA CRISE AMBIENTAL”
Mediadora: Lara Rodrigues (MST)
Palestrantes: João Pedro Stédile (MST), Vânia Marques Pinto (Contag), Michel Lowy (França), David Otieno (Liga Camponesa Queniana), Zé Correa (FSM)
Comentaristas: Annie Hsiou (USP) e Jairo Boelter (Adufrgs)
DOMINGO, 29 DE MARÇO
9h30 – 9ª Conferência – “ANTIRRACISMO, FEMINISMO E DIREITOS CIVIS NA LUTA CONTRA O FASCISMO”
Mediadora: deputada Fernanda Melchionna
Palestrantes: Mirelle Fanon (jurista, França), Penelope Dugan (França), Danielle Costa (cientista política, SEPPIR/Bahia), Ideli Salvatti (Humaniza SC), vereadora Luana Alves, Pastora Filigrana Garcia (Ação Contra el Odio, Espanha), Aracélia Arapiuns (Povos Indígenas)
Comentaristas: Letícia Carolina Nascimento (autora transfeminista e pedagoga) e deputada Laura Sito
11h30 – 10ª Conferência – “EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARA SOBERANIA DOS POVOS”
Mediadora: deputada Sofia Cavedon
Palestrantes: Márcia Barbosa (reitora da UFRGS), senadora Teresa Leitão, Gloria Ramirez (Fecode, Colômbia), Bianca Borges (presidenta da UNE), Sonia Alesso (Internacional da Educação), Cláudio Mendonça (presidente do Andes)
Comentaristas: Huo Silva (presidente da Ubes), Fátima Silva (CNTE), Rozane Zan (presidenta do CPERS) e representante da Fasubra
14h30 – 11ª Conferência – “RESISTÊNCIAS, ARTICULAÇÕES E ALTERNATIVAS: OUTRO MUNDO É POSSÍVEL”
Mediador: Damian Hazar (FSM)
Palestrantes: Zoe Konstantopoulou (ex-presidenta do Parlamento Grego), eurodeputada Manon Aubry (França), Fernanda Gadea (ATTAC Espanha), Ana Maria Prestes (SRI PC do B), vereador Roberto Robaina (presidente do PSOL Porto Alegre), Valter Pomar (Fundação Perseu Abramo)
Comentaristas: Liége Rocha (CI FSM, FDIM), Raul Pont (ex-prefeito de Porto Alegre)
16h30 – Assembleia Geral e Aprovação da Carta de Porto Alegre
18h – Encerramento