Peruanos irão às urnas em meio ao descrédito com a casta política

Peruanos irão às urnas em meio ao descrédito com a casta política

As eleições presidenciais peruanas, que acontecerão a menos de 20 dias, estão marcadas pela indefinição e refletem a crise política do país

Max Costa 24 mar 2026, 11:09

A menos de 20 dias das eleições presidenciais do Peru, o cenário no país é de total indefinição. Levantamentos apontam que 57% dos eleitores ainda não definiram seu voto, o que é compreensível diante da crise política que assola o país, que em um período de dez anos, viu 8 presidentes passarem pelo Palácio do Governo da Praça Maior de Lima. Quase todos foram destituídos do cargo envolvidos por escândalos de corrupção, relações com o crime organizado, autoritarismo e ataques à democracia.

A crise política que o Peru enfrenta se reflete na quantidade de candidaturas à Presidência da República neste ano. Ao todo, 36 candidatos disputam o voto no dia 12 de abril dos mais de 18 milhões de eleitores peruanos. A maioria é ligada à direita e, apesar de aparentar diferenças entre si, concorda em aprofundar o ajuste fiscal contra o povo, simpatiza com o governo norte-americano de Donald Trump, defende o Peru enquanto nação exportadora de matéria-prima e dependente do Norte global e não apresenta propostas claras de combate à corrupção e à máfia que tomou conta do Congresso Nacional.

Pesquisas pouco confiáveis apontam uma ligeira vantagem dos candidatos de extrema-direita Keiko Fujimori (Fuerza Popular) e Rafael Lopes Aliaga (Renovacion Popular), mas os critérios metodológicos destes levantamentos não são transparentes e parecem direcionados a atender quem os financia, o que gera ainda mais desconfiança, principalmente se o resultado é confrontado com o sentimento de descrédito na casta política que toma conta das ruas de Lima.

A falta de credibilidade no sistema político se agrava com a crise econômica vivenciada no Peru. A economia é dependente da exportação de cobre, que vem caindo consideravelmente, diminuindo a receita nacional. Enquanto isso, mais de 70% da população economicamente ativa do país vive na informalidade, sem seguridade social e política de crédito que fortaleça suas atividades. A pobreza cresce e com ela também a violência, principalmente nos “cerros”, tomados de conta por sicários.

O descrédito da população com a casta política também se justifica por frustrações com setores da própria esquerda. A eleição para a Presidência da República em 2021 de Pedro Castillo, sindicalista e professor rural, transformou esperança em decepção, uma vez que as prometidas mudanças radicais não foram concretizadas e a crise política se agravou ainda mais, quando ele foi destituído do cargo em dezembro de 2022, após tentar fechar o Congresso Nacional. 

Com a deposição de Pedro Castillo, o Peru vivenciou fortes mobilizações de rua em defesa de novas eleições e contra o governo da vice Dina Boluarte. Os protestos foram duramente reprimidos, com cerca de 60 manifestantes assassinados pelas forças de repressão do governo de Boluarte, sem qualquer responsabilização dos envolvidos nas mortes. Nesse ínterim, o Peru Livre, partido pelo qual Castillo tinha sido eleito, deixou de ser porta-voz da necessidade de mudanças radicais para ser mais um integrante do pacto no Congresso Nacional que dá sustentação à elite peruana e à corrupção institucionalizada. 

Aliança Venceremos expressa unidade da esquerda

Diante desse cenário de crise, novos partidos e coalizões tem surgido para se apresentar como alternativa à população nestas eleições. Entre eles, destaque para a Aliança Venceremos, firmada pelos partidos de esquerda e forças progressistas Nuevo Peru, Voces Del Pueblo, Unidad Popular, Patria Roja, Dignidad Popular e Humanismo Andino. As organizações se uniram em torno de um programa de esquerda e da candidatura presidencial de Ronald Atencio, um advogado progressista e popular, que foi líder estudantil e defensor do ex-deputado Guillermo Bermejo, no processo que acusa o parlamentar de ligações com o grupo Sendero Luminoso.

A Plataforma da Aliança Venceremos tem como principal eixo a defesa de uma Assembleia Constituinte Plurinacional, para mudar a Constituição de 1993, elaborada durante o regime ditatorial de Alberto Fujimori. Ronald Atencio tem defendido a refundação das instituições e a restauração do equilíbrio entre os poderes, para que os governos não fiquem reféns do que tem chamado de “pacto mafioso” do Congresso.

A Aliança Venceremos defende, ainda, a revogação das leis que favorecem o crime organizado, uma segurança cidadã contra o “sicariato” e a prisão dos responsáveis pelas mortes nos protestos de rua de 2022 e 2023. No campo econômico, pretende fazer uma reforma tributária justa, investir na industrialização das matérias primas no próprio país e implantar uma política de crédito para trabalhadores informais, agricultores e pequenos empreendedores. A Plataforma de Venceremos também é contrária à privatização da empresa petrolífera Petroperu, defende uma segunda reforma agrária no país e a revogação da lei antiflorestal, além de uma educação para todos, com almoços escolares gratuitos e investimentos no orçamento para bolsas de estudo e universidades públicas.

As eleições no Peru ocorrem no dia 12 de abril, das 7 às 17 horas, quando os mais de 18 milhões de eleitores terão que escolher o presidente e vice-presidente da República, senadores nacionais e regionais, deputados nacionais e representantes do país no parlamento andino. Os eleitores terão que marcar em uma grande cédula de papel as opções para os 5 cargos a serem escolhidos, além de escrever o número de seus candidatos na extensa lista, antes de depositar o voto na urna.


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