A falta de alternativa na esquerda catarinense e o papel do PSOL
A ausência de um projeto independente tornou o PSOL/SC sócio minoritário do PT. Para derrotar o bolsonarismo em 2026, é preciso romper com o reboquismo petista, ir além do cálculo eleitoral e apostar na mobilização popular
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O peso do bolsonarismo em Santa Catarina está diretamente associado à ausência de uma alternativa de massas na esquerda catarinense. Nas eleições deste ano, não haverá nada novo para as composições majoritárias. O atual governador Jorginho Mello (PL) e o prefeito reeleito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), disputarão o troféu de campeão do pensamento reacionário, cujo vencedor será eleito governador do estado. Não há opção à esquerda, com a concessão da franquia do lulismo para o democrata convertido Gelson Merísio, criado no ocaso do clã Bornhausen ainda no PFL, com passagens pelo DEM, PSD, PSDB e Solidariedade até a migração para o PSB.
Dentre tantos vacilos da esquerda catarinense, o balanço das eleições de 2022 no estado é o mais emblemático. Tanto o petismo do PT quanto os petistas enrustidos do PSOL creem piamente que Décio Lima (PT) foi para o segundo turno naquele pleito devido à conformação forçada de uma frente amplíssima, com variações de análise sobre a potência da liderança de Lula, ignorando a fragmentação ocorrida naquele pleito, quando disputaram o quinhão do bolsonarismo, além do vitorioso Jorginho, o ex-governador Carlos Moisés (Republicanos, após rompimento com o PSL), Esperidião Amin (PP) e Gean Loureiro (União Brasil).
É relevante revisitarmos o resultado de 2022, pois a pequena margem que levou Décio para o segundo turno naquele ano é atribuída ao papel subalterno que o PSOL desempenhou, especialmente por parte de um setor da corrente interna Resistência que abandonou o PSOL para ir para o PT (seguindo seu rumo à direita desde a saída do PSTU). É importante lembrarmos que, preterido na composição da chapa majoritária, Afrânio Boppré (vereador de Floripa, um dos principais quadros históricos do PSOL/SC e dirigente da Primavera Socialista) figurou como candidato a senador fora da chapa petista, quando o petismo tentou uma aproximação ao “centro democrático” com Dário Berger (à época no PSB) como candidato a senador do Lula em SC. O mecanicismo da leitura de que a ausência de uma candidatura do PSOL ao governo estadual permitiu, pela primeira vez, a ida do PT ao segundo turno é um verdadeiro desrespeito à inteligência, como se os votos do petismo refletissem diretamente os do PSOL, ou seja, um comportamento de corrente externa do PT.
Voltando ao “Ano das Guerras Imperialistas de 2026”, não há nada de novo na tática eleitoral subalterna do setor majoritário do PSOL local, campo político denominado PSOL de Todas as Lutas (PTL), que em Santa Catarina é composto pela corrente política Primavera Socialista, o setor da Resistência que não migrou para o PT e pelo seu racha chamado Confluência Socialista, pela Revolução Solidária de Boulos e por sua dissidência pública, pelo que restou do Subverta e pelo mandato do deputado estadual Marquito. O PTL mantém uma atuação preponderante de sócio minoritário do petismo, sem identidade própria, o que implica priorizar a agitação de conquistas do governo Lula 3, sendo essencialmente dependente das redes sociais para sua existência e com figuras públicas dedicadas aos seus projetos pessoais. Por isso, não há qualquer interesse desse setor em que o PSOL seja apresentado como uma força política relevante para o enfrentamento à extrema direita catarinense.
Por outro lado, o setor da esquerda do PSOL catarinense foi reduzido com as desistências da construção do partido, seja pelo sectarismo ou pelo ostracismo: da Esquerda Marxista (hoje dividida entre a Organização Comunista Internacional e a Internacional Comunista Revolucionária), da Revolução Brasileira, da Centralidade do Trabalho e do Movimento do Bem Viver. Seguem atuando no partido, no que foi o Bloco de Esquerda, além do Movimento Esquerda Socialista, correntes políticas que localmente priorizam sua autoconstrução: Ação Popular Socialista (APS) e Alicerce.
Isso é o suficiente para compreendermos que a correlação de forças interna é hoje extremamente desfavorável para que o PSOL tenha cara própria. No momento em que teve essa possibilidade, Tânia Ramos (APS) declinou da candidatura a governadora, assim como agora abandona a perspectiva do senado, novamente pelo fundo eleitoral e acesso às pequenas estruturas de poder em cargos subalternos. Em síntese, a esquerda catarinense é amorfa, o que permite pequenos sucessos em setores juvenis pelo neo-estatalismo da UP e do PCBR, enquanto o PSOL prioriza a reeleição de Marquito e outros aliados de Boulos no estado operam nos subterrâneos uma possível saída do partido após a eleição, caminho que Kerexu tomou precocemente.
A chapa encabeçada por Merísio, por ora proprietário da franquia do PSB catarinense, anteriormente franqueada ao ex-petista Cláudio Vignatti e ao clã Bornhausen, muito longe do papel que desempenha Geraldo Alckmin na atração de um centro democrático, representa muito pouco sobre ampliação da campanha de Lula em Santa Catarina. Mesmo no petismo há resistência à composição, tanto pelo histórico de sua ligação ao bolsonarismo e o golpe contra Dilma, quanto por todos os indícios de um acordo de gabinete. Programa? Parece uma heresia questionar. A grande frente democrática em construção em SC, abrangendo a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), a Federação PSOL-Rede, o PSB e o PDT está estritamente calçada no tempo de TV, na distribuição de espaços na chapa majoritária, nos arranjos regionais para as chapas proporcionais e no fundo eleitoral.
Sobretudo, o que interessa nas eleições de 2026 é a derrota da extrema direita, tarefa que, nesse contexto de uma esquerda amorfa, se torna sobremaneira difícil. É necessário romper com cálculos equivocados do petismo que apostam na eleição de Décio para senador, com a divisão nas direitas entre Carolina De Toni (PL), Carluxo (PL) e Amin (PP), enquanto o cenário mais provável de um segundo turno a governador em SC colocará a direita contra a direita, ou seja, “sem palanque para Lula” como falam as burocracias partidárias.
A esquerda consequente deve desviar deste arranjo superestrutural e priorizar a mobilização popular, para além dos aparatos e das disputas do eleitoralismo. Teremos duas grandes oportunidades imediatas de fazê-lo: na conquista do fim da jornada 6X1 e na mobilização das mulheres contra as violências misóginas. Continua sendo sobre luta de classes. Quem aposta exclusivamente na eleição como processo de transformação não merecerá nota de rodapé.
As contradições no “Sul maravilha” estão expostas, do pleno emprego baseado na superexploração da classe trabalhadora, seja com a subcontratação, a uberização e o trabalho análogo à escravidão (lembram da Sônia?), até a concentração de riqueza desde os bilionários herdeiros da WEG ao véio da Havan. O higienismo, o racismo, a misoginia, a lgbtfobia, a proliferação de células neonazistas não serão combatidas com lideranças herméticas ou midiáticas. Derrotar o fascismo significa não titubear com acordos descolados da luta de classes. Para derrotar o bolsonarismo em Santa Catarina, elegendo Lula Presidente, precisamos melhorar muito: a extrema direita catarinense novamente pode se sobressair na ausência de uma alternativa de esquerda.