A necessidade de uma nova liderança para a classe trabalhadora na África do Sul
Uma entrevista com o dirigente político sul-africano Madoda Cuphe sobre questões sociais, os protestos em curso e a necessidade da reorganização política trinta anos após o fim do apartheid
Foto: Protesto de trabalhadores na África do Sul. (GIWUSA/Reprodução)
Nosso camarada Madoda Cuphe discute questões sociais atuais na África do Sul, os protestos em curso e a necessidade de uma reorganização política trinta anos após o fim do apartheid. Madoda Cuphe é um ativista sul-africano, membro do Zabalaza pelo Socialismo e de uma ONG chamada Centro Alternativo de Informação e Desenvolvimento (AIDC). Ele foi entrevistado por Antoine Larrache, da Inprecor.
Por que é tão importante para você participar da conferência antifascista?
Estou muito feliz por ter participado desta conferência internacional. O que mais me impressionou foi o fato de ela ter sido organizada por diversos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos. Acho que já é hora de uma resposta popular à ascensão da política de direita na Europa, ao fascismo e ao papel dos Estados Unidos na América do Sul.
Estou me referindo ao que eles fizeram na Venezuela, ao que estão fazendo atualmente no Irã e ao papel que estão desempenhando no conflito em Gaza. Ninguém os está responsabilizando, e acho que é hora de as pessoas comuns se mobilizarem em solidariedade e dizerem: “Não em nosso nome. Estamos salvando a humanidade. Isso tem que parar.”
Como você vê o papel da África do Sul nessa situação mais ampla?
Estamos vivendo um período político muito interessante no cenário internacional, no sentido de que o Estado de Direito parece ter desaparecido. A democracia, como a conhecemos, está sob ataque extremo. O multilateralismo e a cooperação entre nações foram jogados pela janela, substituídos por uma abordagem de “cada país por si” e uma política de intimidação, particularmente por parte dos Estados Unidos.
A África do Sul assumiu uma postura firme em relação ao conflito em Gaza. Ela criticou Israel e levou a questão ao Tribunal Internacional de Justiça, e pagou um preço por isso — enfrentando tarifas dos Estados Unidos e humilhação diplomática durante a visita do presidente ao país.
No entanto, há diferentes dimensões a serem consideradas. Enquanto a África do Sul assumiu uma postura progressista internacionalmente, internamente o Congresso Nacional Africano (CNA, partido do governo) está virando bruscamente para a direita. Está implementando políticas neoliberais que cortam gastos com desenvolvimento humano e serviços sociais, ao mesmo tempo em que pouco faz para conter a desindustrialização.
A África do Sul já se orgulhou de suas indústrias de vestuário, têxtil, siderúrgica e automotiva, mas grande parte disso entrou em declínio. Isso levou à perda de milhares — se não centenas de milhares — de empregos.
Atualmente, temos mais de 10 milhões de desempregados, em grande parte devido ao declínio do setor manufatureiro. Nossa economia agora depende fortemente de matérias-primas. Como vocês sabem, os preços das matérias-primas flutuam, e obtemos benefícios limitados. Exportamos esses materiais para a Europa, e os empregos vão junto com eles.
Isso criou uma situação profundamente problemática. O alto desemprego leva ao crime, ao desespero e à piora das condições sociais. Estamos testemunhando males sociais que nunca vimos nessa escala antes — violência sexual, crime organizado e até mesmo o retorno de doenças tratáveis.
Ao mesmo tempo, os municípios estão subfinanciados. As comunidades estão entrando em colapso. O lixo não é recolhido, o abastecimento de água é precário, os banheiros públicos estão quebrados e o esgoto corre pelas ruas. As escolas estão subfinanciadas e se deteriorando. Algumas nem sequer têm saneamento adequado. As clínicas carecem de medicamentos e os médicos são escassos. As pessoas fazem fila desde as 4 da manhã, apenas para voltar para casa com analgésicos básicos — ou sem qualquer tratamento. Em geral, há caos em muitas comunidades.
Acredito que essa situação esteja ligada a uma ampla guinada global para a direita, combinada com a adoção, pelo CNA, de políticas neoliberais que reforçam essas condições.
Como a população está reagindo a essa situação?
Os sul-africanos estão focados principalmente em seus desafios domésticos imediatos.
As pessoas podem ver claramente o que está acontecendo internacionalmente, especialmente através da mídia. Muitos entendem que o que está acontecendo em Gaza não é uma guerra convencional — que civis, incluindo mulheres e crianças, estão sendo mortos. Há uma simpatia generalizada. No entanto, ao mesmo tempo, as pessoas estão lutando para sobreviver. Elas carecem de comida, moradia, segurança, eletricidade e água.
Se quisermos conectar a luta palestina às realidades sul-africanas, devemos começar pelas próprias condições de vida das pessoas e construir essa conexão a partir daí. Infelizmente, na África do Sul, a questão tem sido amplamente abordada pela comunidade muçulmana e enquadrada como uma questão religiosa. Embora haja forte solidariedade, ela costuma se limitar àqueles que sentem uma conexão religiosa.
Isso precisa mudar. É preciso alcançar a classe trabalhadora em geral. Não é uma questão religiosa — é uma questão humana, uma questão de solidariedade. É preciso alcançar as favelas e os locais de trabalho.
Você poderia falar sobre os movimentos sociais atuais?
Estamos vendo o surgimento de uma nova geração dentro da classe trabalhadora. A geração que lutou contra o apartheid está envelhecendo, e uma geração mais jovem tomou seu lugar — uma geração que não vivenciou diretamente essa luta.
Esses jovens enfrentam enormes desafios. Quando olham para o futuro, muitos não veem nada. O desemprego juvenil é extremamente alto — cerca de 80% — e muitas das pessoas afetadas são mulheres jovens. Mesmo entre os graduados, o desemprego é generalizado.
Ao mesmo tempo, as comunidades onde as pessoas vivem se deterioraram significativamente.
Há alguma mobilização. Recentemente, ocorreram protestos liderados por estudantes nas universidades. Os estudantes são admitidos, mas não há acomodação. O financiamento do governo por meio do Programa Nacional de Auxílio Financeiro ao Estudante está atrasado ou não é pago, mas ainda assim espera-se que os estudantes paguem as mensalidades. Como resultado, os estudantes estão dormindo em banheiros ou ao ar livre, expondo-se a sérios perigos em uma sociedade já violenta.
Isso não é novidade. Em 2015, surgiu o movimento Rhodes Must Fall. Tudo começou com uma questão simbólica — a estátua de Cecil John Rhodes —, mas refletia frustrações mais profundas: mensalidades elevadas, exclusão de estudantes da classe trabalhadora e desigualdade no ensino superior.
O movimento se tornou uma luta mais ampla, quase como uma nova fase de libertação. No entanto, acabou não conseguindo se conectar com as comunidades e os sindicatos.
Hoje, como apontou o líder sindical Zwelinzima Vavi, a África do Sul vive levantes diários — muitas vezes não noticiados. Essas revoltas são impulsionadas pela raiva e se concentram em questões imediatas como água, saneamento, saúde e moradia.
Mas essas lutas são isoladas. Elas surgem, ganham força e depois desaparecem — seja porque foram resolvidas, reprimidas ou porque se esgotaram. A liderança é temporária, e as experiências não são levadas adiante. A questão central não é apenas a prestação de serviços — é o próprio sistema. Sem uma mudança sistêmica, esses ciclos continuarão.
O principal desafio é a coordenação. Não existe um movimento nacional para unificar essas lutas. Desde 1994, essa coesão nacional se perdeu.
O CNA está amplamente focado na política parlamentar e não está mais profundamente enraizado na luta de base. Os sindicatos concentram-se estritamente em questões do local de trabalho e não se conectam suficientemente com as lutas comunitárias.
Como resultado, há uma grave falta de liderança nacional. Essa é a tarefa central que enfrentamos hoje.
Os países imperialistas estão impedindo o desenvolvimento. Que tipo de demandas concretas devem ser feitas?
A questão principal é a falta de liderança política e de vontade política do CNA.
A África do Sul não é um caso perdido. Ao contrário de alguns países, não herdamos uma economia completamente destruída após a libertação. Na verdade, devido ao isolamento da era do apartheid, as indústrias locais foram desenvolvidas para garantir a autossuficiência. Temos uma base sobre a qual construir. No entanto, as políticas atuais não estão impulsionando a reindustrialização.
Há um debate em curso sobre a revitalização da economia e a redução da dependência das exportações de matérias-primas. Com o aumento da demanda global por minerais essenciais, a África do Sul tem a oportunidade de utilizar seus recursos estrategicamente.
Ao mesmo tempo, devemos atender às necessidades básicas — especialmente a moradia. Imagine um programa nacional para construir um milhão de casas por ano. Isso por si só poderia absorver um grande número de jovens desempregados. Isso também estimularia a demanda em todos os setores — materiais de construção, manufatura e serviços —, criando um efeito multiplicador em toda a economia.
Com rendas estáveis, as pessoas começariam a consumir mais, impulsionando ainda mais o crescimento econômico. A demanda interna poderia se tornar um motor fundamental do desenvolvimento. Não precisamos depender exclusivamente da exportação de matérias-primas ou produtos agrícolas. Um país que produz alimentos, mas não consegue alimentar seu próprio povo, está falhando com seus cidadãos.