Tarifaço de Trump contra o Brasil entra em vigor
Medida do governo Trump atinge cerca de 18% das exportações brasileiras aos EUA, é criticada por especialistas por combinar argumentos comerciais e políticos e leva o Brasil a reforçar negociações diplomáticas enquanto prepara mecanismos de defesa econômica
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A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte das importações brasileiras começou a valer nesta terça-feira (22), inaugurando um novo capítulo na deterioração das relações entre Brasília e Washington. Embora o governo norte-americano justifique a medida com alegações de “práticas desleais” do Brasil, especialistas em comércio internacional observam que a decisão extrapola o campo econômico e incorpora disputas políticas, tecnológicas e geopolíticas que pouco guardam relação com o fluxo bilateral de comércio.
A nova cobrança incide sobre embarques realizados a partir das 0h01 (horário da Costa Leste dos Estados Unidos), com exceção das mercadorias que já estavam em trânsito e desembarcarem até o próximo dia 29. Segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), as tarifas seriam uma resposta a decisões da Justiça brasileira envolvendo plataformas digitais, ao sistema de pagamentos Pix, a questões ambientais e ao combate à corrupção.
As justificativas, contudo, têm sido alvo de críticas de economistas e especialistas em comércio internacional. Além de não estarem diretamente relacionadas às regras tradicionais do comércio exterior, parte dos argumentos dificilmente encontraria respaldo nas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), instituição que o próprio governo Trump tem esvaziado desde seu retorno à Casa Branca ao reduzir sua participação financeira e questionar seus mecanismos de solução de controvérsias.
Outro elemento apontado por analistas é que os Estados Unidos mantêm historicamente superávit na balança comercial com o Brasil. Ou seja, vendem mais produtos ao mercado brasileiro do que compram do país, circunstância que enfraquece o argumento de que haveria necessidade de corrigir um suposto desequilíbrio comercial.
O economista norte-americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, classificou a ofensiva contra o Brasil como predominantemente política. Em artigo publicado neste mês, afirmou que as medidas “não fazem sentido econômico” e avaliou que a iniciativa tende a fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Krugman, “a administração Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia”.
Geopolítica e disputa de influência
A política tarifária adotada por Donald Trump desde o início de seu segundo mandato vem atingindo tanto adversários quanto aliados históricos dos Estados Unidos. Canadá, União Europeia, México e diversos parceiros comerciais passaram a enfrentar aumentos tarifários ou ameaças semelhantes.
No caso brasileiro, entretanto, especialistas observam que a tensão ocorre em um contexto mais amplo de disputa pela influência norte-americana na América Latina. Desde 2025, Washington intensificou críticas a governos considerados pouco alinhados à sua política externa e reforçou sua atuação diplomática na região.
Nesse cenário, analistas avaliam que o Brasil passou a ocupar posição estratégica por seu peso econômico, por sua participação crescente nos BRICS e pelo fortalecimento das relações comerciais com a China, hoje principal parceiro comercial brasileiro.
Apesar da repercussão política, o impacto econômico tende a ser concentrado em determinados segmentos. Segundo cálculos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a tarifa incidirá sobre aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, o equivalente a cerca de US$ 7,4 bilhões em vendas anuais.
Já a Amcham Brasil estima que até 3 mil produtos poderão ser afetados e que o volume de negócios comprometido pode chegar a US$ 11 bilhões, dependendo da reação dos importadores norte-americanos.
Os setores considerados mais vulneráveis incluem:
- madeira e produtos florestais;
- máquinas e equipamentos;
- minerais;
- produtos químicos;
- parte da indústria de alimentos;
- segmentos industriais de maior valor agregado.
Em contrapartida, o governo norte-americano manteve uma extensa lista de exceções, com mais de 2.100 produtos isentos da nova tarifa. Entre os itens preservados estão aeronaves, motores e componentes da indústria aeronáutica, diversos medicamentos, parte dos minérios estratégicos, celulose, açúcar e uma série de produtos agropecuários considerados essenciais para o abastecimento do mercado norte-americano.
Também ficaram de fora diversos cortes de carne bovina, pescados, bananas, mangas, mamões, abacates, cocos, açaí e outras frutas tropicais.
As exceções refletem interesses da própria economia dos Estados Unidos. Muitos desses produtos possuem oferta limitada no mercado interno americano ou são considerados insumos relevantes para suas cadeias industriais, o que poderia elevar custos de produção e pressionar a inflação caso fossem tarifados.
Governo prioriza negociação
Embora o Congresso Nacional tenha aprovado a chamada Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a responder a medidas unilaterais consideradas discriminatórias, o governo federal optou, ao menos neste primeiro momento, por privilegiar a via diplomática.
Após reunião com representantes dos setores produtivos, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, afirmou que a legislação constitui um instrumento de defesa, mas descartou sua utilização imediata.
“Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos”, afirmou.
Paralelamente às negociações diplomáticas, o governo prepara uma ampliação do programa Brasil Soberano, criado para reduzir os impactos das novas barreiras comerciais.
Entre as medidas estudadas estão a ampliação das linhas de crédito do BNDES; financiamento para manutenção das exportações; eventual redução do custo financeiro das operações; ajustes tributários temporários para preservar empregos e investimentos.
Representantes do setor produtivo também solicitaram isenção temporária de IOF sobre operações de crédito e adiamento do recolhimento de tributos federais para empresas diretamente afetadas.
Retaliação permanece como alternativa
Embora não esteja no horizonte imediato, a possibilidade de adoção de contramedidas permanece aberta. A Lei da Reciprocidade autoriza o governo brasileiro a responder a medidas consideradas incompatíveis com o comércio internacional por meio de tarifas equivalentes ou outras restrições econômicas.
Especialistas apontam que, caso as negociações fracassem, o Brasil poderá recorrer não apenas a instrumentos tarifários, mas também a medidas envolvendo investimentos, compras governamentais ou setores estratégicos, sempre observando os limites do direito internacional e os impactos para a economia brasileira.
Por enquanto, a estratégia oficial combina cautela diplomática, apoio financeiro às empresas e articulação internacional para tentar reduzir os efeitos de uma medida que representa mais um capítulo do recrudescimento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos em um cenário global marcado pelo aumento do protecionismo e pela disputa geopolítica entre grandes potências.