Um novo capítulo no ‘inferno astral’ de Flávio Bolsonaro
De favorito para unificar a direita a candidato cercado por crises políticas, investigações e dificuldades para ampliar alianças, senador chega à convenção do PL enfrentando o momento mais delicado de sua trajetória rumo ao Planalto
Foto: Reprodução
No início de 2026, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) parecia seguir um roteiro previsível. Com Jair Bolsonaro inelegível e sob prisão domiciliar, o senador surgia como herdeiro natural do capital político construído pelo ex-presidente ao longo da última década. Lideranças do PL trabalhavam para transformar rapidamente a transferência de votos em uma ampla coalizão de direita, atraindo partidos do Centrão e apresentando Flávio como um nome capaz de preservar o bolsonarismo sem os elevados índices de rejeição do pai.
Seis meses depois, o cenário mudou de forma significativa.
Às vésperas da convenção nacional que oficializará sua candidatura, Flávio chega sem vice definido, sem uma coligação robusta e acumulando uma sequência de episódios que fragilizaram sua imagem pública. O conjunto das crises – financeiras, familiares, políticas e judiciais – passou a produzir um efeito cumulativo que preocupa dirigentes do próprio PL.
Nos bastidores de Brasília, parlamentares definem o momento vivido pelo senador como um verdadeiro “inferno astral”.
O caso Master muda o ambiente político
A primeira grande inflexão ocorreu quando vieram à tona as relações entre Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Inicialmente, a revelação de que o senador havia solicitado apoio financeiro ao banqueiro para o financiamento do filme Dark Horse foi tratada por aliados como um episódio de baixo impacto.
A avaliação mudou conforme novas informações surgiram.
Esta semana, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a aprofundar as investigações sobre recursos destinados ao projeto cinematográfico sobre a vida de Jair Bolsonaro. O objetivo é esclarecer a destinação dos valores enviados ao exterior e verificar se houve eventual desvio de finalidade.
Até o momento, não existe conclusão da investigação nem acusação formal contra Flávio relacionada aos repasses. Politicamente, porém, o desgaste foi imediato.
O senador passou a ser associado diretamente ao empresário que se tornou personagem central das investigações envolvendo o Banco Master, justamente quando tentava construir uma imagem de gestor moderado para dialogar com o empresariado.
As notas fiscais ampliam o desgaste
A situação tornou-se ainda mais delicada quando reportagens revelaram que o escritório de advocacia de Flávio emitiu três notas fiscais que somavam R$ 1,5 milhão para empresas relacionadas ao universo investigado no caso Banco Master. Duas notas, de R$ 500 mil cada, destinadas à Copenhagen Assessoria e Consultoria, foram canceladas no mesmo dia. Outra, de R$ 500 mil, foi emitida para a empresa Contábil Corrêa, referente à prestação de serviços jurídicos.
O senador afirma que a contratação cancelada jamais foi concluída e que a consultoria efetivamente realizada ocorreu dentro da legalidade.
Embora não haja decisão judicial apontando irregularidades na prestação desses serviços, o episódio alimentou questionamentos políticos porque Flávio havia afirmado anteriormente que sua relação com Vorcaro limitava-se ao pedido de apoio para o filme.
Para adversários e analistas políticos, o problema deixou de ser apenas jurídico e passou a ser narrativo: a cada nova revelação, tornou-se mais difícil sustentar que os contatos entre ambos foram ocasionais.
O “Tariflávio”
Outro episódio produziu consequências ainda mais amplas. Durante a crise diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro intensificou contatos com aliados do presidente Donald Trump e defendeu medidas de pressão contra o governo brasileiro.
A imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros desencadeou forte reação de empresários, exportadores e representantes do agronegócio, preocupados com os impactos econômicos da medida.
Embora Flávio não tenha sido apontado como articulador direto das negociações, adversários passaram a associar sua candidatura ao episódio, que ganhou nas redes sociais o apelido de “Tariflávio”.
A repercussão atingiu um ponto sensível para qualquer candidatura presidencial: a percepção de compromisso com os interesses econômicos nacionais.
Crise dentro da família Bolsonaro
Como se os problemas políticos não bastassem, a campanha passou a conviver com uma crise familiar inédita. O rompimento público entre Flávio e Michelle Bolsonaro expôs divergências que até então permaneciam restritas ao núcleo da família.
Michelle tornou-se uma das principais lideranças eleitorais do campo conservador após deixar o Palácio do Planalto. Sua popularidade entre mulheres evangélicas é considerada estratégica pelo PL.
A ausência desse apoio produziu efeitos políticos imediatos.
Diante da repercussão negativa, Flávio gravou um vídeo pedindo desculpas à madrasta e defendendo a reunificação da família. Ontem, novo pedido público de desculpas foi feio e – aparentemente, aceito – por Michelle, que limitou-se a curtir a publicação nas redes sociais, sem comentar o conteúdo. Posteriormente, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que ela gravaria um vídeo em defesa da unidade partidária, embora não participasse da convenção nacional.
Nos bastidores, porém, dirigentes reconhecem que o episódio deixou marcas e alimentou dúvidas sobre a capacidade de coordenação política do grupo bolsonarista.
Outros desgastes
A sucessão de dificuldades foi agravada por novos episódios.
Flávio passou a ser alvo de críticas por repetir alegações infundadas sobre a segurança das urnas eletrônicas durante encontro com diplomatas, reproduzindo a estratégia adotada por Jair Bolsonaro em 2022. O Tribunal Superior Eleitoral e especialistas em segurança digital reiteram que não há evidências de fraude no sistema eletrônico de votação brasileiro, cuja confiabilidade vem sendo reconhecida em auditorias nacionais e internacionais.
Também repercutiram fotografias do senador ao lado de um homem apontado em reportagens como integrante da milícia privada de Daniel Vorcaro. A divulgação das imagens alimentou questionamentos políticos sobre a proximidade entre pessoas ligadas ao senador e ao empresário. Flávio alega que atende a pedidos de fotos de populares com frequência, e que a existência da imagem não comprovaria elo com o chamado “Sicário”..
O isolamento cresce
Ao mesmo tempo, partidos que meses atrás davam como certa uma aliança passaram a recalcular seus movimentos. A federação PP-União Brasil optou pela neutralidade. O Republicanos elevou as exigências para eventual apoio. Lideranças do Centrão passaram a negociar em posição de força, convencidas de que Flávio precisa mais delas do que elas precisam dele.
A lógica é simples. Na política brasileira, partidos de centro costumam aderir a candidaturas que transmitam perspectiva concreta de vitória. Quando essa percepção diminui, aumentam as exigências por espaço político e reduzem-se os incentivos para alianças antecipadas.
Uma campanha na defensiva
A sucessão de episódios obrigou a campanha a abandonar a agenda positiva construída no início do ano. Temas econômicos, propostas de governo e articulações estaduais passaram a dividir espaço com respostas sobre investigações, explicações relativas ao caso Master, tentativas de reconciliação familiar e sucessivas crises políticas.
Mesmo sem condenações judiciais contra o senador nos episódios atualmente investigados, a repetição de fatos negativos passou a dominar o noticiário. Em comunicação política, essa dinâmica costuma ser particularmente danosa porque impede que o candidato controle sua própria narrativa.
O desafio daqui para frente
As pesquisas continuam colocando Flávio Bolsonaro entre os principais nomes da oposição. O eleitorado mais fiel ao bolsonarismo permanece relativamente estável, e o apoio de Jair Bolsonaro ainda representa um ativo eleitoral importante.
O problema está na etapa seguinte da campanha.
Para vencer uma eleição presidencial, não basta conservar a base mais ideológica. É necessário conquistar partidos, empresários, lideranças regionais e eleitores moderados.
É justamente nesses segmentos que o acúmulo de crises produziu maior desgaste.
O candidato que iniciou o ano como principal favorito para unificar a direita chega à largada oficial da campanha cercado por investigações em andamento, dificuldades de articulação política e um noticiário predominantemente desfavorável.
Se conseguirá reverter esse quadro durante a campanha é uma incógnita. Por ora, a sucessão de episódios transformou aquele que parecia ser o caminho natural de Flávio Bolsonaro ao Planalto na fase mais turbulenta de sua trajetória política.