Um novo capítulo no ‘inferno astral’ de Flávio Bolsonaro
flavio-bolsonaro

Um novo capítulo no ‘inferno astral’ de Flávio Bolsonaro

De favorito para unificar a direita a candidato cercado por crises políticas, investigações e dificuldades para ampliar alianças, senador chega à convenção do PL enfrentando o momento mais delicado de sua trajetória rumo ao Planalto

Tatiana Py Dutra 24 jul 2026, 09:33

Foto: Reprodução

No início de 2026, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) parecia seguir um roteiro previsível. Com Jair Bolsonaro inelegível e sob prisão domiciliar, o senador surgia como herdeiro natural do capital político construído pelo ex-presidente ao longo da última década. Lideranças do PL trabalhavam para transformar rapidamente a transferência de votos em uma ampla coalizão de direita, atraindo partidos do Centrão e apresentando Flávio como um nome capaz de preservar o bolsonarismo sem os elevados índices de rejeição do pai.

Seis meses depois, o cenário mudou de forma significativa.

Às vésperas da convenção nacional que oficializará sua candidatura, Flávio chega sem vice definido, sem uma coligação robusta e acumulando uma sequência de episódios que fragilizaram sua imagem pública. O conjunto das crises – financeiras, familiares, políticas e judiciais – passou a produzir um efeito cumulativo que preocupa dirigentes do próprio PL.

Nos bastidores de Brasília, parlamentares definem o momento vivido pelo senador como um verdadeiro “inferno astral”.

O caso Master muda o ambiente político

A primeira grande inflexão ocorreu quando vieram à tona as relações entre Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Inicialmente, a revelação de que o senador havia solicitado apoio financeiro ao banqueiro para o financiamento do filme Dark Horse foi tratada por aliados como um episódio de baixo impacto.

A avaliação mudou conforme novas informações surgiram.

Esta semana, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a aprofundar as investigações sobre recursos destinados ao projeto cinematográfico sobre a vida de Jair Bolsonaro. O objetivo é esclarecer a destinação dos valores enviados ao exterior e verificar se houve eventual desvio de finalidade.

Até o momento, não existe conclusão da investigação nem acusação formal contra Flávio relacionada aos repasses. Politicamente, porém, o desgaste foi imediato.

O senador passou a ser associado diretamente ao empresário que se tornou personagem central das investigações envolvendo o Banco Master, justamente quando tentava construir uma imagem de gestor moderado para dialogar com o empresariado.

As notas fiscais ampliam o desgaste

A situação tornou-se ainda mais delicada quando reportagens revelaram que o escritório de advocacia de Flávio emitiu três notas fiscais que somavam R$ 1,5 milhão para empresas relacionadas ao universo investigado no caso Banco Master. Duas notas, de R$ 500 mil cada, destinadas à Copenhagen Assessoria e Consultoria, foram canceladas no mesmo dia. Outra, de R$ 500 mil, foi emitida para a empresa Contábil Corrêa, referente à prestação de serviços jurídicos.

O senador afirma que a contratação cancelada jamais foi concluída e que a consultoria efetivamente realizada ocorreu dentro da legalidade.

Embora não haja decisão judicial apontando irregularidades na prestação desses serviços, o episódio alimentou questionamentos políticos porque Flávio havia afirmado anteriormente que sua relação com Vorcaro limitava-se ao pedido de apoio para o filme.

Para adversários e analistas políticos, o problema deixou de ser apenas jurídico e passou a ser narrativo: a cada nova revelação, tornou-se mais difícil sustentar que os contatos entre ambos foram ocasionais.

O “Tariflávio”

Outro episódio produziu consequências ainda mais amplas. Durante a crise diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro intensificou contatos com aliados do presidente Donald Trump e defendeu medidas de pressão contra o governo brasileiro.

A imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros desencadeou forte reação de empresários, exportadores e representantes do agronegócio, preocupados com os impactos econômicos da medida.

Embora Flávio não tenha sido apontado como articulador direto das negociações, adversários passaram a associar sua candidatura ao episódio, que ganhou nas redes sociais o apelido de “Tariflávio”.

A repercussão atingiu um ponto sensível para qualquer candidatura presidencial: a percepção de compromisso com os interesses econômicos nacionais.

Crise dentro da família Bolsonaro

Como se os problemas políticos não bastassem, a campanha passou a conviver com uma crise familiar inédita. O rompimento público entre Flávio e Michelle Bolsonaro expôs divergências que até então permaneciam restritas ao núcleo da família.

Michelle tornou-se uma das principais lideranças eleitorais do campo conservador após deixar o Palácio do Planalto. Sua popularidade entre mulheres evangélicas é considerada estratégica pelo PL.

A ausência desse apoio produziu efeitos políticos imediatos.

Diante da repercussão negativa, Flávio gravou um vídeo pedindo desculpas à madrasta e defendendo a reunificação da família. Ontem, novo pedido público de desculpas foi feio e – aparentemente, aceito – por Michelle, que limitou-se a curtir a publicação nas redes sociais, sem comentar o conteúdo. Posteriormente, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que ela gravaria um vídeo em defesa da unidade partidária, embora não participasse da convenção nacional.

Nos bastidores, porém, dirigentes reconhecem que o episódio deixou marcas e alimentou dúvidas sobre a capacidade de coordenação política do grupo bolsonarista.

Outros desgastes

A sucessão de dificuldades foi agravada por novos episódios.

Flávio passou a ser alvo de críticas por repetir alegações infundadas sobre a segurança das urnas eletrônicas durante encontro com diplomatas, reproduzindo a estratégia adotada por Jair Bolsonaro em 2022. O Tribunal Superior Eleitoral e especialistas em segurança digital reiteram que não há evidências de fraude no sistema eletrônico de votação brasileiro, cuja confiabilidade vem sendo reconhecida em auditorias nacionais e internacionais.

Também repercutiram fotografias do senador ao lado de um homem apontado em reportagens como integrante da milícia privada de Daniel Vorcaro. A divulgação das imagens alimentou questionamentos políticos sobre a proximidade entre pessoas ligadas ao senador e ao empresário. Flávio alega que atende a pedidos de fotos de populares com frequência, e que a existência da imagem não comprovaria elo com o chamado “Sicário”..

O isolamento cresce

Ao mesmo tempo, partidos que meses atrás davam como certa uma aliança passaram a recalcular seus movimentos. A federação PP-União Brasil optou pela neutralidade. O Republicanos elevou as exigências para eventual apoio. Lideranças do Centrão passaram a negociar em posição de força, convencidas de que Flávio precisa mais delas do que elas precisam dele.

A lógica é simples. Na política brasileira, partidos de centro costumam aderir a candidaturas que transmitam perspectiva concreta de vitória. Quando essa percepção diminui, aumentam as exigências por espaço político e reduzem-se os incentivos para alianças antecipadas.

Uma campanha na defensiva

A sucessão de episódios obrigou a campanha a abandonar a agenda positiva construída no início do ano. Temas econômicos, propostas de governo e articulações estaduais passaram a dividir espaço com respostas sobre investigações, explicações relativas ao caso Master, tentativas de reconciliação familiar e sucessivas crises políticas.

Mesmo sem condenações judiciais contra o senador nos episódios atualmente investigados, a repetição de fatos negativos passou a dominar o noticiário. Em comunicação política, essa dinâmica costuma ser particularmente danosa porque impede que o candidato controle sua própria narrativa.

O desafio daqui para frente

As pesquisas continuam colocando Flávio Bolsonaro entre os principais nomes da oposição. O eleitorado mais fiel ao bolsonarismo permanece relativamente estável, e o apoio de Jair Bolsonaro ainda representa um ativo eleitoral importante.

O problema está na etapa seguinte da campanha.

Para vencer uma eleição presidencial, não basta conservar a base mais ideológica. É necessário conquistar partidos, empresários, lideranças regionais e eleitores moderados.

É justamente nesses segmentos que o acúmulo de crises produziu maior desgaste.

O candidato que iniciou o ano como principal favorito para unificar a direita chega à largada oficial da campanha cercado por investigações em andamento, dificuldades de articulação política e um noticiário predominantemente desfavorável.

Se conseguirá reverter esse quadro durante a campanha é uma incógnita. Por ora, a sucessão de episódios transformou aquele que parecia ser o caminho natural de Flávio Bolsonaro ao Planalto na fase mais turbulenta de sua trajetória política.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 16 jul 2026

Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada

Para enfrentar a catástrofe climática, acelerada pelo negacionismo neofascista, o freio de emergência está na luta e na mobilização de maioria social
Super El Niño: crônica de uma tragédia anunciada
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores