Um olhar psicológico sobre o colapso ambiental
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Um olhar psicológico sobre o colapso ambiental

O psicanalista espanhol Josep Maria Panés analisa a catástrofe climática como um sintoma da época e alerta para um sistema que transformou o consumo e a satisfação imediata em um imperativo

Oscar Ranzani 21 ago 2026, 08:00

Foto: Contraeditorial/Reprodução

Via Desde Abajo

Há algo profundamente paradoxal na crise climática: nunca houve tanta informação disponível sobre a degradação do planeta e, no entanto, os seres humanos continuam avançando em uma direção que sabem ser destrutiva. Eles sabem que o aquecimento global está se acelerando, que os recursos naturais não são infinitos, que a biodiversidade está se perdendo e que as consequências já fazem parte do dia a dia. Mas saber não é suficiente. O que é que os leva a desviar o olhar, adiar as decisões e manter formas de produção e consumo que colocam em risco as próprias condições de vida?

Em A loucura do progresso. Um psicanalista escreve sobre a mudança climática (Xoroi Edicions), o espanhol Josep Maria Panés propõe abordar essa contradição a partir de uma perspectiva pouco comum: a psicanálise. Sua hipótese é que a crise ecológica não pode ser compreendida apenas como um problema científico, tecnológico ou político. É também um sintoma da época, uma manifestação de um funcionamento social marcado pelo “sem limites”: produzir mais, consumir mais, acumular mais, crescer indefinidamente em um planeta que, por definição, tem limites.

A partir de Freud e Lacan, Panés coloca em diálogo conceitos como pulsão de morte, desejo, angústia, gozo e mal-estar na cultura com a emergência climática. O capitalismo contemporâneo, sustenta ele, não se limita a oferecer objetos para satisfazer necessidades: produz uma insatisfação permanente e transforma o consumo em uma via privilegiada de satisfação pulsional. O problema é que essa lógica não apenas esgota os sujeitos, mas também os recursos do planeta. A devastação ambiental e a deterioração dos laços sociais seriam duas faces de uma mesma dinâmica.

Um dos conceitos centrais do livro é o “não querer saber”. Não se trata de ignorância nem de falta de informação: diante de uma realidade que se revela excessivamente angustiante, surge uma resistência subjetiva a saber aquilo que obriga os sujeitos a modificar seu modo de vida.

O desafio não consiste em encontrar uma fórmula mágica que permita salvar o planeta a partir do consultório. O próprio autor alerta para os limites da contribuição da psicanálise. Trata-se, de forma mais modesta e, ao mesmo tempo, radical, de tentar compreender o que mantém os seres humanos presos a uma lógica que ameaça destruir aquilo de que dependem para viver. E de recuperar, diante do fatalismo, a possibilidade de estabelecer um limite ali onde o capitalismo parece ter transformado o “mais” em um imperativo permanente.


Em A loucura do progresso você sugere que a mudança climática pode ser interpretada como um sintoma. O que a psicanálise permite enxergar ali onde outros discursos — científicos ou políticos, por exemplo — parecem não chegar?

É uma ótima pergunta que toca no que me motivou a pensar, refletir e escrever sobre o tema, e a abordá-lo nesses termos. Diante da gravidade das mudanças climáticas e da crise ecológica, bem como da incapacidade política da sociedade — e também da ciência — de responder adequadamente, pensei que a psicanálise pudesse trazer alguma luz para entender por que não fazemos nada diante daquela que é provavelmente a crise mais grave que a humanidade enfrenta. António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, já disse isso; cientistas já disseram isso; um monte de gente… Então, a ideia de que isso é um sintoma, no sentido de que é algo que escapa à racionalidade, é algo que opera fora das intenções conscientes, dos ideais.

Os cientistas podem proclamar suas constatações, nos apresentar suas curvas de evolução do CO₂, da temperatura, mas parece que somos surdos a isso, parece que a vida cotidiana engolfa tudo.

E, então, isso me levou a pensar que há algo da lógica do sintoma, no sentido de que há um gozo oculto, um gozo que opera além da vontade consciente do sujeito, que também estava operando na atitude coletiva diante da questão das mudanças climáticas.

Você vincula a crise ecológica a um funcionamento sem limites da pulsão. Como essa lógica pulsional se articula com o modelo capitalista contemporâneo?

Não digo nada que Freud, Lacan e Miller já não tenham dito. Lacan, no final dos anos 60 e início dos anos 70, já dizia praticamente isso. O grande público argentino (na Europa, inclusive na França, hoje em dia, infelizmente, não se pode dizer que a psicanálise faça parte do grande público) conhece sobretudo o Lacan clínico. Mas o Lacan que analisa não apenas o mal-estar na cultura, mas também os becos sem saída, falou do discurso capitalista, comparou-o à psicose no sentido de um funcionamento sem limites, condenado a um excesso que, por um lado, promove o estilo viciante em todos nós: mais consumo, mais trabalho e, portanto, mais destruição, mais devastação ecológica.

Outro dia, em uma palestra realizada em Barcelona, percebi uma coisa: em 1972 foi publicado o chamado “Relatório Meadows”, encomendado pelo Clube de Roma a uma equipe de cientistas do MIT, em Massachusetts. Em 1971, eles publicaram esse relatório fazendo uma projeção com os meios técnicos de que dispunham na época. E há décadas vem se confirmando o que ali está descrito: o aumento do efeito estufa, o aumento da temperatura, os fenômenos meteorológicos extremos, o impacto sobre a produção de alimentos.

E Lacan, o que ele apontou a esse respeito?

Lacan, que era alguém muito atento, não apenas aos clássicos, à psiquiatria, à ciência, mas também à política, acho que em 72 ele leu o “Relatório Meadows”, pois pouco depois fez uma manifestação, uma série de considerações sobre o sem limite, a inviabilidade do capitalismo, apontando para essa questão de que ele é governado como a pulsão, em estado bruto, quando a pulsão não é governada pelo desejo. O capitalismo funciona de acordo com esse “sem limite” da pulsão, que pode transformar qualquer pulsão em pulsão de morte. Lacan captava essa questão do “sem limite” no funcionamento do capitalismo e afirmava: “Eu não critico o capitalismo, é a coisa mais astuta que já foi inventada. Ele vai rápido, rápido, rápido… A única coisa que está destinada a explodir”. Ele tinha essa ironia que exalava.

Retomando Freud, o senhor fala das mudanças climáticas como uma possível manifestação da pulsão de morte. Como essa dimensão destrutiva se expressa hoje na vida cotidiana?

-Esse lado viciante — que Jacques-Alain Miller destacou bastante—, esse vício pela produção, pela acumulação de mais-valias que rege o discurso capitalista, tornou a todos nós viciados: viciados em trabalho, em sexo, em dinheiro, em jogos. E o vício é uma máquina regida pela pulsão de morte. Eu não trabalhei muito com dependências, mas colegas que o fizeram têm essa percepção muito clara desse ponto. Na clínica das dependências, percebe-se a pulsão de morte em ação. Percebe-se que a pulsão trabalha para além dos interesses do sujeito, para algo sem cabeça, um “sempre mais”, que não leva em conta nem mesmo a sobrevivência do indivíduo.

Acho que a questão da pulsão de morte também se manifesta em outra questão que Lacan apontou desde os anos 60, no Seminário A ética da psicanálise: a função do resíduo. Ele dizia: “Que espécie estranha, insensata, que enche seu entorno de resíduos indestrutíveis que, no plano material, tornam a vida impossível e, no plano simbólico, nos impedem de respirar. Esse acúmulo de objetos que o sistema capitalista produz e nos impõe nos sufoca, nos impede de respirar, em todos os sentidos”. Isso também é a ação da pulsão de morte.

E há uma ideia subjacente no livro: sabemos o que está acontecendo, mas, mesmo assim, não agimos. Como a psicanálise explica essa negação coletiva diante de uma ameaça tão evidente?

Hoje, alguém me lembrou que essa expressão já foi usada pelo psicanalista francês Dominique-Octave Mannoni: “eu já sei”, mas a negação, a recusa. Refiro-me a esse “não querer saber”, relacionando-o com uma afirmação de Lacan: existem três paixões fundamentais. O amor e o ódio são muito óbvios, mas a terceira é surpreendente: a ignorância, o não querer saber. O que não significa apenas não querer tomar conhecimento de algo, mas negar apaixonadamente coisas que já se viu, mas que é preciso negar porque elas confrontam algo insuportável, algo relacionado aos limites da existência humana, ao que chamamos na psicanálise de “castração”: nem tudo é possível, não viveremos para sempre, a felicidade é algo escasso e passageiro; no mundo e na vida das pessoas há muita dor. Essa ideia de que nem tudo é possível.

O negacionismo climático não é apenas uma estratégia política; ele também responde a mecanismos psíquicos mais profundos?

Claro, o problema é que existe uma cumplicidade oculta muito poderosa, pois sabemos que esse relatório é publicado desde os anos 70, mas, vinte anos antes, as grandes empresas petrolíferas já possuíam relatórios exaustivos sobre os efeitos da queima de combustíveis fósseis e como isso teria repercussões ao longo de décadas. E elas se dedicaram a investir muito dinheiro para promover o negacionismo. O que acontece é que, do outro lado, encontraram uma humanidade disposta a acreditar nessas mentiras: “Bem, não é nada disso”, “a ciência já vai resolver isso”, porque todo mundo preferia pensar no “efeito Papai Noel”, do qual Lacan também falava: “Algo fantástico vai acontecer e resolverá tudo”. Não, nada fantástico vai acontecer.

Uma espécie de procrastinação coletiva, não é?

Exatamente, muito intensa, porque implica não apenas deixar para amanhã, mas ignorar, não querer saber, e então qualquer coisa serve para encobrir as evidências. Na Espanha e na França estamos enfrentando incêndios terríveis. Em toda a costa atlântica da França, houve um inverno de inundações com custos ecológicos e humanos tremendos, e agora vêm os incêndios. Esses megaincêndios de sexta geração, contra os quais é impossível lutar quando já se alastraram. É uma tragédia anunciada há décadas. Está acontecendo muito mais rápido do que os especialistas previam.

Haverá um salto qualitativo a partir de 2023 em todos os parâmetros das mudanças climáticas e da crise ecológica. E então, como é que isso não aparece na primeira página de todos os noticiários? Como é que isso não abre todos os noticiários de TV? Certamente há diretrizes editoriais, pois a mídia, em geral, também é governada por redes de interesses; poucos se manifestam com liberdade e se dirigem a um público que prefere ouvir mentiras: “Bem, não é para tanto, estão exagerando, já vai se resolver. E vamos pensar em outra coisa”.

Essa questão de não nos deixarmos traumatizar, de não aceitar o que dói tanto de se questionar: como será a vida daqui a cinco anos? Como viverão as próximas gerações?

Que lugar ocupa a angústia nessa dificuldade de reagir?

Acho que é o motor dessa dificuldade, porque se digo que evitamos nos deixar traumatizar, isso significa que evitamos nos confrontar com algo que nos angustia profundamente. O trauma é se ver diante de algo que excede nossas capacidades de compreensão e de resposta, para o qual não temos referências que nos permitam nos posicionar, algo que ultrapassa as coordenadas do nosso mundo e que vivemos como uma ameaça. A questão da angústia, creio eu, é o motor muitas vezes ignorado, porque a capacidade de não nos deixarmos traumatizar, de nos distrairmos, de usar esses discursos tranquilizadores e adormecedores, é muito grande. Então, a angústia não chega a se manifestar.

Existe angústia?

Sim, há uma angústia muito grande que, na França, em linha com a história de sua cidadania, está se transformando em movimento político. Há uma espécie de consigna global de que é preciso politizar a crise climática. Ou seja, é preciso colocá-la em pauta, na agenda política, como uma prioridade absoluta, e exigir que os governos se ocupem dela, que tomem medidas que vão além dos grupos de pressão aos quais obedecem. Essa angústia, quando vem à tona, desestabiliza, causa danos psíquicos, mas também pode ser um motor para dizer: “Vamos acordar”.

E, ao contrário de outras abordagens que apostam em soluções técnicas ou normativas, sua proposta visa questionar o desejo. O que implicaria, concretamente, reorientar o desejo em termos psicológicos?

Lacan fez uma analogia entre a mais-valia de Marx e seu conceito de “plus de goce”, que acaba sendo uma forma de nomear esse desvio da satisfação no ser humano que sempre quer, dessa maneira irracional, mais. Tem que haver um “plus” no goce. E ele dizia, brincando com a terminologia política: “Isso nos torna proletários de nosso inconsciente, de nossas modalidades de goce”. Então, eu propunha — também não sou original nesse sentido — que as coisas que se pode fazer individualmente diante dessa catástrofe são muito poucas. É preciso agir em nível macro, mas agir em nível individual talvez nos permita nos desligar um pouco desse vício ao qual o discurso capitalista tende a nos prender, tornando-nos um pouco menos proletários diante das imposições do nosso inconsciente, do nosso superego que nos empurra para esse colapso. Estar menos acorrentados a esse gozo pelo qual trabalhamos. E já sabemos que o antídoto para o gozo é o desejo, é reencontrar algo de um desejo próprio que ajude a organizar a vida com mais sentido e colocando um pouco de limite a essa dimensão que acaba sendo muito superegoica, porque não é o gozo de desfrutar e do princípio do prazer, é um gozo que, no fim das contas, sempre acaba arruinando a vida do sujeito.

O livro propõe evitar tanto o fatalismo quanto os projetos irrealizáveis. Onde você localizaria hoje um ponto de intervenção possível?

Não sei se existe um ponto intermediário. A psicanálise não aposta em nenhuma opção ideológica concreta nem possui uma versão ideal da sociedade a ser proposta ou promovida, mas possui uma bússola para detectar as idealizações que obscurecem a realidade.

Contribui para essa tarefa de evitar que continuemos acreditando em soluções impossíveis, em soluções ideais, em mentiras como todas essas estratégias: “Vamos investir quantias astronômicas na captura de carbono, CO₂, e, assim, limparemos a atmosfera”, “Vamos eletrificar toda a produção mundial e o PIB continuará crescendo”. Não, isso não pode ser. Só é possível eletrificar cerca de vinte e poucos por cento da necessidade mundial de energia. Portanto, se não houver uma redução do volume global da economia, essa máquina de envenenar a atmosfera, os mares e os campos de cultivo não vai parar.

A psicanálise pode contribuir, por um lado, para um certo despertar, para apontar que estamos presos nessa postura de não querer saber e que, portanto, é preciso apelar para a necessidade de um esforço consciente para despertar e para não acreditar nessas mentiras que nos contam. Que é preciso fazer um esforço para nos livrarmos desse impulso viciante e que não devemos acreditar nessas mentiras que nos são apresentadas como soluções mágicas.


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