Quaest mostra Flávio à frente de Lula, enquanto crise no STF tensiona eleição
Senador aparece numericamente à frente do presidente no segundo turno, mas cenário ainda é de empate técnico; conflito entre ministros do Supremo e desdobramentos do Caso Master ampliam a tensão política a menos de um mês da eleição
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A corrida presidencial de 2026 ganhou novos contornos nesta segunda-feira (14), com a divulgação de pesquisas que apontam uma disputa cada vez mais apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Ao mesmo tempo, a crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF), alimentada pelos desdobramentos do Caso Master e pelo confronto entre ministros da Corte, aumenta a temperatura política às vésperas do primeiro turno.
Levantamento da Quaest divulgado nesta segunda mostra Flávio com 42% das intenções de voto contra 40% de Lula em um eventual segundo turno. Apesar da vantagem numérica do senador, os dois estão tecnicamente empatados, já que a margem de erro é de dois pontos percentuais. É a primeira vez, na série da pesquisa, que Flávio aparece numericamente à frente do presidente em uma simulação de segundo turno.
O resultado, portanto, não permite afirmar que Flávio tenha efetivamente ultrapassado Lula. Dentro da margem de erro, os dois candidatos estão em situação de igualdade. Além disso, a mesma pesquisa mostra Lula na liderança do primeiro turno, com 36%, contra 31% de Flávio.
Outro levantamento divulgado nesta segunda, do BTG/Nexus, reforça a avaliação de que a eleição está longe de estar definida, mas apresenta números diferentes. Lula aparece com 42% no primeiro turno, contra 37% de Flávio. No segundo turno, o petista registra 47% e o senador, 46% – novamente um empate técnico.
A diferença entre os levantamentos serve como alerta contra interpretações precipitadas. Mais do que apontar uma virada consolidada, os números revelam uma eleição altamente competitiva, na qual pequenas oscilações podem alterar o equilíbrio entre os dois principais candidatos.
Avanço de Flávio ocorre em segmentos estratégicos
Segundo a análise da Quaest, o crescimento de Flávio no segundo turno está relacionado especialmente ao desempenho entre mulheres e eleitores do Sudeste, dois segmentos fundamentais para a definição da eleição. No Sudeste, o senador aparece com vantagem expressiva, enquanto Lula mantém maior força entre os eleitores de menor renda.
O movimento é politicamente relevante porque a campanha de Flávio tem buscado reduzir a resistência ao seu nome e ampliar seu eleitorado para além da base mais fiel do bolsonarismo. A estratégia ocorre justamente quando o candidato tenta apresentar uma imagem menos associada aos confrontos institucionais que marcaram o governo de seu pai, Jair Bolsonaro.
Mas é justamente nesse terreno que a crise envolvendo o STF pode ganhar importância eleitoral.
Crise no STF cria ambiente favorável ao discurso bolsonarista
O Supremo atravessa uma das mais graves crises internas dos últimos anos. O conflito envolve principalmente os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, além do presidente da Corte, Edson Fachin, e tem como pano de fundo as investigações sobre o Banco Master e sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O momento mais delicado ocorrerá nesta terça-feira (15), quando o plenário do STF deverá analisar se existem elementos para a abertura de uma investigação envolvendo Moraes. A discussão está relacionada às mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro e à relação mantida entre o ex-banqueiro e o ministro.
A crise ganhou dimensão ainda maior porque os próprios ministros passaram a protagonizar decisões e acusações públicas. Na semana passada, Fachin retirou Moraes da relatoria do chamado inquérito das fake news e também afastou Mendonça da condução de procedimento relacionado ao Banco Master, numa tentativa de reduzir o choque direto entre os integrantes da Corte.
Nesta segunda, os ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes receberam acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro. O material deverá ser analisado antes da sessão extraordinária marcada para terça-feira.
Caso Master ultrapassa os limites do Supremo
O problema é que a crise já não está restrita ao Judiciário. O Caso Master começa a atingir diretamente o ambiente político e o Congresso, diante do temor de que informações obtidas nas investigações revelem relações entre o esquema investigado e parlamentares.
A Folha registrou nesta segunda que parlamentares passaram a demonstrar preocupação com possíveis vazamentos generalizados. Nomes de políticos já apareceram em materiais relacionados às investigações, enquanto novas operações da Polícia Federal aumentaram a tensão no Congresso.
Nesse contexto, o embate entre os ministros deixa de ser apenas uma disputa jurídica ou administrativa. A crise passa a ter consequências políticas em uma eleição presidencial extremamente apertada.
O campo bolsonarista, historicamente crítico ao Supremo, tem espaço para explorar a percepção de desordem e conflito dentro da Corte. Flávio Bolsonaro pode tentar transformar a crise institucional em argumento eleitoral, apresentando-se como alternativa ao sistema político e judicial que seus apoiadores acusam de perseguir o bolsonarismo.
Essa narrativa, contudo, ocorre em meio a uma contradição importante: o próprio campo político de Flávio esteve no centro de sucessivos confrontos com o STF durante o governo de Jair Bolsonaro, inclusive na tentativa de deslegitimar decisões da Corte e questionar o sistema eleitoral.
Eleição entra na reta final sob forte tensão
A combinação entre uma eleição tecnicamente empatada e uma crise institucional no Supremo cria um cenário particularmente sensível para as próximas semanas. Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, faltam menos de três semanas para que os eleitores definam os dois candidatos que, caso nenhum obtenha maioria absoluta, disputarão a segunda etapa.
Por enquanto, os dados disponíveis não autorizam falar em uma virada consolidada de Flávio Bolsonaro. A Quaest mostra o senador numericamente à frente no segundo turno, mas dentro da margem de erro; a BTG/Nexus coloca Lula numericamente à frente, também dentro do empate técnico.
O que as pesquisas revelam, com maior segurança, é outra coisa: a vantagem que Lula vinha apresentando sobre Flávio deixou de ser confortável e a disputa entrou definitivamente em uma zona de incerteza.
Nesse cenário, a crise do STF e os desdobramentos do Caso Master podem se transformar em um dos principais temas da campanha. Para o campo bolsonarista, a disputa oferece uma oportunidade de recuperar o discurso de confronto com o Supremo. Para Lula e seus aliados, o desafio será impedir que a crise institucional seja convertida em uma narrativa eleitoral capaz de deslocar o debate sobre governo, economia, direitos sociais e políticas públicas.
A sessão do STF desta terça-feira, portanto, terá importância que ultrapassa os limites da própria Corte. Em uma eleição apertada, cada novo capítulo do Caso Master pode produzir efeitos também na disputa pelo Palácio do Planalto.