Após denúncia de Fernanda, MPF investiga ‘TemMeuVoto’
Deputada do PSOL questionou ferramenta divulgada por Luciano Huck após relatos de resultados favoráveis a candidatos de direita
Foto: TV Globo/Reprodução
A plataforma TemMeuVoto, divulgada pelo apresentador Luciano Huck no Domingão com Huck, entrou no centro da disputa eleitoral a poucos dias do primeiro turno. Após relatos de usuários que afirmaram ter recebido como resultado candidatos de direita mesmo depois de responderem a perguntas com posições progressistas, a ferramenta passou a ser alvo de questionamentos sobre sua metodologia e transparência.
A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral e pediu a apuração do funcionamento da plataforma, além da investigação sobre a divulgação feita por Huck.
O caso avançou nesta semana: o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul abriu investigação para apurar se o apresentador e a TV Globo infringiram a legislação eleitoral ao divulgar o site durante o programa exibido em 27 de setembro. O objetivo do procedimento é justamente verificar se houve violação da legislação eleitoral.
Plataforma diz ter mudado metodologia após denúncias
Um dos elementos que aumentaram o interesse sobre o caso é que o TemMeuVoto diz ter publicado uma nova versão de sua metodologia em 28 de setembro, um dia depois da divulgação feita por Huck e em meio às reclamações sobre os resultados.
Segundo a plataforma, o cálculo considera oito temas. Eleitores e candidaturas respondem às mesmas afirmações em uma escala de cinco posições, que vai de “discorda totalmente” a “concorda totalmente”. A ferramenta calcula a proximidade entre as respostas e permite ao usuário dar peso maior aos temas que considera mais importantes.
O sistema também passou a detalhar de maneira mais extensa a origem das posições atribuídas às candidaturas. A prioridade é para respostas dadas diretamente pelos candidatos. Na ausência delas, podem ser utilizadas respostas obtidas pela Coalizão pelo Voto Consciente, votações nominais na Câmara ou, em determinadas situações, a posição predominante da bancada partidária.
A própria metodologia informa que 147 candidaturas aparecem com respostas encaminhadas pela coalizão entre 25 e 28 de setembro. Nesses casos, a plataforma afirma que as respostas foram obtidas por meio de formulário enviado às candidaturas e que a RenovaBR, uma das organizações integrantes da coalizão, responde pela exatidão das informações.
Esse mecanismo é um dos pontos que podem ser examinados na investigação: como as posições são atribuídas a candidatos que não responderam diretamente ao questionário e como essas informações interferem no percentual de compatibilidade apresentado ao eleitor.

Denúncias apontaram resultados favoráveis à direita
As reclamações que chegaram a Melchionna e passaram a circular nas redes sociais afirmam que usuários com respostas consideradas progressistas receberam como resultado candidatos ligados à direita ou à extrema direita.
Os relatos motivaram a representação da deputada e a investigação do MPF. A plataforma nega que exista direcionamento.Em nota, o TemMeuVoto afirmou:
“A plataforma não recomenda voto nem favorece partidos: permite ao eleitor comparar suas posições com as das candidaturas, com metodologia pública, disponível para consulta, e critérios iguais para todos.”
A organização também afirma que não utiliza inteligência artificial, redes sociais, biografia ou histórico criminal para determinar posições políticas. Segundo a metodologia publicada no site, a ferramenta realiza um cálculo determinístico a partir das respostas e dos dados utilizados para preencher eventuais lacunas.
Papel de Huck também entrou na investigação
A divulgação da plataforma em um programa de televisão de grande audiência é outro ponto questionado. Durante o Domingão com Huck, no dia 27, o apresentador apresentou o TemMeuVoto como uma ferramenta gratuita e apartidária. Segundo relato publicado pela Folha, Huck afirmou:
“Eu queria falar sobre uma plataforma, que é gratuita e apartidária, que dá um match entre eleitor e candidato, que se chama TemMeuVoto. O eleitor responde oito perguntas e o sistema calcula o percentual de alinhamento.”
A representação de Melchionna pede que o Ministério Público Eleitoral apure se a exposição da plataforma pode ter configurado propaganda eleitoral irregular ou tratamento privilegiado a determinadas candidaturas, especialmente pela proximidade do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
O vereador paulistano e candidato a deputado federal Nabil Bonduki (PT-SP) também acionou a Justiça Eleitoral e pediu a retirada da plataforma do ar. O caso está sob análise do TRE-SP.
Quem está por trás da plataforma?
Outro ponto levantado na representação é a identificação dos responsáveis pelo financiamento, administração e definição dos critérios da ferramenta.
O TemMeuVoto é apresentado como uma iniciativa da Coalizão pelo Voto Consciente, formada por organizações da sociedade civil. Entre as entidades envolvidas estão a RenovaBR e o Instituto Ethos. A plataforma não é vinculada ao Tribunal Superior Eleitoral e utiliza dados públicos do TSE para informações cadastrais das candidaturas.
A metodologia afirma que cada resultado deve ser interpretado apenas como uma medida de proximidade entre respostas e não como uma recomendação de voto. Também reconhece que a ausência de resposta representa apenas falta de informação, e não concordância ou discordância com determinada posição.
MPF terá de verificar se houve irregularidade
Com a abertura da investigação, a questão deixa de ser apenas uma disputa entre usuários e responsáveis pela plataforma. O MPF terá de verificar se a divulgação do TemMeuVoto e seu funcionamento respeitaram as regras eleitorais, além de analisar os critérios empregados para apresentar candidatos aos eleitores.
A Globo informou à Folha que ainda não havia sido notificada sobre a investigação, enquanto Huck não havia respondido aos contatos da reportagem. A plataforma, por sua vez, sustenta que é apartidária e que utiliza critérios públicos e iguais para todas as candidaturas.
O episódio coloca em discussão um problema maior da campanha eleitoral: ferramentas digitais que se apresentam como instrumentos de orientação ao eleitor podem ter influência sobre a escolha do voto e, por isso, precisam ter metodologia verificável, origem dos dados identificada e critérios transparentes.
A poucos dias da votação, o caso agora será examinado pelas instituições eleitorais.