Da cadeira às ruas: eleições, mobilização e organização popular
Sobre as eleições e as tarefas da esquerda brasileira e capixaba
Na véspera da eleição municipal de São Paulo, em 1985, Fernando Henrique Cardoso sentou-se na cadeira de prefeito para uma fotografia. Era o favorito nas pesquisas, tinha o apoio de lideranças importantes e parecia perto de conquistar a prefeitura. No dia seguinte, porém, perdeu para Jânio Quadros. A imagem ficou como uma das cenas mais emblemáticas da política brasileira: a de um candidato que se comportou como vencedor antes que os eleitores decidissem o resultado.
Quarenta e um anos depois, a cadeira voltou a ser uma boa metáfora para pensar uma eleição presidencial. Durante a campanha de 2026, Flávio Bolsonaro passou a falar como quem já contava com as condições políticas para governar. Com bancadas expressivas de seu campo político eleitas para o Congresso, anunciou a intenção de promover mudanças na Constituição e chegou a falar em “redemocratizar” o país. A declaração provocou reação até dentro de sua campanha, que avaliou que a fala poderia ser explorada pelos adversários. Pressionado a explicar o que pretendia fazer, Flávio passou a enumerar mudanças específicas, como uma reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal e o fim da reeleição.
Seu programa de governo prometia um “tesouraço” nas despesas públicas, com redução de ministérios, cargos e gastos administrativos, além de uma reforma administrativa e mudanças nas regras fiscais. Na reta final da campanha, as perguntas deixaram de ser apenas sobre a possibilidade de vitória e passaram a exigir explicações sobre as consequências dessas propostas. Em entrevistas, Flávio foi questionado diretamente sobre o reajuste do salário mínimo, a vinculação das aposentadorias ao piso nacional e os gastos mínimos constitucionais com saúde e educação.
É aí que a comparação com FHC ganha força. O problema de sentar na cadeira antes da hora não é apenas a arrogância de antecipar uma vitória. É também começar a agir como se o poder já estivesse conquistado e, com isso, revelar o que se pretende fazer com ele. No caso de Flávio, as promessas de cortes e as propostas de alteração constitucional colocaram em evidência um programa que, sob o discurso de eficiência e redução do Estado, poderia atingir serviços públicos, direitos sociais e parcelas da população que dependem deles.
Mas a eleição não se decide apenas nos planos de governo, nas pesquisas ou nos acordos entre dirigentes. A cadeira só muda de dono quando os votos são contados. E, numa disputa tão acirrada, entender quem consegue mobilizar pessoas, transformar comunicação em ação coletiva e levar a disputa para além dos gabinetes e das telas é fundamental para compreender a virada eleitoral de 2026.
A disputa não cabe dentro da tela
A eleição de 2026 mostrou que as redes sociais são um terreno fundamental da disputa política, mas não um espaço neutro. As principais plataformas digitais estão sob o controle de grandes empresas e de seus bilionários dirigentes, cujos interesses econômicos e posições políticas não são indiferentes ao que circula nesses ambientes. A extrema direita aprendeu a explorar esse terreno com profissionalismo, investindo em comunicação permanente, provocação, desinformação e mobilização de seus apoiadores.
Seria um erro, porém, concluir que a esquerda está condenada a perder essa disputa. A campanha de Lula mostrou que é possível construir uma dinâmica diferente, baseada na participação de pessoas comuns, na circulação coordenada de mensagens e na capacidade de transformar um conteúdo digital em conversa, identificação e ação coletiva.
Um exemplo foi o chamado Exército do Lula, uma rede de apoiadores mobilizados em torno de orientações comuns de divulgação. A dimensão atribuída a esse grupo, na casa dos 10 milhões de participantes, ajuda a entender a ambição dessa experiência. Não se tratava simplesmente de publicar uma mensagem e esperar que o algoritmo a favorecesse. A proposta era fazer milhares de pessoas publicarem, compartilharem e replicarem conteúdos de forma coordenada, criando uma onda de circulação que não dependesse exclusivamente da compra de anúncios.
Isso não significa que um grupo consiga controlar os algoritmos ou garantir que toda publicação alcance milhões de pessoas. Significa que uma mobilização suficientemente ampla pode alterar a escala e a velocidade da circulação de conteúdos, multiplicando pontos de entrada e dificultando que uma mensagem fique restrita ao alcance de uma única página ou perfil. É quase como um impulsionamento pago, mas sustentado pela ação coletiva de pessoas reais.
O exemplo da camiseta amarela com o gesto do L é revelador. Um símbolo simples, facilmente reconhecível e reproduzido por milhares de pessoas pode ganhar uma dimensão que vai muito além da propaganda oficial. Quando a imagem aparece nas ruas, nas fotos, nos vídeos e nas publicações de apoiadores, ela deixa de pertencer apenas à campanha e passa a integrar o repertório coletivo de quem participa daquela disputa.
Mas há um elemento que não pode ser perdido nessa análise: a rua. A força dessa experiência não esteve apenas na capacidade de fazer conteúdos circularem, mas na conexão entre a mobilização digital e a presença física. A internet pode convocar, amplificar e organizar. A rua transforma essa comunicação em demonstração pública de força, encontro entre pessoas e experiência coletiva.
Não é que as redes tenham substituído a mobilização popular. O que a campanha mostrou foi a possibilidade de fazer uma coisa alimentar a outra. As pessoas que já estavam mobilizadas nas ruas podiam ampliar sua presença no ambiente digital, enquanto a circulação nas redes podia levar novas pessoas à participação. O desafio foi romper, ainda que parcialmente, a divisão entre esses dois terrenos.
O quarto mandato precisa aprender a convocar
A vitória eleitoral não encerra essa discussão. Pelo contrário, torna a questão ainda mais urgente. O próximo governo Lula terá de enfrentar um Congresso conservador e interesses econômicos que não desaparecerão com o resultado das urnas. Se a estratégia ficar restrita à negociação institucional, muitas das principais demandas populares continuarão submetidas a acordos que limitam seu alcance.
A experiência da campanha precisa se transformar em aprendizado, mas não apenas para o governo. A mobilização popular não pode ser acionada somente nos momentos eleitorais, como uma ferramenta para conquistar votos, e depois devolvida à condição de espectadora. Se milhões de pessoas foram capazes de se mobilizar para disputar a eleição, essa força pode continuar atuando na disputa pelos rumos do país. A questão é se essa energia será canalizada para sustentar o governo ou se poderá se transformar em algo maior: uma experiência de organização e participação direta da população nas decisões políticas.
Isso significa ir às ruas para exigir medidas concretas, defender direitos e enfrentar os interesses que bloqueiam mudanças. Mas significa também que a mobilização não pode ficar subordinada aos cálculos do governo ou às necessidades eleitorais do PT. Os movimentos sociais, os sindicatos e as organizações populares precisam preservar sua autonomia para cobrar compromissos, enfrentar recuos e pressionar quando as negociações institucionais deixarem de responder às necessidades da maioria.
É aqui que a questão ganha um sentido estratégico para o PSOL e o Movimento Esquerda Socialista (MES). A defesa das reivindicações populares não pode se limitar a pedir que o governo tome boas decisões. É preciso estimular a participação direta de quem será beneficiado por essas medidas, ajudando a construir espaços de organização nos locais de trabalho, nos bairros, nas escolas e nas universidades. Uma mobilização convocada para defender uma pauta específica pode ser também o começo de uma experiência coletiva: pessoas que antes acompanhavam a política à distância passam a discutir, decidir, organizar atos, construir reivindicações e reconhecer a própria capacidade de interferir nos acontecimentos.
Esse processo não precisa começar com grandes organizações já consolidadas, nem depende de que todos compartilhem imediatamente um mesmo programa político. Pode nascer de lutas concretas, da defesa de um direito, da cobrança de uma promessa ou da resistência a um ataque. O fundamental é que cada mobilização deixe algo além do resultado imediato: relações de confiança, formas de organização, consciência dos interesses em disputa e disposição para novas lutas.
Há sinais de que a composição e a orientação do próximo governo poderão mudar em alguns aspectos, com maior atenção a setores populares e sociais e possíveis alterações na relação com o Centrão. Mas nenhuma composição ministerial, por si só, substitui a organização independente da população. A presença de representantes dos movimentos sociais no governo pode abrir possibilidades, mas a força popular não pode se resumir à ocupação de cargos ou à participação em espaços institucionais. Ela precisa existir também fora deles, com capacidade própria de iniciativa e decisão.
A correlação de forças não é fixa. Uma maioria parlamentar pode bloquear projetos, mas uma sociedade mobilizada pode enfrentar essa resistência. Uma proposta pode ser derrotada nas comissões e voltar à agenda quando milhares de pessoas passam a defendê-la publicamente. E, nesse processo, a população pode deixar de ser apenas uma força convocada para pressionar os representantes e começar a experimentar formas de democracia direta, nas quais participa da definição das reivindicações, dos métodos de luta e dos próximos passos.
Para os socialistas, essa possibilidade tem um horizonte ainda mais amplo. A organização popular construída em torno de lutas concretas pode se tornar o ponto de partida de processos que ultrapassem os limites da disputa institucional. Não há caminho automático entre uma manifestação e uma revolução, nem é possível prever onde uma luta vai chegar. Mas grandes transformações não surgem do nada. Podem encontrar sua centelha em experiências nas quais trabalhadores e setores populares descobrem, na prática, que são capazes de agir coletivamente, enfrentar poderes estabelecidos e disputar os rumos da sociedade.
O desafio do PSOL e do MES é contribuir para que essas experiências não se dispersem depois de cada vitória ou derrota pontual. Isso exige participar das mobilizações sem tentar substituir o protagonismo de quem luta, defender reivindicações que respondam às necessidades populares e ajudar a transformar indignação em organização duradoura. A autonomia política não significa assistir de fora às disputas do governo, mas atuar nelas com independência, sem confundir os interesses da classe trabalhadora com os interesses de qualquer governo.
Se o quarto mandato de Lula não aprender a convocar a população para além dos períodos eleitorais, perderá uma oportunidade de ampliar sua própria base social. Mas, para a esquerda socialista, a questão vai além de ensinar o governo a mobilizar. Trata-se de ajudar a construir uma força popular que não dependa da iniciativa presidencial para entrar em movimento e que possa, a partir de suas próprias experiências, abrir caminhos para transformações muito mais profundas. A mobilização que ajuda a vencer uma eleição pode ser também o início de um processo de organização popular capaz de colocar em questão os limites da ordem existente.
No Espírito Santo, a cadeira também parecia reservada
A eleição capixaba oferece outro ângulo para pensar essa relação entre expectativa, articulação política e resultado. No início do ano, a disputa pelo governo do Espírito Santo parecia opor duas escolas. De um lado, o espetáculo, o marketing digital e a narrativa de ruptura associada a Lorenzo Pazolini e Arnaldinho Borgo. De outro, a força institucional do grupo de Renato Casagrande, a montagem de alianças e a candidatura de Ricardo Ferraço.
A imagem lembrava uma disputa entre estilos de fazer política. Mas o resultado mostrou que não bastava contar os partidos, as alianças e os recursos mobilizados por cada lado para antecipar o desfecho. Pazolini derrotou Ferraço, contrariando as expectativas de quem considerava consolidada a vantagem do grupo governista.
Não há motivo para romantizar essa vitória como se fosse simplesmente o triunfo de uma comunicação mais criativa. A aliança concreta com o bolsonarismo foi um elemento importante da disputa, e a campanha de Ferraço parece ter subestimado a capacidade de seu adversário de transformar essa articulação em votos. A diferença também apareceu em detalhes de comunicação: enquanto o número 10 do Republicanos foi repetido e reforçado na campanha de Pazolini, o número 15 do MDB teve pouca presença no jingle de Ferraço. Em uma eleição, esses detalhes não explicam tudo, mas podem contribuir para a construção de uma identidade eleitoral mais reconhecível.
O resultado também mostrou os limites da transferência automática de capital político. O apoio de um governador, a estrutura partidária e a articulação com prefeitos são recursos importantes, mas não garantem que o eleitorado seguirá a direção indicada. O próprio Casagrande, que havia enfrentado dificuldades em sua disputa ao Senado, sabia que a força institucional não elimina a necessidade de disputar apoio e construir uma campanha capaz de chegar às pessoas.
A lição não é que o marketing venceu a política tradicional, nem que as alianças deixaram de importar. É que nenhuma dessas dimensões, isoladamente, garante a vitória. A política não cabe inteiramente na engenharia de gabinetes, mas tampouco pode ser reduzida ao desempenho nas redes sociais.
No Espírito Santo, a oposição precisa sair das instituições
O Espírito Santo é o chão em que piso e a partir do qual acompanho essas disputas. Por isso, volto à experiência capixaba não como um desvio da análise nacional, nem como se as particularidades do estado pudessem ser generalizadas automaticamente. O que acontece aqui tem sua própria história, suas alianças e seus conflitos, mas também expressa dilemas presentes em muitas experiências regionais da esquerda brasileira: como transformar a disputa eleitoral em organização popular permanente? Como fazer dos mandatos instrumentos para fortalecer as lutas, em vez de permitir que a política fique restrita às instituições?
A vitória de Pazolini (Republicanos) sobre Ferraço (MDB) mostrou os limites da confiança na força das alianças e da estrutura institucional. Mas, para a esquerda, a questão mais importante não é apenas entender por que um grupo venceu e outro perdeu. É decidir o que fazer com as condições políticas que se abriram depois da eleição.
O crescimento da representação de esquerda na Assembleia Legislativa oferece uma possibilidade de intervenção, mas não constitui, por si só, uma força social capaz de enfrentar o governo estadual. A oposição parlamentar pode denunciar medidas, apresentar alternativas e dar visibilidade a conflitos que o governo preferiria manter longe do debate público. Mas sua capacidade de produzir mudanças depende também da existência de setores populares organizados, capazes de defender suas reivindicações e pressionar por sua realização.
Camila Valadão, do PSOL, como deputada estadual mais votada do Espírito Santo, tem um papel importante nessa tarefa. Mas o desafio não pode se resumir à atuação de uma liderança ou ao desempenho de um mandato. É preciso construir uma relação permanente entre a Assembleia e as lutas que acontecem nos bairros, nos locais de trabalho, nas escolas e nas universidades. Os mandatos podem ajudar a dar visibilidade a essas lutas, oferecer instrumentos para sua organização e amplificar suas reivindicações. Não podem, porém, substituir a iniciativa dos próprios trabalhadores e setores populares.
Para o PSOL e o MES, isso significa pensar a oposição não apenas como disputa institucional, mas como oportunidade de fortalecer a organização independente da classe trabalhadora. Cada luta contra um ataque aos serviços públicos, cada mobilização em defesa de direitos e cada reivindicação coletiva pode contribuir para criar vínculos, ampliar a consciência política e desenvolver formas de participação que ultrapassem os limites da representação parlamentar.
Não existe uma linha automática que leve dessas lutas a uma transformação revolucionária. Mas tampouco haverá uma mudança profunda da sociedade sem que as pessoas adquiram experiência de organização, reconheçam interesses comuns e descubram sua capacidade de intervir coletivamente na realidade. A tarefa dos socialistas é contribuir para que essas experiências não se encerrem com uma conquista pontual, uma derrota ou o fim de uma campanha eleitoral.
A eleição muda a composição das instituições. A organização popular pode mudar a correlação de forças na sociedade. É nessa diferença que se encontra o desafio para a esquerda capixaba, assim como para a esquerda nacional: transformar a presença eleitoral em instrumento para ampliar a participação direta, fortalecer as lutas e construir uma alternativa que não dependa da iniciativa de governos ou da ação isolada de parlamentares.
A cadeira pode ser conquistada nas urnas. A força capaz de transformar a sociedade, porém, precisa ser construída coletivamente, na luta cotidiana.