Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“É necessário começar um novo maio de 68”

Em entrevista inédita, Alain Krivine, um dos líderes do 68 francês, reconstrói os acontecimentos que encandeceram seu país naquele ano.

Alain Krivine foi um dos líderes do movimento de maio de 1968 na França. Na época tinha 27 anos e era um dos dirigentes da JCR (Juventude Comunista Revolucionária), organização formada dois anos antes por militantes excluídos do PCF (Partido Comunista Francês) e da União dos Estudantes Comunistas.

A radicalização de uma parte da juventude comunista, em torno de temas como a oposição à guerra da Argélia (ou seja, a oposição ao imperialismo de seu próprio país), a solidariedade à luta do povo vietnamita, e a crítica à burocratização do PCF, foi parte do processo de radicalização da juventude que desembocou em maio de 1968.

Ainda como militante do PCF, Krivine havia se tornado militante da IV Internacional. A JCR tinha cerca de 300 militantes antes de maio, e teve um rápido crescimento a partir daí.

Por sua atividade militante, Krivine foi preso em julho de 1968, e libertado alguns meses depois. Em 1969, foi um dos fundadores da Liga Comunista (que unificou os militantes da JCR com os militantes “adultos” da IV Internacional). A LC foi dissolvida em 1973 pelo Estado francês e recriada em 1974, com o nome de Liga Comunista Revolucionária.

A LCR foi por várias décadas uma das principais organizações da IV Internacional (e da extrema-esquerda em geral), e Krivine um de seus principais dirigentes. Foi candidato a presidente da França por duas vezes (em 1969 e 1974); eleito deputado no Parlamento Europeu em 1999, exerceu seu mandato de 5 anos.

Em 2009, a LCR se autodissolveu para impulsionar a criação do Novo Partido Anticapitalista (NPA).

Krivine publicou uma autobiografia em 2006, à qual deu o título irônico de “Ça te passera avec l’âge”, que podemos traduzir por “Isso vai passar com a idade”. Para ele, “isso” – a convicção revolucionária, a dedicação da vida à militância comunista, o internacionalismo, a solidariedade a toda a humanidade, a confiança na construção de uma sociedade livre de toda exploração e opressão – não passou nunca.

No Congresso da IV Internacional de 2018, Krivine foi convidado a fazer o discurso de abertura, com o tema “50 anos de maio de 1968”. A seguir, apresentamos a entrevista com ele realizada nessa oportunidade.

Hoje em dia, há um debate não apenas na França, mas em todo o mundo, sobre a relevância e os impactos do Maio Francês na História. Por, fale-nos sobre o seu ponto de vista nesta questão.

Alain Krivine  – Eu acredito que este acontecimento tenha deixado um legado mais do que positivo, uma vez que representa algo tão essencial que é uma enorme explosão social como conhecemos na França e na maioria dos países do mundo. Mesmo que na França e na Itália tenham sido exceções, pela ligação mais ou menos forte entre estudantes e trabalhadores, enquanto em outros lugares o que houve foi essencialmente uma explosão da juventude e dos estudantes. Este acontecimento primeiramente mostrou que uma grande explosão social anticapitalista sempre é possível; em segundo lugar, quando ocorre uma explosão social e um movimento tão grande quanto esse (havia 10 milhões de grevistas com bandeiras vermelhas nas ruas da França), as pessoas se tornam, como dizia Trotsky, cotidianamente irreconhecíveis. Assim, essa revolução cultural, sexual e artística desafiou muitas coisas. Mesmo que muito dela não tenha durado e mesmo que todos os novos movimentos sociais que conhecemos hoje não tenham nascido em 68 (mas depois de 68 e graças a 68). Nós temos a ideia de que uma explosão social ainda é possível. Para mim, hoje, o anticapitalismo está mais forte. Eu creio que o título do artigo escrito pelo redator-chefe do Le Monde à época, semanas antes da eclosão da greve geral, “A França está entediada…”, diz para que tudo é possível. Em todo caso, é necessário começar de novo um novo maio de 68, mas em outras condições e que desta vez ocorra em todas as frentes, o que não foi o caso daquela explosão.

Esta entrevista faz parte do livro 50 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta prolongada. Para ler este e demais textos, compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

Solzinho

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