O ascenso da China como potência mundial
Imagem: AP/Andy Wong.

O ascenso da China como potência mundial

Como a China se converteu em uma potência mundial? De que maneira pôde tirar proveito do legado colonial, da mão de obra barata e da estratégia estatal? Mas, ao mesmo tempo, quais são as tensões no avanço do “sonho chinês” hoje encarnado na forte liderança de Xi Jinping?

Au Loong Yu 1 jun 2026, 14:40

Entrevista realizada por Ashley Smith (Nueva Sociedad) com Auu Loong Yu

A rápida ascensão da China como novo centro de acumulação capitalista a leva a uma confrontação com os Estados Unidos. Nesta entrevista, o ativista e acadêmico Au Loong Yu analiza as raízes históricas da emergência da China como nova potência imperial, as ambições de Xi Jinping e da elite chinesa, suas difernças com outras potências do Norte global e o que isto significa para o sistema mundial. Au Loong Yu é autor, entre outros livros, de Hong Kong in Revolt: The Protest Movement and the Future of China [Hong Kong em revolta. O movimento de protesto e o futuro da China]. (Pluto Press, Londres, 2020).

Uma das mudanças mais importantes das últimas década foi o surgimento da China como nova potência do sistema mundial. Como isso ocorreu?

O auge da China é o resultado de uma combinação de fatores desde a reorientação da sua produção para o capitalismo mundial na década de 1980. Em primeiro lugar, ao contrário do bloco soviético, a China encontrou a maneira de tirar proveito do seu legado colonial, o que é uma ironia histórica. A Grã Bretanha controlou Hong Kong até 1997, Portugal controlou Macau até 1999 e Estados Unidos segue utiliuzando Taiwan como protetorado. Estas colonias e protetorados conectaram a China com a economia global inclusive antes de sua entrada total no sistema mundial.

Na época de Mao Zedong, Hong Kong proporcionava aproximadamente um terço das divisas estrangeiras da China. Sem Hong Kong, a China não teria importado tanta tecnologia. Depois do fim da Guerra Fria, sob o mandato de Deng Xiaoping, Hong Kong foi muito importante para a modernização chinesa. Deng utilizou Hong Kong para obter ainda mais acesso às divisão estrangeiras, importar todo tipo de produtos, incluindo alta tecnologia, e aproveitar sua mão de obra qualificada, com os profissionais de gestão e de administração.

Enquanto em Macau, China a utilizou inicialmente como um lugar ideal para o contrabando de mercadoria até a China continental, aproveitando a notória frouxidão legal da ilha. Posteriormente, a cidade cassino constituiu uma plataforma ideal para a importação e exportação de capitais. Por sua vez, Taiwan era muito importante em termos de investimento de capital, se não mais ainda, a longo prazo, em termos de transferência de tecnologia, em primeira lugar na indústria de semicondutores. Os investidores de Taiwan e Hong Kong também foram um dos elementos chaves do rápido crescimento nas províncias chinesas de Jiangsu, Fujian e Guangdong.

Em segundo lugar, a China possuía o que o revolucionário russo Leon Trotsky denominva o “privilégio do atraso histórico”. O Partido Comunista de Mao se beneficiou do passado pré-capitalista do país. Herdou um Estado absolutista forte que reorganizaria e utilizaria para seu projeto de desenvolvimento econômico nacional. Também se beneficiou de um campesinato pré-capitalista atomizado, acostumado ao absolutismo há mais de 2 mil anos, para extrair sua mãe de obra com vistas a uma acumulação denominada primitiva desde 1949 até a década de 1970. Mais tarde, a partir da década de 9180, o Estado chinês transferiu esta mão de obra do campo para as grandes cidade para que trabalhassem como mão de obra barata em zonas francas de exportação. Deste modo, passaram a trabalhar cerca de 300 milhões de migrantes rurais, como escravos de oficinas clandestinas. Assim, o atraso das relações absolutistas do Estado e das classes na China oferecia a classe dirigente chinesa vantagens para desenvolver tanto o capitalismo de Estado como o capitalismo privado.

O atraso da China também lhe permitiu superar as etapas do desenvolvimento substituindo os meios e métodos arcaicos por meios e métodos capitalistas avançados. A adoção por parte da China da alta tecnologia nas telecomunicações é um bom exemplo disso. No lugar de seguir cada etapa das sociedades capitalistas mais avançadas, começando pelo uso de linhas telefônicas para comunicação online, a China instalou cabo de fibra ótica em todo o país quase de uma vez.

Os dirigentes chineses estavam muito interessados em modernizar sua economia. Por um lado, por razões defensivas: queriam assegurar que o país não fosse invadido ou colonizado, como havia ocorridos um século atrás. Por outro lado, por razões ofensivas: o Partido Comunista quer estabelecer o status de grande potência da China, a tradição da sua distania chamada celestial. Devido a estes fatores, a China levou a cabo uma modernização capitalista que em outros Estados demorou 100 anos.

China é hoje a segunda maior economia do mundo, mas não sem contradições. Por um lado, muitas multinacionais são responsáveis pelo seu crescimento, seja diretamente ou subcontratando a empresas taiwanesas e chinesas. Por outro lado, a China está desenvolvendo rapidamente suas próprias indústrias como líderes nacionais em setores público e privado. Quais são suas fortalezas e debilidades?

No meu livro China’s Rise [O ascenso da China] [1], sustento que a China pratica duas dimensões do desenvolvimento capitalista. Uma é o que eu chamo de acumulação dependente. O grande capital estrangeiro investiu enormes quantidades de dinheiros nos últims 30 anos, primeiro em indústrias intensivas em mão de obra e, mais recentemente, em indústria intensivas em capital. Isto desenvolveu o país, mas o manteve na parte inferior da cadeia de valor mundial, incluso o setor de alta tecnologia, como oficina clandestina global. O capital chinês obtém uma pequena proporção dos benefícios, a maior parte dos quais vai parar nos Estados Unidos, Europa, Japão e outras potências capitalistas avançadas e suas multinacionais. O melhor exemplo é o telefone móvel da Apple. China se limita a montar todas as peças, que em sua maioria são desenhadas e fabricadas fora do seu território. Mas há uma segunda dimensão: a acumulação autônoma. Desde o princípio, o Estado dirigiu muito conscientemente a economia, financiou a pesquisa e o desenvolvimento e manteve um controle indireto sobre o setor privado, que agora representa mais de 50% do PIB. Nas altas esferas da economia, o Estado mantém o controle atráves de empresas estatais e leva a cabo sistematicamente engenharia inversa para copiar a tecnologia ocidental e desenvolver suas próprias indústrias. A China tem vantagens que outros países não têm: é enorme, não só pelo tamanho do território, mas também pela sua população. Desde a década de 1990, foi capaz de estabelecer uma divisão do trabalho entre três partes do país. Guangdong tem uma zona franca com grande intensidade de mão de obra para exportação. O delta de Zhejiang também está orientado para exportação, mas não é muito mais rico em capital. Ao redor de Beijing, desenvolveu-se as indústrias de alta tecnologia, comunicações e aviação. Esta diversificação forma parte da estratégia consciente do Estado para se desenvolver como potência econômica. No entanto, a China também sofre com debilidades. Se prestamos atenção no PIB, é o segundo maior país do mundo. Mas se é medido o PIB per capita, segue sendo um país de renda média. Também podem se observar debilidades inclusive nas áreas em que está alcançando as potências capitalistas avançadas. Por exemplo, o smartphone Huawei, que agora se converteu em uma marca mundial, foi desenvolvido não só pelos cientistas chineses, mas sobretudo pela contratação de 400 cientistas japoneses. Isto demonstra que a China dependia e segue dependendo em grande medida dos recursos humanos estrangeiros para pesquisa e desenvolvimento. Outro exemplo de debilidade foi quando a empresa chinesa de telecomunicações ZTE foi acusado pelo governo de Donald Trump de violar suas sanções comerciais contra o Irã e Coreia do Norte. Trump impôs uma proibição comercial a empresa, negando-lhe o software de desenho estadunidense e os componentes de alta tecnologia, o que a colocou em risco de afundar da noite para o dia. Xi e Trump finalmente chegaram a um acordo para salvar a empresa, mas a crise que atravessou a ZTE exibiu o persistente problema do desenvolvimento dependente da China.

Este é o problema que está tratando de resolver. Sua tecnologia de semicondutores está duas ou três gerações atrás dos Estados Unidos. Por isso a China está aumentando consideravelmente os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. No entanto, o grosso do enorme número de patentes chinesas não corresponde ainda ao âmbito da alta tecnologia, se não a outros campos. Portanto, a China segue sofrendo com a debilidade tecnológica. No âmbito da inteligência artificial, em contrapartida, está recuperando rapidamente terreno. Isto preocupa aos Estados Unidos, não só em termos de competição econômica, mas também de competição militar, âmbito no qual a inteligência artificial desempenha um papel fundamental.

Além das debilidades econômicas, a China sofre de debilidades políticas. Não conta com um sistema de governo que garante uma sucessão pacífica de poder de um líder a outro. Deng Xiaoping havia estabelecido um sistema de limitação de mandatos e direção coletiva para superar este problema de sucessão. Xi aboliu este sistema e reestabeleceu a regra do único líder sem limites temporais. Isto poderia dar lugar a mais lutas fracionais pela sucessão, que desestabilizem o regime e comprometam seu ascenso econômico.

Xi mudou radicalmente a estratégia da China no sistema mundial, afastando-se da estratégia de Deng Xiaoping e seus sucessores. Por que o faz e qual é seu programa para que a China aspire ao papel de grande potência?

O primeiro a ser entendido é a tensão que existe dentro do Partido Comunista em relação ao seu projeto no mundo. O Partido Comunista da China é muito contraditório. Por um lado, é uma força de modernização econômica. Por outro, herdou elementos muito importantes da cultura política pré-moderna. Estas são as fontes do conflito entre os clãs dentro do regime. No começo da década de 1990, as altas esferas da burocracia debatiam sobre que grupo de governantes devia ter o poder. Um deles é o denominado “sangue azul”, os filhos dos burocratas que dirigiram o Estado depois de 1949, a segunda geração vermelha de burocratas. São fundamentalmente reacionários. A partir da chegada de Xi ao poder, a imprensa fala do retorno do “nosso sangue”, quer dizer o sangue dos antigos quadros se reencarna na segunda geração. A outra camarilha é dos novos mandarins. Seus pais e mães não eram quadros revolucionários. Eram intelectuais ou pessoas que tinham êxito nos estudos e que ascenderam na escala social, geralmente atráves da Liga Juvenil Comunista. Não é casualidade que a direção do partido de Xi haja humilhado publicamente a Liga em várias ocasiões nos últimos anos. O conflito entre os nobres de sangue azul e os mandarins é uma nova versão de um velho modelo; faz 2000 anos de absolutismo e dominação burocrática, existe uma tensão entre este tipo de camarilhas.

Entre os mandarins, há alguns que provém de entornos mais humildes, como Wen Jiabao, que liderou a China entre 2003 e 2013, e que são um pouco mais “liberais”. Ao final do seu mandato, Wen declarou que a China deveria se inspirar na democracia representativa ocidental, argumento que certas ideias ocidentais, como os direitos humanos, eram de algum modo universais. Por óbvio, se tratava principalmente de retórica, mas é muito diferente de Xi, que trata com desprezo a democracia e os chamados “valores ocidentais”. Xi ganhou esta luta contra os mandarins, consolidou seu poder e promete que os nobres de sangue azul reinarão para sempre. Seu programa consiste em reforçar o caráter autocrático do Estado e afirmar o poder mundial da China, em algumas ocasiões desafiando os Estados Unidos.

Mas depois da crise relacionada ao ZTE, Xi fez um pequeno recuo tático, porque esta crise manifestou as persistentes debilidades da China, assim como o perigo de se declarar grande potência rápido demais. De fato, acumularam-se críticas contra um dos assessores de Xi, um economista chamado Hu Angang, que havia argumentado que a China já era um rival econômico e militar dos Estados Unidos e que, portanto, podia desafiar a liderança mundial de Washington. ZTE demonstrou o contrário. Desde então, muitos liberais começaram a criticar a Hu. Um conhecido liberal erudito, Zhang Weiying, cujos escritos foram proibidos no passado, foi autorizado a publicar oficialmente seu discurso na internet.

Já se havia produzido um acalorado debate entre os especialistas da diplomacia. Os partidários da linha dura advogavam por uma postura mais firme contra os Estados Unidos. Os liberais, no entanto, argumentaram que a ordem internacional é um “templo” e que, enquanto puder se adaptar ao ascenso da China, Beijing deveria ajudar a construir esse templo no lugar de derrubá-lo e construir um novo. Esta orientação diplomático ficou marginalziada quando Xi optou por uma linha mais intransigente, mas recentemente sua voz voltou a ser ouvida. Desde o conflito da ZTE e da guerra comercial, Xi realziou alguns ajustes táticos e fez um pequeno recuo em seus pronunciamentos sobre o status de grande potência da China.

Até que ponto se trata de um recuo temporário? Além disso, como influenciam o programa China 2025 e a Belt and Road Initiative no projeto de mais longo prazo de Xi de alcançar o status de grande potência?

Permita-se dizer claramente que Xi é um reacionário de “sangue azul”. Ele e o resto de sua camarilha estão decididos a restaurar a hegemonia do passado imperial da China e a reconstruir uma suposta dinastia celestial. O governo de Xi, a academia chinesa e os meios de comunicação tem publicado um grande número de ensaios, teses e artigos que glorificam o passado imperial para justitifcar seu projeto de grande potência. Sua estratégia de longo prazo não será fácil de desalentar.

A camarilha de Xi é consciente de que, antes do poder realizar sua ambição imperial, a China deve eliminar a carga do seu passado colonial, quer dizer, apoderar-se de Tawian e conseguir primeiro a unificação nacional, tarefa histórica do PCCh. Mas isto levará ao conflito com os Estados Unidos, cedo ou tarde. Portanto, a questão de Taiwan tem tanto uma dimensão de autodefesa da China (inclusive Washington reconhece que Tawian é “parte da China”) como dimensão de rivalidade interimperialista. Para “unificar-se com Taiwan”, para não falar de ambições mundiais, Beijing deve superar primeiro suas debilidades, em particular em matéria de tecnologia, economia e falta de aliados internacionais.

Aí é onde entram em jogo o programa China 2025 e a Belt and Road Initiative. Através do primeiro, busca desenvolver suas capacidades tecnológicas independentes e ascender na cadeia de valor mundial. E mediante o segundo se propõe a construir infraestruturas em toda Eurasia de acordo com os interesses chineses. Ao mesmo tempo, devemos ser claros: a Belt and Road Initiative é também um sistema dos problemas de superprodução e excesso de capacidade da China. É utilizada para absorver todo esse excesso de capacidade. Não obstante, ambos os programas são fundamentais para o projeto imperialista chinês.

Há um grande debate na esquerda internacional sobre como entender o ascenso da China. Alguns argumentam que é um modelo e um aliado para o desenvolvimento do “Terceiro Mundo”. Outros veem a China como um Estado subordinada em um império informal estadunidense que dirige o capitalismo neoliberal mundial. Outro a veem como uma potência imperial em ascensão. Qual seu ponto de vista?

A China não pode ser um modelo para os países em desenvolvimento. Seu auge é o resultado de fatores únicos que descrevi anteriormente e que outros países de Terceiro Mundo não possuem. Não creio que seja um erro afirmar que a China é parte do neoliberalismo mundial, sobretudo quando a vemos proclamar que está disposta a substituir os Estados Unidos como guardião da globalização do livre comércio. Mas dizer que a China é parte do capitalismo neoliberal não oferece uma visão global. É um Estado capitalista distinto e uma potência expansionista, que não está disposta a ser um sócio de segunda ordem dos Estados Unidos. Portanto, a China é um componente do neoliberalismo mundial, ao tempo em que se distingue como potência capitalista estatal. Essa combinação particular significa que se beneficia da ordem neoliberal e, ao mesmo tempo, representa um desafio para ela e para o Estado estadunidense que a controla. Ironicamente, o capital ocidental é responsável por essa difícil situação. Seus estados e capitais compreenderam muito tarde o desafio que representava a China. Passaram a investir em massa no setor privado ou em empresas conjuntas com empresas públicas. Mas não entenderam do todo que o Estado chinês segue estando por trás destas empresas, mesmo as que são privadas. Na China, até mesmo uma empresa verdadeiramente privada deve se submeter às exigências do Estado.

O Estado chinês utilizou esse investimento privado para desenvolver suas próprias capacidades, tanto estatais como privadas, com o fim de poder desafiar o capital dos EUA, Japão e Europa. Portanto, é ingênuo acusar o Estado chinês e o capital privado de roubar a propriedade intelectual. Isso é só o que tinham previsto fazer desde o começo. Assim, os Estados capitalistas desenvolvidos e as empresas privadas permitiram o surgimento da China como potêcia imperialista em ascensão. Por sua natureza particular – capitalismo de Estado -, é especialmente agressiva e está decidida a alcançar e desafiar as potências que investiram nela.

Nos Estados Unidos existe um consenso cada vez maior entre os dois grandes partidos – democratas e republicanos – de que a China é uma ameaça para o poder imperialista dos EUA. Tanto Estados Unidos quanto China estão revivendo o nacionalismo, um contra o outro. Como qualificaria esta rivalidade?

Faz uns anos, os analistas argumentam que havia um debate entre dois lados sobre se deveria haver diálogo com a China ou enfrentá-la. Chamavam de abraçadores de pandas vs caça dragões. Hoje em dia, os “caçadragões” estão a mando da diplomacia. Efetivamente, existe um consenso cada vez maior entre democratas e republicanos. Inclusive destacados liberais dos EUA criticam a China na atualidade. Mas muitos desses políticos liberais são em parte responsáveis pela atual situação. Recordemos que, depois do massacre de Tiananmén em 1989, foram liberais como Bill Clinton nos EUA e Tony Blair na Grã Bretranha que perdoaram o PCCh, reabriram as relações comerciais e fomentaram investimentos massivos no país.

Por óbio, tratava-se de encher as arcas das multinacionais ocidentais, que obtiveram enorme benefícios aproveitando a mão de obra barata superexplorada da China. Mas também acreditavam sinceramente, embora de forma ingênua, que o aumento dos investimento levaria a China a aceitar as regras de um Estado subordinado dentro do capitalismo neoliberal mundial e a se democratizar à imagem e semelhança do Ocidente. Essa estratégia se voltou contra eles e permitiu a China se impor como rival.

O debate entre “abraça pandas” e “caça dragões” tem também seu correlato acadêmico. No establishment da política exterior estadunidense podem se distinguir três grandes escolas: o internacionalismo liberal, o realismo e o construtivismo social. Dentro de cada uma delas convivem otimistas e pessimistas a respeito da China, que reproduzem, em chave teórica, a mesma divisão entre “abraça pandas” e “caça dragões”. Entre os otimistas, no entanto, as razões diferem segundo a escola: os liberais apostavam que o comércio democratizaria a China; os realistas sustentavam que, ainda com ambições próprias, a China era demasiadamente débil para desafiar aos Estados Unidos; e os construtivistas confiavam que a interação econômica e social transformaria a China. No passado, a maioria do establishment estadunidense defendia a casa dos liberais otimistas, cegos pela crença em uma transformação democrática da China atráves do comércio. Mas no auge chinês provocou uma crise no bando otimista, porque suas previsões não tem sido verificadas pela realidade. A China se converteu em uma grande potência emergente que começou a alcançar e desafiar os Estados Unidos.

Agora são os mesmos pessimistas destas três escolas que estão ganhando terreno. Os liberais pessimistas que acreditam que o nacionalismo chinês é muito mais forte que a influência do comércio e dos investimentos. Os realistas pessimistas que acreditam que a China está se fortalecendo rapidamente e que nunca cederá no que diz respeito a Taiwan. Os construtivistas sociais pesssimistas que acreditam que a China é muito rígida quanto aos seus próprios valores e que se nega a mudança.

Mas se a tendência pessimista tem razão hoje em dia, também sofre de uma grande debilidade. Assume que a hegemonia estadunidense é justa e justificada, ignora o fato de que os EUA são na verdade cúmplices do governo autoritário chinês e seu regime de exploração do trabalho e, por óbvio, nunca considera o fato de que a colaboração e a rivalidade entre EUA e China se produzem no marco de um capitalismo mundial profundamente contraditório e instável. Tampouco examina o conjunto das relações de classe em escala mundial. Isto não deveria nos surpreender: os pessismistas são ideólogos da classe dominante dos EUA e do seu imperialismo. A China segue uma trajetória imperialista. Estou contra a ditadura do PCCh, de suas aspiração a converter o país em uma grande potência e de suas reivindicações no mar da China meridional. Mas não acredito que seja corretor colocar a China e os Estados Unidos no mesmo plano. Na atualidade, a China é um caso especial. Há duas facetas no seu auge. Por um lado, o que ambos os países têm em comum: nos dois casos, são capitalistas e imperialistas. Por outro lado, a China é um primeiro país que passou de semicolonial a imperialista. Isto é muito diferente dos EUA ou de qualquer outro país imperialista. Devemos ter em conta na nossa análise para compreender como funciona a China no mundo. No que concerne a China, toda questão sempre tem dois níveis. O primeiro é a legítima autodefesa de um antigo país colonial em virtude do direito internacional. Não devemos esquecer que, como na década de 1990, aviões de combate estadunidenses voavam sobre a fronteira sul da China e chegaram a chocar com um avião chinês, cujo piloto terminou morto. Este tipo de eventos naturalmente recorda ao povo chinês seu doloroso passado colonial. Até pouco tempo, Grã Bretanha controlava Hong Kong e o capital internacional segue exercendo grande influência na região. Recentemente saiu à luz um exemplo de influência imperialista ocidental. Um informe revelou que, pouco antes de sair de Hong Kong, a Grã Bretanha dissolveu sua polícia secreta e a transferiu para Comissão Independente contra a Corrupção [icac em inglês]. A icac goza de grande popularidade em Hong Kong, porque faz com que pareça um lugar menos corrupto. Mas não só o chefe de governo de Hong Kong – antes eleito em Londres e agora em Beijing – nomeia o comissionado, enquanto que o povo segue sem ter influência sobre ele. Havia muita preocupação em Beijing pelo fato de que a icac pudesse se utilizar para disciplinar ao Estado chinês e também aos seus capitais. Por exemplo, em 2005, a icac processou a Liu Jinbao, diretor do Banco da China em Hong Kong. Parece que Beijing está tratando de tomar o controla da icac, e esta luta de poder é completamente opaca para a população. Por óbvio, deveríamos nos alegrar de que a icac persiga pessoas como Liu Jinbao, mas também devemos reconhecer que pode ser utilizada pelo imperialismo ocidental para promover seu programa. Ao mesmo tempo, a afirmação do controle de Beijing significará a consolidação do Estado e dos capitalistas nacionais, o que não beneficiará os interesses das massas trabalhadoras chinesas. Há outros vestígios do passado colonial. EUA mantém Taiwan como um protetorado. Por óbvio, devemos nos opor a ameaça de invasão a Taiwan por parte da China. Mas devemos defender o direito de Taiwan a sua autodeterminação, conscientes de que os EUA utiliza este país como uma ferramenta para promover seus interesses. Esta é a outra face da herança colonial: motivo para que o PCCh se comporte de maneira defensiva contra o imperialismo estadunidense.

A China é um país imperialista emergente, mas com debilidades fundamentais. O PCCh deve superar obstáculos importantes antes de que a China possa se converter em um país imperialista estável e duradouro. É muito relevante compreender não só os pontos em comum entre EUA e China como países imperialistas, se não também as particularidades deste último.

Para os socialistas estadunidenses, a tarefa principal é se opor aos imperialismo dos EUA e construir solidariedade com os trabalhadores chineses. Isso significa que devemos nos opor a hostilidade contra a China, não só de direita, mas também dos liberais e inclusive do movimento dos trabalhadores. Mas não devemos cair na armadilha “campista”, que consiste em apoiar politicamente o regime chinês. Devemos estar ao lado dos trabalhadores. Qual sua opinião?

Devemos combater a mentira utilizada pela direita estadunidense de que os trabalhadores chineses roubaram os empregos dos trabalhadores estadunidenses. Isso não é verdadeiro. Os que realmente têm poder de decidir não são os trabalhadores chineses, mas sim o capital dos EUA, como Apple, que decide fabricar seus telefones na China. Os trabalhadores chineses não tem absolutamente nada que dizer sobre essas decisões. De fato, são vítimas, não são culpáveis pela perda de empregos nos Estados Unidos. E como disse, foi Clinton, e não os dirigentes ou trabalhadores chineses, o responsável pela exportação desses empregos. Foi o governod e Clinton o que, depois de Tiananmén, colaborou com o regime assassino da China para permitir que as grandes empresas dos EUA investissem massivamente no país. E quando se perderam os postos de trabalho nos Estados Unidos, o que aparaceram na Chin a não eram absolutamente iguais. Os postos de trabalho estadunidneses que se perderam na indústria automobilística e siderúgica estavam sindicalizados e bem remunerados, mas os criados na China não são mais que empregos em condições de super exploração. Independentemente dos conflitos atuais, foram os dirigentes dos EUA e China, e não os trabalhadores de ambos os países, quem estabeleceram a atual e deplorável ordem mundial neoliberal. Uma coisa que temos feito aqui nos Estados Unidos tem sido organizar visitas de trabalhadores chineses em greve para reforçar a solidariedade entre os trabalhadores estadunidenses e chineses.

Há outras ideias e iniciativas que podemos levar adiante? Existe um perigo real de que reabilite o nacionalismo em cada um destes países contra os trabalhadores de outro país. Nos parece importante superar esse enfrentamento. Qual sua opinião?

É importante que a esquerda do resto do mundo reconheça que o capitalismo chinês tem um legado colonial que persiste hoje em dia. Portanto, quanto analisamos as relações entre China e EUA, devemos distinguir entre as parte legítimas do “patriotismo” e as reacionários que promove o PCCh. Existe um elemento de patriotismo sensato entre a população, resultado do último século de intervenção imperialista do Japão, das potências europeias e EUA. Isso não significa que aceitemos esse patriotismo, mas devemos distingui-lo do nacionalismo reacionário do PCCh, que Xi estimula para apoiar suas aspirações de poder, tal como o fazem os dirigentes dos Estados Unidos para cultivar o apoio popular ao objetivo do seu regime para conter a China. Entre a gente comum, o nacionalismo tem diminuído no lugar de aumentar, porque depreciam o PCCh. Muitos já não confiam nele e odeiam seu regime autocráticio. Em uma pesquisa recente na qual se pergunta se o povo apoiaria a China em uma guerra contra os Estados Unidos, um dos entrevistados respondeu o seguinte: “Sim, apoio a guerra da China contra Estados Unidos, mas primeiro apoiamos o envio ao combate dos membros do bureau político, logo depois os do Comitê Central e, por último, todo o PCCh. E depois, tenham ganhado ou perdido, ao menos seremos livres”. Os censores, claro, eliminaram imediatamente esses comentários, mas são uma mostra do profundo descontentamento com o regime. Isto significa que existe uma base entre os trabalhadores chineses para construir solidariedade internacional com os trabalhadores estadunidenses. Mas para isso é necessário que os trabalhadores dos EUA se oponham ao imperialismo do seu próprio governo, a fim de ganhar a confiança dos trabalhadores chineses. As ameaças do imperialismo estadunidense são reais e conhecidas na China, a esquerda dos EUA deve se opor. Se o povo chinês escuta esta voz antiimperialista de esquerda nos EUA, compreenderá melhor nossos interesses comuns em nos opor ao imperialismo dos Estados Unidos e China.


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