Tela Brasil coloca o cinema nacional na palma da mão
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Tela Brasil coloca o cinema nacional na palma da mão

Streaming público e gratuito reúne 555 obras brasileiras e busca democratizar o acesso à cultura, fortalecer o audiovisual nacional e ampliar a circulação de produções historicamente excluídas do mercado

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Brasil deu um passo importante na democratização do acesso à cultura com o lançamento da Tela Brasil, nova plataforma pública e gratuita de streaming dedicada exclusivamente ao audiovisual nacional. Criada pelo Ministério da Cultura (MinC) em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), a iniciativa chega ao público com um catálogo de 555 obras e a proposta de aproximar milhões de brasileiros de filmes, séries e documentários produzidos no país.

Lançada oficialmente no sábado (30), na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, a plataforma é resultado de um investimento público de R$ 9 milhões realizado entre 2024 e 2025. Os recursos financiaram o desenvolvimento tecnológico do sistema, o licenciamento de obras e a implementação de ferramentas de acessibilidade.

Mais do que um novo serviço de streaming, a Tela Brasil surge como uma política pública voltada para enfrentar um dos principais gargalos do setor audiovisual brasileiro: a distribuição. Embora o país produza centenas de filmes e séries todos os anos, grande parte dessas obras tem circulação limitada, concentrada em festivais, salas de cinema de grandes centros urbanos ou plataformas privadas de difícil acesso para parcela significativa da população.

Durante o lançamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a importância da iniciativa para a valorização da identidade nacional e da soberania cultural brasileira.

“[A Tela Brasil] vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil. Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?”, afirmou.

Lula também criticou a predominância de conteúdos estrangeiros nas telas brasileiras e defendeu a ampliação do acesso às produções nacionais.

“A quantidade de enlatados de má qualidade que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver. O que não permite que a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira”, declarou.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, explicou que a principal motivação do projeto foi garantir o direito da população ao acesso cultural e ampliar a visibilidade das produções nacionais.

“Na questão do audiovisual, nós temos um gargalo ainda muito grande na questão da distribuição. Como fazer o povo ter acesso a tudo o que se produz, às coisas que são importantes, que referenciam o nosso país?”, questionou.

Segundo a ministra, a plataforma também representa uma oportunidade para que o público conheça histórias frequentemente invisibilizadas pelos grandes circuitos comerciais.

“O povo que se conhece, o povo que se vê, ele se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos os povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram esse país, as histórias que nunca foram contadas.”

Além de beneficiar os espectadores, a Tela Brasil representa uma conquista para realizadores, produtores, roteiristas, atores e demais trabalhadores do audiovisual. Ao ampliar os canais de exibição das obras nacionais, a plataforma cria novas oportunidades de circulação, preservação e valorização da produção brasileira, fortalecendo uma cadeia econômica responsável por milhares de empregos diretos e indiretos.

O catálogo inicial reúne obras financiadas pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e produções preservadas por instituições como a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Funarte e a Fundação Cultural Palmares. O acervo contempla desde filmes históricos produzidos no início do século XX até lançamentos recentes.

Entre os destaques estão clássicos como Central do Brasil, de Walter Salles; Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; A Hora da Estrela, de Suzana Amaral; Xica da Silva, de Cacá Diegues; Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha; Carandiru, de Hector Babenco; e Olga, de Jayme Monjardim.

Ao todo, a plataforma estreia com 267 curtas-metragens, 139 longas-metragens, 85 médias-metragens ou telefilmes e 64 obras seriadas. O catálogo inclui ainda 19 filmes que representaram o Brasil na disputa pelo Oscar ao longo da história.

A diversidade é um dos pilares do projeto. Há seções dedicadas ao cinema negro, ao cinema indígena, às produções dirigidas por mulheres e a temas como justiça climática, sustentabilidade e direitos humanos. Uma das categorias especiais, chamada “Africanidades”, reúne obras que abordam memórias, trajetórias e experiências da população negra brasileira.

Outro diferencial é a acessibilidade. Todas as produções selecionadas por editais públicos contam com audiodescrição, legendagem descritiva e interpretação em Libras.

“Importante destacar que tem pesquisa no meio sobre acessibilidade. São obras com três recursos de acessibilidade, que envolvem também discussão sobre preservação e memória. Há soluções tecnológicas e soluções jurídicas sobre regulamentação. É política pública baseada em pesquisa e evidência”, destacou a professora Luciana Peixoto Santa Rita, da UFAL.

O acesso à Tela Brasil é simples e gratuito. Basta possuir uma conta ativa no Gov.br para navegar pela plataforma. Os usuários poderão assistir aos conteúdos individualmente por meio do Perfil Cidadão ou utilizar o Perfil Direcionado, criado para exibições coletivas em escolas, cineclubes, bibliotecas, museus e pontos de cultura.

Neste primeiro momento, o serviço funciona pelo navegador de internet em computadores e dispositivos com possibilidade de transmissão para televisores inteligentes. Aplicativos para Android e iOS devem ser disponibilizados nos próximos dias.

Ao apostar em tecnologia nacional, acesso gratuito e valorização da produção brasileira, a Tela Brasil se apresenta como uma das iniciativas mais ambiciosas de fortalecimento da cultura já implementadas pelo governo federal nos últimos anos. Mais do que um catálogo de filmes, a plataforma pretende transformar o acesso ao audiovisual em um direito efetivamente acessível a toda a população.

*Com informações da Agência Brasil


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