Aimé Césaire e a lei da desumanização progressiva
img-20260412-wa0004-08da8

Aimé Césaire e a lei da desumanização progressiva

Em 1950, o escritor e líder político da Martinica, Aimé Césaire, publicou o “Discurso sobre o colonialismo”, um dos textos mais importantes do século XX

Rafael Bernabé 1 jun 2026, 18:20

Imagem: Aimé Césaire. (Pablo DS/Reprodução)

Via CADTM

Em suas páginas, Césaire formulou o que chamou de “lei da desumanização progressiva”. Citaremos a passagem em que a apresenta: “A burguesia, como classe, está condenada, quer se queira, quer não, a ser responsável por toda a barbárie da História, as torturas da Idade Média e a Inquisição, a razão de Estado e o belicismo, o racismo e o escravagismo, em suma, tudo contra o que protestou em termos cé lebres, no tempo em que, como classe em luta, encarnava o progresso humano… Há uma lei de desumanização progressiva em virtude da qual logo não haverá, não pode haver agora, senão a violência, a corrupção e a barbárie na ordem do dia da burguesia” . Em outro trecho, acrescenta: “a burguesia está condenada, cada dia que passa, a ser mais intratável, mais abertamente feroz, mais despudorada, mais sumariamente bárbara”.

Violência, corrupção, barbárie, ausência de pudor: por acaso esses termos não descrevem a época de Trump, de Elon Musk, dos arquivos de Epstein? Torturas da Idade Média? Pensemos no centro de detenção de Guantánamo, na política de “entrega” de prisioneiros a Estados onde seriam torturados, na prisão de Abu Ghraib no Iraque (anteriores a Trump) ou na superprisão de Bukele em El Salvador, carcereiro aliado de Trump. Inquisição? Pensemos na eliminação de referências à escravidão ou ao colonialismo em museus ou livros didáticos, na chantagem contra universidades para que eliminem programas de diversidade e inclusão ou o estudo crítico do racismo, na perseguição à imprensa independente e na censura até mesmo a comediantes de televisão, que incomodam o morador da Casa Branca.

Pensemos na criminalização do protesto, a ponto de justificar o assassinato de ativistas anti-ICE. Barbárie? Basta mencionar o genocídio em Gaza. Racismo? São muitos os exemplos que poderiam ser dados. Lembremo-nos de como Trump chama os imigrantes da Somália de “lixo”, o que também serve como exemplo da falta de pudor da burguesia de nossa época. Lembremo-nos também de que Musk, o homem mais rico do mundo, é também um supremacista branco, que cita com aprovação tuítes como este: “o comunismo racial que destruiu a Rodésia e a África do Sul [dois Estados francamente racistas] é o mesmo que estão trazendo para a América e o resto do Ocidente para nos transformar em uma favela global”. Desumanização progressiva? Lembremo-nos de como o próprio Musk considera que a grande fraqueza da civilização ocidental é a “empatia” ou de como Javier Milei, presidente neoliberal da Argentina (levantando ameaçadoramente um motosserra), afirma que a justiça social é um ideal maldito.

Segundo Césaire, essa realidade é produto de uma inversão histórica: a decadência da burguesia se constata na medida em que ela se torna inimiga daquilo que, em sua ascensão, havia defendido. O que ela havia defendido, então? Precisamente a crítica aos privilégios e às instituições existentes; a crítica à censura e à Inquisição. Ela havia questionado o poder político da nobreza e o poder terreno da Igreja. Havia defendido a submissão dos governantes à vontade dos governados, os direitos do homem e do cidadão, a igualdade perante a lei e a erradicação da tortura. Ideias que se resumiram no lema imortal da Revolução Francesa: Liberdade, igualdade e fraternidade! Essa era a burguesia, ou pelo menos a vanguarda da burguesia, quando era uma classe “no ataque”, como diz Césaire, quando “ela encarnava o progresso humano”.

Mas como se explica a inversão apontada? Sua principal motivação é a divergência entre os ideais da revolução burguesa e as realidades da sociedade capitalista. Que liberdade tem o trabalhador despossuído, obrigado a vender-se por um salário e subordinado à vontade do patrão enquanto trabalha? Que igualdade pode existir entre possuidores e despossuídos, patrões e assalariados? Que fraternidade pode existir numa sociedade baseada na competição de todos contra todos (indivíduos, empresas e países)? E na medida em que logo se tornou possível criticar a sociedade capitalista em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, a burguesia começou a se afastar de seus próprios ideais, tanto na teoria quanto na prática. Agora justificava a ditadura, desde que reprimisse o movimento operário. Abraçava teorias sobre a desigualdade de inteligência ou habilidades, desde que justificasse a divisão de classes. Considerava a competição como inerente ao ser humano, com o objetivo de naturalizar o mercado capitalista.

O caso extremo dessa inversão é o fascismo, com a supressão de todas as liberdades e a transferência da culpa pelos males gerados pelo capitalismo para setores e grupos historicamente discriminados, como os judeus no caso do nazismo, ou como os imigrantes, atualmente.

Césaire adverte que o fascismo foi preparado pelo colonialismo, que implicava a negação da capacidade de suas vítimas de se governarem e, bem vista, na medida em que tal capacidade define o ser humano adulto, a negação de sua humanidade. Os nazistas aplicaram na Europa a desumanidade ensaiada nas colônias.

Mas não se trata do passado: hoje renascem o mesmo racismo e a mesma xenofobia. Trump afirma que os imigrantes da Somália são lixo. É uma linguagem genocida: afinal, o que se faz com o lixo? Recordemos parte do tuíte do Departamento de Segurança Interna dos USA que discutimos em outra coluna:

“Os aluguéis estão altos demais!

Há dezenas de milhões de criminosos ilegais em nosso país.

A comida custa caro demais!

Há dezenas de milhões de criminosos ilegais em nosso país.

Não há empregos suficientes!

Há dezenas de milhões de criminosos ilegais em nosso país.

Muitos problemas. Uma resposta simples.”

Em 1950, Césaire já descrevia esse raciocínio: “Não mais a crise social! Não mais a crise econômica!” Diante daqueles que, naquela época, cinco anos após a derrota do nazismo, falavam da necessidade de proteger a cultura francesa da ameaça representada pelas ondas de imigrantes, Césaire proclamava implacavelmente que a burguesia francesa estava “condenada a ruminar, como por vício, o vômito de Hitler”. Imagem terrível, mas não é exatamente isso que Trump, Musk e as direitas afins fazem atualmente?

O texto de Césaire está repleto de imagens chocantes que parecem feitas sob medida para descrever o momento atual de nossas classes dominantes. A ideia, por exemplo, de que, antes de desaparecer, uma classe dominante deve “desonrar-se completamente”. Não é essa a função que Trump está cumprindo em relação à sua classe? Citem-se Césaire mais uma vez: “uma lei implacável estabelece que toda a classe decadente se vê transformada em receptáculo onde afluem todas as águas sujas da História; que é uma lei universal que toda a classe, antes de desaparecer, deve previamente desonrar-se completamente, uni lateralmente, e que é com a cabeça enterrada no esterco que as sociedades moribundas entoam o seu canto do cisne.” Conflúência de todas as águas sujas, cabeça escondida sob o estrume… as imagens de Césaire nos deslumbram, pois descrevem um pesadelo que evoluiu, mas não desapareceu. Pesadelo cuja figura mais visível não deve ser mencionada.

Césaire confiava, no entanto, que a burguesia decadente estava entoando seu canto do cisne, ou seja, que logo desapareceria, cedendo, em suas palavras, à “preponderância da única classe que tem ainda missão universal, porque na sua carne sofre de todos os males da História, de todos os males uni versais: o proletariado”. Mas essa preponderância da classe trabalhadora não se concretizou. Setenta e cinco anos depois, continuamos sob o governo de uma classe cada vez mais corrupta. Isso nos lembra que essa classe não cairá por seu próprio peso. É preciso derrubá-la. E isso depende de nós.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 29 maio 2026

Aprovado o fim da escala 6×1: vitória da classe trabalhadora

É preciso vigilância e mobilização, aproveitando a politização que tomou conta da sociedade para garantir a redução da jornada e a derrota da extrema direita
Aprovado o fim da escala 6×1: vitória da classe trabalhadora
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores