20 anos de PSOL: duas táticas contra a extrema direita e um impasse estratégico
O PSOL surgiu como herdeiro de uma tradição crítica que apontava a construção de uma alternativa de esquerda independente como único caminho para as transformações estruturais há tanto tempo adiadas no Brasil
Em 6 de junho de 2025, o PSOL completou 20 anos de legalização. Nascido em 2004, após a expulsão dos parlamentares que se recusaram a votar a reforma da Previdência do governo Lula, o partido foi oficialmente reconhecido em 2005. Sua fundação marcou uma ruptura política e ideológica com oPT, que, naquele momento, consolidava a sua adaptação à ordem burguesa e à política de alianças com a burguesia.
Desde sua origem, o PSOL ergueu a bandeira da independência de classe e o horizonte estratégico socialista, ainda que na sua trajetória o partido fosse reunindo correntes com diferentes tradições reformistas e revolucionárias. Essa posição, longe de ser uma escolha meramente tática, resultava de uma longa trajetória de experiências e derrotas do movimento operário ao longo do século XX.
A história mostra que, sempre que a classe trabalhadora tentou governar em aliança com setores da burguesia, o programa socialista acabou sendo secundarizado. Rosa Luxemburgo já denunciava esse erro no início do século passado, ao criticar a entrada de Alexandre Millerand no governo burguês da Terceira República Francesa. A análise profunda de Rosa Luxemburgo mostra que a presença de um socialista num governo capitalista significou a diluição do programa revolucionário e a adaptação à lógica da ordem existente1.
Décadas mais tarde, as frentes populares defendidas pela Internacional Comunista comandada pelo stalinismo resultaram no mesmo equívoco. Ao subordinar os partidos operários à hegemonia das burguesias “democráticas” contra a ameaça fascista, a política das frentes populares desarmoua classe trabalhadora, conduzindo a derrotas históricas na França, na Espanha e em outros países, facilitando, e não dificultando, a chegada dos fascistas ao poder.
No Brasil, essa trágica experiência de alianças com a burguesia também deixou marcas profundas. A estratégia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de apostar na via pacífica ao socialismo e nas alianças com a chamada burguesia nacional, acabou por enfraquecer a resistência operária e facilitar o golpe de 1964, que instaurou 21 anos de ditadura militar e brutal repressão contra as forças populares.
Já no caso do PT, a opção pela governabilidade por meio de alianças com partidos burgueses, desde a Carta ao Povo Brasileiro em 2002 até o atual arcabouço fiscal, resultou, e ainda resulta, na renúncia ao programa histórico de reformas estruturais da classe trabalhadora.
No atual governo Lula, a lógica de agradar ao mercado em nome da governabilidade fez com que o partido abandonasse as lutas por reformas presentes nas promessas de campanha, que tinham como horizonte a reversão das medidas neoliberais implementadas de Temer a Bolsonaro, como o fim do teto de gastos, a revogação das reformas trabalhista, previdenciária e do ensino médio, a reestatização da Eletrobras e a retomada das refinarias da Petrobras privatizadas.
Assim, o PSOL surgiu como herdeiro de uma tradição crítica que, com base na experiência histórica, apontava a construção de uma alternativa de esquerda independente como único caminho para as transformações estruturais históricas há tanto tempo adiadas no Brasil. Foi com essa política que, nos primeiros anos, o PSOL consolidou-se como oposição de esquerda aos governos petistas, denunciando as políticas neoliberais e a conciliação de classes. Essa posição foi fundamental para manter viva uma alternativa socialista num contexto em que boa parte da esquerda se adaptou ao regime burguês.
Desde então, o partido demonstrou flexibilidade tática para compreender a conjuntura. Diante da crise do capital e da ofensiva dos setores reacionários e do imperialismo para retirar direitos da classe trabalhadora, o PSOL se posicionou na defesa da unidade da esquerda e dos movimentos sociais contra o golpe de 2016, contra a prisão de Lula e pela sua liberdade, bem como na construção de uma frente de esquerda nas ruas e nas eleições contra a extrema direita.
Em todas essas mudanças táticas, nunca estiveram em discussão os princípios do partido e seu horizonte estratégico. A defesa da unidade contra a extrema direita sempre caminhou lado a lado com a necessidade de reorganizar a esquerdaa partir de uma alternativa socialista.
Nas eleições de 2022, ainda que tenha havido uma divisão no Congresso quanto à defesa de uma candidatura própria do partido no primeiro turno ou ao apoio a Lula desde o início, com a vitória da segunda opção, o partido uniu-se em torno da campanha do então ex-presidente, desempenhando um papel fundamental na condução da mobilização popular durante a campanha, especialmente no segundo turno, quando a disputa se intensificou.
Importa destacar que o apoio do PSOL a Lula não se configurou como um “cheque em branco”. O apoio foi baseado em compromissos programáticos claros com o PT, como a defesa do fim do teto de gastos. Paralelamente, o partido apresentou sua própria proposta de governo, a Plataforma Direito ao Futuro, que delineava um conjunto de reformas estruturais voltadas para garantir avanços concretos nos direitos, na qualidade de vida da classe trabalhadora e na defesa do meio ambiente.
Com a vitória de Lula, abriu-se o debate interno sobre a participação ou não do PSOL no novo governo. A maioria do partido unificou-se em torno de resoluções2 que apontavam que o caminho para derrotar a extrema-direita era “o enfrentamento e não a conciliação”. Diante do governo Lula 3, o partido iria lutar “pelo fortalecimento das políticas sociais, ambientais e dos direitos das maiorias”. Falava-se também da “urgência de mudanças estruturais” para “lutar desde já pela PEC da Transição e pela manutenção do Bolsa Família de R$ 600, pelo fim do teto de gastos, do Orçamento Secreto e por um intenso ‘revogaço’ da agenda neoliberal e conservadora que predominou no país”.
Outra parte importante desses documentos era a crítica à possibilidade de entrada de “líderes da extrema-direita na coalizão do governo” ou mesmo de acordos para “deixar passar” os delitos inconstitucionais cometidos pelos bolsonaristas, o que fortaleceria uma perspectiva conservadora de governabilidade.
Para cumprir seu papel, as resoluções apontavam que o PSOL atuaria com independência de classe e independência política em relação ao governo, não renunciando às suas opiniões nem à sua liberdade de ação, com a bancada preservando “sua liberdade de crítica e de iniciativa” em relação a todas as medidas que considerasse contrárias ao seu programa, e sem cargos em ministérios — com exceção de Sônia Guajajara. Além disso, os filiados que, no caso de serem convidados, optassem por ocupar funções no governo federal deveriam licenciar-se dos espaços de direção partidária, e a eventual presença nesses espaços não representaria a participação do PSOL.
Por fim, as resoluções indicavam que o caminho para que as medidas de interesse popular fossem implementadas seria o da mobilização popular. Assim, o partido visava disputar politicamente a agenda do governo pela esquerda, mantendo a “responsabilidade de representar uma esquerda renovada e combativa, fortalecendo as lutas sociais contra o neoliberalismo, a unidade dos partidos e movimentos do campo popular e uma agenda anticapitalista”.
Essa era a tática do PSOL no final de 2022 e início de 2023, que não só unificava a maioria das correntes do partido, independentemente das divergências estratégicas entre elas, num acordo mínimo sobre a tática para enfrentar a extrema-direita, mas também armava politicamente a relação do partido com o governo Lula.
No entanto, figuras centrais do partido que pertencem ao PSOL de Todas as Lutas (PTL) passaram a silenciar diante de medidas neoliberais, como o arcabouço fiscal, a taxa Selic a 15%, cortes em direitos sociais e o financiamento de Parcerias Público-Privadas (PPPs) via BNDES.
O recente anúncio da entrada de Guilherme Boulos no governo Lula aprofunda um debate que já vinha crescendo entre as diferentes alas do PSOL. O líder do MTST simboliza esse processo de forma emblemática. De dirigente combativo e uma das vozes mais criativas da esquerda radical brasileira, transformou-se num quadro institucional do campo governista, assumindo o papel de porta-voz do lulismo.
A justificativa para sua entrada na Secretaria-Geral da Presidência, comemorada por todas as correntes e figuras públicas do PTL, é a de que ele terá como tarefa “levar o governo para as ruas”. No entanto, Boulos estará ao lado de figuras representativas da burguesia, como Alckmin, Tebet, Fufuca e cia. A pergunta que fica é: o ministro do PSOL terá independência e “liberdade de crítica e de iniciativa” para se posicionar em relação a todas as medidas que o partido considere contrárias ao seu programa? Na prática, a entrada do deputado federal no ministério representa o abandono da política presente em nossas resoluções e, o mais grave, sem qualquer debate com a militância partidária.
Apesar de uma guinada discursiva à esquerda e de medidas progressivas no último período, como a defesa da taxação das grandes fortunas e a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, o governo Lula 3 mantém intacta a base do programa econômico social-liberal e não dá nenhum sinal de rompimento com os setores burgueses. Ao contrário, são os representantes da burguesia que ameaçam romper com a frente ampla.
Como já afirmamos em outro momento3, não está em discussão entre nós se a tarefa central dos lutadores e lutadoras hoje é derrotar a extrema-direita e o imperialismo no Brasil e no mundo, muito menos se é preciso defender o governo Lula dos ataques do bolsonarismo. O que queremos afirmar é que, diante do principal desafio da nossa geração, o PSOL se divide em torno de duas táticas: 1. De um lado, uma ala majoritária que capitulou diante da política petista de frente ampla, indo a reboque da estratégia hegemônica do PT de atender aos interesses das frações burguesas, a fim de supostamente isolar a extrema-direita. Essa linha defende o apoio incondicional ao governo Lula, abdicando de fazer a disputa político-ideológica contra a austeridade neoliberal; 2. Do outro lado, há uma ala à esquerda no PSOL que defende com firmeza a independência de classe, um programa antineoliberal de reformas populares, nacionais, democráticas e ecossocialistas e tem na organização popular a aposta no caminho necessário para derrotar a extrema-direita e o imperialismo. Para esse setor, a tarefa urgente da hora é mobilizar a classe trabalhadora, os movimentos populares e a juventude em torno de uma alternativa de esquerda enraizada nas lutas. A aposta prioritária é na ação direta, na organização desde a base e na construção de um projeto que enfrente o capital e proponha reformas estruturais, sem se curvar às ilusões de alianças com setores burgueses em nome do combate à extrema-direita.
Essa divergência tática reflete um impasse estratégico: o PSOL continuará sendo um partido defensor de reformas estruturais para o país ou se converterá numa legenda eleitoral social-liberal, defendendo políticas de inclusão, mas sem enfrentar o neoliberalismo, aceitando alianças com a burguesia e aderindo ao regime burguês?
Os próximos anos serão decisivos. A capacidade do partido de se posicionar de forma clara diante dos limites da institucionalidade burguesa poderá determinar o seu futuro enquanto ferramenta útil para a classe trabalhadora.
O combate à extrema-direita não se faz com alianças com a burguesia nem com a subordinação a frentes amplas que diluem o conteúdo transformador do nosso projeto. Ele exige, antes de tudo, coragem programática e ousadia estratégica. O PSOL carrega consigo uma história marcada por lutas, conquistas e pela defesa intransigente dos direitos do povo trabalhador. Agora, ao completar 20 anos, o partido enfrenta um momento decisivo: escolher entre reafirmar o compromisso com um projeto anticapitalista, antirracista, anti-imperialista e ecossocialista ou ceder às tentações do poder institucional e aos labirintos de Brasília.
De nossa parte, fazemos um chamado à militância: é hora de construir, com convicção e independência, um polo socialista que preserve o patrimônio político e combativo que deu origem ao PSOL. O futuro da esquerda brasileira dependerá da nossa capacidade de resistir, organizar e sonhar coletivamente.
Notas
- LUXEMBURGO, Rosa. A crise socialista na França. In: LUXEMBURGO, Rosa (Org). A outra Rosa: estratégia e política revolucionária. 1. ed. São Paulo: Lavra Palavra, 2021. ↩︎
- PSOL com Lula contra o bolsonarismo e pelos direitos do povo brasileiro e Resolução de orientação da relação da bancada parlamentar do PSOL com o novo governo. Disponível em https://psol50.org.br/psol-reafirma-compromisso-com-lula-e-fara-parte-da-base-do-governo-no-congresso/ . ↩︎
- https://www.instagram.com/p/DH8lw1oufwt/?img_index=1 ↩︎