20 anos de PSOL: duas táticas contra a extrema direita e um impasse estratégico
EDE5ISOTZ5AKZEBQNJ3FUJVCME

20 anos de PSOL: duas táticas contra a extrema direita e um impasse estratégico

O PSOL surgiu como herdeiro de uma tradição crítica que apontava a construção de uma alternativa de esquerda independente como único caminho para as transformações estruturais há tanto tempo adiadas no Brasil

Vinicius Machado 23 out 2025, 18:44

Em 6 de junho de 2025, o PSOL completou 20 anos de legalização. Nascido em 2004, após a expulsão dos parlamentares que se recusaram a votar a reforma da Previdência do governo Lula, o partido foi oficialmente reconhecido em 2005. Sua fundação marcou uma ruptura política e ideológica com oPT, que, naquele momento, consolidava a sua adaptação à ordem burguesa e à política de alianças com a burguesia.

Desde sua origem, o PSOL ergueu a bandeira da independência de classe e o horizonte estratégico socialista, ainda que na sua trajetória o partido fosse reunindo correntes com diferentes tradições reformistas e revolucionárias. Essa posição, longe de ser uma escolha meramente tática, resultava de uma longa trajetória de experiências e derrotas do movimento operário ao longo do século XX.

A história mostra que, sempre que a classe trabalhadora tentou governar em aliança com setores da burguesia, o programa socialista acabou sendo secundarizado. Rosa Luxemburgo já denunciava esse erro no início do século passado, ao criticar a entrada de Alexandre Millerand no governo burguês da Terceira República Francesa. A análise profunda de Rosa Luxemburgo mostra que a presença de um socialista num governo capitalista significou a diluição do programa revolucionário e a adaptação à lógica da ordem existente1.

Décadas mais tarde, as frentes populares defendidas pela Internacional Comunista comandada pelo stalinismo resultaram no mesmo equívoco. Ao subordinar os partidos operários à hegemonia das burguesias “democráticas” contra a ameaça fascista, a política das frentes populares desarmoua classe trabalhadora, conduzindo a derrotas históricas na França, na Espanha e em outros países, facilitando, e não dificultando, a chegada dos fascistas ao poder.

No Brasil, essa trágica experiência de alianças com a burguesia também deixou marcas profundas. A estratégia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de apostar na via pacífica ao socialismo e nas alianças com a chamada burguesia nacional, acabou por enfraquecer a resistência operária e facilitar o golpe de 1964, que instaurou 21 anos de ditadura militar e brutal repressão contra as forças populares.

Já no caso do PT, a opção pela governabilidade por meio de alianças com partidos burgueses, desde a Carta ao Povo Brasileiro em 2002 até o atual arcabouço fiscal, resultou, e ainda resulta, na renúncia ao programa histórico de reformas estruturais da classe trabalhadora.

No atual governo Lula, a lógica de agradar ao mercado em nome da governabilidade fez com que o partido abandonasse as lutas por reformas presentes nas promessas de campanha, que tinham como horizonte a reversão das medidas neoliberais implementadas de Temer a Bolsonaro, como o fim do teto de gastos, a revogação das reformas trabalhista, previdenciária e do ensino médio, a reestatização da Eletrobras e a retomada das refinarias da Petrobras privatizadas.

Assim, o PSOL surgiu como herdeiro de uma tradição crítica que, com base na experiência histórica, apontava a construção de uma alternativa de esquerda independente como único caminho para as transformações estruturais históricas há tanto tempo adiadas no Brasil. Foi com essa política que, nos primeiros anos, o PSOL consolidou-se como oposição de esquerda aos governos petistas, denunciando as políticas neoliberais e a conciliação de classes. Essa posição foi fundamental para manter viva uma alternativa socialista num contexto em que boa parte da esquerda se adaptou ao regime burguês.

Desde então, o partido demonstrou flexibilidade tática para compreender a conjuntura. Diante da crise do capital e da ofensiva dos setores reacionários e do imperialismo para retirar direitos da classe trabalhadora, o PSOL se posicionou na defesa da unidade da esquerda e dos movimentos sociais contra o golpe de 2016, contra a prisão de Lula e pela sua liberdade, bem como na construção de uma frente de esquerda nas ruas e nas eleições contra a extrema direita.

Em todas essas mudanças táticas, nunca estiveram em discussão os princípios do partido e seu horizonte estratégico. A defesa da unidade contra a extrema direita sempre caminhou lado a lado com a necessidade de reorganizar a esquerdaa partir de uma alternativa socialista.

Nas eleições de 2022, ainda que tenha havido uma divisão no Congresso quanto à defesa de uma candidatura própria do partido no primeiro turno ou ao apoio a Lula desde o início, com a vitória da segunda opção, o partido uniu-se em torno da campanha do então ex-presidente, desempenhando um papel fundamental na condução da mobilização popular durante a campanha, especialmente no segundo turno, quando a disputa se intensificou.

Importa destacar que o apoio do PSOL a Lula não se configurou como um “cheque em branco”. O apoio foi baseado em compromissos programáticos claros com o PT, como a defesa do fim do teto de gastos. Paralelamente, o partido apresentou sua própria proposta de governo, a Plataforma Direito ao Futuro, que delineava um conjunto de reformas estruturais voltadas para garantir avanços concretos nos direitos, na qualidade de vida da classe trabalhadora e na defesa do meio ambiente.

Com a vitória de Lula, abriu-se o debate interno sobre a participação ou não do PSOL no novo governo. A maioria do partido unificou-se em torno de resoluções2 que apontavam que o caminho para derrotar a extrema-direita era “o enfrentamento e não a conciliação”. Diante do governo Lula 3, o partido iria lutar “pelo fortalecimento das políticas sociais, ambientais e dos direitos das maiorias”. Falava-se também da “urgência de mudanças estruturais” para “lutar desde já pela PEC da Transição e pela manutenção do Bolsa Família de R$ 600, pelo fim do teto de gastos, do Orçamento Secreto e por um intenso ‘revogaço’ da agenda neoliberal e conservadora que predominou no país”.

Outra parte importante desses documentos era a crítica à possibilidade de entrada de “líderes da extrema-direita na coalizão do governo” ou mesmo de acordos para “deixar passar” os delitos inconstitucionais cometidos pelos bolsonaristas, o que fortaleceria uma perspectiva conservadora de governabilidade.

Para cumprir seu papel, as resoluções apontavam que o PSOL atuaria com independência de classe e independência política em relação ao governo, não renunciando às suas opiniões nem à sua liberdade de ação, com a bancada preservando “sua liberdade de crítica e de iniciativa” em relação a todas as medidas que considerasse contrárias ao seu programa, e sem cargos em ministérios — com exceção de Sônia Guajajara. Além disso, os filiados que, no caso de serem convidados, optassem por ocupar funções no governo federal deveriam licenciar-se dos espaços de direção partidária, e a eventual presença nesses espaços não representaria a participação do PSOL.

Por fim, as resoluções indicavam que o caminho para que as medidas de interesse popular fossem implementadas seria o da mobilização popular. Assim, o partido visava disputar politicamente a agenda do governo pela esquerda, mantendo a “responsabilidade de representar uma esquerda renovada e combativa, fortalecendo as lutas sociais contra o neoliberalismo, a unidade dos partidos e movimentos do campo popular e uma agenda anticapitalista”.

Essa era a tática do PSOL no final de 2022 e início de 2023, que não só unificava a maioria das correntes do partido, independentemente das divergências estratégicas entre elas, num acordo mínimo sobre a tática para enfrentar a extrema-direita, mas também armava politicamente a relação do partido com o governo Lula.

No entanto, figuras centrais do partido que pertencem ao PSOL de Todas as Lutas (PTL) passaram a silenciar diante de medidas neoliberais, como o arcabouço fiscal, a taxa Selic a 15%, cortes em direitos sociais e o financiamento de Parcerias Público-Privadas (PPPs) via BNDES.

O recente anúncio da entrada de Guilherme Boulos no governo Lula aprofunda um debate que já vinha crescendo entre as diferentes alas do PSOL. O líder do MTST simboliza esse processo de forma emblemática. De dirigente combativo e uma das vozes mais criativas da esquerda radical brasileira, transformou-se num quadro institucional do campo governista, assumindo o papel de porta-voz do lulismo.

A justificativa para sua entrada na Secretaria-Geral da Presidência, comemorada por todas as correntes e figuras públicas do PTL, é a de que ele terá como tarefa “levar o governo para as ruas”. No entanto, Boulos estará ao lado de figuras representativas da burguesia, como Alckmin, Tebet, Fufuca e cia. A pergunta que fica é: o ministro do PSOL terá independência e “liberdade de crítica e de iniciativa” para se posicionar em relação a todas as medidas que o partido considere contrárias ao seu programa? Na prática, a entrada do deputado federal no ministério representa o abandono da política presente em nossas resoluções e, o mais grave, sem qualquer debate com a militância partidária.

Apesar de uma guinada discursiva à esquerda e de medidas progressivas no último período, como a defesa da taxação das grandes fortunas e a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, o governo Lula 3 mantém intacta a base do programa econômico social-liberal e não dá nenhum sinal de rompimento com os setores burgueses. Ao contrário, são os representantes da burguesia que ameaçam romper com a frente ampla.

Como já afirmamos em outro momento3, não está em discussão entre nós se a tarefa central dos lutadores e lutadoras hoje é derrotar a extrema-direita e o imperialismo no Brasil e no mundo, muito menos se é preciso defender o governo Lula dos ataques do bolsonarismo. O que queremos afirmar é que, diante do principal desafio da nossa geração, o PSOL se divide em torno de duas táticas: 1. De um lado, uma ala majoritária que capitulou diante da política petista de frente ampla, indo a reboque da estratégia hegemônica do PT de atender aos interesses das frações burguesas, a fim de supostamente isolar a extrema-direita. Essa linha defende o apoio incondicional ao governo Lula, abdicando de fazer a disputa político-ideológica contra a austeridade neoliberal; 2. Do outro lado, há uma ala à esquerda no PSOL que defende com firmeza a independência de classe, um programa antineoliberal de reformas populares, nacionais, democráticas e ecossocialistas e tem na organização popular a aposta no caminho necessário para derrotar a extrema-direita e o imperialismo. Para esse setor, a tarefa urgente da hora é mobilizar a classe trabalhadora, os movimentos populares e a juventude em torno de uma alternativa de esquerda enraizada nas lutas. A aposta prioritária é na ação direta, na organização desde a base e na construção de um projeto que enfrente o capital e proponha reformas estruturais, sem se curvar às ilusões de alianças com setores burgueses em nome do combate à extrema-direita.

Essa divergência tática reflete um impasse estratégico: o PSOL continuará sendo um partido defensor de reformas estruturais para o país ou se converterá numa legenda eleitoral social-liberal, defendendo políticas de inclusão, mas sem enfrentar o neoliberalismo, aceitando alianças com a burguesia e aderindo ao regime burguês?

Os próximos anos serão decisivos. A capacidade do partido de se posicionar de forma clara diante dos limites da institucionalidade burguesa poderá determinar o seu futuro enquanto ferramenta útil para a classe trabalhadora.

O combate à extrema-direita não se faz com alianças com a burguesia nem com a subordinação a frentes amplas que diluem o conteúdo transformador do nosso projeto. Ele exige, antes de tudo, coragem programática e ousadia estratégica. O PSOL carrega consigo uma história marcada por lutas, conquistas e pela defesa intransigente dos direitos do povo trabalhador. Agora, ao completar 20 anos, o partido enfrenta um momento decisivo: escolher entre reafirmar o compromisso com um projeto anticapitalista, antirracista, anti-imperialista e ecossocialista ou ceder às tentações do poder institucional e aos labirintos de Brasília.

De nossa parte, fazemos um chamado à militância: é hora de construir, com convicção e independência, um polo socialista que preserve o patrimônio político e combativo que deu origem ao PSOL. O futuro da esquerda brasileira dependerá da nossa capacidade de resistir, organizar e sonhar coletivamente.

Notas

  1. LUXEMBURGO, Rosa. A crise socialista na França. In: LUXEMBURGO, Rosa (Org). A outra Rosa: estratégia e política revolucionária. 1. ed. São Paulo: Lavra Palavra, 2021. ↩︎
  2. PSOL com Lula contra o bolsonarismo e pelos direitos do povo brasileiro e Resolução de orientação da relação da bancada parlamentar do PSOL com o novo governo. Disponível em https://psol50.org.br/psol-reafirma-compromisso-com-lula-e-fara-parte-da-base-do-governo-no-congresso/ . ↩︎
  3. https://www.instagram.com/p/DH8lw1oufwt/?img_index=1 ↩︎

TV Movimento

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo

Global Sumud Flotilla: Por que tentamos chegar a Gaza

Importante mensagem de três integrantes brasileiros da Global Sumud Flotilla! Mariana Conti é vereadora de Campinas, uma das maiores cidades do Brasil. Gabi Tolotti é presidente do PSOL no estado brasileiro do Rio Grande do Sul e chefe de gabinete da deputada estadual Luciana Genro. E Nicolas Calabrese é professor de Educação Física e militante da Rede Emancipa. Estamos unindo esforços no mundo inteiro para abrir um corredor humanitário e furar o cerco a Gaza!
Editorial
Israel Dutra | 01 abr 2026

1ª Conferência Antifascista: uma vitória política

Reunindo milhares de pessoas e delegações de mais de 40 países para debater a luta antifascista e anti-imperialista, posicionando mais uma vez Porto Alegre na vanguarda da luta internacional
1ª Conferência Antifascista: uma vitória política
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores