Operários forçam recuo do governo na Bolívia
Bolívia

Operários forçam recuo do governo na Bolívia

Mobilização liderada pela Central Operária Boliviana derruba decreto neoliberal de Rodrigo Paz e mostra que a classe trabalhadora segue em pé de luta contra a agenda privatista da extrema direita

Tatiana Py Dutra 13 jan 2026, 10:21

Foto: Reprodução

A resistência dos trabalhadores bolivianos impôs uma derrota política ao novo governo de extrema direita do presidente Rodrigo Paz. Após semanas de greves, marchas e bloqueios de estradas organizados pela Central Operária Boliviana (COB) e por organizações camponesas e indígenas, o governo foi obrigado a revogar, no último domingo (11), o Decreto Supremo 5503 – um pacote de medidas neoliberais que desmontava subsídios aos combustíveis e concentrava poderes no Executivo para facilitar a exploração privada dos recursos naturais do país.

O decreto, imposto em dezembro sob o argumento de “enfrentar a crise fiscal”, eliminava os subsídios à gasolina e ao diesel, provocando aumentos imediatos de 86% no preço da gasolina e de até 160% no diesel. Além disso, flexibilizava normas ambientais e retirava do Legislativo o poder de decisão sobre projetos estratégicos ligados à mineração, ao gás e ao petróleo – setores historicamente centrais para a economia boliviana.

A resposta popular foi imediata. A COB, uma das mais combativas centrais sindicais da América Latina, convocou duas greves gerais em dezembro, além de marchas massivas e bloqueios de rodovias em diversas regiões do país, sobretudo nos departamentos de La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosí, tradicionais redutos da classe trabalhadora mineira e camponesa.

“A decisão do governo mostra que a luta não foi em vão, deu frutos. Quando estamos unidos, ninguém nos subjugará. Aqui, os ministros não perderam, os líderes sociais não ganharam: a Bolívia ganhou”, afirmou Mario Argollo, secretário-executivo da COB.

Mesmo forçado a recuar formalmente, o governo já anunciou que prepara um novo decreto para substituir o 5503. Segundo o ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo, a nova medida manterá “os aspectos econômicos” do pacote anterior – o que indica que a tentativa de impor o receituário neoliberal deve continuar, ainda que sob outra roupagem.

Para o vereador Roberto Robaina (PSOL), a mobilização desmente a narrativa de que a vitória eleitoral da direita teria derrotado a esquerda boliviana. 

“A vitória eleitoral da burguesia não significou uma derrota capaz de tirar de cena a combatividade do povo boliviano, seja dos mineiros ou dos camponeses. A luta contra a privatização em curso é prova disso”, afirmou.“Aqueles que diziam que a esquerda havia tido uma derrota histórica estavam errados. A classe trabalhadora se levanta”, completou Robaina.

A Bolívia carrega uma longa tradição de enfrentamento popular contra políticas de choque neoliberal. Foi assim na Guerra da Água, em Cochabamba, em 2000, contra a privatização do abastecimento, e na Guerra do Gás, em 2003, que derrubou o então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Agora, mais uma vez, operários, camponeses e povos indígenas mostram que não aceitarão passivamente o desmonte dos direitos sociais e da soberania sobre seus recursos naturais.

O recuo de Rodrigo Paz não encerra o conflito. Mas confirma que, mesmo diante do avanço da extrema direita na região, a classe trabalhadora boliviana segue organizada, combativa e disposta a lutar contra a imposição de um modelo econômico que transfere a conta da crise para os mais pobres.


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