Trump na encruzilhada
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Trump na encruzilhada

A derrota eleitoral de Trump nas próximas eleições de meio de mandato seria um fato político de importância mundial, pela qual todos os setores democráticos devem trabalhar

Foto: Donald Trump. (Tasos Katopodis/ZUMA)

Via Fundação Lauro Campos e Marielle Franco

A popularidade de Donald Trump atigiu uma baixa histórica. De acordo com a última pesquisa realizada pelo New York Times, só 37% da população estadunidense aprova a gestão do presidente. Sua taxa de reprovação varia entre 56% e 69% em temas como imigração, economia e custo de vida. Impressionantes 2/3 da população consideram um erro a declaração de guerra ao Irã. 62% desaprovam a condução estadunidense no caso palestino.

Ao se aproximar a metade do ano de 2026, parece claro que uma tendência negativa se estabilizou. Trump elegeu-se em 2024 com autoridade superior à que se elegeu em 2016. Os primerios seis meses de mandato foram marcados por uma ofensiva sem precedentes contra direitos sociais, liberdades democráticas e adversários. Mas após um baque inicial, os movimentos sociais passaram a ter capacidade de organização e resposta, sendo os principais exemplos os protestos No Kings e a batalha contra o ICE, que se nacionalizou a partir de Minneapolis. No momento, a sanha ofensiva do governo permanece, mas o presidente está significativamente mais isolado.

A política externa tem peso nesse contexto. A situação no Irã demonstra-se mais complicada do que Trump e seu governo projetavam, configurando um quadro desmoralizante para os Estados Unidos no cenário mundial. O encontro com Xi Jinping não produziu efeitos concretos e o medo da consolidação de uma primazia econômica chinesa prossegue. A relação com os aliados tradicionais da Europa esfriou, com diversas saias justas. Sobre a maior delas a Groenlândia , novos fatos podem vir à tona considerando que o governo Trump conduz negociações a portas fechadas sobre o tema, ainda com o horizonte de submeter a ilha aos seus ditames. A guerra na Ucrânia não se resolveu.

A América Latina é um caso à parte. Posicionada no centro da Estratégica de Segurança Nacional divulgada em dezembro de 2025, a região segue sob forte ameaça, após a incursão exitosa (e criminosa) na Venezuela em janeiro. Cuba vive um momento de fragilidade máxima, e pode ser usada como um elemento de compensação de Trump à desmoralização que ele enfrenta no Oriente Médio. Eleições nacionais no Brasil e na Colômbia serão decisivas, mas não está dado que a direita ou a extrema-direita retomará o poder nesses países. Enquanto isso, a diplomacia estadunidense busca extrair concessões até mesmo dos governos progressistas, a exemplo da lei de terras raras aprovada no Brasil por Lula, antes da visita do presidente brasileiro a Washington.

A situação mundial é de grande complexidade e desordem em grande parte, gerada pelo próprio Trump. Mas se tornam cada vez mais entrelaçadas as dinâmicas interna e externa quando se trata do destino do governo republicano. O exemplo maior é a guerra no Irã, a primeira na história dos Estados Unidos iniciada sem apoio popular majoritário. O rechaço à agressão presente desde o início amplia-se conforme efeitos da guerra se fazem sentir internamente, com a alta dos combustíveis e a inflação. 29 bilhões de dólares foram gastos na guerra até agora, afora 1 trilhão de dólares no orçamento militar e de defesa em 2025 (o qual Trump propõe ampliar para 1,5 trilhão em 2026). O escoamento desses recursos é sentido na falta de orçamento para as áreas sociais.

É assim que nas eleições de meio de mandato, que se aproximam, as perspectivas não são boas para Trump. Espera-se que ele perca a batalha, se não em ambas as casas legislativas, pelo menos no Congresso. A única hipótese para que isso não aconteça seria uma intervenção pesada (superior à que já ocorre) nas reorganizações distritais ou ainda uma ação repressiva concentrada nos dias de votação. Em qualquer caso, não seriam operações fáceis, nem aceitas sem resistência.

A derrota eleitoral parcial de Trump seria um fato político de importância mundial, pela qual todos os setores democráticos devem trabalhar. Mesmo assim, ela não é suficiente do ponto de vista de uma estratégia de emancipação da classe trabalhadora e de derrota do imperialismo ianque. Essa perspectiva também contrasta com outro dado curioso da conjuntura: embora uma “onda democrata” se desenhe no horizonte das eleições de meio de mandato, só 26% da população tem uma avaliação positiva sobre o Partido Democrata.

Não é preciso pensar demais para concluir que existe um espaço significativo para o desenvolvimento do Democratic Socialists of America (DSA) nesse cenário. O grupo já organiza, pelo menos, 7 candidaturas competitivas à Câmara dos Deputados, podendo triplicar seu peso atual, afora uma forte ampliação em assembleias legislativas. Mais do que uma questão de aritmética eleitoral, está em jogo a afirmação do DSA como um polo independente e socialista em meio ao amplo movimento para derrotar Trump. Trata-se de um processo a ser desenvolvido nas lutas e nas eleições, afirmando um programa e uma identidade claros, a serem defendidos pela militância aguerrida da organização.


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