Crônicas de uma Bolívia convulsionada #2
O dia em frente à COB, um dia de imprensa
Foto: Imprensa ouve dirigente camponês em frente à reunião da COB em La Paz. (Estevan Campos/EM)
O organismo ainda não está adaptado à altitude. Me cansei muito no sábado, dormi muito cedo e o sono ainda é irregular.
Acordo na madrugada e perco o sono, ligo a TV. As entrevistas nos telejornais 24h reforçam minha impressão da véspera sobre a divisão do governo e da burguesia. De um lado, a televisão dá voz ao candidato derrotado no segundo turno da eleição, “Tuto” Quiroga, se diferencia pela direita, “o presidente não tem capacidade de implementar o Estado de exceção”. Rodrigo Paz, por sua vez, segue no ataque aos movimentos e recusando ao diálogo proposto pelo vice e pela Igreja, parece sem força até na entrevista. O que me chama a atenção é parte da entrevista de Edmand Lara, o vice, fala que “certamente nas organizações sociais há gente mais capaz para ocupar os Ministérios do que os atuais Ministros de Paz”.
Fiquei com uma pulga atrás da orelha. Será que está se desenhando um acordo nos bastidores? A ver… pego no sono.
Acordo com uma única missão, chegar ao “Ampliado” da COB. No café encontro o endereço. Não é longe, acho que dá para ir a pé, 1,6 Km, 22 min me diz o google.
No caminho, logo na saída, vejo o obelisco coberto de cartazes “lambe-lambe”, chego perto para registrar, “a coisa tá crescendo”, penso eu. Nada. Os cartazes são ataques aos bloqueios e aos movimentos. Cartazes da direita. Se não está crescendo o movimento, está acirrando a situação.
O caminho é pela Av. Camacho, paralela à Santa Cruz. Ao fundo, uma enorme montanha com neve no topo. Logo no segundo quarteirão uma enorme fila, dobra a esquina e vai até a o fim, “que será isso?”. A fila é no EMAPA, é um mercado estatal, herança dos governos do MAS. Vende produtos mais baratos do que no mercado privado, uma política de segurança alimentar. Marisol havia me dito que também tem aí uma fonte de descontentamento popular, na crise, o EMAPA subiu os preços e está vendendo quase a preço de mercado, Marisol havia dito “um frango era 30 bolivianos, está 70, 80”. A fila não deixa dúvidas, o desabastecimento é crítico.
O caminho é uma subida, não muito íngreme, mas o fôlego falta, muito. Vou devagar. Passo por um parque, muito bonito, pelo Estádio Hernando Siles, onde manda jogos o Strongest, finalmente chego. Já tem um tanto de gente aqui, muita imprensa.
Analiso o cenário brevemente, estudando quem abordar. Me aproximo de duas pessoas, abordo em espanhol um pouco precário e me apresento como enviado de um portal brasileiro. A companheira me para na hora, “pode falar em português, somos brasileiros também”. São companheiros do PSTU. Ele de MG, ela de SP.
O prédio onde acontece a reunião tem uma grade, um pequeno espaço e depois um portão fechado, que permanece assim a maior parte do tempo. Os mineiros fazem a segurança da reunião. Há uma expectativa sobre a participação de Mario Argollo, a ordem de prisão caiu só na sexta. Será que vem?
Me apresento como imprensa na mesa de cadastramento. Avisam que imprensa não entrará e só terá acesso nas declarações de entrada e saída.
Chegam algumas lideranças que param para dar declarações, me meto no meio da imprensa para gravar os relatos. As declarações são firmes no sentido de não aceitar a mesa de negociações propostas por Lara. As duas declarações que pego são de Edwin Kea, representante do distrito 7, de El Alto, e Cecilio Gonzales, dirigente mineiro. Ambos são muito taxativos e alinhados: “quem manda é a base, somos só os porta-vozes, a base não quer negociação, quer a renúncia de Rodrigo Paz”. Minha “pulga” se vai, não tem acordo, não.
Várias organizações estão aqui. Argentinos do PTS/Esquerda Diário e um do PO. É isso, não tinha outro lugar pra estar nesse domingo.
Fecham a porta, vai começar a reunião. Aproveito para almoçar. Encontro um restaurante oriental, peço uma sopa de frango. O dono chega com poucas sacolas, reclamando dos preços da cebola e outros itens que carrega. É um direitista, começa a falar com o cliente da mesa ao lado. “Tudo é culpa do MAS”. “E a gasolina basura?”, pergunta o cliente, “foi Evo”… tem algo de parecido com a extrema direita brasileira.
Na volta, um pequeno grupo de provocadores, algumas mulheres e um homem, mais velho, todos brancos, bem brancos. Gritam todo tipo de ofensas e xingamentos. Ganham um pouco de atenção da imprensa, afinal, estamos todos de plantão há algumas horas e nada acontece. Alguns militantes de base das organizações da COB começam a discutir com os provocadores. Sem sinal de violência, só estão passando o tempo. Um militante do PTS argentino responde à provocação e rola uma troca de agressões com o homem mais velho. Me afasto, o governo tem sido rígido com estrangeiros participando das manifestações, não posso dar bobeira.
Já são quase quatro da tarde, começam a sair poucos participantes da reunião. Aproveito o abre-fecha do portão e encosto para falar com um companheiro que aparenta ser mais dirigente. Eber Brabo, diz ser da secretaria de organização. Trocamos contato, minha esperança é conseguir uma entrevista com algum dirigente da COB. Vamos ver.
O tempo passa, todo mundo sentado no meio fio. Finalmente começam a sair os dirigentes. José Luiz Álvarez, do magistério, “Don” Severo, dirigente camponês, o dirigente histórico Jaime Solares, são as principais declarações. Solares, manobra a imprensa e a desloca da frente do portão. Enquanto fala, o carro com Argollo sai do prédio. Os bloqueios estão mantidos, a linha é intensificar e massificar as medidas de pressão. Ao mesmo tempo, movimento declara que abrirá corredores humanitários, para que passem remédios e itens de máxima necessidade. Dizem que seguirão até o fim, não tem negociação, até a renúncia.
A rua se esvazia. O sol já vai baixando, assim como a temperatura. Hora de voltar.
Paro um pouco para observar o parque, o cenário é muito bonito, o parque cheio de famílias, os teleféricos passando por cima, as casas na encosta e as montanhas ao fundo são uma paisagem impressionante.
Sigo para o hotel. No EMAPA, ainda resta uma pequena fila. “Até agora? Que luta.”
Volto com a sensação de que mesmo cansado, eu estive exatamente onde tinha que estar. Ali, no ampliado da COB, se definiu um dos movimentos mais importantes do tabuleiro. O impasse instalado se aproxima de um desfecho. Os próximos dias serão decisivos.
Chego no hotel e recebo a mensagem que eu esperava. Marisol me avisa que a entrevista com um dirigente do grupo de Evo, do Trópico (região de Cochabamba) vai acontecer. Preciso me preparar, a segunda promete.