A greve geral marcou pontos, mas o futuro é incerto
Paralisação teve forte adesão e expôs a resistência dos trabalhadores ao pacote laboral, mas ausência de estratégia unificada levanta dúvidas sobre os próximos passos da luta
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A greve geral de 3 de junho paralisou um número significativo de empresas e serviços. Há uma consciência muito generalizada entre a classe trabalhadora de que o pacote com dezenas de leis laborais representa uma ameaça mortal para o seu futuro. A indústria do turismo foi duramente atingida com o cancelamento de numerosos voos nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro, os transportes públicos ficaram paralisados nas grandes cidades, com excepção de serviços mínimos de autocarros e de algumas ligações ferroviárias entre o centro e a periferia de Lisboa, as escolas ficaram paralisadas em época de exames e os hospitais públicos só funcionaram para as urgências. A grande novidade foi uma adesão importante do sector privado, claramente superior à da greve geral de dezembro, e agora com taxas de paralisação que a CGTP calculou em 100% para empresas como a Sovena e a Cimpor, em 95% para a Bosch, em 88% para a Glavidro.
A classe trabalhadora não se deixou embalar com os cantos de sereia que davam como certo o chumbo do pacote na votação parlamentar. A greve anterior, em dezembro, tinha tido bastante força para obrigar o partido neo-fascista Chega a mudar a sua posição de voto e a anunciar que se oporia à aprovação do projecto impulsionado pelo Governo minoritário da direita conservadora. Mas o golpe de rins do Chega era e é uma das suas muitas acrobacias oportunistas e ninguém pode confiar que mantenha a posição. Era preciso continuar a luta e esta nova greve geral era a convocatória que, apesar de todos os adiamentos e tergiversações, a CGTP oferecia à classe como oportunidade para marcar posição. A oportunidade foi usada de forma categórica.
Além de recusar as ilusões sobre a votação parlamentar, a classe trabalhadora resistiu ao efeito altamente desmobilizador do hiato de cinco meses entre a greve geral de dezembro e a de junho. Durante esse tempo, patrões e Governo negociaram no forum conhecido como “Concertação Social” com a central social-democrata UGT, excluindo a maioritariamente comunista CGTP. Esta, ficando fora das negociações, não aproveitou o tempo para agitar nas empresas sobre o perigo representado pelo projecto governamental e limitou-se a marcar uma nova greve geral para 3 de junho.
Quando a intransigência do Governo obrigou a UGT a rejeitar um acordo sobre o pacote, a CGTP teria uma oportunidade de ouro para promover por todo o lado assembleias de empresa que trouxessem a UGT para a greve. Mesmo sem essa pressão vinda de baixo, vários sindicatos da UGT deram luz verde aos seus associados para aderirem à greve da central concorrente. Contudo, a CGTP preferiu um processo de convocatória vertical, que sublinhasse o amarelismo da UGT e que não abrisse a caixa de Pandora de um processo com controlo assembleário generalizado e com um potencial de permanência para as semanas e meses seguintes.
A ausência de assembleias traduziu-se numa muito desigual distribuição dos piquetes de greve. Em numerosos locais de trabalho, a burocracia sindical deixou as manhãs para os grevistas as gozarem em casa ou na praia e convocou manifestações para a tarde em cada cidade. Locais com grande tradição de assembleias e piquetes ficaram agora desprovidos de uma e de outro. A coincidência, tudo menos fortuita, da greve com um feriado no dia seguinte e com uma sexta feira que convidava à ponte para o fim de semana agravou exponencialmente a desmobilização. Em Lisboa, a manifestação levada a cabo durante a tarde foi mais fraca que a de dezembro.
Em 3 de junho, a classe trabalhadora marcou pontos com uma greve forte. Mas não existe uma estratégia nem uma direcção que garantam a derrota do pacote laboral. Estamos longe ainda de definir essa estratégia e de construir essa direcção.