Nicarágua: oprimida por Ortega‑Murillo, ameaçada por Trump
A ditadura Ortega-Murillo luta desesperadamente pela sua sobrevivência enquanto o imperialismo trumpista quer reconquistar a sua hegemonia absoluta sobre o continente
Foto: Daniel Ortega e Rosario Murillo. (Esquerda.Net/Reprodução)
Via Esquerda.Net
O presidente Daniel Ortega declarou a 19 de julho que já não haverá eleições que permitam à oposição chegar ao governo. Isto não é nada de novo. Já depois de a Frente Sandinista ter reconquistado a presidência em 2007, o histórico comandante Tomás Borge disse: “Aqui pode acontecer tudo, menos a Frente Sandinista perder o poder. Eu dizia ao Daniel Ortega: podemos pagar qualquer preço; a única coisa que não podemos perder é o poder, e vamos fazer o que for preciso.” A partir de tal momento, em cada uma das eleições seguintes pioraram as condições da participação dos partidos da oposição até que em 2021 todos os potenciais candidatos presidenciais foram encarcerados, expulsos do país e todos os partidos independentes roubados da sua pessoa jurídica.
Imediatamente depois da declaração do copresidente Ortega a também copresidente Murillo tentou corrigir a impressão de que vão abolir as eleições e explicou que vai haver eleições, mas numa forma mais adequada para Nicarágua. Toda essa confusão mostra dois aspetos chaves: por um lado, o casal copresidencial não quer organizar eleições livres, pluralistas e competitivas. Mas por outro quer mudar as formas altamente e visivelmente manipuladas porque mesmo estas fraudes “perfeitas” já são um perigo para o seu regime ditatorial, pois não lhes confere qualquer legitimidade, nem dentro do país, nem internacionalmente.
Um elemento realmente novo nesta situação é que a falta da liberdade na Nicarágua voltou a ser uma temática da política e das notícias internacionais. Durante muitos anos, a repressão política e todas as atrocidades da ditadura Ortega-Murillo contra o seu próprio povo foram ignorados pelos média internacionais. O esquerda.net tem sido uma das muito poucas plataformas que sempre tem informado de forma crítica e diferenciada sobre os desenvolvimentos políticos na Nicarágua.
Depois do ataque militar estadunidense contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolas Maduro e da sua esposa Cilia Flores, no dia 3 de janeiro de 2026, a retórica de Washington dirigiu-se em grande medida também contra Cuba e Nicarágua. De acordo com a nova estratégia de segurança da administração Trump, a ênfase da política externa de Washington devia ser orientada para a reconquista da influência predominante económica, política e militar dos Estados Unidos no continente americano. Por tanto esperava-se nas semanas ou meses seguintes uma operação deste género também contra a Nicarágua.
Mas Trump decidiu inesperadamente desencadear a guerra contra o Irão, o que obviamente teve como consequência que a América Latina passasse a ter, pelo menos temporariamente, apenas uma prioridade secundária na política externa dos EUA.
Uma “operação Maduro” contra Ortega e Murillo seria “popularíssimo” (Dora María Téllez) dentro da Nicarágua, e ainda mais acentuado na diáspora dos exilados, refugiados políticos e migrantes por pobreza nicaraguenses. A grande maioria da população não quer uma nova guerra – nem uma guerra civil, nem uma guerra de intervenção estrangeira. Mas está desesperada com a brutalidade do regime ditatorial e com a passividade internacional em relação à defesa dos direitos democráticos e humanos mais básicos do povo nicaraguense. Daí haver muitas pessoas que olham com certa esperança as atividades políticas e económicas dos EUA. Não são poucos os que se pronunciam abertamente a favor de uma intervenção militar norte-americana.
Todas as redes sociais opositoras refletem, e ao mesmo tempo reforçam, fortemente estes sentimentos populares e estão cheias de comentários e especulações sobre os próximos passos de Washington neste conflito. Estas notícias representam as várias iniciativas norte-americanas geralmente como medidas dirigidas para a restituição de condições livres e democráticas na Nicarágua. Mas serão essas esperanças justificadas?
Trump já tinha mostrado em várias ocasiões a sua forma de apreciar a democracia. Em janeiro de 2021 apelou para que assaltassem a Casa Branca porque não quis reconhecer a sua derrota eleitoral. Depois da destituição e do sequestro de Maduro declarou que o controlo sobre as reservas de petróleo da Venezuela era muito mais importante do que o restabelecimento de condições democráticas naquele país.
A 5 de agosto reuniu-se extraordinariamente o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) para abordar a situação política de Nicarágua. Inicialmente houve dez Estados que apresentaram uma proposta para uma declaração que condenasse a intenção do regime orteguista de abandonar as eleições e apelasse a respeitar os direitos políticos e liberdades fundamentais do povo de Nicarágua. Esta iniciativa teve o apoio de Brasil, Canadá, Chile, Colômbia e outros países mais.
Mas isto não foi suficiente para os EUA. Portanto apresentaram a sua própria proposta que declarasse a crise política na Nicarágua uma ameaça à paz e à segurança do hemisfério. Este texto foi apoiado por todos os governos de direita de América Latina, mas México e Brasil não estiveram de acordo com este recrudescimento verbal. Embora o texto ainda excluísse qualquer intervenção armada, a caracterização da crise na Nicarágua como problema de segurança continental poderia ser aproveitado em qualquer momento para pedir uma operação militar conjunta contra a Nicarágua. Esse perigo tornou-se ainda mais evidente com as palavras do representante estadunidense Michael Kozak naquele encontro: “acabou-se o tempo das declarações sem ações”.
A ditadura Ortega-Murillo luta desesperadamente pela sua sobrevivência. O imperialismo trumpista quer reconquistar a sua hegemonia absoluta sobre o continente americano. Nesta situação difícil e contraditória a esquerda tem duas tarefas complicadas: por um lado tem que apoiar a luta do povo nicaraguense pela liberdade e a democracia no seu país, mesmo que forças de direita também pretendam participar neste empenho. Por outro lado, tem que rejeitar inequivocamente qualquer intervenção militar estrangeira, mesmo disfarçada de ação democrática ou humanitária.
O direito internacional é tão importante como os direitos humanos. Uma sociedade justa não pode ser construída sem plena garantia dos direitos políticos e humanos. Um mundo pacífico não é possível sem pleno respeito pelo direito internacional.