Elon Musk: de garoto-propaganda a cabo eleitoral
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Elon Musk: de garoto-propaganda a cabo eleitoral

Bilionário usou o X para declarar apoio à AfD, entrevistou Alice Weidel e participou de evento eleitoral do partido da extrema direita alemã, ajudando-o a furar isolamento ; após vitória histórica da legenda, voltou a comemorar o avanço dos ultraconservadores

Tatiana Py Dutra 8 set 2026, 09:28

Elon Musk não se limitou a manifestar simpatia pela extrema direita alemã. Ao longo dos últimos dois anos, o bilionário transformou sua própria rede social, o X, em uma plataforma de promoção da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita que acaba de conquistar uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt.

O resultado de domingo (6) deu à AfD 43,8% dos votos no estado, quase o dobro do percentual obtido pela legenda em 2021. A União Democrata-Cristã (CDU), do chanceler Friedrich Merz, ficou em segundo lugar, com cerca de 17%. A votação colocou a extrema direita a apenas três cadeiras de uma maioria absoluta no Parlamento estadual.

O resultado foi celebrado por Musk. Depois da vitória, o empresário publicou em alemão: “Muito bem!”. O candidato da AfD na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, havia agradecido publicamente o apoio do bilionário.

Não se trata, entretanto, de uma aproximação recente. Musk já havia desempenhado um papel incomum – e controverso – na eleição federal alemã de 2025, quando decidiu utilizar seu alcance global para defender abertamente a AfD.

Em dezembro de 2024, antes da eleição, Musk afirmou que a legenda era “a única esperança para a Alemanha”. A declaração provocou forte reação no país e acusações de interferência estrangeira na disputa eleitoral.

O empresário foi além. Em janeiro de 2025, utilizou o X para entrevistar ao vivo Alice Weidel, uma das líderes da AfD e candidata da legenda a chanceler. A conversa durou cerca de 75 minutos e chegou a ter mais de 200 mil espectadores simultâneos.

Em vez de um debate com questionamentos duros, o encontro foi marcado por elogios mútuos. A emissora pública alemã ARD observou que Musk ofereceu a Weidel uma ampla plataforma sem contraponto significativo. Segundo a análise da Tagesschau, tratou-se de um “conversa sem contradições”, na qual os dois passaram boa parte do tempo reforçando as próprias posições.

Durante a transmissão, Musk repetiu sua defesa da AfD: “Somente a AfD pode salvar a Alemanha. Fim da história.” A declaração não foi uma metáfora ou uma manifestação genérica de apoio à direita: foi um apelo explícito para que os alemães votassem no partido.

A dimensão do episódio chamou atenção justamente porque Musk não era um observador estrangeiro qualquer. Ele é proprietário do X, uma das maiores plataformas de comunicação política do mundo, e utilizou a própria rede para impulsionar uma candidata e um partido às vésperas de uma eleição nacional.

A imprensa alemã discutiu, inclusive, se a iniciativa poderia ser caracterizada como uma forma de ajuda eleitoral. A Tagesschau questionou diretamente se a entrevista havia ultrapassado os limites entre uma simples conversa e “ajuda de campanha”.

Um megafone para a extrema direita

A intervenção de Musk não terminou na internet. Em 25 de janeiro de 2025, o bilionário apareceu por videoconferência em um evento de campanha da AfD em Halle, na Alemanha. Diante de cerca de 4.500 apoiadores, voltou a defender a legenda e declarou que ela seria “a melhor esperança para a Alemanha”.

Musk também afirmou que os alemães deveriam preservar sua cultura e demonstrou oposição ao que chamou de multiculturalismo. Em outro momento, defendeu que o país deveria superar a culpa pelo passado nazista — uma declaração particularmente sensível em uma sociedade que mantém uma política de forte rejeição à extrema direita justamente em razão dos crimes do nazismo.

A intervenção provocou reação de políticos alemães e manifestações contra a extrema direita. O então chanceler Olaf Scholz criticou a atuação de Musk e afirmou que a liberdade de expressão não deveria ser utilizada para promover posições extremistas.

O episódio também expôs uma das principais vantagens oferecidas pelo bilionário à AfD: a possibilidade de falar diretamente com milhões de pessoas sem passar pelos filtros tradicionais do jornalismo e do debate político institucional.

Musk não precisava organizar uma campanha convencional. Bastava publicar uma mensagem para que ela fosse replicada em escala global.

A normalização de um partido isolado

O efeito político desse apoio não pode ser medido apenas pelo número de votos diretamente influenciados por Musk. Há uma dimensão mais profunda: a capacidade de ajudar a normalizar a presença da extrema direita no debate público.

A AfD permaneceu durante anos submetida a uma espécie de cordão sanitário na política alemã. Os principais partidos mantiveram o compromisso de não formar governos ou coalizões com a legenda.

A vitória na Saxônia-Anhalt, porém, colocou essa barreira sob pressão. Com 43,8% dos votos e 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual, a AfD se tornou a maior força política do estado e chegou mais perto do poder regional do que qualquer partido de extrema direita na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.

O resultado não significa que a AfD já possa governar sozinha. A legenda não alcançou maioria absoluta e os partidos tradicionais continuam rejeitando formalmente uma aliança com a extrema direita. Mas a dimensão da vitória alterou o cenário político alemão e colocou em xeque a estratégia de isolamento que vigorou durante décadas.

É justamente nesse processo que a atuação de Musk ganha relevância.

Ao oferecer sua plataforma à AfD, entrevistar sua principal candidata, aparecer em seus eventos e declarar publicamente que o partido seria a “esperança” da Alemanha, o empresário ajudou a retirar a legenda de uma posição exclusivamente marginalizada e a colocá-la no centro da conversa política internacional.

O bilionário que virou ator político

O caso alemão também mostra uma transformação mais ampla no papel desempenhado por Musk. O dono do X deixou de ser apenas um empresário com opiniões políticas controversas e passou a atuar diretamente em disputas eleitorais.

Sua influência foi construída sobre uma combinação poderosa: dinheiro, plataforma digital, audiência gigantesca e intervenção política direta.

Na Alemanha, essa combinação encontrou uma extrema direita que já vinha crescendo eleitoralmente, especialmente em regiões do antigo leste alemão, onde insatisfação econômica, rejeição à imigração e descontentamento com os partidos tradicionais alimentaram o avanço da AfD.

Seria exagero atribuir a Musk sozinho a ascensão da extrema direita alemã. A AfD possui uma estrutura própria, uma base eleitoral consolidada e explora problemas sociais e econômicos reais. O resultado da Saxônia-Anhalt é consequência de um processo político muito mais amplo. Mas também seria equivocado ignorar o papel do empresário.

Musk colocou uma das maiores plataformas digitais do mundo a serviço de uma mensagem política específica. Deu palco à principal liderança da AfD, fez campanha aberta pelo partido e, agora, comemorou publicamente sua vitória.

O que antes poderia parecer apenas a opinião de um bilionário estrangeiro tornou-se parte de um fenômeno político concreto: a extrema direita alemã está mais forte, mais próxima do poder e menos isolada – e Elon Musk fez questão de estar ao lado dela.

A questão que fica para a democracia alemã – e para outras democracias – é até onde deve ir o poder político de indivíduos que concentram riqueza, plataformas de comunicação e milhões de seguidores.

Porque, no caso de Musk, o limite entre opinião pessoal, influência empresarial e intervenção eleitoral tornou-se cada vez mais difícil de enxergar.


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