Meta sob suspeita de interferência nas eleições
Restrição à conta de anúncios de Lula e derrubada temporária de perfil que publicou reportagem sobre o caso Master colocam a atuação da plataforma no centro do debate eleitoral
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A atuação da Meta no Brasil entrou no centro de duas polêmicas na mesma semana, às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026. De um lado, a empresa restringiu a conta de anúncios da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), impedindo a criação e a veiculação de novas propagandas pagas. De outro, retirou temporariamente do ar o perfil do projeto Revelando Brasil, no Instagram, depois da publicação de um vídeo apresentado pelo humorista Fábio Porchat sobre as relações envolvendo o Banco Master, o empresário Daniel Vorcaro, a Igreja Batista da Lagoinha e políticos.
Os episódios recolocam em discussão o poder das grandes plataformas privadas de interferir, por meio de decisões de moderação e publicidade, na circulação de informações em um período eleitoral.
Conta de anúncios de Lula foi bloqueada
Em 23 de setembro, a Meta desabilitou da conta de anúncios da campanha de Lula, identificada como “Eleições 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente”. A medida impede a criação e a veiculação de novos anúncios, além do uso e compartilhamento de públicos para as campanhas.
A justificativa apresentada pela empresa foi genérica. Na notificação enviada à campanha, a Meta afirmou apenas que “algumas das suas atividades não seguem nossas regras”, sem especificar qual atividade teria provocado a punição.
A restrição ocorreu a apenas dez dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Para a campanha petista, o momento da decisão torna a situação especialmente sensível, uma vez que a publicidade digital é uma das ferramentas utilizadas pelos candidatos para alcançar eleitores durante a reta final da disputa.
PT e a coligação Brasil Pronto pra Mais apresentaram recurso à Meta e solicitaram a reativação da conta. Os advogados também questionaram a ausência de uma justificativa objetiva e afirmaram que a medida pode afetar a chamada paridade de armas entre as candidaturas. A campanha avalia recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) caso a restrição não seja revertida.
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirmou que a campanha pretende saber também por quanto tempo a restrição atingiu os canais de Lula e quais foram os efeitos provocados pela decisão.
“As evidências de interferência estão todas aí, continuam a se repetir e já denunciamos isso publicamente. Eu venho denunciando o papel parcial das plataformas desde dezembro do ano passado em artigos e entrevistas para a imprensa, nossa campanha já denunciou formalmente mais de uma vez ao TSE, e o próprio presidente Lula denunciou isso no plenário da ONU”, escreveu Valadares.
A afirmação é uma posição política do dirigente petista, e não uma conclusão independente sobre eventual interferência eleitoral. Até o momento, a Meta não apresentou publicamente, nas fontes consultadas, uma explicação detalhada sobre qual regra teria sido violada pela campanha.
Porchat e o caso Master
No mesmo dia, outra decisão da Meta provocou reação. O Instagram retirou temporariamente do ar o perfil Revelando Brasil, projeto que publicou um episódio apresentado por Fábio Porchat sobre o caso Banco Master. O vídeo abordava relações entre Daniel Vorcaro, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política brasileira, entre eles Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.
A conta permaneceu indisponível durante algumas horas e foi posteriormente restaurada. A Meta afirmou que o perfil havia sido reativado “após uma revisão interna” e pediu desculpas pelo episódio, mas não explicou qual regra havia motivado a retirada.
Porchat reagiu classificando a decisão como uma tentativa de censura e contestou a justificativa da plataforma:
“O vídeo não era campanha, não era calúnia, não era achismo. Era uma lista de fatos, todos eles amplamente reportados pela imprensa, explicados de uma forma acessível para todo mundo.”
Em outro trecho, o humorista afirmou:
“Depois de muita pressão, a página voltou para o ar, mas a gente não sabe por quanto tempo.”
O episódio ganhou dimensão ainda maior nas redes. Segundo levantamento publicado pelo Jornal de Brasília, o perfil do Revelando Brasil passou de cerca de 63 mil para 1,1 milhão de seguidores no dia seguinte à derrubada e posterior restauração da conta. O vídeo completo no YouTube havia alcançado 9,5 milhões de visualizações.
Governo cobra explicações
A repercussão levou também o governo federal a cobrar esclarecimentos da Meta. O Ministério da Justiça e Segurança Pública deu prazo de 48 horas para que a empresa explicasse os motivos da suspensão do perfil do Revelando Brasil e questionou os critérios utilizados pela plataforma.
A cobrança ocorre em um momento no qual a própria Meta afirma ter preparado medidas específicas para as eleições brasileiras. Em seu plano apresentado ao TSE, a empresa prevê ações contra desinformação, violência política e conteúdos nocivos, além de regras específicas para publicidade eleitoral e materiais produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A companhia também afirma que anúncios políticos no Brasil passam por mecanismos de identificação e transparência e ficam disponíveis em sua Biblioteca de Anúncios, que permite consultar informações sobre a publicidade eleitoral.
É justamente essa promessa de transparência que torna os episódios recentes particularmente relevantes. Quando uma plataforma decide restringir publicidade de uma candidatura ou retirar do ar um conteúdo de interesse público, a questão não se resume à existência de regras de moderação: envolve também transparência, possibilidade de recurso e clareza sobre os critérios utilizados.
No caso de Lula, a controvérsia envolve diretamente a propaganda eleitoral paga na reta final do primeiro turno. No caso do Revelando Brasil, a Meta recuou poucas horas depois e pediu desculpas, mas sem informar qual regra teria motivado a retirada.
Em uma eleição na qual redes sociais e plataformas digitais ocupam papel central na disputa pela atenção dos eleitores, decisões tomadas por empresas privadas com alcance de centenas de milhões de pessoas ganham peso político. Por isso, mais do que a existência de mecanismos de moderação, o debate passa pela necessidade de que eles sejam previsíveis, transparentes e sujeitos a revisão – especialmente quando atingem candidaturas ou conteúdos jornalísticos durante um processo eleitoral.
Esse debate ocorre paralelamente às regras estabelecidas pelo TSE para a propaganda na internet. A Justiça Eleitoral afirma que as normas têm como objetivo garantir condições equilibradas para que candidaturas apresentem seus projetos e direcionamentos ao eleitorado.
Assim, os dois episódios envolvendo a Meta na semana de 23 de setembro colocam uma questão de fundo: até onde pode ir o poder de uma plataforma privada para decidir o que pode ser impulsionado, o que pode permanecer visível e quais conteúdos podem alcançar o público durante uma eleição? A resposta interessa não apenas às campanhas diretamente envolvidas, mas ao conjunto do eleitorado brasileiro.