A virada histórica no Brasil, a dobra da Meta e a brecha para a Revolução Permanente
As redes não resolvem por si mesmas a luta de classes, mas podem conectar a mobilização de rua e a organização nos territórios com a disputa de ideias em escala nacional e internacional
Foto: Protesto contra a Meta durante as eleições brasileiras. (Paulo Pinto/Agência Brasil)
A eleição brasileira de 2026 não foi apenas uma disputa eleitoral. Foi, para milhões de trabalhadoras e trabalhadores, um ensaio de reconquista da narrativa pública. O chamado “Exército do Lula” mostrou que as redes sociais, há anos tratadas como território privado das big techs, dos algoritmos e da manipulação, podem ser disputadas, ocupadas e transformadas em instrumento de organização popular.
A tese deste artigo é simples: o fenômeno brasileiro pode se intensificar em outros países e contribuir para virar o jogo político mundial. Não porque as redes resolvam por si mesmas a luta de classes, mas porque elas podem conectar a mobilização de rua, a organização nos territórios e a disputa de ideias em escala local, estadual, nacional e internacional.
O conceito de revolução permanente de Leon Trotsky ensina que nenhuma conquista é definitiva enquanto o capitalismo continuar organizando a vida em escala mundial. Uma eleição pode abrir uma brecha, mas a luta não termina nela: ela precisa avançar das reivindicações imediatas para a disputa pelo poder, da defesa de direitos para a transformação das relações de propriedade e do isolamento nacional para a solidariedade internacional dos povos.
A globalização como fábula e perversidade
Milton Santos já havia advertido que a chamada “aldeia global” era, em grande medida, uma fábula: um discurso que apresenta o mundo como integrado, conectado e acessível a todos, enquanto esconde a desigualdade real entre centros e periferias. Em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (2000), o geógrafo distingue a globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade.
A globalização como fábula nos vende velocidade, acesso universal à informação e fim das fronteiras. A globalização como perversidade é a que de fato se impõe: concentração de riqueza, assimetria tecnológica, endividamento, exploração do trabalho, racismo ambiental, dependência do Sul Global e decisões políticas tomadas longe das populações que sofrem suas consequências.
As plataformas digitais nasceram nesse contexto. Elas prometem “liberdade de expressão”, conexão e socialização, mas operam com algoritmos proprietários, publicidade direcionada, coleta massiva de dados e regras definidas por empresas sediadas sobretudo no Norte Global. A promessa de neutralidade convive com uma arquitetura de poder que decide, em escala planetária, o que ganha visibilidade, o que é silenciado e o que é monetizado.
Não se trata de negar que as redes possam ser usadas por trabalhadores, movimentos populares e organizações políticas. Pelo contrário: é justamente porque elas são ferramentas de poder que precisam ser disputadas. A questão não é sair das redes nem render-se a elas; é compreender que a rede é meio, não fim. E que precisamos tomar as rédeas com regularização e criação de uma rede própria.
A dobra da Meta e a disputa pela narrativa
A chamada “dobra da Meta”, a percepção de que plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp passaram a favorecer, de diferentes formas, narrativas de direita, anti-imigratórias, religiosas e “antissitemetico” falso, não é um detalhe técnico. É parte da disputa política contemporânea.
Quando algoritmos priorizam indignação, polarização e conteúdo que gera engajamento, eles não são neutros. Eles organizam a atenção. E, quando a atenção é organizada, também são organizadas as possibilidades de agir politicamente.
A crítica ao poder das big techs não pode se resumir a pedir “mais liberdade de expressão” sem perguntar: liberdade para quem? Quem financia a infraestrutura? Quem define as regras? Quem lucra com a raiva? Quem é banido, sombreado, desmonetizado ou empurrado para a invisibilidade? Quem transforma dados pessoais em lucro?
A resposta a essas perguntas revela que não existe espaço digital neutro. Há território. E território, no sentido de Milton Santos, é espaço usado, vivido, disputado e dotado de significado. Se o território digital é disputado, ele também pode ser ocupado.
De espectadores a sujeitos históricos
O que aconteceu no Brasil foi uma mudança de postura. Durante anos, grande parte da esquerda e dos movimentos populares foi colocada na posição de espectadora: reagindo a ataques, corrigindo mentiras depois que elas já haviam se espalhado e esperando que os algoritmos “corrigissem” o próprio desequilíbrio.
A reeleição de Lula mostrou outra possibilidade.
Milhões de pessoas passaram de receptoras passivas de conteúdo a sujeitos ativos da comunicação. Elas compartilharam informações, produziram memes, ampliaram transmissões, organizaram grupos, chamaram familiares e vizinhos para votar e transformaram o WhatsApp em uma rede de militância cotidiana. O “Exército do Lula” não foi apenas um canal digital: foi a expressão de uma vontade coletiva de deixar de ser objeto da narrativa alheia e começar a produzir a própria narrativa.
Essa é a dimensão mais importante do fenômeno: a união entre rua e rede em favor da própria história. A mobilização nas ruas continua sendo indispensável. Mas ela ganha força quando encontra uma rede capaz de ampliar sua mensagem, convocar mais pessoas, romper o isolamento e criar força coletiva.
Tomar para si os meios de comunicação é, portanto, tomar parte na própria história.
A facção de extrema direita mundial
A ofensiva da extrema direita não é apenas nacional. Ela circula por fronteiras, idiomas e plataformas. Usa o discurso da “liberdade de expressão” para proteger discursos de ódio; fala em “ordem” para criminalizar protestos; apresenta o racismo como “segurança”; transforma o ódio a imigrantes em política de Estado e utiliza pautas morais e religiosas para dividir trabalhadores entre si.
Esse movimento ataca trabalhadores, negros, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIA+, migrantes, refugiados, muçulmanos, pessoas com deficiência e todos aqueles que representam uma ameaça à ideia de uma sociedade hierarquizada por raça, classe, gênero e território.
O crescimento desigual e combinado, conceito central de Leon Trotsky para compreender o capitalismo, ajuda a explicar por que essas forças conseguem avançar em contextos tão diferentes. Países e regiões não se desenvolvem de forma homogênea: convivem modernidade técnica e arcaísmo social, democracia formal e violência estrutural, riqueza concentrada e miséria ampliada. É nessa desigualdade que a direita encontra combustível para apresentar respostas falsas: culpar o pobre pelo desemprego, o migrante pela crise, o negro pela violência e as minorias pela perda de privilégios.
A tarefa da esquerda radical é responder com outra explicação: a crise não vem de baixo. Ela nasce da concentração de riqueza, dos bilionários, da exploração do trabalho, da privatização do comum, do racismo estrutural e da lógica colonial que ainda organiza o mundo.
Revolução permanente: da luta cotidiana ao poder
A revolução permanente não é um slogan. É uma estratégia para compreender que as lutas parciais, por salário, moradia, saúde, terra, educação, direitos das mulheres, fim da violência policial, democratização da comunicação e liberdade dos povos, podem se conectar e se transformar em uma disputa mais ampla pelo poder.
Para Trotsky, a revolução não se limita a derrubar um governo ou conquistar reformas. Ela começa nas lutas democráticas e cotidianas, mas não pode parar nelas. A burguesia, mesmo quando concede direitos, mantém intacta a propriedade privada dos meios de produção, a exploração do trabalho e o domínio do capital sobre o Estado.
A revolução permanente é, portanto, a passagem da reivindicação imediata para a transformação estrutural. Não basta exigir regulação das big techs: é preciso questionar quem controla a infraestrutura digital, quem se apropria dos dados, quem define os algoritmos e quem lucra com a atenção das pessoas e como faremos para termos as nossas própiras.
Não basta defender o voto: é preciso lutar por uma democracia real, na qual o povo organizado tenha poder efetivo sobre a economia, a produção, a cidade, o campo, a comunicação e as decisões que determinam sua vida.
A frente única e a unidade de ação
A revolução permanente também exige unidade de ação. Trabalhadores, movimentos populares, sindicatos, organizações negras, indígenas, feministas, LGBTQIA+, estudantis, periféricas e migrantes podem ter diferentes trajetórias e táticas, mas precisam ser capazes de agir juntos diante dos ataques comuns do capital, do racismo e da extrema direita.
A frente única não significa apagar as diferenças políticas nem abrir mão da independência da classe trabalhadora. Significa reconhecer que, diante de um inimigo comum, a unidade na ação é uma necessidade estratégica.
A eleição brasileira demonstrou essa possibilidade. Diferentes setores, organizações e pessoas uniram forças para derrotar uma ofensiva reacionária da extrema direita. O desafio agora é transformar essa unidade conjuntural em organização permanente: uma rede capaz de resistir, aprender, se preparar e avançar para além do ciclo eleitoral.
Precisamos entender nossa tarefa na de agitação e propaganda. Não se trata de proclamar que o socialismo já está instalado ou que uma eleição, por si só, mude as estruturas do país.
Uma vitória eleitoral pode abrir uma janela. Mas ela não substitui a organização popular, a luta sindical, a ocupação dos territórios, a defesa da soberania, a construção de alianças entre movimentos sociais e a disputa permanente pela consciência.
O desafio é conquistar mentes e corações para uma virada real de poder. Não apenas trocar nomes em cargos públicos, mas mudar o paradigma: colocar no centro da política as trabalhadoras e os trabalhadores, os povos indígenas, a população negra, as mulheres, a comunidade LGBTQIA+, as pessoas com deficiência, os migrantes e todas as pessoas historicamente empurradas para as margens.
A revolução começa quando o povo deixa de aceitar que sua vida é decidida por mercados, algoritmos, corporações e governos distantes de suas necessidades.
A brecha internacionalista
O Brasil não pode e não vai construir socialismo sozinho. Nenhuma revolução pode se completar dentro de fronteiras nacionais enquanto o capitalismo organiza produção, finanças, tecnologia, guerra e migração em escala mundial.
A revolução não é um evento único, nem termina com uma tomada de poder. Ela é um processo que avança das lutas democráticas para a transformação socialista e das fronteiras nacionais para a solidariedade internacional dos povos.
O internacionalismo proletário não é uma declaração de boas intenções. É uma necessidade material. As grandes empresas, os bancos, as corporações de tecnologia, as cadeias produtivas e os mercados financeiros já operam globalmente. Se o capital se organiza além das fronteiras, a classe trabalhadora também precisa construir formas de organização, solidariedade e luta para além delas.
A onda brasileira nas redes mostra que essa brecha existe na comunicação. Ferramentas de inteligência artificial, tradução automática, verificação de fatos, transmissões ao vivo e canais de mensagens podem ajudar trabalhadores de diferentes países a responder mentiras, compartilhar experiências e construir uma narrativa comum.
Países como Espanha, França, Argentina e Colombia já criaram seus próprios “exercitos” digitais, e nesse exato momento nós brasileiros estamos pautando as eleições dos EUA através de ferramentas de tradução automática o revide veio com inundação de conteúdos contra Trump e Flávio Bolsonaro, escancarada a facção internacional de extrema direita onde Trump é o atual lider.
Isso não significa ingenuidade tecnológica. IA e redes também são usadas para vigilância, manipulação, desinformação e repressão. Mas significa reconhecer que a ferramenta criada para nos dividir pode, nas mãos organizadas do povo, ser virada contra aqueles que pretendem nos manter isolados.
Rua, rede e território
O combate nas redes é uma tática. A mobilização nas ruas é outra tática. A organização nos bairros, sindicatos, escolas, quilombos, aldeias, periferias e locais de trabalho é outra ainda.
Nenhuma delas, isoladamente, é suficiente para mudar a estrutura capitalista atual.
A força está na articulação e unidade de ação. A rede amplia a rua, a rua dá corpo à rede, o território organiza a base, a política transforma a luta em projeto de poder. É essa unidade que revela o caráter mais genuíno do chamado “Exército do Lula”: não a devoção a uma liderança, mas a tomada consciente de um meio de comunicação e da própria história.
Ampliar as fronteiras da luta é urgente. Aliar as pautas indígenas, negras, periféricas, feministas, LGBTQIA+, antirracistas e contra-coloniais é urgente. A cultura brasileira, ainda que fragmentada, já desenha um horizonte fraterno entre os povos e de soberania nacional e, ao mesmo tempo, aponta para uma expansão internacionalista e permanente que essa brecha histórica nos deu.
O espírito do nosso tempo
O futuro exige que o Movimento Esquerda Socialista (MES) e os militantes disciplinados da esquerda radial compreendam o espírito do nosso tempo.
Não basta denunciar as big techs. É preciso disputá-las. Não basta lamentar os algoritmos. É preciso organizar pessoas para usá-los de forma consciente e tática. Não basta celebrar uma eleição. É preciso transformar a energia da campanha em organização permanente.
A brecha está aberta.
Ela está nos grupos de WhatsApp, nas lives, nos vídeos curtos, nas traduções automáticas, nas collabs, nas ferramentas de verificação, nas redes de solidariedade e na capacidade de milhões de pessoas de se reconhecerem como parte da mesma luta.
A tarefa é usar a ferramenta que eles criaram para nos manipular e transformá-la em instrumento de emancipação. Construir também as nossas próprias redes de comunicação é central.
A virada do capitalismo para o socialismo não virá por algoritmos. Ela será virada quando trabalhadoras e trabalhadores entenderem que não podemos ser agentes passivos da própria história, e nem que existe uma canetada de lei, uma data ou evento, como as eleições, que milagrosamente vai transformar os rumos da nossa história. Ela passa necessariamente pelos nossos corpos, mentes e atuações.