Listas de boicote contra apoiadores de Lula se espalham pelo país
Reportagens identificam empresários e trabalhadores expostos por suposto apoio ao presidente; em Porto Alegre, deputada estadual eleita pelo PL é apontada como incentivadora da iniciativa
Foto: Divulgação
A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas não encerrou a disputa política. Nos dias seguintes ao segundo turno, listas com nomes de comerciantes, empresas e profissionais identificados como supostos apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens, acompanhadas de pedidos de boicote e, em alguns casos, de ameaças de demissão de trabalhadores por suas preferências políticas.
O fenômeno ganhou visibilidade no Rio Grande do Sul, onde reportagens identificaram listas em cidades como Porto Alegre, Torres, Santa Maria, Caxias do Sul, Restinga Sêca, Nova Petrópolis, Venâncio Aires e Bento Gonçalves. Levantamento da Folha de S.Paulo também encontrou iniciativas semelhantes em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e municípios do interior paulista e mineiro.
A prática vai além de uma manifestação de insatisfação eleitoral: ao expor pessoas e negócios por supostas preferências políticas, as listas podem estimular intimidação, prejuízos econômicos e discriminação no trabalho.
Em Nova Petrópolis, mais de 30 pessoas procuraram a Polícia Civil após a circulação de uma relação que chamava os citados de “larápios” e sugeria boicotes. A delegacia registrou boletins de ocorrência e iniciou a apuração para identificar os responsáveis e verificar possíveis crimes. Para isso, orientou as pessoas atingidas a preservar mensagens, áudios, capturas de tela e links para auxiliar nas investigações. A prefeitura e entidades locais também divulgaram nota de repúdio a atos de discriminação, exposição e perseguição por posicionamento político.
Deputada do PL é apontada como incentivadora de listas em Porto Alegre
Em reportagem publicada nesta quarta-feira (28), o site Matinal informou que a deputada estadual eleita Ali Klemt (PL) publicou cards orientando seguidores a não contratar serviços ou frequentar estabelecimentos de pessoas que supostamente apoiaram Lula. Segundo o veículo, a iniciativa teria dado impulso à circulação de listas com nomes de restaurantes e cafés da capital gaúcha. A publicação da Matinal apresenta a prática como potencialmente passível de enquadramento criminal, dependendo das circunstâncias e das condutas identificadas.
O caso levanta questões sobre a responsabilidade de agentes públicos na disseminação de conteúdos que expõem cidadãos por suas posições políticas. A publicação de listas não comprova, por si só, que todos os nomes incluídos tenham apoiado Lula – e a associação indevida pode ampliar os danos aos profissionais e estabelecimentos citados.
Luciana Genro denuncia ameaças e demissões
A deputada estadual reeleita Luciana Genro (PSOL-RS) criticou a divulgação das listas e denunciou relatos de ameaças a trabalhadores e de demissões motivadas por preferências políticas. Em declaração sobre o episódio, ela afirmou:
“O bolsonarismo não sabe perder. Primeiro é o fujão. O candidato a presidente derrotado se mandou para os Estados Unidos e se juntou com seu irmão que já tinha fugido para conspirar contra o Brasil. Aqui nós estamos vendo listas de empreendedores que teriam votado no Lula e que estão sendo boicotados, sendo chamados boicotes a esses estabelecimentos. E agora também estamos vendo demissões. Patrões bolsonaristas estão demitindo, ameaçando os trabalhadores que votaram no Lula. O bolsonarismo, se vencesse as eleições, queria eliminar o pensamento de mas eles não vão conseguir porque eles perderam e nós vamos continuar lutando para que o Brasil seja um país livre e para que os trabalhadores e trabalhadoras possam continuar se organizando e lutando pelos seus direitos”.
A parlamentar orientou trabalhadores que estejam sofrendo pressão ou retaliação a procurar o Ministério Público do Trabalho (MPT). A recomendação está de acordo com as orientações divulgadas pelo órgão para casos de assédio eleitoral.
A Folha de S.Paulo informou que o número de denúncias de assédio eleitoral registradas pela Procuradoria-Geral do Trabalho subiu de 1.937 para 2.364 entre o início do ano e a tarde de 27 de outubro. Mais de 400 novas denúncias chegaram ao órgão entre segunda-feira (26) e terça-feira (27), após a eleição. Parte dos registros envolve publicações que incentivavam demissões por motivação política.
A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias e limitativas para acesso ou manutenção do emprego. Segundo o MPT, empregadores não podem retaliar funcionários por suas escolhas eleitorais, e terceiros que incentivem demissões discriminatórias também podem ser responsabilizados, conforme as circunstâncias.
Listas também aparecem em outros estados
O levantamento da imprensa indica que o fenômeno não está restrito ao Rio Grande do Sul. Em diferentes regiões, as listas misturam nomes de estabelecimentos comerciais, profissionais liberais e trabalhadores, acompanhados de convocações para evitar seus serviços ou pressionar empregadores.
No Paraná, pelo menos dois parlamentares incentivaram a demissão de trabalhadores identificados com o PT. O vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo), eleito deputado federal, publicou a frase “Se você precisa fazer um corte de gastos ou uma reestruturação na sua empresa comece pelos petistas”. O Ministério Público do Trabalho recomendou que ele se retratasse e esclarecesse o direito dos trabalhadores à liberdade de escolha política.
A vereadora de Londrina Jessicão (PL) também publicou uma mensagem defendendo a demissão de funcionários petistas. “Você tem uma empregada que é petista? Demita! Seu barbeiro é petista? Troque de barbeiro. A porcaria do voto dele prejudica o seu negócio”, escreveu. O MPT informou que analisa o caso.
Em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, a Gazeta Digital registrou a organização de uma lista de boicote a estabelecimentos cujos proprietários teriam declarado voto em Lula ou comemorado sua vitória. Em Petrópolis, no Rio de Janeiro, veículos locais também noticiaram a circulação de relações de comerciantes e profissionais associados ao PT, sem confirmação independente de todas as vinculações políticas atribuídas aos nomes.
Os episódios têm características e circunstâncias distintas, e a responsabilidade de cada pessoa envolvida precisa ser apurada individualmente. Ainda assim, a repetição desse tipo de iniciativa em diferentes estados demonstra que a exposição de supostos adversários políticos e a pressão econômica se tornaram objeto de preocupação para comerciantes, trabalhadores e autoridades.
A lembrança histórica do boicote nazista de 1933
A divulgação de listas políticas e a convocação para boicotar estabelecimentos por causa da identidade ou das convicções de seus proprietários também evocam um episódio documentado da história alemã: o boicote aos negócios de judeus promovido pelo regime nazista em 1º de abril de 1933.
De acordo com a Enciclopédia do Holocausto, mantida pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, a campanha foi a primeira ação nacional coordenada do regime nazista contra a população judaica. Integrantes das tropas de assalto nazistas, as SA, ficaram diante de lojas, consultórios e escritórios de profissionais judeus, incentivando a população a não comprar nem contratar seus serviços.
Os nazistas identificavam os estabelecimentos como judaicos e promoviam sua exclusão econômica. O boicote fazia parte de um processo mais amplo de marginalização social e econômica que se aprofundou nos anos seguintes, com leis discriminatórias, perseguições e a destruição progressiva das condições de vida da população judaica na Alemanha.
A comparação exige cuidado: as listas que circulam atualmente no Brasil não equivalem à política de perseguição racial conduzida por um Estado totalitário. A aproximação relevante está no mecanismo de identificação e exposição de um grupo, seguido de um apelo para restringir suas atividades econômicas por sua identidade ou posição política. A história do nazismo mostra como campanhas de exclusão econômica podem integrar processos mais amplos de perseguição quando são institucionalizadas e acompanhadas de outras medidas discriminatórias.
No Brasil, as denúncias atuais precisam ser investigadas à luz da legislação e das garantias democráticas. A liberdade de expressão e a possibilidade de escolher onde comprar não autorizam ameaças, constrangimento ou retaliação ilegal contra trabalhadores por suas preferências eleitorais.
A apuração dos episódios no Rio Grande do Sul e nos demais estados será importante para esclarecer quem organizou as listas, se houve agressões ou prejuízos comprovados e se ocorreram práticas criminosas ou violações trabalhistas. O direito à divergência política, afinal, não pode ser confundido com autorização para intimidar cidadãos ou tentar retirar deles seus meios de subsistência.